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18 de dezembro de 2015

Podia ser Natal...






1. Natal, tempo de voltar a casa!
Tornou-se viral, nos últimos dias, o anúncio publicitário, de origem alemã, no qual se alerta para uma situação cada vez mais frequente da nossa sociedade: o abandono dos mais velhos. Isto ocorre particularmente numa sociedade competitiva em que nos situamos, quando os mais novos se dedicam, sofrega e vertiginosamente, às suas vidas, às suas coisas, aos seus trabalhos, a si e só a si...
Sim, vivemos no tempo da amnésia e do alzheimer! Do esquecimento e da ingratidão! Vivemos no tempo dos filhos que se esquecem dos pais e dos pais que se esquecem dos filhos. Dos irmãos que não se falam, dos vizinhos desconhecidos.
Colectivamente, perdemos a memória. Da casa, do lar, da família, da reunião.
Que bom se redesenhássemos as relações e reatássemos as comunhões! Que bom se o Natal fosse, outra vez, o tempo de voltar a casa!



2. Misericórdia, outro nome do Natal!
Chega o Natal em tempo de misericórdia. O Papa Francisco convocou toda a Igreja para a celebração de um Jubileu Extraordinário da Misericórdia, neste ano pastoral, celebrando-se os 50 anos do encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II.
O Verbo de Deus é o rosto da misericórdia do Pai, que é clemente, paciente e compassivo para com todos os seus filhos. O Deus feito Menino, em Jesus de Nazaré, é o amor em movimento, a misericórdia feita acção, porque Deus toma a iniciativa, dá o primeiro passo para vir ao nosso encontro, viver e ficar connosco, até ao fim.
A misericórdia é, pois, outro nome do Natal. Atingidos por esse rio inesgotável da misericórdia do Pai, sejamos pois capazes de ser misericordiosos como o Pai.


3. Natal de porta aberta!
Sim, chega o Natal. E com ele chegam luzes e sons que soam a falsidade.
A denúncia é desse homem, que veio "do fim do mundo", para abanar e abalar os nossos comodismos eclesiais, eclesiásticos e sociais. Diz Francisco que as festas de Natal tornam-se vazias e soam a falso perante um mundo que escolheu “a guerra e o ódio", que deixam um rasto de ruína por toda a parte.
Não sei se o Papa Francisco é ou não ouvinte dos UHF. Mas, em todo o caso, no "longínquo" ano de 1995, lançaram uma dessas canções intemporais que são autênticas profecias ou orações:

Podia haver uma luz em cada mesa
E uma família em cada casa
Jesus em Dezembro, aqui na Terra
Podia ser Natal e não ser farsa.

A história certa é
Natal de porta aberta
A ceia servida é a vida
Do Criador

Podia ser notícia o fim da amargura
Que divide os homens por trás dos canhões
A fome e a miséria servem a loucura
Que forja profetas e divide as nações.

A história certa é
Natal de porta aberta
A ceia servida é a vida
Do Criador

Podia ser verdade o tom e o discurso
Desse velho actor falando aos fiéis
Mas nada se passa na noite do mundo
Máscaras de dor, pequenos papéis

A história certa é
Natal de porta aberta
A ceia servida é a vida
Do Criador

A história certa é
Natal de porta aberta
Podia ser Natal...


Texto publicado na edição do Correio do Vouga, de 16 de Dezembro de 2015


18 de dezembro de 2014

Porque complicamos? Um Simples Natal!

Fra Angelico, Adoração dos Magos (National Gallery)

Escrevi assim, porque assim acredito, para a minha cançoneta de Natal, gravada "caseiramente" e colocada no meu canal do YouTube: O Natal é simples. / O Natal não é dar. / O Natal não é um tempo / é só eternidade. / O Natal não é tristeza / nem alegria. / É só receber Deus / em cada dia. 
Com certeza, não divergiremos da comum sensação que vivemos um tempo complexo. É verdade também que cada tempo, a seu tempo, experimentou a complexidade. Todavia, parece óbvio que não gostamos de enfrentar e aceitar a simplicidade, como virtude e até como epifania de Deus. Como que aquilo que é simples fosse para menos esclarecidos, para mentes menos brilhantes. É quase princípio que quando as coisas são simples, sem serem simplistas, tratamos logo de ligar o nosso "complicómetro".
O Natal é simples. Tão simples. Um mistério de simplicidade. Um Menino envolto em panos deitado numa manjedoura. Um hino à humildade, à ternura. Um Deus que ousa sair de Si, pela dádiva do Seu Filho, só por amor, por causa da omnipotência do Seu amor, que é primeiro, que "primeirea" no dizer do Papa Francisco, um amor que toma a iniciativa de se dar. Isto é o Natal!
Então, por ser tão simples tal celebração, no nosso espírito bem ocidental, há que complicar. Há que o enfeitar com milhentas quinquilharias. Há que o enlatar com prendas e prendinhas, embrulhos e enfeites, compras e mais compras... Eis o nosso "complicómetro" ligado ao Natal simples, tão simples que nos choca.
Mas quererei eu dizer com isto que há mal em trocar prendas na noite de Natal? Não, claro que não! Fazer do Natal de Jesus, o Emanuel, Deus connosco, do simples Natal, um fugaz momento de relançamento para a nossa economia (que ainda não vive os seus melhores dias) é que é ficar aquém do que se celebra. Fazer do Natal apenas e só uma festa de encontro da família, ou um dia para vestir uma roupa nova ou um dia para degustar as especialidades gastronómicas próprias do tempo é que é ficar aquém do que se celebra. 
Creio, com D. António Couto, que o Natal simples como é, somos nós ao contrário do que somos, nós outra vez meninos, nós sentados ao lume, nós em festa, em família, nós com Deus à nossa mesa. Na noite de Natal, noite bela, feliz e simples, uma Criança nasceu e Nela, simplesmente, Deus nasceu e mora connosco desde aí! Oh ditosa Noite de Natal! Oh simples milagre de amor! Oh simples Natal do Salvador!
Tão assertivo, como sempre, escreve assim, para todos, o bispo de Lamego: "É noite de Natal. Quem o não sente? / Quem o não sabe? (... ) São tantas as estrelas. / Mas onde guardar essa abundância, / para que não acabe? / Coração parece que não temos. / Bolsos, bolsos temos, mas não cabe." 
Por isso, este ano, para todos, só desejo: Um Simples Natal!

Texto publicado no Jornal Correio do Vouga, 17 de Dezembro de 2014

19 de dezembro de 2012

O que aconteceu ao milagre do Natal?






Por mais cíclica que a História possa ser, ela deveria obedecer a uma regra de progressividade em espiral infinitamente crescente.
No que respeita ao milagre do Natal, o milagre da Encarnação do Filho de Deus, as coisas não se afiguram desse modo. Nisto do Natal, as coisas são tão rectamente progressivas que ficou muito longe, muito afastado o horizonte do princípio e da origem, a fonte e a nascente. E quando assim é, vamos sem saber como e sem saber para onde porque esquecemos o donde...
Perdemos a memória do milagre de Natal. Perdemos o encanto e a beleza e a luz e as estrelas de Belém... Perdemos os olhos brilhantes e luzidios do Menino, perdemos o calor do afago e do abraço de Maria e perdemos a firmeza e a protecção de José. Perdemos o encanto das palavras e da Palavra, do Verbo que se faz Pessoa, que se faz Presente para nós.
Deste modo, perdemos o verdadeiro Natal. E continuaremos a perdê-lo, em cada ano, em cada dia, sempre que não soubermos contar e cantar a toada daquela melodia divina que se faz ouvir daquele rincão de Belém, desde há muitos anos. Porque, como diria Ignacio Buttita: um povo torna-se pobre quando lhe roubam as canções que aprendeu dos seus pais. E em relação à música do Natal, estamos cada vez mais pobres.
Perdemos o sentido do caminho que nos faz sentir o Natal. Percorremos corredores de montras, fazemos corridas e maratonas entre lojas, calculamos preços caros o bastante e baratos o suficiente, desviamo-nos das pessoas nesta correria desenfreada de um consumismo feroz. Esvaiu-se o tempo para parar e sentir, para preparar uma casa e o coração para acolher Aquele que nasce para cada um de nós. E a crise em tempo de Natal parece que não é mais que o próprio Natal em crise!
As luzes, tantas luzes, piscam num inconstante e frágil brilhar, numa artificialidade que a natureza das estrelas desconhece. Esquece-se o Presente numa lista imensa de prendas, perde-se a partilha num egocêntrico sentir, num olhar desfocado que sorri com o rasgar eufórico de papéis de embrulho, em vez de sorrir com o surgir radiante de uma Vida... dada inteira para nós.
Contrasta o consumismo, com o que deveria ser altruísmo: um Deus Prenda e Presente para nós. Contrastam os motivos exteriores dos festejos, com a interior razão da alegria do Natal: o milagre do Dom de Deus por e para mim. Contrasta esta espécie de "Natal" de contrastes...
A essência do verdadeiro Natal jamais mudará ou passará... é como o Amor. Porque o milagre do Natal é mesmo o milagre do Amor.
~
 
Se queres que seja Natal,
volta a olhar e a apreciar,
aquela pequena e brilhante luz
que rasgou a escura e fria noite,
e aqueceu de mansinho o coração humano.
Sê contador do maior milagre do Amor!
Feliz Natal!



Texto publicado na edição de 19 de Dezembro do Correio do Vouga
Pe. JAC

18 de janeiro de 2012

Janeiro, mês da Paz e da Unidade - Feliz coincidência ou reforçado apelo?

  

Cada início de ano é uma oportunidade para mergulharmos na essencialidade das coisas, da vida e da fé. No mês que começa com o Dia Mundial da Paz, decore também a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Feliz coincidência ou necessário e reforçado apelo a cada um de nós?
A vivência da fé cristã impele-nos a fazer cada dia a viagem àquilo que vale, que conta, que tem valor. Logo no primeiro mês do ano civil somos desafiados a regressar à pátria da unidade e da paz, através destas duas celebrações. Na prática, trata-se de realizar, de refazer o mergulho na nossa fundação enquanto Igreja.
Não nos podemos dispensar, enquanto Igreja, sonhada por Deus, fundada por Cristo, de reconhecer que a falta de unidade entre os cristãos é um pecado grave, no meu entender, o mais grave que poderemos cometer.
Não me refiro apenas e só aos infelizes cismas, às terríveis separações que historicamente foram acontecendo com o passar dos anos por aqueles que professam a mesma fé em Jesus Cristo. Felizmente, vamos vendo e lendo sinais, réstias de luz e de esperança, de uma desejada e almejada unidade.
Refiro-me, aqui, muito expressamente à divisão que acontece todos os dias dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, da Igreja que somos, através das nossas palavras e atitudes de exclusão, de marginalização, de indiferença, de falta de acolhimento. Não se trata de reconhecer a divisão nos e dos outros. Trata-se efetivamente de reconhecer a divisão que cada um de nós produz. Quantas vezes geramos desunião e não comunhão, rancor e não amor, antipatia e não simpatia!
A fé cristã, fundada em Cristo, que passou na terra fazendo o bem, faz-nos viver e estar neste mundo como peregrinos. Aquilo que a Carta a Diogneto tão bem expressou, nos finais do século II: Os cristãos “habitam pátrias próprias mas como peregrinos; participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira”. Como cristãos, precisamos de reassumir que a única comunidade em que podemos realizar-nos é a humanidade reunida em Cristo, que é Aquele no qual toda a Criação se reúne.
Como escreve Timothy Radcliffe: “Deus é Aquele no qual ninguém fica à margem, porque o centro de Deus está em toda a parte e a sua circunferência em parte nenhuma. É na vastidão de Deus que estaremos completamente à vontade, porque todos lá estarão. É assim que sou/estou em Igreja?”
“Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo” (Cf. 1 Cor 15, 51-58). Este é o tema proposto para a celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano, entre 18 e 25 de Janeiro.
Acreditamos como verdade fundacional da nossa fé em Cristo que Nele somos transformados. Mas, a partir de Cristo, também podemos e devemos transformar-nos diariamente, convertermo-nos gradualmente. Não nos podemos escusar de dar passos de unidade afetiva e efetiva no seio das nossas comunidades, das nossas paróquias, do nosso presbitério, da nossa diocese.
Assim sendo, ainda resulta mais premente a temática pastoral diocesana. Somos mesmo fraternidade de famílias? Somos muitos membros. Será que somos UM Corpo? Com certeza que nos vamos esforçando, mas ainda não o seremos na devida expressão. Não cruzemos, por isso, os braços, pensando que estamos bem como estamos. Ousemos a diferença! Ousemos a coragem! Ousemos ir de novo à pátria da unidade e da paz, baseada na unidade perfeita da Trindade, que não exclui a diversidade nem a alteridade. Ousemos ser um!
Outro belo sonho de Deus para nós! Ser um connosco e em nós e sermos um com todos os outros!

José António Carneiro
Padre. Vigário paroquial da Glória
Publicado no Jornal Correio do Vouga de 18/12/2012

21 de dezembro de 2011

Advento-Natal 2011. Acender a luz da Páscoa na noite de Natal


O frio de Dezembro propicia a reunião da nossa família, no calor dos afectos e na ternura de encontros significativos.
Dezembro! Mês de fundamental importância, para nós, cristãos, porque celebramos o Nascimento do Menino Deus, que vindo na fragilidade da natureza humana se aproxima de nós para nos elevar até à sua altura e estatura. Admirável “comércio” este de um Deus que se rebaixa até ao extremo para elevar a humanidade, para nos elevar a todos.
Dezembro! Mês de tantos sonhos e dos seus cumprimentos: Em primeiro, do sonho de Deus, que se quer aproximar, baixar, curvar, que quer montar a sua tenda no meio de nós, para habitar connosco. Sonho divino de um mundo novo, de paz e de prosperidade. Sonho de uma fraternidade estendida a todas as franjas da sociedade, a todos os rincões da terra, mesmo aos mais recônditos. Depois, mês do cumprimento dos nossos sonhos humanos que precisam, continuamente, que os recentremos em Deus, fazendo Dele o nosso sonho real e o melhor de todos os sonhos. Fazer que os nossos sonhos estejam em sintonia com os sonhos de Deus é tarefa a empreendermos, desde já. Escreve o padre Tolentino de Mendonça: “Queres saber de que cor são os sonhos de Deus? / Volta a olhar o mundo pela primeira vez”. O sonho de Deus é o nosso mundo vivo, tal como a Sua glória é que vivamos!
Em cada ano litúrgico somos plenamente formados e moldados para apreendermos a coragem da espera, até que o Senhor venha. O ano cristão litúrgico é uma espécie de pedagogia da paciência. Escreve Timothy Radcliffe: “O Advento treina-nos na paciência para não começar a celebrar demasiado cedo, resistindo à tentação de celebrar o nascimento de Cristo, antes de Ele vir”. E acrescenta, assertivo: “apesar de as lojas estarem [já] cheias de sinais a dizer «Feliz Natal»”.
De facto, Jesus Cristo é dom, presente, prenda e, por ser isso, espera-se o momento em que é dado e ofertado. Mas, esta esperança não é passividade. Nem etimologicamente falando. Do latim, attendere (esperar), significa esticar-se para a frente. A espera atira-nos sempre para a frente, abrindo-nos, sem forçar nada, ao que virá, tal como uma mãe que está para dar à luz. A este respeito, Erri de Luca escreve, bem acertado, em “O Caroço de Azeitona: “só as mulheres, as mães, sabem o que é o verbo esperar. O género masculino não tem constância nem corpo para hospedar esperas”.
Todavia, tanto o Advento como o Natal atiram-nos mais para a frente, para nos levar ainda mais longe: atira-nos até à Páscoa. A marcha do tempo da liturgia orienta os nossos passos, com Cristo, para Jerusalém, para o Gólgota da nossa salvação, para a gruta da ressurreição, donde brota a luz que traz sentido e finalidade a todos os sonhos, até ao da Encarnação de Deus.
Preparando e celebrando o Natal de Jesus, é imperioso olhar desde já a noite da nossa salvação. Noite de Páscoa, noite da Vida. Claro que precedida pela noite do nascimento, humilde e silencioso, pobre mas feliz, tal como são as coisas de Deus.
A luz do presépio de Belém aponta-nos a luz e o brilho refulgentes do sepulcro vazio, da vitória da vida sobre a morte, pelo Vivente. A luz da Páscoa é, assim mesmo, acesa na noite de Natal!
Este ano não deverá ser diferente!


Meu Menino Jesus!

Tuas mãos tudo partilham
Mesmo a vida que nos trouxeste
e teus olhos, felizes, brilham
pelo “sim” que ao Pai disseste.

Pequenino e despojado
para usar a nossa veste
Tu és o Deus enviado
e nosso irmão Te fizeste.

Jesus Menino em Belém,
em Nazaré, Tu cresceste
homem, em Jerusalém
morte injusta sofreste.

Esperança de um mundo novo
na Tua vinda nos deste
Salvador de todo o povo
sê bem-vindo, porque vieste! 

Pe. JAC 

[Publicado na edição de 21 de Dezembro, no Correio do Vouga]

Missão é partir

“Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu.  É parar de dar volta a...