2 de março de 2013

A poesia transcende o poeta. (Palavras na apresentação do meu segundo livro de poesia)




Em abono da verdade devo confessar que nunca foi meu profundo desejo ou condição para ser feliz e me sentir realizado publicar livros... Felizmente(!) não sou escritor a viver daquilo que escreve; arriscar-me-ia a morrer à fome...
Mas, e porque a felicidade é condição necessária a um viver intensamente sentido, e porque a (in)satisfação é também condição necessária para continuar cada dia a querer ser mais e mais feliz, arrisco-me, não a morrer à fome com o que escrevo, mas a tentar, com a transcendência da poesia, saciar a fome de Palavra(s) que ajudem, nem que seja só mais um coração de um irmão, a sentir a beleza e a proximidade de Deus.
E é nesta gestão, não conflituosa, que surgem os meus dois livros, um em 2006, e este agora em vossas mãos.
São livros de poemas compendiados porque eu não me sinto capaz de escrever um livro de poesia com princípio, meio e fim...
Atrevo-me apenas e só e disponho-me a escrever poemas avulso... Isso gosto de fazer! Sinto que cada poema é, em si mesmo, uma obra completa, capaz de dizer estados de alma nas linhas e, talvez, muito mais, nas entrelinhas.
Entrelinhas que cada olhar vê diferente... e que por isso não podem e não devem ficar fechadas numa gaveta, longe de novos olhares, de outras entrelinhas e de mais entrelaçadas formas de sentir e (vi)ver Deus.
Não me considero verdadeiramente poeta... Sinto-me, quanto muito, fazedor de poemas, um contador de estados da minha alma na minha relação tensa comigo mesmo, com os outros e com Deus.
Mas revejo-me em algumas palavras poéticas e sábias e bem conhecidas e cantadas até, de Florbela Espanca, em "Ser poeta".

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)


Para mim, se ser poeta "é ser mendigo", no sentido de buscador, então sou poeta...
Se ser poeta "é ter cá dentro um astro que flameja", então sou poeta...
Se ser poeta "é ter fome, é ter sede de infinito", então sou poeta...
Tolentino de Mendonça, padre e poeta, diz que a poesia é a arte de resistir ao seu tempo. O poeta será, assim, um guerreiro e a poesia o seu castelo e a sua fortaleza. Para mim, escrever poemas é, em primeiríssimo lugar, um modo de dialogar e um modo de rezar. Rezo quando escrevo e escrevo ao rezar...

Vem de longe o gosto por escrever poemas, como vem de longe o gosto por rezar, educado que fui, desde pequeno, entre as mãos ásperas, mas sempre levantadas da minha avó.
Não me perguntem qual foi o primeiro poema que escrevi... Não faço a mínima ideia. Lembro-me, na escola primária e preparatória, de guardar religiosamente um caderno com rimas e versos de amor...
O gosto de escrever poemas (chamo tantas vezes devaneios) aguçou-se no tempo de seminário.
Mas, em mim, o gosto pela poesia nasce, também e muito, da leitura de poesia. Leio muita e variada. E com o tempo e com a leitura fui aprendendo que o poema transcende sempre aquele que o escreve e o escrito deixa de ser seu (do autor), para ser de quem o lê (leitor). Por isso, também me sinto fazedor de poemas porque tantos poetas me dão poemas para ler...
Foi assim que fui dando conta que os poemas que escrevia me fugiam da mão (sem nunca fugirem de mim) como areia fina por entre os dedos, sempre que os tirava da gaveta e os dava à mão de um amigo ou amiga... O poema exige a si mesmo que se dê a conhecer.

Em 2006, a terminar o curso de teologia, recebo o convite da junta de freguesia da minha terra Natal, S. Torcato, para publicar um livro de poemas que fosse comemorativo da elevação da "minha aldeia" a vila. Acedi, convencido que estava de que os poemas não são meus poemas, mas são poemas-para-os-outros. Assim se publicou o primeiro livro "Meus Deus. Poesias de um seminarista", escritos e maturados ao longo do curso teológico, entre 2001 e 2006.

A mesma consciência, a de que os poemas não são meus, acrescida agora da necessidade da angariação de fundos para o novo órgão de tubos da Sé, levou-me, em sintonia com o companheiro de ministério sacerdotal, a ousar publicar este segundo livro de poesia.
Trata-se de um compêndio de 30 poemas, acompanhados de um pequeno comentário que mais não é do que tentativa de o leitor poder dialogar e confrontar a sua própria vida.
Estes poemas são pedaços de oração em circunstâncias diversas da minha vida nos quase dois anos de estive a trabalhar pastoralmente nas paróquias da unidade pastoral de Águeda, entre 2009 e 2011.
Nas vossas mãos os deposito porque são vossos!

Quero agradecer, por fim, a presença de todos nesta tarde. Em especial ao sr. Bispo a presença nesta sessão mas principalmente a atenção e a bondade das palavras que prefaciam este livro. Disse-lhe e agradeci-lhe dizendo que as suas palavras qualificam o livro e respondeu-me, sabia e fraternalmente, que o conteúdo do livro é que inspira as palavras do prefácio. Fico-lhe grato, próximo e sempre ao dispor no serviço e na missão.
Agradeço ao monsenhor João Gaspar a presença e a amizade. E agradeço-lhe tanta sabedoria discorrida e partilhada nos seus muitos livros e escritos.
Quero agradecer, mesmo não nomeando e respeitando a sua vontade, a quem me fez a revisão dos textos e, na bondade e sabedoria, me deu preciosas indicações que melhoraram o produto final.
Quero agradecer à Paulus Editora, na pessoa no Irmão Darlei, a abertura a esta publicação.
Agradeço ao P. Fausto e nele a toda a paróquia de Nossa Senhora da Glória na qual me sinto bem a servir e a procurar ser transparência do rosto de Deus.
Agradeço ao P. Paulo Cruz e ao Ricardo Toste a bela sonoridade nesta tarde solarenga e a tonalidade alegre que deram a esta familiar sessão de apresentação deste livro.
Agradecer a expressiva presença dos irmãos e irmãs consagrados e consagradas da nossa Diocese. Sabei que a vossa vida, acção e missão são para mim inspiração a escrever. Obrigado a vós, neste dia da apresentação do Senhor.
Agradeço por fim aos que já leram ou vão ler o livro. E, enquanto agradeço, também peço a vossa oração junta às minhas orações feitas, tantas vezes, em papel. Creio firmemente que todas chegam ao coração do bom Deus e se convertem para todos nós em benefício e graça. Obrigado a todos.



Pe. JAC

2 comentários:

  1. Parabéns, que outros mais venham a seguir!

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Fidelidade (Great Is Thy Faithfulness)

A fidelidade do Senhor permanece para sempre!