Chorar, amargamente, quem nos morre, é um ato profundamente cristão. Só não o será o desespero completo, perante essa morte. Porque seremos salvos pela esperança. A perdição seria o desespero, simplesmente.
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30 de outubro de 2017
4 de setembro de 2015
O menino dorme?
O menino dorme?
Parece
e o mar acaricia-o
Mas o menino não dorme
e a água não o acaricia
A água levou o menino
e ele que pensava
que essa água era caminho para uma nova vida!
O menino não dorme
e já não há mãe com o seu colo
com os seus beijos macios
e seus abraços de ternura...
O menino não dorme
perdeu-se na aventura
de querer viver
(D. Manuel dos Santos)
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"A verdade é que nós e os outros somos um só, que não há separatividade, que nós e o ‘estranho’ somos aspectos da única e mesma vida” (Danah Zohar), citado daqui
23 de janeiro de 2015
Um novo dia amanheceu [Tu és mais forte]
Talvez muitos não compreendam a razão pela qual um jovem, desde tenra idade, entra para o seminário. Talvez não compreendam também a razão pela qual gastar energias a servir, a escutar e a cuidar de um povo quando tantos outros projectos de vida são igualmente fascinantes. A razão é apenas uma. Opta-se pelo melhor. E o melhor, para um coração sacerdotal, é Cristo. É essa liberdade de coração, esse prazer genuíno de estar com o Mestre, que irradia para os demais e mostra a alegria de viver a fé ardentemente sem ambiguidade.
Mas, caríssimos irmãos, Deus chama a toda a hora. Sei que esta hora nos parece demasiado cedo para o último chamamento. Mas permitam-me que termine de citar a homilia de Epifânio de Salamina. «Levanta-te, tu que dormes [...]. Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos». Com esperança cristã, acreditamos que o Pe. Miguel se encontrou com a Vida e, por isso, intercede agora por nós, como tantas vezes o fez nas eucaristias desta comunidade.
Que este momento de comunhão fraterna em Cristo fortaleça a nossa unidade, uma vez que estamos a celebrar a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Fazemo-lo com a frase bíblica «Dá-me de beber!». Por diversas vezes, os evangelhos falam da sede, da água e do acolhimento das necessidades. Neste encontro particular entre Cristo e a Samaritana, sobressai o movimento de Cristo que vai ao encontro e pede que lhe dêem de beber. Hoje o mundo necessita da nossa unidade. Unidade com Cristo e, por Ele, com toda a comunidade sacerdotal e eclesial. Só unidos seremos água viva que responde à sede de um mundo que pretende viver sem Seus. São tantos os problemas e as expectativas. Ninguém sozinho consegue ser resposta adequada.
A vida do Pe. José Miguel foi breve, é certo, mas tudo foi cumprido. Deu-se até ao fim, amou até ao fim. Tudo está consumado e agora vive ressuscitado. Que isso nos inspire, nos conforte e nos una na mesma fé e nos diga que, por Deus, a alegria do Evangelho deve chegar a todos.
António Correia de Oliveira, um poeta do século XX que se fixou em Esposende, escreveu certa vez: «É certo! Um novo dia amanheceu // Mas, para o amanhecer, quanta negrura! // quanto inferno de sombra e de amargura! // E quanto purgatório, antes do céu!».
Pe. Miguel, cedo para ti o dia amanheceu, quanta negrura antes do céu. Mas agora que vives entre os esplendores da luz perpétua, onde desaparecem as sombras da amargura, toma conta de nós e continua a amar-nos com o teu coração sacerdotal e faz com que em todos os sacerdotes e cristãos da Arquidiocese se intensifique o gesto de estar com Jesus para, depois, alegre e corresponsavelmente, o darmos a quem tem sede d’Ele, ainda que não o diga. Intercede por nós junto de Deus para que a Igreja Arquidiocesana, através de uma fé vivida, por sacerdotes e leigos, seja verdadeira fonte onde todos se saciam e saboreiam o amor de Deus. Aqui e agora queremos ser uma coisa contigo. Devolve-nos a graça de uma Igreja unida na mesma fé e que o amor entre nós vença todas as dificuldades, inclusive a dor que a tua morte, inesperada e incompreensível, gerou.
D. Jorge Ortiga, na homilia exequial
http://www.diocese-braga.pt/media/contents/contents_Rm0qTw/2015.01.23_jose_miguel_funeral.pdf
22 de janeiro de 2015
Quando um amigo morre...
Lido mal com a morte.
Presida eu às exéquias que presida (tantas já este ano de 2015!), procure eu ancorar a minha fé e confiança na Palavra da Vida, o que é certo é que fica sempre a dor, a saudade e quase sempre um silêncio mudo... Faltam as palavras.
Custa, custa sempre! Seja mais ou menos esperada ou pior ainda quando nos apanha friamente de surpresa.
Morreu um amigo padre. Irmão no sacerdócio do presbitério de Braga.
Morreu aquele que foi meu director nos quase dois anos que trabalhei na Redacção do Jornal Diário do Minho, da Arquidiocese de Braga.
Morreu muito cedo...
Descansa agora, Zé Miguel!
Tu que te empenhaste em cumprir a Vontade de Deus que Deus cumpra agora a promessa: "Quem acredita tem a vida eterna".
Eu creio que Deus cura e dá vida, mas mais que isso Ele salva!
Na Mão de Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero de Quental, in "Sonetos"
Comunicado Arquidiocese de Braga:
2 de novembro de 2012
2 de novembro de 2011
Memória dos mortos. Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
Ontem, na celebração da festa da comunhão dos santos, contemplámos a Jerusalém celeste, esposa do Cordeiro, bela, sem mancha nem ruga porque santificada pelo Senhor (cf. Ef 5, 27; Ap, 21, 2); hoje somos convidados pela Igreja a fazer memória dos mortos. Festa de todos os santos e memória dos mortos são uma única grande festa em que se vive o mistério da glória e o mistério da cruz, o mistério da vida eterna em Deus e o mistério da morte na fé: Cristo ressuscitado conduz os mortos para o rio da vida da comunhão dos santos.
O cristão, por vocação, morre com Cristo (cf. Rom 6, 8) e com Cristo é sepultado (cf. Rom 6, 4) na Sua morte e, quando morre, leva à plenitude a obediência de criatura e em Cristo é transfigurado e ressuscitado pelas energias de vida eterna do Espírito Santo. É nesta consciência, nesta visão que nasce da fé, que a morte acaba por ser irmã – como era definida por S. Francisco de Assis – para se transfigurar num acto em que se restitui a Deus, por amor e na liberdade, aquilo que Ele nos deu: a vida e a comunhão. Por isso, a Igreja da terra, recordando os fiéis defuntos, une-se à Igreja do céu e, numa grande intercessão, invoca a misericórdia pelos que morreram e está diante de Deus para lhe prestar contas de todas as suas obras (cf. Ap 20, 12).
O texto do Evangelho de S. João recorda-nos palavras de Jesus que ressoam como uma promessa que pode ser repetida ao nosso coração para vencer a tristeza e o temor. Jesus disse: «Quem vier a Mim, eu não o rejeitarei». O cristão é aquele que vai ao encontro de Cristo, em cada dia, mesmo se a sua vida está marcada pelo pecado e pela queda; é aquele que se afasta e regressa, que cai e se levanta, que retoma com confiança o caminho do seguimento de Cristo. E Jesus não o rejeita; pelo contrário, abraçando-o no seu amor oferece-lhe o perdão dos pecados e condu-lo definitivamente à vida eterna: Esta é a vontade de meu Pai: que quem acredita no Filho tenha a vida eterna (cf. Jo 3, 16.36). Por isso é que S. Paulo escreveu: «o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 6, 23).
A memória dos mortos é, portanto, para os cristãos uma grande celebração da fé na ressurreição e na vida eterna: aquilo que é confessado e cantado na celebração das exéquias, é reproposto num único dia, para todos os mortos. A morte não é mais a última realidade para os homens; os que morreram, indo ao encontro de Cristo, não são por Ele rejeitados, mas ressuscitados para a vida eterna, a vida para sempre com Ele, o Ressuscitado-Vivente. A morte é verdadeiramente uma passagem, uma Páscoa, um êxodo deste mundo para o Pai: para os crentes não se trata de um enigma, mas de um mistério, porque está inscrito, de uma vez para sempre, na morte de Jesus, o Filho de Deus que soube fazer da sua morte um autêntico e total acto de entrega e oferta ao Pai. E assim também nós hoje somos chamados a interrogarmo-nos sobre a fé na nossa ressurreição, da qual Cristo é penhor e fundamento, recordando as palavras paradoxais do apóstolo Paulo: se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou (1 Cor 15, 16). Às vezes parece mais difícil acreditar na nossa ressurreição do que na ressurreição de Cristo.
Escreveu S. João na sua 1ª Carta: «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos» (1 Jo 3, 14), palavras que constituem um comentário, fruto de grande inteligência espiritual, a uma outra afirmação de Jesus: «quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não é sujeito a julgamento, mas passou da morte para a vida» (Jo 5, 24). É exactamente assim: se os cristãos não amam os irmãos, ficam prisioneiros da morte; pelo contrário, amando mostram que estão mortos para si próprios e vivos em Cristo, vivos da vida de Deus semeada neles. Sim, quem vive cada dia neste amor, faz a experiência de ser vencedor da morte, de passar já da morte para a vida, porque o «amor é mais forte do que a morte» (Ct 8,6).
20 de abril de 2010
Contrastes da minha vida...
Olá a todos
Antes de mais, peço desculpa.
Tenho tido pouquíssimas hipóteses de escrever aqui como tanto gosto.
Tem sido um corridinho.
A vida não pára.
E é cheia de contrastes.
A morte de pessoas que amamos é tão dura. Às vezes, parece que nem a fé e a esperança em Cristo, morto e ressuscitado, nos dão o consolo necessário....
Ainda há cerca de três meses perdi um tio - com 62 anos - e agora outro, mas com 46 anos de idade. E de forma trágica. Um atropelamento de um camião em Angola. Duro. Duríssimo para mim. Imagino o quanto para a minha tia e os meus quatro primos, seus filhos... Rezem por ele e pela família que deixa...
Por outro lado, está a correr o processo canónico para a minha Ordenação Sacerdotal. Fico cheio de alegria por causa disso. Corre em Braga, a minha diocese, e em Aveiro, a diocese onde trabalho.
Já foram lidas as Proclamas. Espero tranquilamente o encerramento deste processo...
E é assim: é nestes contrastes que se faz a vida que temos e somos.
Porque Jeff Buckley me faz tão bem e tanto gosto, partilho...
E peço a todos: rezem por mim, para que seja forte e fiel!
Obrigado
2 de dezembro de 2009
VIDAS FELIZES
“Quando nasceste, todos estavam contentes e tu choravas.
Vive de modo que, quando morreres, todos chorem e tu sejas feliz”.
Provérbio
Provérbio
O mês de Novembro começa com duas destas litúrgicas – Todos os Santos e Fiéis Defuntos – que nos mergulham no sentido da vida. As perguntas são muitas e vamos procurando responder-lhes na esperança de não perdermos nem a vida, nem o sentido.
Claro que a vida é demasiado bela para a deixarmos fugir como areia entre os dedos ou para a deixarmos esfumar-se como neblina matinal que se perde com o andar das horas.
É vão acreditar no conhecido dito popular que estabelece a felicidade do homem quando se tem um filho, se planta um árvore ou se escreve um livro. Há pessoas que nada disto fizeram e foram felizes e há também os que fizeram isto e não alcançaram a felicidade. Pois, e compreende-se: há livros que têm mais palavras que ideias, há filhos que dos pais só receberam o corpo e árvores que nem sombras nos conseguem dar.
A vida não depende de número de anos que se vive. Há pessoas que viveram poucos anos e deixaram marcas indeléveis. O importante não é o quanto vivemos mas o como vivemos.
Luís Espinal, um jesuíta assassinado na Bolívia em 1980,escreveu: «Passam os anos e, ao olhar para trás, reparamos que a nossa vida foi estéril. Não a passamos fazendo o bem. Não melhoramos o mundo que nos deixaram, não vamos deixar rasto. Fomos prudentes e corajosos. Para quê, porém? O nosso único ideal não pode ser o de chagar a velhos. Estamos a poupar a vida, por egoísmo, por cobardia. Seria terrível malbaratar esse tesouro de amor que Deus nos deu».
Há quem tenha as mãos limpas mas vazias, porque nunca as usou. Morrer de mãos vazias! Não pode haver inferno pior que a esterilidade. Seja o que for a minha vida, eu terei de deixar alguma coisa ao desaparecer, ainda que seja uma simples gota de esperança ou de alegria no coração de um desconhecido.
Inspirado na Revista “além-mar”
publicado no Jornal Paroquial Mais Luz-Águeda
25 de junho de 2009
A vida e a morte de mãos dadas
A vida não é só morrer mas também o é. Este é o começo de uma poesia que escrevi há algum tempo. Efectivamente é verdade. A vida e a morte são tão... próximas... parece que andam de mão dada.
Partilho convosco a minha experiência destes últimos dias: no domingo morreu um amigo meu, vítima de uma doença prolongada, mas morreu sem ninguém estar preparado. Nunca estamos preparados para "ver" morrer. Para a nossa morte devemos, na medida do possível estar... "Vigiai porque não sabeis o dia nem a hora".
Mas... o funeral foi terça-feira. Porque era meu amigo, porque sou amigo da família, presidi ao funeral, ainda que não à Eucaristia de corpo presente... Foi difícil, mas a fé, efectivamente, traz-nos aquela força, aquela paz, aquela confiança, aquela serenidade que não pensamos nunca alcançar num momento daqueles. Disse na homilia do funeral :"até para os que crêem a morte de um ente querido é uma experiência dolorosa e difícil de suportar". Para mim também foi.
Ontem, presidi ao baptismo do filho de uma colega minha de escola. Ao baptizar o Martim, no dia a seguir ao funeral do Monteiro, senti como a vida é algo de tão belo, cheio de alegria e com uma neblina de tristeza e insegurança a envolver.
Sinto que de alguma forma a morte foi o baptismo último do Monteiro em que ele renasceu para a vida eterna e definitiva com Cristo. Ele está agora nas núpcias do Cordeiro. O Martim renasce para a vida de filho amado de Deus.
Estas duas experiências, simultaneamente humanas e divinas, fizeram-me contactar com a realidade da vida a nascer e a morrer. Mas nas duas senti o selo da presença amorosa de Deus.
A nossa fé vai-se alimentando do corpo e do sangue de Cristo, da Palavra e dos sacramentos mas também destas experiências que vão trespassando a nossa vida.
Partilho convosco a minha experiência destes últimos dias: no domingo morreu um amigo meu, vítima de uma doença prolongada, mas morreu sem ninguém estar preparado. Nunca estamos preparados para "ver" morrer. Para a nossa morte devemos, na medida do possível estar... "Vigiai porque não sabeis o dia nem a hora".
Mas... o funeral foi terça-feira. Porque era meu amigo, porque sou amigo da família, presidi ao funeral, ainda que não à Eucaristia de corpo presente... Foi difícil, mas a fé, efectivamente, traz-nos aquela força, aquela paz, aquela confiança, aquela serenidade que não pensamos nunca alcançar num momento daqueles. Disse na homilia do funeral :"até para os que crêem a morte de um ente querido é uma experiência dolorosa e difícil de suportar". Para mim também foi.
Ontem, presidi ao baptismo do filho de uma colega minha de escola. Ao baptizar o Martim, no dia a seguir ao funeral do Monteiro, senti como a vida é algo de tão belo, cheio de alegria e com uma neblina de tristeza e insegurança a envolver.
Sinto que de alguma forma a morte foi o baptismo último do Monteiro em que ele renasceu para a vida eterna e definitiva com Cristo. Ele está agora nas núpcias do Cordeiro. O Martim renasce para a vida de filho amado de Deus.
Estas duas experiências, simultaneamente humanas e divinas, fizeram-me contactar com a realidade da vida a nascer e a morrer. Mas nas duas senti o selo da presença amorosa de Deus.
A nossa fé vai-se alimentando do corpo e do sangue de Cristo, da Palavra e dos sacramentos mas também destas experiências que vão trespassando a nossa vida.
Este era o poema que iria ler na missa do funeral. Acabei por não o fazer...
Ó Jesus, depõe este corpo
nas mãos do Teu e nosso Pai.
Coloca todo o peso da sua vida
não na balança
mas entre os braços do Pai.
Para onde poderemos fugir?
Onde nos poderemos enconder
senão junto de Ti,
que és irmão e companheiro nas amarguras
e que sofreste e amaste cada homem como irmão?
Senhor do eterno amor,
Coração de todos os corações
- ó coração trespassado, paciente,
indizivelmente bom; -
Vida de todas as vidas
Ressurreição de todos os homens:
acolhe com piedade e amor
o nosso amigo.
E quando a nossa peregrinação cessar
quando se aproximar o fim
o declinar do dia
e o envolvimento das sombras
envia-nos, com bondade, a tua Palavra de vida:
«Pai nas tuas mãos, entrego o meu espírito».
Ó meu bom Jesus. Amém.
Ó Jesus, depõe este corpo
nas mãos do Teu e nosso Pai.
Coloca todo o peso da sua vida
não na balança
mas entre os braços do Pai.
Para onde poderemos fugir?
Onde nos poderemos enconder
senão junto de Ti,
que és irmão e companheiro nas amarguras
e que sofreste e amaste cada homem como irmão?
Senhor do eterno amor,
Coração de todos os corações
- ó coração trespassado, paciente,
indizivelmente bom; -
Vida de todas as vidas
Ressurreição de todos os homens:
acolhe com piedade e amor
o nosso amigo.
E quando a nossa peregrinação cessar
quando se aproximar o fim
o declinar do dia
e o envolvimento das sombras
envia-nos, com bondade, a tua Palavra de vida:
«Pai nas tuas mãos, entrego o meu espírito».
Ó meu bom Jesus. Amém.
19 de fevereiro de 2009
A Eutanásia (que está na ordem do dia)
Há uns anos fiz um brevíssimo trabalho, na área da teologia moral, sobre eutanásia. Deixo aqui um apanhado geral, como divulgação um assunto delicado, pungente, e atentatório dos direitos humanos...
Conceito de Eutanásia
Acção ou omissão destinada a provocar a morte de um ser humano com a finalidade de suprimir o sofrimento, pondo fim “docemente” à vida própria e alheia.
A palavra vem do grego “eu”=“bom”, “suave” e “thanatos”=“morte”, logo eutanásia=boa morte, morte suave.
Trata-se na realidade de uma acção suicida (quando o sujeito pretende acabar com a própria vida) ou homicida (quando um médico ou legislador se arroga com o poder de decidir sobre a sobrevivência dos seus semelhantes).
Tipos de Eutanásia
EUTANÁSIA CRIMINAL: é a eliminação indolor de pessoas socialmente perigosas
EUTANÁSIA VOLUNTÁRIA: praticada pelo médico a pedido do paciente (suicídio assistido)
EUTANÁSIA INVONLUNTÁTIA: quando o paciente não é consultado, não se pronuncia ou é incapaz de o fazer ou até mesmo não o deseja
EUTANÁSIA-SUICÍDIO ASSISTIDO: é o auxílio ao suicídio de quem já não consegue realizar sozinho a sua intenção de morrer
EUTANÁSIA HOMICÍDIO: resulta da distinção entre aquela praticada por médico e aquela praticada por parente ou amigo
EUTANÁSIA POSITIVA: quando se põe fim à vida do paciente pela aplicação de fármacos
EUTANÁSIA NEGATIVA: quando se omitem os meios indispensáveis para a manutenção da vida
EUTANÁSIA EUGENÁTICA: quando se elimina toda a vida considerada sem valor algum
EUTANÁSIA DE DUPLO EFEITO: dá-se quando a morte é acelerada como uma consequência indirecta das acções médicas, que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal
EUTANÁSIA EXPERIMENTAL: é a ocisão indolor de determinados indivíduos, com o fim experimental para o progresso da ciência
EUTANÁSIA SOLIDARÍSTICA: é a ocisão indolor de seres humanos no escopo de salvar a vida de outrem
EUTANÁSIA TEOLÓGICA: ou morte em estado de graça
EUTANÁSIA LEGAL: é aquela regulamentada ou consentida pelas leis
Outros conceitos relacionados...
DISTANÁSIA: prolongamento acriterioso de qualquer tipo de vida a qualquer custo. O problema da distanásia coloca-se hoje com particular acuidade: os avanços da cirurgia e das técnicas reanimativas transformaram os casos limite de outrora em realidades quotidianas.
ORTOTANÁSIA: é a actuação correcta frente à morte. É a abordagem adequada diante de um paciente que está a morrer. A ortotanásia pode, desta forma, ser confundida com o significado inicialmente atribuído à palavra eutanásia. A ortotanásia poderia ser associada, caso fosse um termo amplamente adoptado aos cuidados paliativos adequados prestados aos pacientes nos momentos finais das suas vidas.
MISTANÁSIA: também chamada de eutanásia social. Leonard Martin sugeriu o termo mistanásia para denominar a morte miserável, fora e antes da hora. Segundo este autor, dentro da grande categoria estão a grande massa de doentes e deficientes que, por motivos políticos, sociais e económicos, não chegam a ser pacientes, pois não conseguem ingressar efectivamente no sistema de atendimento médico, os doentes que conseguem ser pacientes para, em seguida, se tornar vítimas de erro médico e, por fim os pacientes que acabam por ser vítimas de má-prática por motivos económicos, científicos ou sociopolíticos.
Acerca do valor da vida humana deve afirmar-se:
a vida humana tem valor por si própria, possui uma inviolabilidade axiológica de carácter aporístico;
a vida humana não ganha nem perde valor ético por se situar em situações de aparente “descrédito”;
o valor da vida humana é a base fundamental e o sinal privilegiado dos valores éticos e dos direitos socio-políticos da pessoa;
vida humana não pode ser instrumentalizada em relação a outros fins diferentes de si mesma. Não pode constituir-se verdadeiro conflito ético entre o valor da vida humana e o valor social;
a vida humana não pode ser instrumentalizada pelo próprio indivíduo que ela usufrui.
O direito de morrer com dignidade:
O homem tem direito de “morrer dignamente” (morte digna do homem, morrer humanamente, direito à própria agonia, morrer serenamente).
Avaliação moral da eutanásia:
O paciente considera preferível abreviar a vida, antecipando a morte, afim de se livrar de uma agonia prolongada, de grandes sofrimentos, desfazer-se de uma vida inútil, fazer do morrer uma opção livre.
Situações em que é recomendável “deixar morrer”:
O direito à morte não deve significar a obrigação de buscar todos os meios à disposição da medicina, sem com eles conseguir-se qualquer resultado. Todavia, “deixar morrer” é diferente de “fazer morrer” (eutanásia).
Defensores:
Entre os defensores da eutanásia alguns destaca-se Millard (1935); após ter fundado uma sociedade promotora da eutanásia definindo-a como “a doutrina ou teoria segundo a qual tendo a vida em certas circunstâncias se deve procurar a morte de maneira indolor”.
Opositores:
A deontologia médica, que se opôs contra qualquer acto visando a supressão da vida do ser humano. Os Códigos de Direito Penal, nos diferentes países, concordam com a deontologia médica, ameaçando os que cometem a eutanásia, atentando contra a própria vida ou alheia mesmo agindo por motivos humanitários.
A Eutanásia no Concílio Vaticano:
Nos dias 24 a 27 de Fevereiro de 1999 realizou-se no Vaticano uma reunião, onde a V Assembleia da Academia Pontifícia para a Vida, reflectiu sobre a “Dignidade do Agonizante”, concluindo, aqui resumidamente o seguinte:
A vida humana é sagrada e inviolável em todas as suas fases e situações. Nunca o ser humano perde a sua dignidade em qualquer circunstância.
A vida deve ser plenamente respeitada, protegida e assistida. O respeito pela pessoa em processo de morte exige mais que nunca o dever de evitar toda a espécie de “obstinação terapêutica e de favorecer a aceitação da morte”.
O controlo da dor, o acompanhamento humano, psicológico e espiritual dos pacientes competem ao médico e restante pessoal de saúde. É necessário, portanto um maior esforço na preparação e formação no pessoal da saúde afim de que saiba tratar, com devida competência humana e profissional as questões mais difíceis.
O doente não deve ser privado da presença reconfortante dos familiares.
Existem correntes de pensamento e comportamentos práticos que, ao lado dos valores autênticos da solidariedade e do amor à vida são fruto e sintoma de secularismo ideológico e prático. Isto tende a influenciar a sociedade num sentido hedonista, eficientista e tecnocrático. Por isso é necessário desenvolver uma cultura de vida. Só assim será possível que a morte não seja reduzida a um acontecimento meramente clínico, nem seja privada da sua dimensão pessoal e social.
(…) Refutamos todo o tipo de eutanásia entendida como recurso a acções ou omissões com as quais se pretende a morte de uma pessoa.
(…) Rejeitamos a eutanásia e a assistência ao suicídio.
A eutanásia conduz à perda de confiança nos médicos (…).
Aqueles que crêem na vida eterna e em Deus sabem bem que a morte deve ser a porta para a união definitiva com Deus.
Princípios da Igreja face à Eutanásia
Nunca será lícito matar um doente, nem sequer para o não vermos sofrer ou não fazê-lo sofrer, ainda que ele o diga expressamente nem o médico, nem o doente, nem o pessoal de saúde, nem os familiares pode decidir ou provocar a morte de uma pessoa
Não é legítima a acção que por sua natureza provoca directa ou intencionalmente a morte do doente
Não é lícito suspender um tratamento devido ao doente sem o qual sobrevenha inevitavelmente a morte
É ilícito recusar ou renunciar a cuidados intensivos e tratamentos possíveis e disponíveis
A eutanásia é um crime contra a vida humana e contra a lei divina
José António Carneiro
Conceito de Eutanásia
Acção ou omissão destinada a provocar a morte de um ser humano com a finalidade de suprimir o sofrimento, pondo fim “docemente” à vida própria e alheia.
A palavra vem do grego “eu”=“bom”, “suave” e “thanatos”=“morte”, logo eutanásia=boa morte, morte suave.
Trata-se na realidade de uma acção suicida (quando o sujeito pretende acabar com a própria vida) ou homicida (quando um médico ou legislador se arroga com o poder de decidir sobre a sobrevivência dos seus semelhantes).
Tipos de Eutanásia
EUTANÁSIA CRIMINAL: é a eliminação indolor de pessoas socialmente perigosas
EUTANÁSIA VOLUNTÁRIA: praticada pelo médico a pedido do paciente (suicídio assistido)
EUTANÁSIA INVONLUNTÁTIA: quando o paciente não é consultado, não se pronuncia ou é incapaz de o fazer ou até mesmo não o deseja
EUTANÁSIA-SUICÍDIO ASSISTIDO: é o auxílio ao suicídio de quem já não consegue realizar sozinho a sua intenção de morrer
EUTANÁSIA HOMICÍDIO: resulta da distinção entre aquela praticada por médico e aquela praticada por parente ou amigo
EUTANÁSIA POSITIVA: quando se põe fim à vida do paciente pela aplicação de fármacos
EUTANÁSIA NEGATIVA: quando se omitem os meios indispensáveis para a manutenção da vida
EUTANÁSIA EUGENÁTICA: quando se elimina toda a vida considerada sem valor algum
EUTANÁSIA DE DUPLO EFEITO: dá-se quando a morte é acelerada como uma consequência indirecta das acções médicas, que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal
EUTANÁSIA EXPERIMENTAL: é a ocisão indolor de determinados indivíduos, com o fim experimental para o progresso da ciência
EUTANÁSIA SOLIDARÍSTICA: é a ocisão indolor de seres humanos no escopo de salvar a vida de outrem
EUTANÁSIA TEOLÓGICA: ou morte em estado de graça
EUTANÁSIA LEGAL: é aquela regulamentada ou consentida pelas leis
Outros conceitos relacionados...
DISTANÁSIA: prolongamento acriterioso de qualquer tipo de vida a qualquer custo. O problema da distanásia coloca-se hoje com particular acuidade: os avanços da cirurgia e das técnicas reanimativas transformaram os casos limite de outrora em realidades quotidianas.
ORTOTANÁSIA: é a actuação correcta frente à morte. É a abordagem adequada diante de um paciente que está a morrer. A ortotanásia pode, desta forma, ser confundida com o significado inicialmente atribuído à palavra eutanásia. A ortotanásia poderia ser associada, caso fosse um termo amplamente adoptado aos cuidados paliativos adequados prestados aos pacientes nos momentos finais das suas vidas.
MISTANÁSIA: também chamada de eutanásia social. Leonard Martin sugeriu o termo mistanásia para denominar a morte miserável, fora e antes da hora. Segundo este autor, dentro da grande categoria estão a grande massa de doentes e deficientes que, por motivos políticos, sociais e económicos, não chegam a ser pacientes, pois não conseguem ingressar efectivamente no sistema de atendimento médico, os doentes que conseguem ser pacientes para, em seguida, se tornar vítimas de erro médico e, por fim os pacientes que acabam por ser vítimas de má-prática por motivos económicos, científicos ou sociopolíticos.
Acerca do valor da vida humana deve afirmar-se:
a vida humana tem valor por si própria, possui uma inviolabilidade axiológica de carácter aporístico;
a vida humana não ganha nem perde valor ético por se situar em situações de aparente “descrédito”;
o valor da vida humana é a base fundamental e o sinal privilegiado dos valores éticos e dos direitos socio-políticos da pessoa;
vida humana não pode ser instrumentalizada em relação a outros fins diferentes de si mesma. Não pode constituir-se verdadeiro conflito ético entre o valor da vida humana e o valor social;
a vida humana não pode ser instrumentalizada pelo próprio indivíduo que ela usufrui.
O direito de morrer com dignidade:
O homem tem direito de “morrer dignamente” (morte digna do homem, morrer humanamente, direito à própria agonia, morrer serenamente).
Avaliação moral da eutanásia:
O paciente considera preferível abreviar a vida, antecipando a morte, afim de se livrar de uma agonia prolongada, de grandes sofrimentos, desfazer-se de uma vida inútil, fazer do morrer uma opção livre.
Situações em que é recomendável “deixar morrer”:
O direito à morte não deve significar a obrigação de buscar todos os meios à disposição da medicina, sem com eles conseguir-se qualquer resultado. Todavia, “deixar morrer” é diferente de “fazer morrer” (eutanásia).
Defensores:
Entre os defensores da eutanásia alguns destaca-se Millard (1935); após ter fundado uma sociedade promotora da eutanásia definindo-a como “a doutrina ou teoria segundo a qual tendo a vida em certas circunstâncias se deve procurar a morte de maneira indolor”.
Opositores:
A deontologia médica, que se opôs contra qualquer acto visando a supressão da vida do ser humano. Os Códigos de Direito Penal, nos diferentes países, concordam com a deontologia médica, ameaçando os que cometem a eutanásia, atentando contra a própria vida ou alheia mesmo agindo por motivos humanitários.
A Eutanásia no Concílio Vaticano:
Nos dias 24 a 27 de Fevereiro de 1999 realizou-se no Vaticano uma reunião, onde a V Assembleia da Academia Pontifícia para a Vida, reflectiu sobre a “Dignidade do Agonizante”, concluindo, aqui resumidamente o seguinte:
A vida humana é sagrada e inviolável em todas as suas fases e situações. Nunca o ser humano perde a sua dignidade em qualquer circunstância.
A vida deve ser plenamente respeitada, protegida e assistida. O respeito pela pessoa em processo de morte exige mais que nunca o dever de evitar toda a espécie de “obstinação terapêutica e de favorecer a aceitação da morte”.
O controlo da dor, o acompanhamento humano, psicológico e espiritual dos pacientes competem ao médico e restante pessoal de saúde. É necessário, portanto um maior esforço na preparação e formação no pessoal da saúde afim de que saiba tratar, com devida competência humana e profissional as questões mais difíceis.
O doente não deve ser privado da presença reconfortante dos familiares.
Existem correntes de pensamento e comportamentos práticos que, ao lado dos valores autênticos da solidariedade e do amor à vida são fruto e sintoma de secularismo ideológico e prático. Isto tende a influenciar a sociedade num sentido hedonista, eficientista e tecnocrático. Por isso é necessário desenvolver uma cultura de vida. Só assim será possível que a morte não seja reduzida a um acontecimento meramente clínico, nem seja privada da sua dimensão pessoal e social.
(…) Refutamos todo o tipo de eutanásia entendida como recurso a acções ou omissões com as quais se pretende a morte de uma pessoa.
(…) Rejeitamos a eutanásia e a assistência ao suicídio.
A eutanásia conduz à perda de confiança nos médicos (…).
Aqueles que crêem na vida eterna e em Deus sabem bem que a morte deve ser a porta para a união definitiva com Deus.
Princípios da Igreja face à Eutanásia
Nunca será lícito matar um doente, nem sequer para o não vermos sofrer ou não fazê-lo sofrer, ainda que ele o diga expressamente nem o médico, nem o doente, nem o pessoal de saúde, nem os familiares pode decidir ou provocar a morte de uma pessoa
Não é legítima a acção que por sua natureza provoca directa ou intencionalmente a morte do doente
Não é lícito suspender um tratamento devido ao doente sem o qual sobrevenha inevitavelmente a morte
É ilícito recusar ou renunciar a cuidados intensivos e tratamentos possíveis e disponíveis
A eutanásia é um crime contra a vida humana e contra a lei divina
José António Carneiro
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