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31 de outubro de 2009

Solenidade de Todos os Santos




Bem o sabemos, há um Livro da Vida.

E aquele que não foi encontrado inscrito no Livro da Vida

Foi lançado no lago de fogo.



Bem avisado o que vende tudo o que tem

Para adquirir o tesouro escondido no campo.

Vai e, cheio de alegria, vende tudo o que possui,

Para obter o tesouro.

Vai vender tudo, como aquele que encontrou uma pérola de grande valor…



É o que se faz quando se quer adquirir o Reino dos Céus.

Não devemos, efectivamente, adormecer

Sobre falsos bens, bens perecíveis

Que não têm pejo de nos trair no momento da morte:

Há os que se interessam pelo dinheiro, outros pela glória,

Outros pela ciência, a beleza, os prazeres…

Tudo isto é perecível e por vezes desonesto.



Um homem rico teve uma enorme colheita:

Pensa em deitar abaixo os seus celeiros para construir uns maiores,

A fim de aí guardar bens para muitos anos…

Insensato! Nesta mesma noite, virão exigir-te a tua alma!

E os teus bens para quem serão? (Lc 12, 20)



O conselho de Jesus é, antes, de fazer circular os bens,

De pensar nos pobres, de dar gratuitamente,

De fazermos para nós «um tesouro inesgotável».

Porque, «onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração».



O mau rico era um homem ocupado em comer bem.

Não tinha tempo para se distrair de tão séria ocupação.

Não tinha notado o pobre Lázaro,

Junto ao seu portão, a morrer de fome.

Aí está! Era dessas pessoas que estão sempre muito ocupadas,

Demasiado ocupadas para pensar nos outros,

E que, um dia, ficarão muito admiradas quando lhes disserem:

«Ide para longe de mim…

Eu estava nu, esfomeado, na prisão, doente…

E vós nada fizestes por mim…».



Estas pessoas têm boa consciência,

Fizeram-se uma boa consciência…

Tinham mais que fazer que pensar nos pobres, nos miseráveis…

Já pagavam bastantes impostos!



O Reino dos Céus não se adquire sem esforço.

Jesus diz-nos que só os violentos o arrebatam!

E no entanto os conselhos, os apelos, não faltaram:

«Vinde ao Banquete! A sala está preparada!».

Mas, lá está, é preciso fazer violência sobre si mesmo,

Quando se acaba de comprar um campo,

Se vai experimentar uma junta de bois, ou acaba de se casar…



Estamos muito ocupados, só pensamos nos nossos bens,

E, durante esse tempo, «a porta fechou-se»!



O «jovem rico» também ficou bloqueado

No caminho da perfeição: tinha muitos bens!



«A leve tribulação de um momento, diz S. Paulo,

Prepara-nos para uma eternidade de glória» (Ef 1, 18).


Marcel Denis

16 de outubro de 2009

Adoro te devote




Este domingo vou pregar ao Santíssimo Sacramento. Isso faz-me reler e partilhar São Tomás de Aquino. Aliás, a partilha é um elemento da Eucaristia.

Adoro te devote

Ó Jesus, eu te adoro, hóstia cândida
Sob aparência de pão nutres a alma.
Só em ti meu coração se abandonará
Pois tudo é vão quando te contemplo.

Olhar, gosto e tacto não te alcançam
Mas a tua palavra permanece firme em mim:
És Filho de Deus, nossa verdade;
Nada mais há de autêntico, quando tu nos falas.

Na cruz escondeste a divindade,
Embora sobre o altar velas pela humanidade;
Homem-Deus, a fé a mim te revela,
Como ao bom ladrão, dá-me o céu, um dia.

Mesmo que tuas chagas não me mandes tocar
Grito com Tomé: “Tu és o meu Senhor”;
Cresça em mim a fé, quero em ti esperar,
Só em teu amor encontra paz o meu coração.

És memória eterna da morte do Senhor,
Pão vivo, vida, em mim tu te transformas
Faz com que a minha mente de ti a luz extraia,
E do teu maná em si conserve sabor.

Qual pelicano, nutre-nos de ti;
Do pecado, grito: “Lava-me, Senhor”.
Teu sangue é fogo, que queima o nosso erro,
Uma só centelha a todos pode salvar.

Agora fito a Hóstia que te esconde de mim.
Ardo com a sede com que anseio ver-te:
Quando esta carne se dissolver,
O teu rosto, luz, se revelará.

Ámen.

13 de setembro de 2009

Pai

Em dia de festa para o meu pai. Parabéns


Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Ah! Ah! Ah!...

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Pai! Paz!...

composição de Fábio Jr.

17 de janeiro de 2009

As Pessoas Sensíveis

DR


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

15 de janeiro de 2009

Se




SE tu podes impor a calma, quando aqueles
Que estão ao pé de ti a perdem, censurando

A tua teimosia nobre de a manter,

SE sabes aguardar sem ruga e sem cansaço,
Privar com Reis continuando simples,

E na calúnia não recorres à infâmia

Para com arma igual e em fúria responder,

- Mas não aparentar bondade em demasia
Nem presumir de sábio ou pretender

Manifestar excesso de ousadia,

-
SE o sonho não fizer de ti um escravo
E a luz do pensamento não andar

Contigo num domínio exagerado,

SE encaras o triunfo ou a derrota
Serenamente, firme, e reforçado

Na coragem que é necessário ter

Para ver a verdade atraiçoada,

Caluniada, espezinhada, e ainda

Os nossos ideais por terra,
- mas ergue-los

De novo em mais profundos alicerces

E proclamar com alma essa Verdade!


SE perdes tudo quanto amealhaste

E voltas ao princípio sem um ai,

Um lamento, uma lágrima, e sorrindo

Te debruçares sobre o coração

Unindo outras reservas à Vontade

Que quer continuar, e prosseguindo

Chegar ao infinito da razão,


SE a multidão te ouvir entusiasmada

E a virtude ficar no seu lugar,


SE amigos e inimigos não conseguem

Ofender-te, e se quantos te procuram

Para contar com o teu esforço não contarem
Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,


SE podes preencher esse minuto

Com sessenta segundos de existência

No caminho da vida percorrido


Embora essa existência seja dura


À força das tormentas que a consomem,

Bendita a tua essência, a tua origem,


O mundo será teu,

E tu serás um Homem!



Rudyard Kipling
(versos portugueses de António Botto)

25 de setembro de 2008

Acto de agradecimento de Mons. Luciano Guerra, Reitor cessante do Santuário de Fátima


Este é o lugar onde Fátima nasceu, o lugar onde mais e melhor se experimenta a sua verdade.

Por ter sido escolhido por Nossa Senhora, este é o lugar que mais amamos em Fátima. Era aqui que a pequena Jacinta mais gostava de rezar o seu terço. Aqui aconteceu a maravilhosa visão da celeste Senhora mais brilhante que o sol. Aqui os Pastorinhos viram Deus numa luz misteriosa que Maria lhes infundia no peito. Aqui peço eu agora, a todos vós, vos unais ao meu acto de agradecimento.

Mãe! Neste momento, já terminada a missão que aqui me entregastes há trinta e cinco anos, sinto um grande desejo de Vos dizer uma palavra em público: por mim, por todos os meus colaboradores, e por muitos peregrinos, cujo coração bateu e bate, com ternura filial, nesta Capelinha das vossas Aparições. Queremos proclamar a nossa gratidão por nos terdes atraído, a alguns desde muito novinhos, para esta vossa casa da Cova da Iria. Queremos agradecer-Vos as graças, naturais e sobrenaturais, que pudemos receber, pela piedade do vosso Coração materno, não obstante a dureza e infidelidade dos nossos corações.

Obrigado por tantos irmãos e irmãs que sempre estiveram ao nosso lado, e a quem devo muito mais do que talvez eles pensem: os capelães do Santuário, que nomeio com justiça em primeiro lugar; muitos outros sacerdotes; as religiosas e religiosos; os nossos trabalhadores, que são perto de 250; a Associação dos Servitas; as outras associações de voluntários; as instituições que difundem no mundo a vossa mensagem, e servem nos vossos numerosos santuários.

Obrigado pelo apoio dos comerciantes de Fátima, dos hoteleiros, das autoridades, de todos os que velam pelo ambiente desta cidade - que quer merecer o nome de «Cidade da Paz». Obrigado por todos os que preparam o seu futuro, com o cuidado de quem trata das coisas sagradas.

Damo-Vos muitas graças por tantas e tão grandes alegrias que nestes anos nos proporcionastes.

Obrigado por nos terdes ensinado a amar a cruz de Cristo, nas contrariedades e reveses, vencendo as tentações da polémica, da intriga, da corrupção.

A Vós, Padroeira de Portugal, um grande muito obrigado pela fé do nosso bom povo, que a Irmã Lúcia tanto admirava, e pela fé de todos os nossos peregrinos. A sua sinceridade e fervor dão-nos a certeza de que as crises na Igreja são de crescimento, e não de morte.

Obrigado pelo salário que nunca faltou aos trabalhadores do Santuário, cujos filhos fazem o encanto das nossas festas natalícias; e também pela generosidade que nos permitiu construir as estruturas necessárias ao acolhimento e evangelização dos que a Vós acorrem.

Obrigado pela irradiação das nossas dez imagens peregrinas, que congregam multidões no mundo inteiro, em fervorosas assembleias, que as fortalecem na fé e estimulam o zelo dos pastores.

Obrigado, Mãe, pelo dom das lágrimas, que tantas vezes pude contemplar, no meio da multidão e no oásis desta Capelinha: lágrimas de alegria, nas promessas cumpridas; muitas e muitas lágrimas de solidão, clamando por sinais de fraternidade; lágrimas de arrependimento, que proclamam a alegria do perdão.

Enxugai, Mãe bendita, com a doçura do vosso olhar, as lágrimas – vossas e de nossos irmãos – choradas por minha causa, por nossa causa.

Por Vós, pelo vosso Imaculado Coração, unido ao Coração de vosso Filho, nosso Salvador, suba à Santíssima Trindade o meu, o nosso hino filial de acção de graças, por tudo o que fizemos de bem – com uma súplica de perdão, por tudo o que fizemos de mal.

Ó clemente! Ó piedosa! Ó doce Virgem Maria!

Que cristianismo no mundo pos-moderno?

"Recordo um jovem que, recentemente, me dizia: "Não me diga que o cristianismo é verdade. Isso me provoca um mal-estar. É diferente do que dizer que o cristianismo é belo...". A beleza é preferível à verdade", escreve Carlo Maria Martini, jesuíta, cardeal, arcebispo emérito de Milão, em artigo publicado no jornal italiano Avvenire, 27-07-2008.

Eis o artigo

O que posso dizer sobre a realidade da Igreja católica, hoje? Deixo-me inspirar pelas palavras de um grande pensador e homem de ciência russo, Pavel Florenskij, que morreu em 1937, mártir da sua fé cristã: "Somente com a experiência imediata é possível perceber e valorizar a riqueza da Igreja". Para perceber e avaliar as riquezas da Igreja, é necessário passar pela experiência da fé.

Seria fácil redigir uma colectânea de lamentações de coisas que não vão bem na nossa Igreja, mas isso significaria adoptar uma visão artificial e deprimente, e não olhar com os olhos da fé, que são os olhos do amor. Naturalmente não devemos fechar os olhos aos problemas. Devemos, contudo, buscar antes de tudo, compreender o quadro geral no qual esses se situam.

Um período extraordinário na história da Igreja

Se, portanto, considero a situação presente da Igreja com os olhos da fé, vejo, sobretudo, duas coisas.

Primeiro, nunca houve, na história da Igreja, um período tão feliz como o nosso. A nossa Igreja conhece a sua maior difusão geográfica e cultural e se encontra substancialmente unida na fé, com excepção dos tradicionalistas de Lefebvre.

Segundo, na história da teologia nunca houve um período tão rico como o actual. Nem no século IV, período dos grandes Padres da Capadócia da Igreja Oriental e dos grandes Padres da Igreja ocidental, como São Jerónimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, não havia uma tão grande floração teológica.
Basta recordar os nomes de Henri de Lubac e Jean Daniélou, de Yves Congar, Hugo e Karl Rahner, de Hans Urs von Balthasar e do seu mestre Erich Przywara, de Oscar Cullmann, Martin Dibelius, Rudolf Bultmann, Karl Barth e dos grandes teólogos americanos com Reinhold Niebuhr - sem esquecer os teólogos da libertação (seja qual for o juízo que façamos deles, agora que lhes vêm prestada uma nova atenção pela Congregação da Doutrina da Fé) e muitos outros que ainda vivem. Recordemos também os grandes teólogos da Igreja oriental que conhecemos pouco, como Pavel Florenskij e Sergei Bulgakov.

As opiniões sobre estes teólogos podem ser muito diferentes e variadas, mas eles certamente representam um grupo incrível, como nunca existiu na Igreja dos tempos passados. Tudo isso se dá num mundo cheio de problemas e de desafios, como a injusta distribuição das riquezas e dos recursos, a pobreza e a fome, os problemas da violência difusa e da manutenção da paz. Particularmente vivo é o problema da dificuldade de compreender com clareza os limites da lei civil em relação à lei moral. Estes são problemas muito reais, sobretudo em alguns países, e são, muitas vezes, objecto de leituras diferentes que geram uma discussão também muito acesa.

Às vezes parece possível imaginar que não todos estamos vivendo no mesmo período histórico. Parece que alguns vivem ainda no tempo do Concílio de Trento, outros no tempo do Concílio Vaticano I. Alguns assimilaram bem o Concílio Vaticano II, outros menos; ainda outros já se projectaram decididamente no terceiro milénio. Não somos verdadeiros contemporâneos, e isso sempre representou um grande fardo para a Igreja e requer muita paciência e discernimento. Mas, no momento, prefiro isolar este tipo de problemas e considerar a nossa situação pedagógica e cultural com as consequentes questões relacionadas com a educação e o ensino.

Uma mentalidade pos-moderna

Para buscar um diálogo profícuo entre as pessoas deste mundo e o Evangelho e para renovar a nossa pedagogia à luz do exemplo de Jesus, é importante observar atentamente o assim chamado mundo pos-moderno, que constitui o contexto de fundo de muitos destes problemas e que condiciona as soluções.
Uma mentalidade pos-moderna pode ser definida em temos de oposições: uma atmosfera e um movimento de pensamento que se opõe ao mundo assim como o conhecemos até agora. É uma mentalidade que se separa espontaneamente da metafísica, do aristotelismo, da tradição agostiniana e de Roma, considerada como sede da Igreja, e de muitas outras coisas. O pensar pos-moderno está longe do precedente mundo cristão platónico onde se dava como certa a supremacia da verdade e dos valores sobre os sentimentos, da inteligência sobre a vontade, do espírito sobre a carne, da unidade sobre o pluralismo, do ascetismo sobre a vitalidade, da eternidade sobre a temporalidade. No nosso mundo de hoje há uma instintiva preferência pelos sentimentos sobre a vontade, pelas impressões sobre a inteligência, por uma lógica arbitrária e a busca do prazer sobre uma moralidade ascética e coercitiva. Este é um mundo no qual são prioritários a sensibilidade, a emoção e o átimo presente.

A existência humana se torna, desta maneira, um lugar onde há a liberdade sem freios, onde a pessoa exercita, ou acredita pode exercer, o seu arbítrio pessoal e a própria criatividade.

Este tempo é também de reacção contra uma mentalidade excessivamente racional. A literatura, a arte, a música e as novas ciências humanas (particularmente, a psicanálise), revelam como muitas pessoas não crêem mais que vivem num mundo guiado por leis racionais, onde a civilização ocidental é um modelo a ser imitado no mundo. Ao contrário, aceita-se que todas as civilizações são iguais, enquanto que antes se insistia na assim chamada tradição clássica. Este tempo também é uma reacção contra uma mentalidade excessivamente clássica. Hoje tudo é colocado no mesmo plano porque não existem mais critérios para verificar que coisa é uma civilização verdadeira e autêntica.

Há uma oposição à racionalidade que é vista como fonte de violência porque as pessoas acham que a racionalidade pode ser imposta enquanto verdadeira. Prefere-se a forma de diálogo e de troca com o desejo de sempre ser aberto aos outros e ao que é diferente, se duvida inclusive de si mesmo e não se confia em quem quer afirmar a própria identidade com a força.

Este é o motivo pelo qual o cristianismo não é acolhido facilmente quando ele se apresenta como a "verdadeira" religião.
Recordo um jovem que, recentemente, me dizia: "Não me diga que o cristianismo é verdade. Isso me provoca um mal-estar. É diferente do que dizer que o cristianismo é belo..." A beleza é preferível à verdade. Neste clima, a tecnologia não é mais considerada como um instrumento ao serviço da humanidade, mas um ambiente no qual se dão as novas regras para interpretar o mundo: não existe mais a essência das coisas, mas somente o uso dessas para um certo fim determinado pela vontade e pelo desejo de cada um. Neste clima, é consequente a rejeição do pecado e da redenção. Diz-se: "Todos são iguais, mas cada pessoa é única". Existe o direito absoluto de ser único e de afirmar a si mesmo. Toda e qualquer regra moral é obsoleta. Não existe mais o pecado, nem o perdão, nem a redenção e, muito menos, o "renunciar a si mesmo". A vida não pode ser vivida como um sacrifício ou um sofrimento.

Uma última característica da pos-modernidade é a rejeição da aceitação de qualquer coisa diz respeito ao centralismo ou à vontade de dirigir as coisas de cima. Neste modo de pensar há um "complexo anti-romano". Estamos agora além do contexto onde o universal, o que era escrito, geral e sem tempo, contava mais; onde o que era durável e imutável era preferido ao que era particular, local e datado.

Hoje a preferência é, pelo contrário, por um conhecimento mais local, pluralista, adaptável às circunstâncias e a tempos diferentes.

Não quero expressar juízos. Seria necessário muito discernimento para distinguir o verdadeiro do falso, do que é dito como aproximação do que é dito com precisão, que coisa é simplesmente uma tendência ou uma moda daquilo que é uma declaração importante e significativa.

O que quero acentuar é que esta mentalidade está, hoje, por tudo, sobretudo nos jovens, e é necessário ter isso em conta.

Mas quero acrescentar uma coisa. Talvez esta situação é melhor da que existia antes. Porque o cristianismo tem a possibilidade de mostrar melhor o seu carácter de desafio, de objectividade, de realismo, de exercício da verdadeira liberdade, da religião ligada com a vida do corpo e não somente da mente.
Num mundo como o que vivemos hoje, o mistério de um Deus não disponível e sempre surpreendente adquire maior beleza; a fé compreendida como um risco torna-se mais atraente. O cristianismo aparece mais belo, mais próximo das pessoas, mais verdadeiro. O mistério da Trindade aparece como fonte de significado para a vida e uma ajuda para compreender o mistério da existência humana.

"Examina tudo com discernimento"

Ensinar a fé neste mundo representa nada mais, nada menos que um desafio. Para sermos capazes disso é preciso ter estas atitudes:

Não sermos surpreendidos pela diversidade.

Não ter medo do que é diferente ou novo, mas considerá-lo como um dom de Deus. Provar que somos capazes de ouvir coisas muito diferentes daquelas que normalmente pensamos, mas sem julgar imediatamente quem fala. Buscar compreender que coisa nos é dito e os argumentos fundamentais apresentados. Os jovens são muito sensíveis para uma atitude de escuta sem julgamentos. Esta atitude dá-lhes coragem de falar que realmente sentem e de começar a distinguir o que realmente é verdadeiro do que o é somente nas aparências. Como diz São Paulo: "Examina tudo com discernimento; conserva o que é verdadeiro; evita toda espécie de mal" (1Ts 5, 21-22).

Sermos capazes de correr riscos. A fé é o grande risco da vida. "Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perde a sua vida por minha causa, a encontrará" (Mateus 16, 25).

Sermos amigo dos pobres. Coloca os pobres no centro da tua vida porque esses são os amigos de Jesus que se fez um deles.

Alimentar-nos com o Evangelho. Como Jesus nos diz no seu discurso sobre o pão da vida: "Porque o pão de Deus é o que desce do céu é dá vida ao mundo" (João 6, 33).

Oração, humildade e silêncio

Para ajudar a desenvolver estas atitudes, proponho quatro exercícios:

1.- Lectio Divina. É uma recomendação de João Paulo II. "Particularmente é necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina que propicia que se acolha a palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência" (Novo Millennio Ineunte, N. 39). A Palavra de Deus nutre a vida, a oração e a viagem quotidiana, é o princípio da unidade da comunidade numa unidade de pensamento, a inspiração para a contínua renovação e para a criatividade apostólica" (Ripartendo da Cristo, N. 24).

2.- Autocontrole. Devemos aprender, novamente, que saber se opor à vontade própria é algo mais gozoso que as concessões continuas que parecem desejáveis mas que acabam por gerar mal-estar e saciedade.

3.- Silêncio. Devemos nos afastar da insana escravidão do barulho e das conversas sem fim e encontrar cada dia, pelo menos meia hora de silêncio e meio dia cada semana para pensar em nós mesmos, para reflectir e rezar. Isto pode parecer difícil, mas quando se consegue dar um exemplo de paz interior e tranquilidade que nasce de tal exercício, também os jovens tomam coragem e encontram aí uma fonte de vida e de alegria que não experimentaram antes.

4.- Humildade. Não acreditemos que cabe a nós resolver os grandes problemas dos nossos tempos. Deixemos espaço ao Espírito Santo que trabalha melhor do que nós e mais profundamente. Não sufoquemos o Espírito nos outros. É o Espírito que sopra. Portanto, estejamos prontos para acolher as suas manifestações mais subtis. Para isso é necessário o silêncio.

Carlo Maria Martini

Missão é partir

“Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu.  É parar de dar volta a...