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19 de dezembro de 2012

O que aconteceu ao milagre do Natal?






Por mais cíclica que a História possa ser, ela deveria obedecer a uma regra de progressividade em espiral infinitamente crescente.
No que respeita ao milagre do Natal, o milagre da Encarnação do Filho de Deus, as coisas não se afiguram desse modo. Nisto do Natal, as coisas são tão rectamente progressivas que ficou muito longe, muito afastado o horizonte do princípio e da origem, a fonte e a nascente. E quando assim é, vamos sem saber como e sem saber para onde porque esquecemos o donde...
Perdemos a memória do milagre de Natal. Perdemos o encanto e a beleza e a luz e as estrelas de Belém... Perdemos os olhos brilhantes e luzidios do Menino, perdemos o calor do afago e do abraço de Maria e perdemos a firmeza e a protecção de José. Perdemos o encanto das palavras e da Palavra, do Verbo que se faz Pessoa, que se faz Presente para nós.
Deste modo, perdemos o verdadeiro Natal. E continuaremos a perdê-lo, em cada ano, em cada dia, sempre que não soubermos contar e cantar a toada daquela melodia divina que se faz ouvir daquele rincão de Belém, desde há muitos anos. Porque, como diria Ignacio Buttita: um povo torna-se pobre quando lhe roubam as canções que aprendeu dos seus pais. E em relação à música do Natal, estamos cada vez mais pobres.
Perdemos o sentido do caminho que nos faz sentir o Natal. Percorremos corredores de montras, fazemos corridas e maratonas entre lojas, calculamos preços caros o bastante e baratos o suficiente, desviamo-nos das pessoas nesta correria desenfreada de um consumismo feroz. Esvaiu-se o tempo para parar e sentir, para preparar uma casa e o coração para acolher Aquele que nasce para cada um de nós. E a crise em tempo de Natal parece que não é mais que o próprio Natal em crise!
As luzes, tantas luzes, piscam num inconstante e frágil brilhar, numa artificialidade que a natureza das estrelas desconhece. Esquece-se o Presente numa lista imensa de prendas, perde-se a partilha num egocêntrico sentir, num olhar desfocado que sorri com o rasgar eufórico de papéis de embrulho, em vez de sorrir com o surgir radiante de uma Vida... dada inteira para nós.
Contrasta o consumismo, com o que deveria ser altruísmo: um Deus Prenda e Presente para nós. Contrastam os motivos exteriores dos festejos, com a interior razão da alegria do Natal: o milagre do Dom de Deus por e para mim. Contrasta esta espécie de "Natal" de contrastes...
A essência do verdadeiro Natal jamais mudará ou passará... é como o Amor. Porque o milagre do Natal é mesmo o milagre do Amor.
~
 
Se queres que seja Natal,
volta a olhar e a apreciar,
aquela pequena e brilhante luz
que rasgou a escura e fria noite,
e aqueceu de mansinho o coração humano.
Sê contador do maior milagre do Amor!
Feliz Natal!



Texto publicado na edição de 19 de Dezembro do Correio do Vouga
Pe. JAC

22 de novembro de 2012

Fé e memórias do leigo que falou no Concílio





Não é descabido, nem pela riqueza de pensamento nem pelo testemunho de fé, ler e ouvir o filósofo Jean Guitton. Acresce a isto o facto de este ser, até ao momento, em toda a história da Igreja, o único leigo a quem foi dada a palavra num Concílio. Em pleno Ano da Fé, que assinala os 50 anos da abertura do Vaticano II, no qual usou da palavra, eis mais uma razão para ler. Sugiro uma entrevista concedida à jornalista italiana Francesca Pini, que dá origem ao livro com o título “No coração do infinito”.
Do alto dos seus 96, na altura em que concedeu esta entrevista (Jean Guitton faleceu em março de 1999, com 97 anos) o filósofo francês não se envergonha de falar da sua fé, e de dizer que acreditar é diferente de saber e de compreender; ao invés, acreditar é aderir na noite. Sempre procurando aproximar fé e razão, mas sem deixar de lado o seu catolicismo, chega a dizer: “O fundamento da minha vida de filósofo foi ajudar as pessoas a optarem por um Deus criador em vez do panteísmo”.
Amigo pessoal de Paulo VI, confessa, a certa altura deste livro, que depois de ter ficado viúvo, a mando de um dos confessores, foi a Roma dizer ao seu amigo: “Agora que a minha mulher morreu, gostaria de me fazer padre”. Ao pedido do amigo, Montini respondeu: “Segunda-feira diácono; terça-feira, padre; quarta-feira, bispo; quinta-feira, cardeal; sexta-feira, papa.” E, termina Guitton, comentando o momento à jornalista: “Troçou de mim”!
Com liberdade de espírito, abertura, franqueza, lucidez, sabedoria, mística e fé, eis Guitton à nossa mercê, para ser lido e apreendido, enquanto homem, filósofo, místico e, acima de tudo, cristão até ao fim!

In Correio do Vouga, 22/11/2012


Pe. JAC

14 de novembro de 2012

Um laivo de lucidez


Diz o dicionário que "lucidez" é a "qualidade do que é lúcido". Mas poderemos ficar na mesma com esta resumida e ofusca definição. Diz ainda que é a "clareza de raciocínio" e as coisas começam a compor-se nas nossas cabeças. Não quero fazer apologia da "lucidez em demasia", porque "demasiada lucidez é culpada num mundo de cegos, que com a cegueira se contemplam sem desastre de maior" (Agustina Bessa-Luís). Trato de procurar ver com clareza e realismo, com razão e com fé, com pensamento e com sentimento.
Vivemos num tempo que não escolhemos viver, é bem certo. Mas uma coisa é certa: não temos outro tempo que não este que é agora. Embora reconheça, sentida e lucidamente, que reduzir a existência ao agora é tão errado quanto querer retirar o agora do tempo que temos.
Não é de agora que o equilíbrio é virtude. Mas, dá-me tantas vezes a impressão que equilíbrio ou virtude são coisas que não nos interessam muito...
Porque temos crise e ouvimos "ah, no meu tempo é que era". Porque temos crise diz-se à boca cheia "ah, isto há de compor-se". Esquecemos facilmente que é agora que se "joga" o "jogo" da vida, é agora que temos para viver. É verdade que nós esperamos ter "amanhã" (esperança), sabemos que tivemos "ontem" (memória) mas é "hoje" (realidade) o meu tempo, é agora a minha hora. Se há alguma coisa a fazer, pois não temos outra hora que não a de agora.
É verdade que o passado é mestre e que a memória não pode ser curta. Um e outra ensinam a distinguir/discernir e a optar melhor. Mas é agora que temos que para fazer opções.
Continuar a fazer as mesmas coisas de sempre e esperar que os resultados sejam diferentes não é mais do que loucura e falta de lucidez.
Querer fazer diferente, em si mesmo, não é loucura. Pode ser aventura. Pode até bater-se com a cabeça na parede, é verdade, particularmente se nos faltar a esperança e a memória, mas se não fizermos de hoje o nosso tempo - que é esse que Deus nos dá - que ficará do nosso tempo e da nossa passagem pela terra? De que serviu o passado? Que futuro se constrói?
Eu gostava de ser mais capaz de assumir o que tenho, e de não chorar "as cebolas do Egipto" ou projectar futuros irrealistas.
Gostava de reconhecer e aceitar as oportunidades que o tempo presente proporciona, à sociedade e à Igreja.
Gostava de olhar para trás e aprender, mas de não ficar apenas atrás...
Gostava que o mundo - pelo menos onde eu estou - ficasse um pouco melhor com a minha ajuda.
Gostava de não me demitir da missão e tarefa de ser sujeito, agente e promotor da construção de um mundo melhor.
Gostava também que a Igreja de Jesus Cristo, da qual faço parte, não perdesse a memória do passado, que continuasse a fazer Memória e em memória do seu fundador, mas sabendo que o tempo para o fazer é hoje.
Gostava... Gostava que a lucidez ainda tivesse lugar hoje, ainda que fosse apenas um laivo.

Pe. JAC
Texto publicado na edição de 14 de novembro, do Jornal Correio do Vouga.

11 de maio de 2012

Pastoral da cidade de Aveiro. “I have a dream!”

Martin Luther King tinha um sonho para a América das últimas décadas do século passado. “I have a dream” foi um grito de alerta, motor e propulsor de transformação social.

Vivemos todos de sonhos, de projectos, de ideais. Também ao nível da fé acontece o mesmo. O que é, senão ideal, o mandato de Cristo "Ide por todo o mundo".

Pedem-me a minha opinião pessoal acerca da pastoral da e na cidade de Aveiro. Também acerca disto eu tenho um sonho, que possivelmente se desdobrará em muitos sonhos a perseguir com a ousadia da fé acompanhada do discernimento dos sinais dos tempos.

Ninguém duvida que as mudanças culturais, sociológicas e demográficas que vamos assistindo trazem consigo desafios prementes e urgentes à missão da Igreja, em todos os lugares e com especial enfoque nas cidades. Não podemos entrar no rio (ou na ria!) dos queixumes pessimistas acerca da secularização e da laicização da sociedade em que vivemos. Não podemos cruzar os braços à espera que do céu venha a salvação, substituindo aquilo que temos nós de fazer. Nós não podemos continuar a fazer as mesmas coisas de sempre e esperar que os resultados sejam diferentes. Isso não é mais do que loucura.
A presença da Igreja na cidade precisa de ser reinventada, na fidelidade ao Evangelho e na ousadia de uma evangelização nova e renovada.
Daquilo que me é dado ver, uma vez que por missão tenho que exercer na cidade o meu ministério presbiteral, vou-me apercebendo de alguns obstáculos a uma acção conjunta da Igreja. E não significa isto que a culpa seja de um, mas porque não pode morrer solteira, não nos dispense de um acurado exame de consciência a todos. Sinto, muitas vezes, que os "canais" que já existem ainda não são suficientes para o "diálogo" desejado.

Não bastará, para isso, que a nossa programação pastoral seja executada em comunhão e em unidade. Mas não nos podemos dispensar a esse trabalho. Os cristãos das nossas comunidades também precisam de se abrir por dentro. Precisamos de "corações ao alto", mas também de corações abertos, capazes de ultrapassar bairrismos, tantas vezes doentios, sem anular, contudo, a especificidade e a idiossincrasia de pequenas comunidades de pertença. E esta abertura não poderá passar apenas pelo coração dos pastores... Mas também isso é absolutamente necessário.
A acção da Igreja na cidade não se pode dispensar de realizar pontos de encontro significativos e marcantes para as pessoas. A presença da Igreja na cidade pode não se maciça, como noutros tempos, mas deverá ser interpelante, como luz que brilha e faz sentido. A presença da Igreja nas cidades, e em especial na de Aveiro, pode e deve ser discreta mas sentida, activa e protagonista sem ser a única.
O diálogo com as organizações e as instituições de todos os níveis, a criação de parcerias que busquem estratégias de resposta aos reais problemas das pessoas, a conjugação de esforços e o trabalho em rede, ao nível social, tem que ser um imperativo.
Eu tenho um sonho. Sonho uma Igreja simples e bela. Sonho uma Igreja minha casa e casa dos que quiserem. Sonho até com as palavras de D. Manuel Martins:

A Igreja é a minha casa.
Esta igreja onde eu nasci e onde quero morrer.
Nela me sinto bem.
Nela gosto de estar.
Aqui, eu penso, projecto, sonho, alimento-me.
Aqui, rezo, recordo, choro, zango-me, encontro-me.
Aqui sofro, aqui canto.
A Igreja é a minha casa!
Gostaria, tantas vezes, de a ver mais acolhedora, mais aberta, com mais espaços para pessoas outras (não é ela comunhão e sacramento?), mais gratuita, mais convidativa.
A Igreja é a minha casa!
E tenho pena que feche as portas, condene sem coração, corte com quem procura...
Eu amo muito a Igreja
Porque a Igreja é a minha casa.
Com defeitos?
Com a ruga dos anos?
Às vezes azeda?
Mas é a minha casa!

Então, porque lhe quero muito, vou pintá-la de fresco, vou rasgar-lhe mais portas, vou torná- la mais simpática, mais disponível, mais atenta.
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida, perca o medo e salte para o mundo, grite os valores das pessoas e dos povos.
A Igreja é a minha casa!
Se eu quiser,
se tu quiseres,
se nós todos quisermos,
todos virão a ela e todos nela se sentirão bem.
Porque ela é o rosto de Deus.
Porque Deus habita nela.

Há ideais que vale a pena perseguir! Jesus Cristo é o grande ideal. A Igreja em Aveiro será fiel se O souber apresentar assim.


Pe. José António Carneiro
in Igreja Aveirense

26 de abril de 2012

Quantos católicos somos?






















Está realizado o “retrato religioso” da sociedade portuguesa. A Conferência Episcopal Portuguesa encomendou um estudo à Universidade Católica e os resultados apresentados não deixam de ser inquietantes. Portugal é ainda um país de “marca católica”, mas em pouco mais de dez anos, o número de católicos passou de 86,9% para 79,5%.

Resultado vistoso: Manchetes em muitos jornais nacionais. Notícias nos mais diversificados meios de comunicação social anunciando “Número de católicos em Portugal em queda” e “Igreja Católica perde para todos”.
Das conclusões apresentadas no estudo conclui-se que o Catolicismo em Portugal tem “rosto feminino” e “pronúncia do Norte”, revelando que mais de 56% dos católicos são mulheres e que mais de 43% vivem no Norte de Portugal. Outro dado apresentado, e que de resto acompanha a tendência da sociedade portuguesa, tem a ver com a média de idade dos que se dizem católicos. Mais de 55% dos católicos têm mais de 55 anos.
Muitas coisas se podem argumentar diante destes números que, para a Igreja Católica, deverão ser um sinal dos tempos e como tal, segundo imperativo conciliar, deverão ser lidos e analisados objectivamente.
Não podemos ficar impávidos e serenos diante dos números. Não podemos sacudir a “água do capote” como se não fosse nada connosco. Os números não nos devem assustar, mas podem e devem alertar-nos a todos. Sim, a todos os que nos dizemos e procuramos ser cristãos católicos todos os dias, a toda a hora, e não apenas “das 9h às 5h da tarde”.
Preocupa-me evidentemente que os católicos sejam menos. Mas preocupa-me bem mais que não sejam aquilo que deveriam ser.
Se olharmos para os itens do inquérito mais preocupado fico quando se percebe que muitos dos que se afastam de uma prática religiosa o fazem por causa de mau exemplo de pessoas religiosas que conhecem.
De facto, o alerta que estes números causam não poderá ficar apenas para a hierarquia católica - ainda que convém que faça a sua parte (não me demito da minha!) -, mas é à Igreja Povo de Deus, Povo Sacerdotal, que estes números devem inquietar. Há, evidentemente, muitas coisas que é preciso rever continuamente, novas linguagens a assumir, testemunhos de vidas felizes a apresentar… e, acima de tudo, que a tão badalada “nova evangelização” seja aquilo que enuncia: que seja nova e renove!
Para mim é absolutamente mais urgente que os católicos sejam verdadeiramente cristãos. Ou seja, que Jesus Cristo seja o centro e o sentido, a meta e a finalidade, o horizonte e a felicidade, porque a Salvação. Isso é o mais fundamental! Acredito que se formos bons cristãos seremos bom exemplo e pelo exemplo irradiaremos a beleza de Cristo, à imagem das primeiras comunidades cristãs das quais já esquecemos o “vede como eles se amam”.
Permito-me citar uma amiga que escreveu no seu blogue, fazendo a leitura deste estudo e deixando uma inquietação a partir do relato bíblico do Jovem Rico: “Poderia sumariar a passagem assim: O projeto é "este", amigo! Vens e segues-me? Será bom, se vieres. Ficarei feliz. Construiremos juntos. Mas a liberdade de escolha é tua... e seguiu caminho com quem O quis acompanhar. Todos eram bem-vindos. E todos os dias eram novos. E havia dúvidas, mas as respostas eram intensas. E todos acreditavam, e escutavam, e convertiam-se. Celebravam. E não era rotina. Era festa!”.
(Crónica escrita para o Jornal Expresso do Ave)

7 de abril de 2012

Que a Páscoa seja libertação!

A celebração da Páscoa é fundamentalmente um acto de fé que assenta na certeza da ressurreição de Jesus Cristo. Os cristãos acreditam que, na ressurreição do Nazareno, aqueles que O vêem Filho de Deus, têm aí o penhor e a garantia da sua ressurreição pessoal.
Com a celebração pascal, os crentes afirmam a sua fé, manifestam a sua esperança, proclamam a sua alegria porque “Jesus Ressuscitou! Está Vivo!”.
 
A Páscoa permite o encontro das famílias. As férias, cá dentro ou lá fora, promovem a convivência familiar. É, por isso, tempo de alegria e de libertação. Todavia, envolvidos num cenário profundamente preocupante – e não apenas por estarmos “mergulhados até ao pescoço” numa crise económica gravíssima, mas porque a crise é muito mais do que a falta de dinheiro e de liquidez de mercados – como poderemos viver a alegria pascal?
É preciso um acto de fé grande para expressarmos a alegria da Ressurreição quando olhamos para o lado – ou olhamos para a nossa casa – e as preocupações são tantas e tamanhas… Viver a alegria quando não se tem o necessário para viver com o mínimo de dignidade, quando não há emprego, e o que há, tantas vezes, está trespassado de precariedade, exige um acto de coragem e de ousadia.
É verdade que não podemos, de uma vez, inverter os indicadores económicos, que não eliminamos a corrupção dos “senhores que mandam”, que não criaremos emprego suficiente para os mais de 600 mil desempregados… mas a Páscoa dos cristãos pode ser uma ocasião de viragem se, pelo menos os cristãos, se assumirem como portadores de uma alegria e de uma esperança que brotam de Deus e que permite enfrentar as dificuldades com coragem.
A respeito do Dia Mundial da Juventude, recentemente celebrado, o Papa Bento XVI dirigia uma mensagem aos mais novos desafiando-os a levarem a alegria, que é “elemento central da experiência cristã”, a um mundo marcado pela tristeza e inquietação.
Dizia o Papa que “o verdadeiro cristão nunca está triste ou desesperado, mesmo diante das provas mais duras, e a alegria cristã não é uma fuga da realidade, mas uma força sobrenatural para enfrentar e viver as dificuldades quotidianas”. “O mal não tem a última palavra sobre a nossa vida”, escrevia o Papa.
De facto, quem diria que de uma morte na Cruz – “escândalo” e “loucura” – e da Ressurreição de Jesus operada e cumprida pelo Pai, nasceria uma comunidade de pessoas que, seguindo um Crucificado Vivo, fosse capaz de ser fermento de transformação, não só moral e espiritual, mas também social (e até político) dos seus ambientes? Com a Páscoa e com Deus é possível!
Somos pascais. Aí nascemos como Povo de Deus. Da Páscoa partimos para a missão de transformar o nosso mundo num “pouco de céu”. Que esta Páscoa seja a viragem. Que a Páscoa seja a libertação não só do pessimismo, mas também da apatia e do comodismo. Podemos e devemos não desistir de lutar de viver! Já temos vida, Naquele que nos Deus a vida e se nos dá para podermos viver!

18 de janeiro de 2012

Janeiro, mês da Paz e da Unidade - Feliz coincidência ou reforçado apelo?

  

Cada início de ano é uma oportunidade para mergulharmos na essencialidade das coisas, da vida e da fé. No mês que começa com o Dia Mundial da Paz, decore também a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Feliz coincidência ou necessário e reforçado apelo a cada um de nós?
A vivência da fé cristã impele-nos a fazer cada dia a viagem àquilo que vale, que conta, que tem valor. Logo no primeiro mês do ano civil somos desafiados a regressar à pátria da unidade e da paz, através destas duas celebrações. Na prática, trata-se de realizar, de refazer o mergulho na nossa fundação enquanto Igreja.
Não nos podemos dispensar, enquanto Igreja, sonhada por Deus, fundada por Cristo, de reconhecer que a falta de unidade entre os cristãos é um pecado grave, no meu entender, o mais grave que poderemos cometer.
Não me refiro apenas e só aos infelizes cismas, às terríveis separações que historicamente foram acontecendo com o passar dos anos por aqueles que professam a mesma fé em Jesus Cristo. Felizmente, vamos vendo e lendo sinais, réstias de luz e de esperança, de uma desejada e almejada unidade.
Refiro-me, aqui, muito expressamente à divisão que acontece todos os dias dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, da Igreja que somos, através das nossas palavras e atitudes de exclusão, de marginalização, de indiferença, de falta de acolhimento. Não se trata de reconhecer a divisão nos e dos outros. Trata-se efetivamente de reconhecer a divisão que cada um de nós produz. Quantas vezes geramos desunião e não comunhão, rancor e não amor, antipatia e não simpatia!
A fé cristã, fundada em Cristo, que passou na terra fazendo o bem, faz-nos viver e estar neste mundo como peregrinos. Aquilo que a Carta a Diogneto tão bem expressou, nos finais do século II: Os cristãos “habitam pátrias próprias mas como peregrinos; participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira”. Como cristãos, precisamos de reassumir que a única comunidade em que podemos realizar-nos é a humanidade reunida em Cristo, que é Aquele no qual toda a Criação se reúne.
Como escreve Timothy Radcliffe: “Deus é Aquele no qual ninguém fica à margem, porque o centro de Deus está em toda a parte e a sua circunferência em parte nenhuma. É na vastidão de Deus que estaremos completamente à vontade, porque todos lá estarão. É assim que sou/estou em Igreja?”
“Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo” (Cf. 1 Cor 15, 51-58). Este é o tema proposto para a celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano, entre 18 e 25 de Janeiro.
Acreditamos como verdade fundacional da nossa fé em Cristo que Nele somos transformados. Mas, a partir de Cristo, também podemos e devemos transformar-nos diariamente, convertermo-nos gradualmente. Não nos podemos escusar de dar passos de unidade afetiva e efetiva no seio das nossas comunidades, das nossas paróquias, do nosso presbitério, da nossa diocese.
Assim sendo, ainda resulta mais premente a temática pastoral diocesana. Somos mesmo fraternidade de famílias? Somos muitos membros. Será que somos UM Corpo? Com certeza que nos vamos esforçando, mas ainda não o seremos na devida expressão. Não cruzemos, por isso, os braços, pensando que estamos bem como estamos. Ousemos a diferença! Ousemos a coragem! Ousemos ir de novo à pátria da unidade e da paz, baseada na unidade perfeita da Trindade, que não exclui a diversidade nem a alteridade. Ousemos ser um!
Outro belo sonho de Deus para nós! Ser um connosco e em nós e sermos um com todos os outros!

José António Carneiro
Padre. Vigário paroquial da Glória
Publicado no Jornal Correio do Vouga de 18/12/2012

21 de dezembro de 2011

Advento-Natal 2011. Acender a luz da Páscoa na noite de Natal


O frio de Dezembro propicia a reunião da nossa família, no calor dos afectos e na ternura de encontros significativos.
Dezembro! Mês de fundamental importância, para nós, cristãos, porque celebramos o Nascimento do Menino Deus, que vindo na fragilidade da natureza humana se aproxima de nós para nos elevar até à sua altura e estatura. Admirável “comércio” este de um Deus que se rebaixa até ao extremo para elevar a humanidade, para nos elevar a todos.
Dezembro! Mês de tantos sonhos e dos seus cumprimentos: Em primeiro, do sonho de Deus, que se quer aproximar, baixar, curvar, que quer montar a sua tenda no meio de nós, para habitar connosco. Sonho divino de um mundo novo, de paz e de prosperidade. Sonho de uma fraternidade estendida a todas as franjas da sociedade, a todos os rincões da terra, mesmo aos mais recônditos. Depois, mês do cumprimento dos nossos sonhos humanos que precisam, continuamente, que os recentremos em Deus, fazendo Dele o nosso sonho real e o melhor de todos os sonhos. Fazer que os nossos sonhos estejam em sintonia com os sonhos de Deus é tarefa a empreendermos, desde já. Escreve o padre Tolentino de Mendonça: “Queres saber de que cor são os sonhos de Deus? / Volta a olhar o mundo pela primeira vez”. O sonho de Deus é o nosso mundo vivo, tal como a Sua glória é que vivamos!
Em cada ano litúrgico somos plenamente formados e moldados para apreendermos a coragem da espera, até que o Senhor venha. O ano cristão litúrgico é uma espécie de pedagogia da paciência. Escreve Timothy Radcliffe: “O Advento treina-nos na paciência para não começar a celebrar demasiado cedo, resistindo à tentação de celebrar o nascimento de Cristo, antes de Ele vir”. E acrescenta, assertivo: “apesar de as lojas estarem [já] cheias de sinais a dizer «Feliz Natal»”.
De facto, Jesus Cristo é dom, presente, prenda e, por ser isso, espera-se o momento em que é dado e ofertado. Mas, esta esperança não é passividade. Nem etimologicamente falando. Do latim, attendere (esperar), significa esticar-se para a frente. A espera atira-nos sempre para a frente, abrindo-nos, sem forçar nada, ao que virá, tal como uma mãe que está para dar à luz. A este respeito, Erri de Luca escreve, bem acertado, em “O Caroço de Azeitona: “só as mulheres, as mães, sabem o que é o verbo esperar. O género masculino não tem constância nem corpo para hospedar esperas”.
Todavia, tanto o Advento como o Natal atiram-nos mais para a frente, para nos levar ainda mais longe: atira-nos até à Páscoa. A marcha do tempo da liturgia orienta os nossos passos, com Cristo, para Jerusalém, para o Gólgota da nossa salvação, para a gruta da ressurreição, donde brota a luz que traz sentido e finalidade a todos os sonhos, até ao da Encarnação de Deus.
Preparando e celebrando o Natal de Jesus, é imperioso olhar desde já a noite da nossa salvação. Noite de Páscoa, noite da Vida. Claro que precedida pela noite do nascimento, humilde e silencioso, pobre mas feliz, tal como são as coisas de Deus.
A luz do presépio de Belém aponta-nos a luz e o brilho refulgentes do sepulcro vazio, da vitória da vida sobre a morte, pelo Vivente. A luz da Páscoa é, assim mesmo, acesa na noite de Natal!
Este ano não deverá ser diferente!


Meu Menino Jesus!

Tuas mãos tudo partilham
Mesmo a vida que nos trouxeste
e teus olhos, felizes, brilham
pelo “sim” que ao Pai disseste.

Pequenino e despojado
para usar a nossa veste
Tu és o Deus enviado
e nosso irmão Te fizeste.

Jesus Menino em Belém,
em Nazaré, Tu cresceste
homem, em Jerusalém
morte injusta sofreste.

Esperança de um mundo novo
na Tua vinda nos deste
Salvador de todo o povo
sê bem-vindo, porque vieste! 

Pe. JAC 

[Publicado na edição de 21 de Dezembro, no Correio do Vouga]

26 de setembro de 2011

É preciso mais do que palavras! (última homilia na Igreja de Águeda-UPA)



1. Irmãos e irmãs: palavra recta e directa de Jesus: “Os publicanos e as mulheres de má vida irão adiante de vós para o Reino de Deus”! Desafio para nós ouvi-la hoje. Em Jerusalém, o Mestre enfrenta a resistência organizada da classe religiosa do velho Israel. É uma espécie de raça eleita, gente fina e segura, acomodada e envelhecida nas cadeiras do poder. São os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo, perfeitos profissionais da religião. São os que dizem e rezam «àmens», cheios de devoção. São estes que agora recusam acolher Jesus. Perseguem-nO, com medo da sua Palavra, espada afiada que os fere de morte. Seguros do seu passado, não querem mudar as regras de jogo. Tornam-se insensíveis a qualquer apelo de mudança, fechados à novidade, indispostos à conversão... O seu passado de glória vê-se agora transformado em risco de perdição.
2. Na parábola, Jesus adverte para o risco de passarmos a vida a dizer «sim, senhor», mas quando chega a hora de dar a cara e «arregaçar» as mangas, encontrarmos sempre razões para dizer «não». Os líderes religiosos do Povo de Israel, representados no segundo filho, sempre disseram «àmen» a tudo e a todos, mas recusam dar o «sim» àquele que o Pai enviou. Para estes, a palavra dada reduz-se a um discurso de circunstância, a invocar, três vezes ao dia, o santo nome de Deus em vão! Estes ficam para trás... no caminho do Reino.
3. Adiante destes, do outro lado da margem, estão os pecadores. Os desgraçados, os filhos perdidos, as vítimas do poder e do pecado de todos: entre eles, os publicanos e as mulheres de má vida. Esses tais que nem rezavam «àmens» e carregavam o peso de um passado ferido de miséria. Esses não tinham nada a perder. Acolheram o grito de mudança, proclamado por João Baptista, e entregaram-se à causa de Jesus. Arrependidos, encontram a força da sua liberdade e vão à frente… no caminho do Reino.
4. Vão adiante porque a sua miséria não é sinónimo de podridão e a sua rebeldia não se confunde com a desobediência. Vão adiante porque a sua fidelidade não se cumpre por desafecto e porque deixam para trás um passado que se abate... e não presumem garantido o seu futuro. Vão adiante porque há neles uma dignidade que se esconde por trás do pecado... enquanto noutros há o pecado que se esconde sob a capa de uma dignidade (eclesiástica, política, social...). Sim, meus amigos, “os publicanos e as mulheres de má vida irão adiante de [NÓS] para o Reino de Deus”! Jesus sabe e conhece a amargura das suas vidas, a concentração do vício alheio a minar-lhes o coração. Ele não teme nem as palavras nem os gestos de acolhimento... Vão adiante porque a sua grandeza de alma, dorida e limpa, é maior do que a pacatez de espírito daqueles praticantes profissionais da religião tradicional. Vão adiante, as mulheres de má vida, não pelo pecado cometido, mas pelo desejo de mudança. Vão adiante porque, ao apelo de conversão, acreditaram e mudaram de vida e porque arrepiaram caminho ao escutar a parábola, revendo-se no primeiro filho, acabando por assentir não à palavra dada, mas à Palavra, que é o Verbo, Jesus Cristo, recebida com alegria.
5. No fundo, esta parábola e o pensamento expresso pelo profeta da esperança, na primeira leitura, conduzem-nos à certeza de que, para Deus, não há o fatalismo do passado nem para ninguém a garantia do futuro. Para Deus, nenhum de nós é um caso perdido... há sempre uma oportunidade de salvação... E resta sempre o aviso sério de que ninguém se julgue grande e seguro... porque estamos sempre sob o risco da perdição...
6. Meus caríssimos irmãos. Depois das mãos e dos braços, para o trabalho da vinha, o Senhor pede-nos agora o abraço do coração. Pede-nos um «sim» de corpo e alma, um «sim» de alma e coração. É preciso dizer e fazer. Ou melhor ainda, fazer, sem dizer. Mais: é preciso sentir o que se diz, sentir ainda mais o que se faz. Trabalhar com a força dos braços, mas ao ritmo certo do coração manso e humilde de Cristo.
7. É urgente, veemente e permanente o apelo à conversão. É preciso vencer rivalidades, com um elevado espírito de serviço. O próprio Cristo que era de condição divina fez-se servo! É preciso sobrepor a humildade à vanglória. O próprio Cristo que era de condição divina não se valeu da sua igualdade com Deus! É preciso submeter o interesse próprio a uma fiel obediência ao bem de todos. O próprio Cristo humilhou-se ainda mais, até à morte e morte de Cruz!
8. Neste jogo arriscado da nossa vida resta-nos andar de “bola baixa”, “rasteiros”. Sem este «abaixamento», onde cada um depõe as armas do orgulho e do interesse próprio, não há condições de unidade e de paz... no seio da Igreja, na vida das nossas comunidades e no nosso mundo. Humildes no pecado, para acolher a misericórdia e encontrar a vida e humildes na virtude, para não presumir de nada e vir a sucumbir na morte... «É sempre tempo para mudar» e tudo será mais fácil se tivermos entre nós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus! Ousemos aceitar a proposta!
 Pe. JAC

27 de maio de 2011

Rasgar páginas de manuais desactualizados

São frequentes, em demasia até, as acusações e críticas vindas de tantos lados a uma Igreja Católica que permanece fechada, não cativante, não acolhedora, sem lugar para as pessoas, incapaz de mostrar um rosto alegra, um rosto mais de Domingo de Páscoa do que de Sexta-Feira Santa. (Ainda que ambos se precisem mutuamente).
Há lamentos – uns com sentido, outros nem tanto – muitos até de cristãos que celebram missa dominical (lamentos que dariam volumes de livros da Lamentações), queixando-se que agora os jovens não vão à Igreja, não estão dispostos a ajudar em nada. Acusam-nos de estarem inactivos, desactivados, acomodados, perdidos navegando na internet, encontrando-se e “amigando-se” nas redes sosicias, com os fones do MP3 ou MP4 metidos nos ouvidos, indiferentes ao que acontece à volta.

Eu gosto de me convencer (e estou!) de que as coisas não são tão “quadradas” quanto isso. Claro que também estou convencido de que já não estamos na Cristandade, que o Crsitianismo é Proposta, nunca imposição! Gosto desta ideia, que não é leviana nem desresponsabilizadora.

Creio, com Timothy Radcliffe, que a Igreja Católica nada terá a dizer aos jovens se não estiver empenhada e comprometida em caminhar com eles, e não só fisicamente.
Creio, claro está, que não basta esperar que eles apareçam à sacristia! Mas, creio que se aparecerem merecem ser acolhidos, bem tratados, queridos.

Creio que há um movimento de dentro para fora que precisamos todos de fazer. Em relação a toda a sociedade e especialmente em relação aos jovens.
As propostas de hoje são tentadoras.
A proposta “Jesus Cristo” também tem que ser.
É preciso rasgar horizontes e até rasgar páginas de “manuais” desactualizados.
É preciso sair e ir ao encontro!

18 de maio de 2011

Enquanto estamos inquietos, podemos estar tranquilos!


O Tempo Pascal, na Igreja, é uma grande e solene aclamação e uma bela profissão de fé. É por isso que ele se estende por 50 dias do ano, até à Festa do Pentecostes.
A liturgia é também pedagogia: semana após semana vai-nos educando o coração e a mente, para irmos sentindo a presença de Jesus, no seu modo diferente de estar, porque Vivo e Ressuscitado.
Ao nível da fé cristã, nós não podemos nunca ficar de consciência tranquila. Precisamos sempre de estar inquietos, porque “enquanto estanos inquietos, podemos estar tranquilos”. É como quem diz: o caminho não está terminado, “o caminho faz-se caminhando”.
A caminhar desafia-nos, exactamente, o Evangelho do III Domingo da Páscoa, do Ano A, que celebramos no passado domingo. O relato evangélico de Emaús, exclusivo de Lucas, obriga-nos a fazer aquela que pode ser considerada a mais bela viagem de doze quilómetros de toda a Escritura, entre Jerusalém e Emaús.
É fácil de ver que se trata muito mais de uma viagem intransitiva, de uma viagem interior, uma viagem no coração, uma viagem espiritual (título de um belo livro de Nicholas Sparks e Billy Mills).
Dois homens que, desiludidos, desencantados, talvez desesperados, fazem a viagem de ida, regressando às suas vidas rotineiras, depois de todos os sonhos ficarem desfeitos e mortos aos pés de uma cruz, no Monte Calvário.
O cenário começa a mudar quando chega a esta viagem um terceiro viajante. Depressa ficamos a saber que se trata de Jesus. Ele, que sempre se mete connosco, que faz caminho connosco, que se faz de convidado para o nosso caminho, mas não se faz de convidado para a nossa casa.
Com a conversa, à qual preside o terceiro viandante – conversa onde se abre o coração, onde se expressa a tristeza, onde se escuta a Palavra, desde Moisés até aos Profetas –, parece mesmo que o caminho se encurtou. E Emaús está à vista.
Jesus “finta” aqueles dois caminhantes. Faz menção de seguir, embora Ele não queira seguir. Aqui Ele tem que ser convidado a entrar. Ele provoca o convite que é uma bela oração: “Ficai connosco!”. Claro que Ele fica, entra e faz o que sempre fez: toma o pão, abençoa-o, parte-o e distribui-o. Esta é a vida de Jesus dita em gesto, dada e repartida. É assim que Ele vive. É assim que O reconhecemos. É assim que O anunciamos!
Nas paredes daquilo que se crê ser o local onde Jesus esteve com os dois discípulos de Emaús pode ler-se esta inscrição: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».
Thomas S. Eliot, poeta inglês, faz esta evovação da cena: «Quem é o terceiro, que vai sempre ao teu lado? Se me ponho a contar, juntos vamos apenas eu e tu. Porém, se olho à minha frente sobre a estrada branca, vejo sempre outro que caminha ao teu lado. Quem é esse que vai sempre do outro lado?».
Ele vai sempre a nosso lado, e quer sempre entrar em nossa casa. E nós? Queremos que Ele esteja no caminho e em nós? Estamos inquietos? Ou acomodados?

Publicado no Mais Luz-Jornal da Paróquia de Águeda
com a devida vénia a D. António Couto, onde me baseio
Pe. JAC

15 de dezembro de 2009

Luz da Páscoa é acesa no Natal



O frio de Dezembro propicia a reunião da família, apontando para o dia 25. Mês de fundamental importância porque celebramos o Nascimento do Menino Deus, que vindo ao mundo na fragilidade da natureza humana se aproxima de nós para nos elevar até à sua altura e estatura. Admirável “comércio” este de um Deus que se rebaixa para elevar a humanidade.
Mês do cumprimento dos sonhos: Em primeiro, do sonho de Deus, que se quer aproximar, rebaixar, quer montar a sua tenda no meio de nós, para habitar connosco. Sonho divino de um mundo novo, de paz e de prosperidade. Sonho de uma fraternidade estendida a todas as franjas da sociedade. Depois, mês do cumprimento dos nossos sonhos humanos que precisam que os recentremos em Deus. Fazer que os nossos sonhos estejam em sintonia com os sonhos de Deus. Como escreveu o padre Tolentino Mendonça: “Queres saber de que cor são os sonhos de Deus? / Volta a olhar o mundo pela primeira vez”.
O Advento é tempo de espera. As mulheres são mais conhecedoras – até fisicamente – do verbo esperar. Advento é hora de preparar a Páscoa. A marcha do tempo da liturgia orienta os nossos passos para Jerusalém, para o Gólgota da nossa salvação, para a gruta da ressurreição.
Preparando e celebrando o Natal de Jesus, é imperioso olhar já a noite da nossa salvação. Noite de Páscoa, de luz, de entrega, de abandono, de doação, de serviço. Claro que esta é precedida pela noite do nascimento, humilde e silencioso, alegre e feliz, tal como são as coisas de Deus.
A luz do presépio de Belém aponta a luz e o brilho do sepulcro vazio, da vitória da vida sobre a morte, pelo Vivente. A luz da Páscoa é, assim, acesa na noite de Natal!

texto publicado no Jornal Paroquial "Caminhando" (Dezembro) da Unidade Pastoral de Águeda

11 de maio de 2009

Aprendi...




Aprendi que...
ninguém é perfeito enquanto não te apaixonas.


Aprendi que...
a vida é dura mas eu sou mais que ela!!

Aprendi que...
as oportunidades nunca se perdem,
aquelas que desperdiças alguém as aproveita.


Aprendi que...
quando te importas com rancores e amarguras
a felicidade vai para outra parte.

Aprendi que...
devemos sempre dar palavras boas
porque amanhã nunca se sabe as que temos que ouvir.

Aprendi que...
um sorriso é uma maneira económica de melhorar o teu aspecto.

Aprendi que...
não posso escolher como me sinto
mas posso sempre fazer alguma coisa.

Aprendi que...
quando o teu filho recém-nascido segura o teu dedo na sua mão
têm-te preso para toda a vida.

Aprendi que...
todos querem viver no cimo da montanha
mas toda a felicidade está durante a subida.

Aprendi que...
temos que gozar da viagem e não apenas pensar na chegada.

Aprendi que...
o melhor é dar conselhos só em duas circunstancias:
quando são pedidos e quando deles depende a vida.

Aprendi que...
quanto menos tempo se desperdiça
mais coisas posso fazer.

(Obrigado Jeira por enviares esta partilha)
imagens aqui e aqui

9 de outubro de 2008

O caçador que se tornou presa

Para a luz do dia despertou em Tarso. O pai conferia-lhe o estatuto de “cidadão romano”. Bebeu da sabedoria de Gamaliel. Aprendeu a fabricar tendas. Religiosamente, tornou-se um judeu fervoroso. Era irrepreensível na observância da lei. Tinha um carácter decidido. Ostentava a garra de um verdadeiro líder. No horizonte desenhava-se para ele um futuro risonho.
Depressa se tornou bem conhecido, esse Saulo, empreendedor, de formação esmerada, zeloso.
Assistiu à delapidação do diácono Estêvão. E queria mais. Afinal, essa nova seita que ia proliferando, estava a desestabilizar, a provocar o judaísmo, a gerar rupturas no tecido social e religioso do povo da ancestral aliança. Imagine-se que até já existiam cristãos na cidade de Damasco, na Síria, a 200 km de distância da Palestina.
E Saulo põe-se a caminho, para obviar a tremenda calamidade.
É então que Deus o intercepta. E lhe pede que não mais O persiga.
Saulo torna-se Paulo. O atacante torna-se presa. O caçador torna-se caça (como bem sublinha Carlos Mesters, na sua obra Paulo Apóstolo). O perseguidor atravessa três dias de cegueira, para ressuscitar homem novo.
Considera então como “lixo” as honras do passado. Mais do que confiar no que faz por Deus, confia agora no que Deus faz para ele. Mais do que “justificar-se” pelas obras, mergulha agora na gratuidade do amor de Deus.
Conduzido, não pela tradição ou pela lei, mas pelo Espírito («Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim»), torna-se missionário itinerante, o Evangelho a rasgar sulcos e a frutificar na Ásia Menor e na Europa, a Igreja a crescer, o coração da Igreja a dilatar-se numa universalidade que derruba barreiras entre judeus e gregos, homens e mulheres, escravos e homens livres…
E o Espírito de Deus acompanha-o nas perseguições, nas torturas, nas ameaças de morte, nas acusações, nos tribunais, nas prisões.
Para a posteridade ficaram 14 cartas, espólio precioso que o Novo Testamento conserva, tantas vezes presentes nas nossas celebrações.
Paulo foi um verdadeiro apóstolo, uma testemunha eloquente, um herói. E um mártir. Aos 62 anos de idade, abriram-se para ele as portas do céu. A espada que o dizimou eclipsou-se. Só se vê agora a coroa da glória que Deus lhe ofereceu, juntamente com a felicidade eterna.
Estando nós a viver o Ano Paulino, proclamado recentemente pelo Papa Bento XVI; sendo o lema pastoral da nossa Arquidiocese, para o presente ano, “Encontrados pela Palavra”, não será de reflectirmos sobre a vida e escritos de São Paulo?!
Votos de um bom ano pastoral para todos, sob a protecção de Maria, a Mãe de Deus e nossa Mãe, também ela encontrada pela Palavra.

(texto)Cónego José Paulo Abreu
Vigário-Geral da Arquidiocese de Braga

in DM, 09/10/08

Missão é partir

“Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu.  É parar de dar volta a...