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15 de dezembro de 2009
Luz da Páscoa é acesa no Natal
O frio de Dezembro propicia a reunião da família, apontando para o dia 25. Mês de fundamental importância porque celebramos o Nascimento do Menino Deus, que vindo ao mundo na fragilidade da natureza humana se aproxima de nós para nos elevar até à sua altura e estatura. Admirável “comércio” este de um Deus que se rebaixa para elevar a humanidade.
Mês do cumprimento dos sonhos: Em primeiro, do sonho de Deus, que se quer aproximar, rebaixar, quer montar a sua tenda no meio de nós, para habitar connosco. Sonho divino de um mundo novo, de paz e de prosperidade. Sonho de uma fraternidade estendida a todas as franjas da sociedade. Depois, mês do cumprimento dos nossos sonhos humanos que precisam que os recentremos em Deus. Fazer que os nossos sonhos estejam em sintonia com os sonhos de Deus. Como escreveu o padre Tolentino Mendonça: “Queres saber de que cor são os sonhos de Deus? / Volta a olhar o mundo pela primeira vez”.
O Advento é tempo de espera. As mulheres são mais conhecedoras – até fisicamente – do verbo esperar. Advento é hora de preparar a Páscoa. A marcha do tempo da liturgia orienta os nossos passos para Jerusalém, para o Gólgota da nossa salvação, para a gruta da ressurreição.
Preparando e celebrando o Natal de Jesus, é imperioso olhar já a noite da nossa salvação. Noite de Páscoa, de luz, de entrega, de abandono, de doação, de serviço. Claro que esta é precedida pela noite do nascimento, humilde e silencioso, alegre e feliz, tal como são as coisas de Deus.
A luz do presépio de Belém aponta a luz e o brilho do sepulcro vazio, da vitória da vida sobre a morte, pelo Vivente. A luz da Páscoa é, assim, acesa na noite de Natal!
texto publicado no Jornal Paroquial "Caminhando" (Dezembro) da Unidade Pastoral de Águeda
11 de dezembro de 2009
Advento: 13.º dia – paciência no tempo da pressa
A nossa caminhada terrena e adventícia continua não como marcha militar, mas como singelo e lento peregrinar. Peregrinamos como quem dança. Este é o ritmo do caminho daqueles que vivem e vão rumo a Deus.
Quem quer ir ao encontro de Deus não o pode fazer depressa e a correr, mas lentamente, saboreando e sentindo cada passo, cada recta, cada curva, cada subida, cada descida, cada monte e cada vale…
Ir para Deus, ir ao encontro de Deus, é ir com paciência ou seja, ir “sofrendo” e sentindo o peregrinar, a dor dos passos – ora bem, ora mal dados – uma vezes com “via-verde”, outras por atalhos…
Ora é de paciência que falo hoje. Porque se trata de uma virtude/atitude fundamentalíssima deste tempo, desta propedêutica para o Natal.
É Tiago que nos pede: «Esperai com paciência a vinda do Senhor: vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva têmpora e a tardia. Sede pacientes e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima» (Tg 5, 7-8).
Cristo fala-nos variadíssimas vezes da paciência no seu percurso terreno. Recordemos as muitas parábolas sobre o Reino: semeador (Mt 13, 1-8), a do trigo e da cizânia (Mt 13, 24-39), semente (Mc 4, 26-29), entre outras.
Não se trata de um paciência amorfa e ineficaz. Trata-se de uma paciência, alegre e expectante, eficiente e produtiva, comprometida, corresponsável e séria, porque há algo novo – imensamente melhor – que vem já.
Claro que vivemos num tempo impaciente. Todos experimentamos isso mesmo. Nada queremos aguardar e esperar. Vivemos num tempo desesperante que pode levar ao desespero...
O nosso tempo está cinzento e é precisamente nestas horas que assume primordial importância esta virtude da paciência. Esta está agarrada, por um lado, à confiança e à esperança e, por outro, à tranquilidade, à serenidade e à paz. E Cristo é a nossa esperança, a nossa fé, a nossa paz.
Quero que este advento seja “dia dos modestos princípios” (Zc 4, 10) que é como quem diz, dia das coisas pequenas. Comprometo-me a fomentar, a potenciar, a fazer crescer, a cultivar a paciência na minha vida, nos gestos e atitudes, no contacto com as pessoas, no ministério e na acção pastoral.
Confio e espero pacientemente este Deus Menino – que quer reinar num mundo cheio de esquemas e de pressa – sem qualquer tipo de esquemas e planos.
Vinde, Senhor: a Igreja Vos espera,
Sol de justiça, eterna primavera.
Vinde, Senhor: a Terra Vos procura,
Vós sois a Luz de toda a criatura.
(Do Hino de Ofício de Leitura, II)
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Termino comprometido e mais paciente na Oração. Isto dará fruto com certeza!
Guia-me, Luz amável,
Na escuridão que me acolhe,
Guia-me Tu!
A noite está escura,
E a casa distante:
Guia-me Tu!
Guarda os meus passos!
Não te peço para ver
O horizonte longínquo:
Basta-me
Um passo de dada vez!
John Henry Newman
In As quatro noites da salvação, Bruno Forte
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4 de dezembro de 2009
6.º dia do Advento: Preparando a Páscoa!!!
Parece que me enganei, mas penso que não…
Advento é hora e tempo de preparar a Páscoa.
Sim, começou o advento.
E a marcha, a caminhada dos tempos de Deus orienta-se já para aquele monte sobranceiro de Jerusalém. Para o Gólgota da nossa salvação. Para a gruta da ressurreição.
A luz do presépio de Belém aponta para a luz do sepulcro vazio, da vitória da vida sobre a morte, pelo Vivente.
Assim, mais que preparar Natal – o Natal de Jesus – é imperioso olhar já a noite da nossa salvação. Noite de Páscoa, de Luz, de entrega do Cordeiro inocente (ver abaixo S. João Damasceno sobre a fé), de abandono, de doação, de serviço. Claro que esta está precedida pela noite do nascimento, humilde e silencioso, como são as coisas de Deus.
Advento é tempo de espera. As mulheres são mais conhecedoras – até fisicamente – do verbo esperar. Mas, neste tempo de frente à eternidade do Deus que se faz tempo, história e pessoa… irrompe o Filho “no mundo em meses estabelecidos com nascimento, morte e ressurreição” (Erri de Luca).
Na linha deste propósito que assumimos neste tempo de Advento faço, para mim em primeiro lugar, e para quem quiser experimentar, uma simples sugestão de caminho.
Considero estes tempos litúrgicos tempos de graça, tempos favoráveis. São também tempos de conversão, de arrependimento, de recentrar a vida em Deus.
Advento deve ser tempo dos “3 P’s”. Explico: tempo de fazer coisas possíveis, coisas pequenas e fazendo-as aos poucos. É uma sugestão em aberto que pode ser aproveitada para pequenos gestos quotidianos. Para Deus, cada gesto conta, cada passo conta, cada palavra conta, cada sorriso conta, cada copo de água conta…
É triste a mercantilização do Natal. O espírito consumista da sociedade reduz e cinge o tempo do Advento à aquisição das prendas, das compras, do consumo… E nós cristãos corremos do risco de cair na armadilha, de não estarmos vigilantes, de passar ao lado da mensagem de Cristo.
Da minha parte comprometo-me a lutar contra este espírito consumista, desenfreado e veloz… Na simplicidade e no silêncio, proponho-me remar contra a corrente, forte e arrasadora, deste tempo…
Deste logo, na linha da mensagem da liturgia da Palavra de hoje, procurarei ser visão dos cegos, voz dos mudos, ouvido dos surdos… Na prática, procurarei que estas pessoas diferentes – indevidamente chamadas deficientes – tenham lugar de predilecção na minha vida. Sei que para Deus são predilectos, mas para mim, tantas vezes, não o são.
Fica este como meu compromisso de todo este tempo de Advento aliado à minha oração mais persistente e perseverante:
O Senhor é a minha luz e a minha salvação.
O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei-de temer?
O Senhor é protector da minha vida:
de quem hei-de ter medo?
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem coragem e confia no Senhor.
_______________
Jesus, vinde ao nosso encontro.
Nós queremos preparar a vossa vinda.
Nós queremos receber-Vos.
Nós esperamos que nos deis
A vossa luz, a vossa paz, o vosso amor. Amén.
____________________________
Em dia litúrgico de S. João Damasceno, deixo mais um anexo
Sobre a fé
(Cap. I: PG 95, 417-419) (Sec. VIII)
Vós me formastes, Senhor, do corpo de meu pai; Vós me formastes no ventre de minha mãe; Vós me fizestes sair à luz, menino e nu, porque as leis da natureza seguem sempre os vossos preceitos.
Com a bênção do Espírito Santo preparastes a minha criação e a minha existência, não por vontade do homem, nem por desejo da carne, mas pela vossa graça inefável. Preparastes o meu nascimento com um cuidado superior ao das leis naturais, fizestes-me sair à luz do dia adoptando-me como vosso filho e me contastes entre os filhos da vossa Igreja santa e imaculada.
Vós me alimentastes com o leite espiritual dos vossos divinos ensinamentos. Vós me sustentastes com o vigoroso alimento do Corpo de Cristo, nosso Deus, vosso Filho Unigénito, e me inebriastes com o cálice divino do seu Sangue vivificante, que Ele derramou pela salvação de todo o mundo.
Porque Vós, Senhor, nos amastes e nos destes o vosso único e amado Filho para nossa redenção, que Ele aceitou voluntariamente e livremente; mais ainda, Ele mesmo Se ofereceu em sacrifício como cordeiro inocente, porque sendo Deus Se fez homem e por sua vontade humana Se submeteu, tornando-Se obediente a Vós seu Pai, até à morte e morte de cruz.
E assim, Senhor Jesus Cristo, meu Deus, Vos humilhastes para me levardes aos ombros como ovelha perdida e me apascentastes em verdes pastagens; Vós me alimentastes com as águas da verdadeira doutrina por meio dos vossos pastores, aos quais Vós mesmo alimentais, para que, por sua vez, alimentem a vossa grei, escolhida e nobre.
Agora, Senhor, pela imposição das mãos do vosso sacerdote, Vós me chamastes para servir os vossos discípulos. Não sei por que razão me escolhestes; só Vós o sabeis.
Senhor, tornai mais leve o peso dos meus pecados, com que Vos ofendi tão gravemente; purificai o meu coração e a minha inteligência. Sede para mim como uma lâmpada luminosa que me conduz pelo recto caminho.
Ponde as vossas palavras nos meus lábios; dai-me uma linguagem clara e fácil, mediante a língua de fogo do vosso Espírito, para que a vossa presença sempre me assista.
Apascentai-me, Senhor, e apascentai Vós comigo, para que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda; que o vosso Espírito me conduza pelo recto caminho e as minhas obras se realizem segundo a vossa vontade até ao último momento.
E Vós, nobre vértice da mais íntegra pureza, ilustre assembleia da Igreja, que esperais a ajuda de Deus, Vós, em quem Deus habita, recebei das nossas mãos a doutrina da fé, que fortifica a Igreja, tal como no-la transmitiram os nossos pais.
2 de dezembro de 2009
VIDAS FELIZES
“Quando nasceste, todos estavam contentes e tu choravas.
Vive de modo que, quando morreres, todos chorem e tu sejas feliz”.
Provérbio
Provérbio
O mês de Novembro começa com duas destas litúrgicas – Todos os Santos e Fiéis Defuntos – que nos mergulham no sentido da vida. As perguntas são muitas e vamos procurando responder-lhes na esperança de não perdermos nem a vida, nem o sentido.
Claro que a vida é demasiado bela para a deixarmos fugir como areia entre os dedos ou para a deixarmos esfumar-se como neblina matinal que se perde com o andar das horas.
É vão acreditar no conhecido dito popular que estabelece a felicidade do homem quando se tem um filho, se planta um árvore ou se escreve um livro. Há pessoas que nada disto fizeram e foram felizes e há também os que fizeram isto e não alcançaram a felicidade. Pois, e compreende-se: há livros que têm mais palavras que ideias, há filhos que dos pais só receberam o corpo e árvores que nem sombras nos conseguem dar.
A vida não depende de número de anos que se vive. Há pessoas que viveram poucos anos e deixaram marcas indeléveis. O importante não é o quanto vivemos mas o como vivemos.
Luís Espinal, um jesuíta assassinado na Bolívia em 1980,escreveu: «Passam os anos e, ao olhar para trás, reparamos que a nossa vida foi estéril. Não a passamos fazendo o bem. Não melhoramos o mundo que nos deixaram, não vamos deixar rasto. Fomos prudentes e corajosos. Para quê, porém? O nosso único ideal não pode ser o de chagar a velhos. Estamos a poupar a vida, por egoísmo, por cobardia. Seria terrível malbaratar esse tesouro de amor que Deus nos deu».
Há quem tenha as mãos limpas mas vazias, porque nunca as usou. Morrer de mãos vazias! Não pode haver inferno pior que a esterilidade. Seja o que for a minha vida, eu terei de deixar alguma coisa ao desaparecer, ainda que seja uma simples gota de esperança ou de alegria no coração de um desconhecido.
Inspirado na Revista “além-mar”
publicado no Jornal Paroquial Mais Luz-Águeda
Da mãos dadas... rumo ao Natal!
Peço imensa desculpa. Só falto eu. Perdoem-me!
Numa iniciativa da amiga Utília demos as mãos para caminhar neste Advento de maneira muito intensa, para tal, em cada dia da semana haverá uma reflexão individual que nos fará reflectir em conjunto com os olhos postos em nosso Senhor Jesus Cristo. Advento, tempo de espera que culmina com a vinda do Nosso Salvador.
Que o Espírito Santo nos ilumine!
Eis os blogues que comigo participam:
Segunda: http://teresa-desabafos.blogspot.com/
Terça: http://giselepontes.blogspot.com/
Quarta: http://demaosdadasnacaminhada.blogspot.com/
Quinta: http://degraudesilencio.blogspot.com/
Sexta: http://caritasdei.blogspot.com/
Sábado: http://a-capela.blogspot.com/
Domingo: http://rotasdiferentes.blogspot.com/
Vamos todos seguir de mão dada... rumo ao Natal!
14 de novembro de 2009
Esperar o sonho de Deus
Estas são as ideias que partilharei com os cristãos da Unidade Pastoral de Águeda (UPA), neste fim de semana em que celebramos o 33.º domingo do tempo comum.
1. Proximidade do fim do ano litúrgico: “Fim do mundo”
Dia e noite, sol e lua, salvação e angústia, vida e morte, anjos e demónios, felicidade e condenação, inferno e paraíso: são os contrastes que a liturgia apresenta entre o mundo passageiro e terreno e o mundo novo que há-de vir.
A linguagem é apocalíptica – aponta para a realidade do final dos tempos usando imagens simbólicas.
Não devemos, por isso, entender literalmente a mensagem apocalíptica; nada de fazer cálculos e previsões para saber o quando; devemos confiar no cumprimento do anúncio de Jesus em relação à sua última vinda. A nossa atitude é de espera. Assim, desta Palavra que parece desajustada aos nossos dias, devemos retirar um convite forte e premente à esperança.
2. “Esperai sempre”
Daniel fala-nos intervenção libertadora de Deus a favor do povo que sofria a perseguição de um poder estrangeiro
É um convite à esperança: viver esperando a vinda do Filho do Homem através da fidelidade e constância aos planos de Deus
Os que permanecem fiéis recebem por recompensa a vida eterna
Evangelho: Marcos
• Deste evangelho recebemos a garantia da chegada de um mundo novo, de vida e felicidade
• Vigilância perante os sinais que anunciam a aparição da nova realidade
3. Esperar o sonho de Deus
Esta Palavra é para nós que vivemos num tempo que deixou de esperar o que quer que seja.
É-nos pedida fidelidade aos valores e aos desígnios de Deus mesmo diante de perseguição que sofremos do mundo em geral. É-nos pedida a perseverança e confiança num Deus que não abandona o povo que lhe é fiel.
Perante tantos dramas que todos os dias nos entram pela porta dentro, graças à comunicação social, somos, a partir desta Palavra, convidados a abrimos a nossa porta à esperança.
Deus não abandona a humanidade. Mais ainda: Deus quer transformar o mundo velho (do egoísmo e do pecado) em mundo novo (de vida e felicidade). Não caminhamos para o abismo, nem para o precipício, caminhamos, como peregrinos, para a vida plena, onde se encontram aqueles que sempre se buscaram e amaram um ao outro: Deus e Humano.
O cristão é o profeta que testemunha os valores de Deus que são eternos e não efémeros como os do mundo.
Somos, portanto, testemunhas e profetas da esperança. Os dramas do nosso mundo são sinais eloquentes da transformação do mundo velho que se renova, pela força de Deus, até surgir um mundo novo e melhor.
O cristão não se fundamenta no pessimismo e na angústia. Devemos, ser cristãos com “rosto de gente salva”, rosto onde transborda a fé num Deus que caminha connosco até à felicidade eterna.
Devemos olhar a história com confiança e esperança: o cristão é uma pessoa alegre e confiante que olha o futuro com serenidade sabendo de antemão que é Deus Amor quem lhe preside.
Vida eterna é a recompensa para os que vivem na fidelidade aos valores de Deus. Acreditamos, a partir da Ressurreição de Jesus Cristo, que a vida não acaba na morte e, por isso, não nos sentimos derrotados mas optimistas porque Deus reserva a vida eterna e verdadeira para os que estão “inscritos no livro da vida”.
Deus é Senhor da história e fará surgir um mundo novo. Para tal, nós, somos chamados a anunciar com a vida, com palavras e gestos, esse mundo que Deus sonha e projecta. A religião ou a fé não são ópio (Marx) mas, trampolim para nos comprometermos com a história. Que cada um se comprometa neste sonho de Deus e que um dia seja realidade para nós. Aí estará a nossa felicidade, a nossa vida, a nossa eternidade.
1. Proximidade do fim do ano litúrgico: “Fim do mundo”
Dia e noite, sol e lua, salvação e angústia, vida e morte, anjos e demónios, felicidade e condenação, inferno e paraíso: são os contrastes que a liturgia apresenta entre o mundo passageiro e terreno e o mundo novo que há-de vir.
A linguagem é apocalíptica – aponta para a realidade do final dos tempos usando imagens simbólicas.
Não devemos, por isso, entender literalmente a mensagem apocalíptica; nada de fazer cálculos e previsões para saber o quando; devemos confiar no cumprimento do anúncio de Jesus em relação à sua última vinda. A nossa atitude é de espera. Assim, desta Palavra que parece desajustada aos nossos dias, devemos retirar um convite forte e premente à esperança.
2. “Esperai sempre”
Daniel fala-nos intervenção libertadora de Deus a favor do povo que sofria a perseguição de um poder estrangeiro
É um convite à esperança: viver esperando a vinda do Filho do Homem através da fidelidade e constância aos planos de Deus
Os que permanecem fiéis recebem por recompensa a vida eterna
Evangelho: Marcos
• Deste evangelho recebemos a garantia da chegada de um mundo novo, de vida e felicidade
• Vigilância perante os sinais que anunciam a aparição da nova realidade
3. Esperar o sonho de Deus
Esta Palavra é para nós que vivemos num tempo que deixou de esperar o que quer que seja.
É-nos pedida fidelidade aos valores e aos desígnios de Deus mesmo diante de perseguição que sofremos do mundo em geral. É-nos pedida a perseverança e confiança num Deus que não abandona o povo que lhe é fiel.
Perante tantos dramas que todos os dias nos entram pela porta dentro, graças à comunicação social, somos, a partir desta Palavra, convidados a abrimos a nossa porta à esperança.
Deus não abandona a humanidade. Mais ainda: Deus quer transformar o mundo velho (do egoísmo e do pecado) em mundo novo (de vida e felicidade). Não caminhamos para o abismo, nem para o precipício, caminhamos, como peregrinos, para a vida plena, onde se encontram aqueles que sempre se buscaram e amaram um ao outro: Deus e Humano.
O cristão é o profeta que testemunha os valores de Deus que são eternos e não efémeros como os do mundo.
Somos, portanto, testemunhas e profetas da esperança. Os dramas do nosso mundo são sinais eloquentes da transformação do mundo velho que se renova, pela força de Deus, até surgir um mundo novo e melhor.
O cristão não se fundamenta no pessimismo e na angústia. Devemos, ser cristãos com “rosto de gente salva”, rosto onde transborda a fé num Deus que caminha connosco até à felicidade eterna.
Devemos olhar a história com confiança e esperança: o cristão é uma pessoa alegre e confiante que olha o futuro com serenidade sabendo de antemão que é Deus Amor quem lhe preside.
Vida eterna é a recompensa para os que vivem na fidelidade aos valores de Deus. Acreditamos, a partir da Ressurreição de Jesus Cristo, que a vida não acaba na morte e, por isso, não nos sentimos derrotados mas optimistas porque Deus reserva a vida eterna e verdadeira para os que estão “inscritos no livro da vida”.
Deus é Senhor da história e fará surgir um mundo novo. Para tal, nós, somos chamados a anunciar com a vida, com palavras e gestos, esse mundo que Deus sonha e projecta. A religião ou a fé não são ópio (Marx) mas, trampolim para nos comprometermos com a história. Que cada um se comprometa neste sonho de Deus e que um dia seja realidade para nós. Aí estará a nossa felicidade, a nossa vida, a nossa eternidade.
6 de fevereiro de 2009
23 de janeiro de 2009
O que ficou do Natal?
Passou o tempo de Natal
e o que é que ficou?
Será que ficou o nascido
ou esse Menino foi vencido
pela sociedade consumista
que enche a boca de paz e amor
mas isso é apenas fogo de vista?
Passou o Natal
e não digam que é Natal quando o homem quiser.
O tempo passou e com o que é que ficamos?
Oxalá tenhamos aberto as portas,
as do coração, é claro.
Se assim foi,
há-de continuar a ser Natal
porque estamos agraciados,
cheios da graça de Deus,
e essa leva-nos a ter
os mesmos sentimentos de Cristo.
inédito José António Carneiro
29/12/2008
e o que é que ficou?
Será que ficou o nascido
ou esse Menino foi vencido
pela sociedade consumista
que enche a boca de paz e amor
mas isso é apenas fogo de vista?
Passou o Natal
e não digam que é Natal quando o homem quiser.
O tempo passou e com o que é que ficamos?
Oxalá tenhamos aberto as portas,
as do coração, é claro.
Se assim foi,
há-de continuar a ser Natal
porque estamos agraciados,
cheios da graça de Deus,
e essa leva-nos a ter
os mesmos sentimentos de Cristo.
inédito José António Carneiro
29/12/2008
16 de outubro de 2008
Somos pontes...
30 de setembro de 2008
Reflexões marianas
Maria a Menina, a Mãe e a Mulher da Solidariedade
Maria de Nazaré é uma presença especial e inultrapassável da História da Salvação, esta história do enamoramento de Deus pela humanidade. Nela, Maria é escolhida, desde toda a eternidade, para ser a Mãe do Filho do Altíssimo e com isso ser Mãe do próprio Deus.
Maria age totalmente confiada no Senhor Deus: tudo em Maria depende da graça de Deus, ela que é a agraciada por excelência, concebida imaculada.
Nestas reflexões vamos olhar para Maria a menina, a mãe e a mulher da solidariedade. Ela foi realmente a primeira discípula de Jesus que veio ao mundo, no seu seio para salvar e passou fazendo o bem. Maria é exemplo de solidariedade para todos quantos a veneramos como a Mãe de Deus e a Nossa Mãe.
“Faça-se em mim segundo a vossa vontade”
A Senhora na Anunciação na Visitação e no Nascimento
“Faça-se em mim segundo a vossa vontade”. Este é o harpejo confiante que ecoa de Maria, a menina de Nazaré. Funciona como programa de toda a sua vida; o cumprimento da vontade de Deus é a sua missão primordial. Ela é escolhida desde toda a eternidade, vocacionada por Deus que fez dela o primeiro sacrário da terra a albergar a divindade.
O anúncio do Anjo à menina de Nazaré, no dizer de Bento XVI, marca o início de um novo tempo para o povo de Deus, pois é o cumprimento do Antigo Testamento com a abertura do caminho para o Reino de Deus à luz da Boa Nova, para toda a Humanidade. De facto, a Anunciação do anjo a Maria marca o início da Redenção humana. Com seu “sim”, Maria divide a história da humanidade em antes e depois, em velho e novo. Ao aceitar o projecto de Deus, Maria insere-se definitivamente na aliança de Deus com seu povo: através dela o Filho de Deus se fará homem e se fará presente e actuante em seu tempo e por toda a eternidade.
Maria, como sabemos, era uma jovem adolescente, simples e virgem, prometida a José, um carpinteiro descendente da casa de David. Perturbou-se ao receber do Arcanjo aquela estranha saudação: “Salve, cheia de graça”. Diz o Bispo S. Sofrónio a respeito de tal palavra, num Sermão sobre a Anunciação: “que pode haver de mais sublime do que esta alegria, ó Virgem Maria? […] Nada se pode comparar com a maravilha que em Vós se contempla, nada há que iguale a graça que possuís”. D. Hélder Câmara diz, sobre a graça que Maria recebe, numa poesia:
Gratia plena
Teu Filho nasceu
e continuas grávida
cheia de graça
cheia de Deus.
(D. Hélder Câmara, 1962. www.amaivos.com.br)
Maria é, de verdade, cheia de Deus e o Pai dependeu do seu consentimento para realizar o Mistério da nossa Redenção, por meio de seu Filho Jesus.
A Virgem Maria aceitou, demonstrando toda confiança no Senhor Deus e se fez Instrumento Divino nos acontecimentos proféticos. Mas teve de perguntar como seria possível. A pergunta não tem o intuito de contestar, mas de saber como seria feito, e o que deveria fazer. A jovem menina de Nazaré consegue perceber, nas palavras do mensageiro, a certeza da presença de Deus. Assim, abre o seu coração e seu corpo ao extraordinário, àquilo que assombrará a humanidade por gerações: seu corpo virgem gerará uma vida – mistério insondável de Deus, revelação suprema do Seu poder em tornar possível o impossível aos olhos humanos. Por isso, Maria responde ao chamamento com a mesma simplicidade da sua vida e fé: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa vontade” (Lc1,38).
Com esta resposta, Maria aceitou dignamente a honra de ser mãe do Filho de Deus, mas ao mesmo tempo também aceitou os sofrimentos, os sacrifícios que estavam ligados a esse sim, que tem a “marca do eterno e do definitivo” no dizer do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.
É extremamente interessante notar que, depois do Espírito Santo fecundar Maria, conforme as palavras do Anjo, Ela se coloque a caminho para ir visitar a sua prima, grávida na sua velhice.
Maria partiu apressadamente para a casa de Isabel (Lc 1, 39) e já sabia, do diálogo com o anjo do Senhor, que também Isabel esperava um filho (Lc 34-37). Devemos entender o gesto da jovem menina que visita a mais velha como um gesto de serviço. Mas, podemos imaginar aquelas duas mulheres sentadas à beira do fogo, descansando dos afazeres, a partilhar seus sentimentos, como que procurando entender o que lhes estava a acontecer, louvando a Deus que tudo pode, cúmplices de um mistério que só os seus corações e ventres eram capazes de entender. E Maria comprova assim a sua vida de solidariedade, de serviço, de amor: não está só no dar coisas materiais a verdadeira solidariedade. Maria não dá coisas, dá-se a si mesma, por companheira, por ouvinte. Isto é possível para quem confia totalmente no Senhor e para quem se sente pequeno, dependente e frágil. Comenta São Francisco de Sales: “Na Encarnação Maria humilha-se confessando-se a serva do Senhor... Porém, Maria não fica só na humilhação diante de Deus, pois sabe que a caridade e a humildade não são perfeitas se não passam de Deus ao próximo. Não é possível amar a Deus que não vemos, se não amamos os homens que vemos. Esta parte realiza-se na Visitação”.
Esta solidariedade da menina, da mãe e da mulher que é Maria concretiza-se também no nascimento de Jesus no presépio de Belém. Ao partir com José para Belém, para fazer o recenseamento que o imperador havia decretado terminam os dias e Jesus nasceu. Colocado na manjedoura, por não haver lugar na hospedaria – estranho destino de Deus que não tem lugar no mundo que vem salvar – envolveram-No em faixas. De repente, o céu encheu-se de luz – a Luz nasceu, veio ao mundo – e pastores começaram a aparecer para visitar aquele Menino.
Naqueles primeiros dias de vida de Jesus, muitos terão acorrido à gruta de Belém: pastores e reis, ricos e pobres, gente de lugares e costumes diferentes. E ali, junto ao Menino, uma figura silenciosa tudo via, tudo guardava, tudo agradecia: Maria, a jovem mãe, que a todos acolhia e com todos partilhava seu maior segredo – o filho de Deus!
Dividida entre os afazeres primeiros de uma mãe e as tantas pessoas que queriam ver o Menino, Maria ainda meditava: o que significava tudo aquilo? O que Deus lhe estava a dizer através do rumo daqueles acontecimentos? Numa hora chegavam simples pastores; noutra, reis do Oriente. Podemos imaginá-la ora serena, ora assustada. Ora cúmplice de José na descoberta dos desígnios de Deus para aquela família. Ora apoio do mesmo José aquando da difícil decisão de deixar a terra natal para viver no Egipto em nome da segurança do seu Filho. Está, pois, totalmente entregue às maravilhas de Deus, totalmente entregue aos sentimentos da maternidade. Totalmente entregue a seu Filho e Senhor.
A mãe do Menino soube ouvir profecias e oferecer sacrifícios como mandava a lei do seu povo. A mãe soube ser Mãe da humanidade inteira nos primeiros momentos da vida humana de Jesus: a todos permitiu chegar perto, a todos permitiu também ver as maravilhas. Intercessora desde o primeiro instante, abriu caminhos, deu acesso. Totalmente mulher, totalmente entregue à humanidade por seu Filho.
No entanto, o inesperado aconteceu: o Filho amado de Maria vai embora, parte para o mundo, para fazer as coisas de Seu Pai. Primeiro encontrará João, o primo que baptiza nas águas do rio Jordão e, confirmada a sua Missão, sairá pelas estradas da Palestina a pregar, a curar e a transformar a vida das pessoas que Lhe cruzam o caminho.
E a Mãe? A mãe ficará em casa, sem conhecer o seu destino, mas sabedora de Sua Missão. Acompanhará em silêncio a jornada de Seu Filho. Alegrar-se-á com a firmeza dos Seus passos. Será cúmplice das Suas palavras. No seu íntimo, a Mãe experimenta um misto de sentimentos: orgulho, medo, insegurança, consolação... No seu íntimo, descobre-se uma vez mais filha de Deus, fiel à vontade do Pai, serva do seu Senhor.
Jesus parte mas terá Maria como presença constante. A mãe ensinou-Lhe a estar no meio dos homens, ensinou-Lhe a ler, a escrever. A mãe contou-Lhe histórias sobre aquele povo e sua caminhada à procura da Terra Prometida e sobre a sua espera do Messias. A mãe falou-Lhe do sofrimento daquela gente humilde, ensinou-Lhe a compadecer-Se dela e a estar ao serviço, sempre.
Um e outro experimentarão o vazio e a saudade da presença física. Um e outro experimentarão a alegria de se saberem fazedores da vontade do Pai. Um e outro experimentarão a cumplicidade por entenderem o convite do seu Deus. Um e outro marcarão definitivamente a vida da humanidade. O Filho parte, mas deixa com a Mãe a certeza de que Ela o preparou para a Missão maior. A Mãe fica, mas o Filho leva no seu coração todas as palavras, todo o ensinamento, toda a lembrança dos dias de Nazaré que a Mãe dedicou ao Seu crescimento e formação. Um e outro unidos para sempre na construção do Reino de Deus junto à humanidade.
Esta é Maria, a Menina, a Mãe e a Mulher que vive a solidariedade em todos os momentos. Na sua escola, temos, hoje, muito a aprender.
“Não têm vinho”
Maria nas Bodas de Canã
A aceitação de Maria como intercessora da humanidade junto a Deus vem da sua própria participação na vida pública de Jesus. Em especial, o episódio das Bodas de Caná, nos mostra claramente como a Mãe de Jesus actua junto àqueles que dela necessitam. Ele é Mãe de clemência e de esperança, como cantávamos.
S. João começa por dar conhecimento da presença da Mãe de Jesus, do próprio Jesus e dos seus discípulos na festa do casamento. Eles eram os membros do povo judeu, fiéis à revelação e à lei mosaica. Eles eram os restos fiéis do povo eleito.
Maria, a dado passo, percebe que o vinho está para acabar e por isso, cheia de zelo e de prestimosa caridade, observa a Jesus: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). Para evitar que os anfitriões passem vergonha diante dos convidados, pede a seu Filho o milagre. Veladamente, mas certa de que Ele o é capaz. Este pedido de Maria a Jesus traduz a sua relação maternal com a humanidade. Amor materno que antevê a aflição dos filhos, que procura diminuir-lhes o sofrimento, que quer desde sempre dar-lhes o que de melhor puder dar. Diz o Beato José Maria Escrivã: “É próprio de uma mulher [mãe] e de uma solícita dona de casa notar um descuido, prestar atenção a esses pequenos detalhes que tornam agradável a existência humana: e foi assim que Maria se comportou”. É assim que Maria intercede junto a Deus pela humanidade, como se dissesse constantemente: “eles não têm mais vinho”, sugerindo ao Senhor que resgate aos homens e mulheres a alegria perdida no meio dos seus sofrimentos e os conduza à felicidade e à salvação.
A resposta de Jesus à sua Mãe, à primeira vista, poderia parecer dura mas só àqueles que não possuem uma verdadeira compreensão da Escritura. Disse Ele: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora”. (Jo 2, 4).
Ora, examinando-se melhor a resposta de Jesus, podemos ver como ela é, de facto, elogiosa para Maria. Em primeiro lugar, convém lembrar que Ele a chamou de “mulher”, também no Calvário, dizendo do alto da Cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26), como veremos adiante.
Chamando-a de “mulher”, Ele fala como Deus fala às suas criaturas. Mas, ainda mais importante do que isso, Jesus chama sua Mãe de “mulher”, para que todos reconheçam nela aquela “mulher” que profetizou no Génesis, quando amaldiçoou a serpente dizendo: “Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar”(Gn 3, 15) ou então a “mulher” que esmagou a cabeça da serpente, como relata o Apocalipse, ao consentir o nascimento do Menino, o Filho de Deus. E assim como de Cristo se disse bem propriamente “Eis o Homem” (Ecce Homo), assim também é próprio dizer da Virgem Maria Mãe de Deus “Eis a Mulher” (Ecce Mulier), aquela que possui as duas perfeições mais importantes da “Mulher”: ser Mãe e ser Virgem.
Depois, voltando àquela festa de Caná, Maria irá advertir os serventes: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). E é ensinando àqueles homens que fiquem atentos ao movimento de seu Filho que Maria irá tornar-se também intercessora de Deus junto à humanidade. O milagre não aconteceria se os serventes não ouvissem e obedecessem ao que Jesus lhes indicaria adiante. Por isso, era necessário que um canal de comunicação se abrisse entre a divindade e a humanidade. E, em Caná, Maria foi essa via comunicadora de vida nova que age movida por uma “caridade preventiva”.
Se Maria pediu o milagre por caridade material, Ela imediatamente dá aos servos do noivo um conselho que serve para todos nós: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Por este motivo também, não é sem razão que a Igreja a chama de Mãe do Bom Conselho. Não só ela foi Mãe do Conselho de Deus Altíssimo, como é Mãe que continuamente só nos comunica bons conselhos e aspirações.
Vendo nossas aflições e respondendo com o pedido de que façamos o que Jesus nos disser, Maria se torna intercessora de Deus junto da humanidade. Essa frase afirmativa aproxima o homem do desejo de Deus de tê-lo perto do mistério divino. Tal como em Caná, o milagre não poderá acontecer se não tivermos olhos e ouvidos abertos para fazer o que o Senhor nos diz. Com Deus, participamos do milagre de fazer vida nova no mundo e é Maria quem nos conduz nesse mistério de amor e construção.
Esta Mãe solícita e atenta, presente e actuante na vida dos homens, que é Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, foi ornada com os versos do poeta Dante, na sua Divina Comedia:
Mulher, és tão grande e tanto vales
que, quem graça e a ti não recorre,
seu desejo é o de voar sem ter asas.
A tua benignidade não só socorre
a quem pede, mas muitas vezes,
generosamente, ao pedir, precede.
Em ti, misericórdia, em ti, piedade,
em ti, magnificência, em ti se reúne
tudo quanto na criatura há de bondade!
(Dante Allighieri, Divina Comedia, Paradiso, XXXIII,13-21)
“Eis o teu filho”
As dores de uma Mãe
A solidariedade de Maria adquire a expressão mais dramática na “hora” dramática de Jesus: a morte na cruz. Aos pés da cruz, vislumbramos a Senhora trespassada pela dor. Mas, toda a vida de Maria é atravessada pela dor e, por isso, a veneramos e louvamos na terra como Mãe das Dores. É um título que nós dificilmente daríamos às nossas mães, embora todas experimentem o sofrimento e a dor. Mas, em Maria, o sofrimento foi um componente da sua vida, da compaixão com o seu Filho Jesus, o Homem das dores (Is 53).
O sofrimento de Maria, com e por Jesus, começou muito cedo. Logo no nascimento de Jesus: não encontraram hospedaria, nem acolhida. E São José, teve que procurar, nas cercanias e arredores de Belém, uma gruta para abrigo. Coube ao Filho de Deus feito homem nascer num lugar onde os animais eram recolhidos durante a noite. É claro que o coração da Mãe deve ter sofrido muito com isso.
Algum tempo depois, quando Jesus teria 2 anos de idade, Herodes empreende uma perseguição feroz contra Ele. Por ocasião da visita dos Reis Magos, sabendo que Jesus era o Messias, decide matá-lO. Maria e José fogem para o distante e desconhecido Egipto, terra da qual nem sequer conheciam a língua, levando consigo o Menino Jesus. Uma viagem longa, difícil, sofrida. Maria empreende-a por amor e pela segurança do seu Filho.
Aos 12 anos, Jesus sobe a Jerusalém para a festa da Páscoa, na companhia dos pais. Ao invés de voltar com eles, fica no templo. O sofrimento de Maria, diante da perspectiva de tê-lO perdido, lembra-nos a profecia de Simeão: "Uma espada de dor vai atravessar o teu coração, por causa desse Filho" (cf. Lc 2,34-35). Essa espada começava a sua trajectória, até ao mais íntimo do coração da Mãe. Ao terceiro dia, finalmente, encontram-nO. No meio dos doutores, discutindo, ensinando, perguntando, Jesus exercia a função de quem estava "na casa do próprio Pai".
A vida oculta de Jesus em Nazaré foi também, de certa maneira, um sofrimento para Maria. Se Ele era o Messias, como entender esse silêncio de quase 30 anos? Mas, um certo dia, Jesus anuncia-lhe a sua partida, para realizar a missão pela qual viera ao mundo: pregar o Evangelho. Ela deve ter aderido a essa missão imediatamente. E acompanhou seu Filho, desde a primeira pregação até à última palavra no alto da Cruz.
Maria, certamente, alegrou-se muito quando ouviu os ensinamentos de Jesus. No entanto, sofre ao perceber a repulsa à mais bela proposta de felicidade, hoje consubstanciada nos Evangelhos. Por mais que a linguagem do Filho tenha sido extraordinariamente bela e transcendente e, ao mesmo tempo, humanamente acessível, sempre havia quem se lhe opusesse. As autoridades, os fariseus, os chefes, os escribas, os doutores, procuravam constantemente alguma coisa para contradizê-lO e acusá-lO. Possivelmente, já sabiam que Ele era o Messias e não se contentavam apenas em persegui-lO, propondo-Lhe armadilhas, quando Ele pregava. Começaram a conspirar para matá-lO.
Maria vivia na ansiosa expectativa de quando e como isso ocorreria, até que Jesus se dirigiu ao Horto das Oliveiras. Ela deve ter acompanhado, de longe, seu Filho que sofria, antevendo a própria Paixão e Morte, em terrível agonia. Nessa mesma hora, Jesus é preso e levado ao Sinédrio. Condenado por esse júri forjado, foi logo levado à flagelação e coroação de espinhos.
Foi grande o sofrimento de Maria, ao ver o sangue de Jesus verter sobre a terra, a escorrer pelos lajedos daqueles lugares tétricos, onde eram supliciados os réus, ou os inocentes, injustiçados como Ele. Maria recolhe esse sangue, herdado dela, mas que, unido à Pessoa do Pai pelo Filho, se torna sangue divino e redentor.
Maria assiste, na manhã seguinte, à triste cena da condenação oficial de Jesus por Pilatos, que lava as mãos em sinal de covarde omissão.
Logo depois, começa a triste marcha para o Monte Calvário, a trajectória da Via Crucis, a via do sofrimento último. Nas curvas desse caminho, a Mãe deve ter encontrado o Filho. Por breves trocas de olhares, Ela O conforta, assegurando-lhe que está com Ele. Embora sem levar a cruz ao ombro, como o Cireneu, Ela carrega com Ele todo o seu sofrimento, até à consumação pela morte. Mas, também o Filho a conforta porque Ele vai “renovar todas as coisas” (Ap)
Durante a crucifixão, cada pancada, pregando com cravos as mãos e os pés do Filho, era um golpe no coração da própria Mãe. A agonia durou três horas. Jesus, levantado na cruz, pendente entre o céu e a terra, com os braços abertos como um arco-íris de paz sobre o mundo, exclamou: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23,34). Nessa cena, São João descreve Maria de pé, junto à Cruz, jamais deixando-se abater, nem pelos mais insuportáveis sofrimentos. Jesus, já quase sufocado pelo sofrimento e pela dificuldade de respirar, ainda lhe confia João como filho e, na pessoa do evangelista, essa filiação foi estendida a todos nós. "Mulher, eis o teu filho” (Jo 19). Palavra solene, carregada de dor mas de total confiança. Jesus sabe, em todos os momentos, a fé da Sua Mãe. Ainda que desfeita pela morte do Filho, Maria, de pé, como que ressuscitada, confia na promessa: de ti sairá um rebento que será o Salvador.
De facto, a dor da perda do Filho feriu brutalmente o coração de Maria. Porém, a fé que nela habitava, fazia-a crer que a morte de Jesus não seria o fim e acreditava que Deus teria uma resposta para tudo aquilo. Cristo Ressuscitado é a resposta esperada, a confirmação da certeza há muito sabida no coração daquela que nunca deixou de acreditar e que é bem aventurada por todas as gerações.
Santo Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, leva-nos a contemplar o encontro entre a Mãe e o Filho Ressuscitado. Santo Inácio chama a atenção para a relação dos dois e a sua intensidade, deixando claro que é de se esperar que entre aqueles que tinham tal intimidade e que viviam envolvidos em tal amor, que a primeira aparição de Jesus após Sua ressurreição – ainda que não relatada nos Evangelhos – teria sido à sua Mãe. E é razoável e até inteligente aceitar essa ideia. Não só por Jesus ter sido um bom filho e desejar terminar com a dor da sua mãe, mas pelo mérito próprio de Maria: é justo que aquela que primeiro aceitou fazer a vontade de Deus e que com seu “sim” mudou a história humana fosse a primeira portadora da novidade – a vida venceu a morte!
Ninguém sabe como foi aquele encontro. Ninguém sabe o seu conteúdo. Podemos apenas crer nele e vê-lo com os olhos da fé e da imaginação. É uma contemplação riquíssima: Mãe e Filho livres da dor e do sofrimento, perdidos no tempo a conversar sobre todos os acontecimentos, cheios de alegria, consolo e glória.
A certeza da ressurreição de Cristo não ficou apenas no encontro entre Mãe e Filho. Maria experimenta primeiro a glória de Deus e logo sai em missão: tendo visto o Filho vivo é também portadora da maior notícia já ouvida pelos homens – Jesus está vivo e é preciso trabalhar por Ele dando testemunho da sua ressurreição.
Por isso, naqueles primeiros momentos após a ressurreição de Jesus, Maria vai-se unir aos apóstolos e será de fundamental importância junto do grupo dos amigos de Jesus. Mãe do Mestre e, por consequência, Mãe daqueles homens confusos pela transformação ocorrida em suas vidas, Maria será quem primeiro conduzirá o grupo, fazendo-o compreender a mensagem daqueles dias. Não é por acaso que estará com os discípulos aquando da vinda do Espírito Santo no Pentecostes. O impacto da ressurreição de Jesus na vida da Sua mãe produz um efeito cicatrizante naquele coração ferido e trespassado. Maria será, então, capaz de testemunhar vivamente a experiência daquele que viveu a vitória sobre a morte e, assim, torna-se Mãe da humanidade.
Ela compreendeu o mistério que cercou a ressurreição de Jesus e nos ensina a compreendê-Lo, mostrando a actualidade daquele acontecimento perdido num túmulo de Jerusalém e que continua hoje a acontecer, silenciosa e gloriosamente, em cada vida que renasce, não da morte física, mas da morte do pecado.
Por tudo, a Mãe das Dores, a Senhora da Piedade, é Mãe da Confiança no Ressuscitado. Em seu coração, Maria confia e tem fé: Ela sabe que depressa virá o terceiro dia e como tal permanece fiel até ao fim, até ao extremo. "Feliz aquela que acreditou em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor!" (Lc 1,45).
“Em Maria a Igreja alcançou a plenitude”
Maria Mãe da Igreja no Pentecostes
Maria é hoje venerada por nós como Mãe da Igreja. Nela, a Igreja alcançou a máxima plenitude porque Ela é Mãe d’Aquele que trouxe plenitude à vida e que é a Cabeça da Igreja, da qual todos somos membros.
Maria é toda relativa a Cristo e, a partir de Cristo, relativa à Igreja. “Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Ora, Jesus é o centro do Cristianismo, Maria é central, por ser a pessoa que está mais próxima deste centro. Neste centro devemos entender Maria inserida no mistério salvífico, na economia da Salvação. Maria é a pessoa que Cristo mais ‘incluiu’ na sua obra redentora. Assim se expressa Santo Arquelau, Bispo de Cascar e Diodoris, a Mani, em 277: “Se, como dizes, Cristo não nasceu, também não sofreu, pois o sofrer é impossível a quem não nasceu. Se Ele sofreu, é necessário fazer desaparecer até o nome da Cruz. Suprimindo-se a Cruz, Jesus não ressuscitou dos mortos. Se Jesus não ressuscitou dos mortos, ninguém ressuscitará. Se ninguém ressuscitará, não haverá julgamento, pois é certo que se eu não ressuscito, não serei julgado. Se não deve haver julgamento, é em vão que se há de observar os mandamentos de Deus; não há como nos obrigar a isso: ‘comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’. Todas estas coisas se encadeiam para aquele que nega que Jesus tenha nascido de Maria. Se, ao contrário, confessas o nascimento de Cristo de Maria, a Paixão o segue necessariamente; a Ressurreição à Paixão; o Julgamento à Ressurreição; e todos os preceitos da Escrituras estarão salvos. Não se trata, portanto, de uma questão vã. Ela contém muitas coisas nesta única palavra (Theotokos). Como toda a Lei e os Profetas estão contidos no “duplo preceito” [amor a Deus e ao próximo], assim também toda nossa esperança está suspensa no parto da bem-aventurada Maria”.
Depois do evento da morte e da ressurreição, a Mãe solícita e solidária permanece com o grupo dos discípulos e como que o fortalece. De facto, vemos Maria no Cenáculo, no Pentecostes recebendo os dons do Espírito Santo que desceram sobre todos, em forma de línguas de fogo. Desse modo, nascia a Igreja, com a sua vocação apostólica e missionária. E assim Maria foi alçada ao posto de Mãe da Igreja.
Maria está presente nos primórdios da Igreja e ainda hoje a anima, orienta e inspira a sua caminhada. Tal como uma mãe a seus filhos é a grande companheira que segue junto com o povo fiel, paralela a seus passos, segurando as mãos, oferecendo conforto e conselho.
Maria é a mulher que está ligada à vontade salvífica de Deus. Mas a sua riqueza pessoal transcende a sua singularidade. A mãe de Jesus manifesta o amor do Pai, que se dignou assumir o homem exaltando-o por pura graça, pela encarnação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria.
Segundo o desígnio divino, Maria forma parte da revelação de Deus à humanidade, unindo, deste modo, a participação activa da Igreja e do homem no acontecimento transcendente da realização da salvação. Maria está inserida no diálogo entre Deus e o homem. A mãe de Jesus aparece entre a aliança do Sinai e a nova e eterna aliança, no tempo em que se desenvolve a pedagogia divina, segundo a qual, a comunicação de Deus ao homem se faz gradualmente.
A sua maternidade sendo um dom, resultado de uma eleição divina, significa que Deus estabelece com Ela uma relação que pode ser descrita em termos de graça. Trata-se da graça da maternidade que afecta a Mãe de Deus (Theotokos), como uma realização natural do seu ser mulher. Desde a sua concepção, Maria está totalmente ligada a Deus, que torna possível que todo o ser desta Mulher se oriente para a geração da Palavra (Verbum, Logos) feita carne. Ela foi criada para esta missão. A obediência é uma manifestação da fé e entende-se como o consentimento e a realização da vontade salvífica de Deus na própria vida; a esperança é a entrega confiada, apesar da obscuridade e da falta de compreensão na vivência dos diferentes acontecimentos, pois Deus sempre cumpre a sua promessa de salvação; a caridade é a característica da missão de Maria relativamente a Deus e ao seu Filho, e a respeito de todos os homens.
A salvação é obra de Cristo, pelo que Maria não o pode substituir. A sua contribuição é de fé, de obediência, de oração, de sofrimento durante a sua vida terrena, e agora, na sua vida celeste, de intercessão materna, que se une à do seu Filho. E isto em ordem a todos os eleitos, como refere a Lumen Gentium: «Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada» (62).
Cristo é o caminho obrigatório, a porta para acolher a salvação (Jo 14, 6). O contributo de Maria para a história da salvação coexiste com a única mediação de Cristo, sem a obscurecer nem limitar, mas manifestando o seu valor e o seu poder. Como afirma o Concílio Vaticano II, a função salvífica da Virgem é cristocêntrica, deriva de Cristo e conduz a Ele, «deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece» (LG, 60).
A experiência de Deus, por parte de Maria, tem como fundamento a sua virgindade, a sua disponibilidade exclusiva para Deus. Trata-se de uma experiência de Deus baseada no despojamento prévio da experiência humana fundamental. Se Maria deu o seu “sim” incondicional à encarnação e a todas as suas consequências — entre as quais se encontra como a mais importante a cruz —, fê-lo em nome de todo o ‘género humano’, dos pecadores, dos que, enquanto tal, recusam a encarnação: «Veio ao que era seu e os seus não o receberam» (Jo 1, 11).
Maria é solidária com todos, precisamente porque foi concebida imaculada e por isso goza de uma infinita capacidade de doação e de amor. Mas se Maria dá o seu sim agradecido ao Salvador que vem, não o faz de modo algum para si mesma, mas, em princípio, por todos aqueles que têm necessidade da “salvação de Israel”. O despojamento de Maria, do qual o seu sim é consequência natural, permite-lhe experimentar o amor misericordioso de Deus, o que nela “fez maravilhas” e cuja “misericórdia se estende de geração em geração”. Maria viveu a condição de humildade que o Senhor exaltará. Ela foi a humilde escrava de Nazaré.
Maria representa toda a nova humanidade pois ela é não só o seio donde nasce o Verbo encarnado, mas também a primeira pessoa da nova criação e, portanto, seio materno do qual brotam os homens e mulheres que, como corpo de Cristo, constituem o novo Povo de Deus a caminho da Salvação.
Maria é Mãe da Igreja porque Mãe de Cristo e Mãe de Deus. Que sejamos alcançados pela sua maternal intercessão.
Maria de Nazaré é uma presença especial e inultrapassável da História da Salvação, esta história do enamoramento de Deus pela humanidade. Nela, Maria é escolhida, desde toda a eternidade, para ser a Mãe do Filho do Altíssimo e com isso ser Mãe do próprio Deus.
Maria age totalmente confiada no Senhor Deus: tudo em Maria depende da graça de Deus, ela que é a agraciada por excelência, concebida imaculada.
Nestas reflexões vamos olhar para Maria a menina, a mãe e a mulher da solidariedade. Ela foi realmente a primeira discípula de Jesus que veio ao mundo, no seu seio para salvar e passou fazendo o bem. Maria é exemplo de solidariedade para todos quantos a veneramos como a Mãe de Deus e a Nossa Mãe.
“Faça-se em mim segundo a vossa vontade”
A Senhora na Anunciação na Visitação e no Nascimento
“Faça-se em mim segundo a vossa vontade”. Este é o harpejo confiante que ecoa de Maria, a menina de Nazaré. Funciona como programa de toda a sua vida; o cumprimento da vontade de Deus é a sua missão primordial. Ela é escolhida desde toda a eternidade, vocacionada por Deus que fez dela o primeiro sacrário da terra a albergar a divindade.
O anúncio do Anjo à menina de Nazaré, no dizer de Bento XVI, marca o início de um novo tempo para o povo de Deus, pois é o cumprimento do Antigo Testamento com a abertura do caminho para o Reino de Deus à luz da Boa Nova, para toda a Humanidade. De facto, a Anunciação do anjo a Maria marca o início da Redenção humana. Com seu “sim”, Maria divide a história da humanidade em antes e depois, em velho e novo. Ao aceitar o projecto de Deus, Maria insere-se definitivamente na aliança de Deus com seu povo: através dela o Filho de Deus se fará homem e se fará presente e actuante em seu tempo e por toda a eternidade.
Maria, como sabemos, era uma jovem adolescente, simples e virgem, prometida a José, um carpinteiro descendente da casa de David. Perturbou-se ao receber do Arcanjo aquela estranha saudação: “Salve, cheia de graça”. Diz o Bispo S. Sofrónio a respeito de tal palavra, num Sermão sobre a Anunciação: “que pode haver de mais sublime do que esta alegria, ó Virgem Maria? […] Nada se pode comparar com a maravilha que em Vós se contempla, nada há que iguale a graça que possuís”. D. Hélder Câmara diz, sobre a graça que Maria recebe, numa poesia:
Gratia plena
Teu Filho nasceu
e continuas grávida
cheia de graça
cheia de Deus.
(D. Hélder Câmara, 1962. www.amaivos.com.br)
Maria é, de verdade, cheia de Deus e o Pai dependeu do seu consentimento para realizar o Mistério da nossa Redenção, por meio de seu Filho Jesus.
A Virgem Maria aceitou, demonstrando toda confiança no Senhor Deus e se fez Instrumento Divino nos acontecimentos proféticos. Mas teve de perguntar como seria possível. A pergunta não tem o intuito de contestar, mas de saber como seria feito, e o que deveria fazer. A jovem menina de Nazaré consegue perceber, nas palavras do mensageiro, a certeza da presença de Deus. Assim, abre o seu coração e seu corpo ao extraordinário, àquilo que assombrará a humanidade por gerações: seu corpo virgem gerará uma vida – mistério insondável de Deus, revelação suprema do Seu poder em tornar possível o impossível aos olhos humanos. Por isso, Maria responde ao chamamento com a mesma simplicidade da sua vida e fé: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa vontade” (Lc1,38).
Com esta resposta, Maria aceitou dignamente a honra de ser mãe do Filho de Deus, mas ao mesmo tempo também aceitou os sofrimentos, os sacrifícios que estavam ligados a esse sim, que tem a “marca do eterno e do definitivo” no dizer do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.
É extremamente interessante notar que, depois do Espírito Santo fecundar Maria, conforme as palavras do Anjo, Ela se coloque a caminho para ir visitar a sua prima, grávida na sua velhice.
Maria partiu apressadamente para a casa de Isabel (Lc 1, 39) e já sabia, do diálogo com o anjo do Senhor, que também Isabel esperava um filho (Lc 34-37). Devemos entender o gesto da jovem menina que visita a mais velha como um gesto de serviço. Mas, podemos imaginar aquelas duas mulheres sentadas à beira do fogo, descansando dos afazeres, a partilhar seus sentimentos, como que procurando entender o que lhes estava a acontecer, louvando a Deus que tudo pode, cúmplices de um mistério que só os seus corações e ventres eram capazes de entender. E Maria comprova assim a sua vida de solidariedade, de serviço, de amor: não está só no dar coisas materiais a verdadeira solidariedade. Maria não dá coisas, dá-se a si mesma, por companheira, por ouvinte. Isto é possível para quem confia totalmente no Senhor e para quem se sente pequeno, dependente e frágil. Comenta São Francisco de Sales: “Na Encarnação Maria humilha-se confessando-se a serva do Senhor... Porém, Maria não fica só na humilhação diante de Deus, pois sabe que a caridade e a humildade não são perfeitas se não passam de Deus ao próximo. Não é possível amar a Deus que não vemos, se não amamos os homens que vemos. Esta parte realiza-se na Visitação”.
Esta solidariedade da menina, da mãe e da mulher que é Maria concretiza-se também no nascimento de Jesus no presépio de Belém. Ao partir com José para Belém, para fazer o recenseamento que o imperador havia decretado terminam os dias e Jesus nasceu. Colocado na manjedoura, por não haver lugar na hospedaria – estranho destino de Deus que não tem lugar no mundo que vem salvar – envolveram-No em faixas. De repente, o céu encheu-se de luz – a Luz nasceu, veio ao mundo – e pastores começaram a aparecer para visitar aquele Menino.
Naqueles primeiros dias de vida de Jesus, muitos terão acorrido à gruta de Belém: pastores e reis, ricos e pobres, gente de lugares e costumes diferentes. E ali, junto ao Menino, uma figura silenciosa tudo via, tudo guardava, tudo agradecia: Maria, a jovem mãe, que a todos acolhia e com todos partilhava seu maior segredo – o filho de Deus!
Dividida entre os afazeres primeiros de uma mãe e as tantas pessoas que queriam ver o Menino, Maria ainda meditava: o que significava tudo aquilo? O que Deus lhe estava a dizer através do rumo daqueles acontecimentos? Numa hora chegavam simples pastores; noutra, reis do Oriente. Podemos imaginá-la ora serena, ora assustada. Ora cúmplice de José na descoberta dos desígnios de Deus para aquela família. Ora apoio do mesmo José aquando da difícil decisão de deixar a terra natal para viver no Egipto em nome da segurança do seu Filho. Está, pois, totalmente entregue às maravilhas de Deus, totalmente entregue aos sentimentos da maternidade. Totalmente entregue a seu Filho e Senhor.
A mãe do Menino soube ouvir profecias e oferecer sacrifícios como mandava a lei do seu povo. A mãe soube ser Mãe da humanidade inteira nos primeiros momentos da vida humana de Jesus: a todos permitiu chegar perto, a todos permitiu também ver as maravilhas. Intercessora desde o primeiro instante, abriu caminhos, deu acesso. Totalmente mulher, totalmente entregue à humanidade por seu Filho.
No entanto, o inesperado aconteceu: o Filho amado de Maria vai embora, parte para o mundo, para fazer as coisas de Seu Pai. Primeiro encontrará João, o primo que baptiza nas águas do rio Jordão e, confirmada a sua Missão, sairá pelas estradas da Palestina a pregar, a curar e a transformar a vida das pessoas que Lhe cruzam o caminho.
E a Mãe? A mãe ficará em casa, sem conhecer o seu destino, mas sabedora de Sua Missão. Acompanhará em silêncio a jornada de Seu Filho. Alegrar-se-á com a firmeza dos Seus passos. Será cúmplice das Suas palavras. No seu íntimo, a Mãe experimenta um misto de sentimentos: orgulho, medo, insegurança, consolação... No seu íntimo, descobre-se uma vez mais filha de Deus, fiel à vontade do Pai, serva do seu Senhor.
Jesus parte mas terá Maria como presença constante. A mãe ensinou-Lhe a estar no meio dos homens, ensinou-Lhe a ler, a escrever. A mãe contou-Lhe histórias sobre aquele povo e sua caminhada à procura da Terra Prometida e sobre a sua espera do Messias. A mãe falou-Lhe do sofrimento daquela gente humilde, ensinou-Lhe a compadecer-Se dela e a estar ao serviço, sempre.
Um e outro experimentarão o vazio e a saudade da presença física. Um e outro experimentarão a alegria de se saberem fazedores da vontade do Pai. Um e outro experimentarão a cumplicidade por entenderem o convite do seu Deus. Um e outro marcarão definitivamente a vida da humanidade. O Filho parte, mas deixa com a Mãe a certeza de que Ela o preparou para a Missão maior. A Mãe fica, mas o Filho leva no seu coração todas as palavras, todo o ensinamento, toda a lembrança dos dias de Nazaré que a Mãe dedicou ao Seu crescimento e formação. Um e outro unidos para sempre na construção do Reino de Deus junto à humanidade.
Esta é Maria, a Menina, a Mãe e a Mulher que vive a solidariedade em todos os momentos. Na sua escola, temos, hoje, muito a aprender.
“Não têm vinho”
Maria nas Bodas de Canã
A aceitação de Maria como intercessora da humanidade junto a Deus vem da sua própria participação na vida pública de Jesus. Em especial, o episódio das Bodas de Caná, nos mostra claramente como a Mãe de Jesus actua junto àqueles que dela necessitam. Ele é Mãe de clemência e de esperança, como cantávamos.
S. João começa por dar conhecimento da presença da Mãe de Jesus, do próprio Jesus e dos seus discípulos na festa do casamento. Eles eram os membros do povo judeu, fiéis à revelação e à lei mosaica. Eles eram os restos fiéis do povo eleito.
Maria, a dado passo, percebe que o vinho está para acabar e por isso, cheia de zelo e de prestimosa caridade, observa a Jesus: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). Para evitar que os anfitriões passem vergonha diante dos convidados, pede a seu Filho o milagre. Veladamente, mas certa de que Ele o é capaz. Este pedido de Maria a Jesus traduz a sua relação maternal com a humanidade. Amor materno que antevê a aflição dos filhos, que procura diminuir-lhes o sofrimento, que quer desde sempre dar-lhes o que de melhor puder dar. Diz o Beato José Maria Escrivã: “É próprio de uma mulher [mãe] e de uma solícita dona de casa notar um descuido, prestar atenção a esses pequenos detalhes que tornam agradável a existência humana: e foi assim que Maria se comportou”. É assim que Maria intercede junto a Deus pela humanidade, como se dissesse constantemente: “eles não têm mais vinho”, sugerindo ao Senhor que resgate aos homens e mulheres a alegria perdida no meio dos seus sofrimentos e os conduza à felicidade e à salvação.
A resposta de Jesus à sua Mãe, à primeira vista, poderia parecer dura mas só àqueles que não possuem uma verdadeira compreensão da Escritura. Disse Ele: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora”. (Jo 2, 4).
Ora, examinando-se melhor a resposta de Jesus, podemos ver como ela é, de facto, elogiosa para Maria. Em primeiro lugar, convém lembrar que Ele a chamou de “mulher”, também no Calvário, dizendo do alto da Cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26), como veremos adiante.
Chamando-a de “mulher”, Ele fala como Deus fala às suas criaturas. Mas, ainda mais importante do que isso, Jesus chama sua Mãe de “mulher”, para que todos reconheçam nela aquela “mulher” que profetizou no Génesis, quando amaldiçoou a serpente dizendo: “Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar”(Gn 3, 15) ou então a “mulher” que esmagou a cabeça da serpente, como relata o Apocalipse, ao consentir o nascimento do Menino, o Filho de Deus. E assim como de Cristo se disse bem propriamente “Eis o Homem” (Ecce Homo), assim também é próprio dizer da Virgem Maria Mãe de Deus “Eis a Mulher” (Ecce Mulier), aquela que possui as duas perfeições mais importantes da “Mulher”: ser Mãe e ser Virgem.
Depois, voltando àquela festa de Caná, Maria irá advertir os serventes: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). E é ensinando àqueles homens que fiquem atentos ao movimento de seu Filho que Maria irá tornar-se também intercessora de Deus junto à humanidade. O milagre não aconteceria se os serventes não ouvissem e obedecessem ao que Jesus lhes indicaria adiante. Por isso, era necessário que um canal de comunicação se abrisse entre a divindade e a humanidade. E, em Caná, Maria foi essa via comunicadora de vida nova que age movida por uma “caridade preventiva”.
Se Maria pediu o milagre por caridade material, Ela imediatamente dá aos servos do noivo um conselho que serve para todos nós: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Por este motivo também, não é sem razão que a Igreja a chama de Mãe do Bom Conselho. Não só ela foi Mãe do Conselho de Deus Altíssimo, como é Mãe que continuamente só nos comunica bons conselhos e aspirações.
Vendo nossas aflições e respondendo com o pedido de que façamos o que Jesus nos disser, Maria se torna intercessora de Deus junto da humanidade. Essa frase afirmativa aproxima o homem do desejo de Deus de tê-lo perto do mistério divino. Tal como em Caná, o milagre não poderá acontecer se não tivermos olhos e ouvidos abertos para fazer o que o Senhor nos diz. Com Deus, participamos do milagre de fazer vida nova no mundo e é Maria quem nos conduz nesse mistério de amor e construção.
Esta Mãe solícita e atenta, presente e actuante na vida dos homens, que é Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, foi ornada com os versos do poeta Dante, na sua Divina Comedia:
Mulher, és tão grande e tanto vales
que, quem graça e a ti não recorre,
seu desejo é o de voar sem ter asas.
A tua benignidade não só socorre
a quem pede, mas muitas vezes,
generosamente, ao pedir, precede.
Em ti, misericórdia, em ti, piedade,
em ti, magnificência, em ti se reúne
tudo quanto na criatura há de bondade!
(Dante Allighieri, Divina Comedia, Paradiso, XXXIII,13-21)
“Eis o teu filho”
As dores de uma Mãe
A solidariedade de Maria adquire a expressão mais dramática na “hora” dramática de Jesus: a morte na cruz. Aos pés da cruz, vislumbramos a Senhora trespassada pela dor. Mas, toda a vida de Maria é atravessada pela dor e, por isso, a veneramos e louvamos na terra como Mãe das Dores. É um título que nós dificilmente daríamos às nossas mães, embora todas experimentem o sofrimento e a dor. Mas, em Maria, o sofrimento foi um componente da sua vida, da compaixão com o seu Filho Jesus, o Homem das dores (Is 53).
O sofrimento de Maria, com e por Jesus, começou muito cedo. Logo no nascimento de Jesus: não encontraram hospedaria, nem acolhida. E São José, teve que procurar, nas cercanias e arredores de Belém, uma gruta para abrigo. Coube ao Filho de Deus feito homem nascer num lugar onde os animais eram recolhidos durante a noite. É claro que o coração da Mãe deve ter sofrido muito com isso.
Algum tempo depois, quando Jesus teria 2 anos de idade, Herodes empreende uma perseguição feroz contra Ele. Por ocasião da visita dos Reis Magos, sabendo que Jesus era o Messias, decide matá-lO. Maria e José fogem para o distante e desconhecido Egipto, terra da qual nem sequer conheciam a língua, levando consigo o Menino Jesus. Uma viagem longa, difícil, sofrida. Maria empreende-a por amor e pela segurança do seu Filho.
Aos 12 anos, Jesus sobe a Jerusalém para a festa da Páscoa, na companhia dos pais. Ao invés de voltar com eles, fica no templo. O sofrimento de Maria, diante da perspectiva de tê-lO perdido, lembra-nos a profecia de Simeão: "Uma espada de dor vai atravessar o teu coração, por causa desse Filho" (cf. Lc 2,34-35). Essa espada começava a sua trajectória, até ao mais íntimo do coração da Mãe. Ao terceiro dia, finalmente, encontram-nO. No meio dos doutores, discutindo, ensinando, perguntando, Jesus exercia a função de quem estava "na casa do próprio Pai".
A vida oculta de Jesus em Nazaré foi também, de certa maneira, um sofrimento para Maria. Se Ele era o Messias, como entender esse silêncio de quase 30 anos? Mas, um certo dia, Jesus anuncia-lhe a sua partida, para realizar a missão pela qual viera ao mundo: pregar o Evangelho. Ela deve ter aderido a essa missão imediatamente. E acompanhou seu Filho, desde a primeira pregação até à última palavra no alto da Cruz.
Maria, certamente, alegrou-se muito quando ouviu os ensinamentos de Jesus. No entanto, sofre ao perceber a repulsa à mais bela proposta de felicidade, hoje consubstanciada nos Evangelhos. Por mais que a linguagem do Filho tenha sido extraordinariamente bela e transcendente e, ao mesmo tempo, humanamente acessível, sempre havia quem se lhe opusesse. As autoridades, os fariseus, os chefes, os escribas, os doutores, procuravam constantemente alguma coisa para contradizê-lO e acusá-lO. Possivelmente, já sabiam que Ele era o Messias e não se contentavam apenas em persegui-lO, propondo-Lhe armadilhas, quando Ele pregava. Começaram a conspirar para matá-lO.
Maria vivia na ansiosa expectativa de quando e como isso ocorreria, até que Jesus se dirigiu ao Horto das Oliveiras. Ela deve ter acompanhado, de longe, seu Filho que sofria, antevendo a própria Paixão e Morte, em terrível agonia. Nessa mesma hora, Jesus é preso e levado ao Sinédrio. Condenado por esse júri forjado, foi logo levado à flagelação e coroação de espinhos.
Foi grande o sofrimento de Maria, ao ver o sangue de Jesus verter sobre a terra, a escorrer pelos lajedos daqueles lugares tétricos, onde eram supliciados os réus, ou os inocentes, injustiçados como Ele. Maria recolhe esse sangue, herdado dela, mas que, unido à Pessoa do Pai pelo Filho, se torna sangue divino e redentor.
Maria assiste, na manhã seguinte, à triste cena da condenação oficial de Jesus por Pilatos, que lava as mãos em sinal de covarde omissão.
Logo depois, começa a triste marcha para o Monte Calvário, a trajectória da Via Crucis, a via do sofrimento último. Nas curvas desse caminho, a Mãe deve ter encontrado o Filho. Por breves trocas de olhares, Ela O conforta, assegurando-lhe que está com Ele. Embora sem levar a cruz ao ombro, como o Cireneu, Ela carrega com Ele todo o seu sofrimento, até à consumação pela morte. Mas, também o Filho a conforta porque Ele vai “renovar todas as coisas” (Ap)
Durante a crucifixão, cada pancada, pregando com cravos as mãos e os pés do Filho, era um golpe no coração da própria Mãe. A agonia durou três horas. Jesus, levantado na cruz, pendente entre o céu e a terra, com os braços abertos como um arco-íris de paz sobre o mundo, exclamou: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23,34). Nessa cena, São João descreve Maria de pé, junto à Cruz, jamais deixando-se abater, nem pelos mais insuportáveis sofrimentos. Jesus, já quase sufocado pelo sofrimento e pela dificuldade de respirar, ainda lhe confia João como filho e, na pessoa do evangelista, essa filiação foi estendida a todos nós. "Mulher, eis o teu filho” (Jo 19). Palavra solene, carregada de dor mas de total confiança. Jesus sabe, em todos os momentos, a fé da Sua Mãe. Ainda que desfeita pela morte do Filho, Maria, de pé, como que ressuscitada, confia na promessa: de ti sairá um rebento que será o Salvador.
De facto, a dor da perda do Filho feriu brutalmente o coração de Maria. Porém, a fé que nela habitava, fazia-a crer que a morte de Jesus não seria o fim e acreditava que Deus teria uma resposta para tudo aquilo. Cristo Ressuscitado é a resposta esperada, a confirmação da certeza há muito sabida no coração daquela que nunca deixou de acreditar e que é bem aventurada por todas as gerações.
Santo Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, leva-nos a contemplar o encontro entre a Mãe e o Filho Ressuscitado. Santo Inácio chama a atenção para a relação dos dois e a sua intensidade, deixando claro que é de se esperar que entre aqueles que tinham tal intimidade e que viviam envolvidos em tal amor, que a primeira aparição de Jesus após Sua ressurreição – ainda que não relatada nos Evangelhos – teria sido à sua Mãe. E é razoável e até inteligente aceitar essa ideia. Não só por Jesus ter sido um bom filho e desejar terminar com a dor da sua mãe, mas pelo mérito próprio de Maria: é justo que aquela que primeiro aceitou fazer a vontade de Deus e que com seu “sim” mudou a história humana fosse a primeira portadora da novidade – a vida venceu a morte!
Ninguém sabe como foi aquele encontro. Ninguém sabe o seu conteúdo. Podemos apenas crer nele e vê-lo com os olhos da fé e da imaginação. É uma contemplação riquíssima: Mãe e Filho livres da dor e do sofrimento, perdidos no tempo a conversar sobre todos os acontecimentos, cheios de alegria, consolo e glória.
A certeza da ressurreição de Cristo não ficou apenas no encontro entre Mãe e Filho. Maria experimenta primeiro a glória de Deus e logo sai em missão: tendo visto o Filho vivo é também portadora da maior notícia já ouvida pelos homens – Jesus está vivo e é preciso trabalhar por Ele dando testemunho da sua ressurreição.
Por isso, naqueles primeiros momentos após a ressurreição de Jesus, Maria vai-se unir aos apóstolos e será de fundamental importância junto do grupo dos amigos de Jesus. Mãe do Mestre e, por consequência, Mãe daqueles homens confusos pela transformação ocorrida em suas vidas, Maria será quem primeiro conduzirá o grupo, fazendo-o compreender a mensagem daqueles dias. Não é por acaso que estará com os discípulos aquando da vinda do Espírito Santo no Pentecostes. O impacto da ressurreição de Jesus na vida da Sua mãe produz um efeito cicatrizante naquele coração ferido e trespassado. Maria será, então, capaz de testemunhar vivamente a experiência daquele que viveu a vitória sobre a morte e, assim, torna-se Mãe da humanidade.
Ela compreendeu o mistério que cercou a ressurreição de Jesus e nos ensina a compreendê-Lo, mostrando a actualidade daquele acontecimento perdido num túmulo de Jerusalém e que continua hoje a acontecer, silenciosa e gloriosamente, em cada vida que renasce, não da morte física, mas da morte do pecado.
Por tudo, a Mãe das Dores, a Senhora da Piedade, é Mãe da Confiança no Ressuscitado. Em seu coração, Maria confia e tem fé: Ela sabe que depressa virá o terceiro dia e como tal permanece fiel até ao fim, até ao extremo. "Feliz aquela que acreditou em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor!" (Lc 1,45).
“Em Maria a Igreja alcançou a plenitude”
Maria Mãe da Igreja no Pentecostes
Maria é hoje venerada por nós como Mãe da Igreja. Nela, a Igreja alcançou a máxima plenitude porque Ela é Mãe d’Aquele que trouxe plenitude à vida e que é a Cabeça da Igreja, da qual todos somos membros.
Maria é toda relativa a Cristo e, a partir de Cristo, relativa à Igreja. “Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Ora, Jesus é o centro do Cristianismo, Maria é central, por ser a pessoa que está mais próxima deste centro. Neste centro devemos entender Maria inserida no mistério salvífico, na economia da Salvação. Maria é a pessoa que Cristo mais ‘incluiu’ na sua obra redentora. Assim se expressa Santo Arquelau, Bispo de Cascar e Diodoris, a Mani, em 277: “Se, como dizes, Cristo não nasceu, também não sofreu, pois o sofrer é impossível a quem não nasceu. Se Ele sofreu, é necessário fazer desaparecer até o nome da Cruz. Suprimindo-se a Cruz, Jesus não ressuscitou dos mortos. Se Jesus não ressuscitou dos mortos, ninguém ressuscitará. Se ninguém ressuscitará, não haverá julgamento, pois é certo que se eu não ressuscito, não serei julgado. Se não deve haver julgamento, é em vão que se há de observar os mandamentos de Deus; não há como nos obrigar a isso: ‘comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’. Todas estas coisas se encadeiam para aquele que nega que Jesus tenha nascido de Maria. Se, ao contrário, confessas o nascimento de Cristo de Maria, a Paixão o segue necessariamente; a Ressurreição à Paixão; o Julgamento à Ressurreição; e todos os preceitos da Escrituras estarão salvos. Não se trata, portanto, de uma questão vã. Ela contém muitas coisas nesta única palavra (Theotokos). Como toda a Lei e os Profetas estão contidos no “duplo preceito” [amor a Deus e ao próximo], assim também toda nossa esperança está suspensa no parto da bem-aventurada Maria”.
Depois do evento da morte e da ressurreição, a Mãe solícita e solidária permanece com o grupo dos discípulos e como que o fortalece. De facto, vemos Maria no Cenáculo, no Pentecostes recebendo os dons do Espírito Santo que desceram sobre todos, em forma de línguas de fogo. Desse modo, nascia a Igreja, com a sua vocação apostólica e missionária. E assim Maria foi alçada ao posto de Mãe da Igreja.
Maria está presente nos primórdios da Igreja e ainda hoje a anima, orienta e inspira a sua caminhada. Tal como uma mãe a seus filhos é a grande companheira que segue junto com o povo fiel, paralela a seus passos, segurando as mãos, oferecendo conforto e conselho.
Maria é a mulher que está ligada à vontade salvífica de Deus. Mas a sua riqueza pessoal transcende a sua singularidade. A mãe de Jesus manifesta o amor do Pai, que se dignou assumir o homem exaltando-o por pura graça, pela encarnação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria.
Segundo o desígnio divino, Maria forma parte da revelação de Deus à humanidade, unindo, deste modo, a participação activa da Igreja e do homem no acontecimento transcendente da realização da salvação. Maria está inserida no diálogo entre Deus e o homem. A mãe de Jesus aparece entre a aliança do Sinai e a nova e eterna aliança, no tempo em que se desenvolve a pedagogia divina, segundo a qual, a comunicação de Deus ao homem se faz gradualmente.
A sua maternidade sendo um dom, resultado de uma eleição divina, significa que Deus estabelece com Ela uma relação que pode ser descrita em termos de graça. Trata-se da graça da maternidade que afecta a Mãe de Deus (Theotokos), como uma realização natural do seu ser mulher. Desde a sua concepção, Maria está totalmente ligada a Deus, que torna possível que todo o ser desta Mulher se oriente para a geração da Palavra (Verbum, Logos) feita carne. Ela foi criada para esta missão. A obediência é uma manifestação da fé e entende-se como o consentimento e a realização da vontade salvífica de Deus na própria vida; a esperança é a entrega confiada, apesar da obscuridade e da falta de compreensão na vivência dos diferentes acontecimentos, pois Deus sempre cumpre a sua promessa de salvação; a caridade é a característica da missão de Maria relativamente a Deus e ao seu Filho, e a respeito de todos os homens.
A salvação é obra de Cristo, pelo que Maria não o pode substituir. A sua contribuição é de fé, de obediência, de oração, de sofrimento durante a sua vida terrena, e agora, na sua vida celeste, de intercessão materna, que se une à do seu Filho. E isto em ordem a todos os eleitos, como refere a Lumen Gentium: «Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada» (62).
Cristo é o caminho obrigatório, a porta para acolher a salvação (Jo 14, 6). O contributo de Maria para a história da salvação coexiste com a única mediação de Cristo, sem a obscurecer nem limitar, mas manifestando o seu valor e o seu poder. Como afirma o Concílio Vaticano II, a função salvífica da Virgem é cristocêntrica, deriva de Cristo e conduz a Ele, «deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece» (LG, 60).
A experiência de Deus, por parte de Maria, tem como fundamento a sua virgindade, a sua disponibilidade exclusiva para Deus. Trata-se de uma experiência de Deus baseada no despojamento prévio da experiência humana fundamental. Se Maria deu o seu “sim” incondicional à encarnação e a todas as suas consequências — entre as quais se encontra como a mais importante a cruz —, fê-lo em nome de todo o ‘género humano’, dos pecadores, dos que, enquanto tal, recusam a encarnação: «Veio ao que era seu e os seus não o receberam» (Jo 1, 11).
Maria é solidária com todos, precisamente porque foi concebida imaculada e por isso goza de uma infinita capacidade de doação e de amor. Mas se Maria dá o seu sim agradecido ao Salvador que vem, não o faz de modo algum para si mesma, mas, em princípio, por todos aqueles que têm necessidade da “salvação de Israel”. O despojamento de Maria, do qual o seu sim é consequência natural, permite-lhe experimentar o amor misericordioso de Deus, o que nela “fez maravilhas” e cuja “misericórdia se estende de geração em geração”. Maria viveu a condição de humildade que o Senhor exaltará. Ela foi a humilde escrava de Nazaré.
Maria representa toda a nova humanidade pois ela é não só o seio donde nasce o Verbo encarnado, mas também a primeira pessoa da nova criação e, portanto, seio materno do qual brotam os homens e mulheres que, como corpo de Cristo, constituem o novo Povo de Deus a caminho da Salvação.
Maria é Mãe da Igreja porque Mãe de Cristo e Mãe de Deus. Que sejamos alcançados pela sua maternal intercessão.
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