13 de julho de 2018

Entrevista ao "De Colores"


Quando chega um qualquer dissabor fixo-me naquele primeiro amor que me fez firmar a vida toda em Cristo, transformando as dificuldades e os obstáculos em desafiose oportunidades.


https://issuu.com/mccbraga/docs/decolores_julho_2018

17 de junho de 2018

[Somos apenas agricultores]

Somos apenas agricultores
Lavramos os campos
Espalhamos a semente
Mondamos e regamos
Mas a semente nasce e cresce por si
E no fim é sempre um milagre
A espiga de pão que nos é oferecida
Assim é o Reino de Deus
Semente à terra lançada
Que em nós vai crescendo
No silêncio dos dias
E no fim será sempre trigo com fruto
Ceifado
Colhido
Triturado
Farinha de pão
Assim é o Reino de Deus

D. Manuel António Santos 

3 de junho de 2018

O espírito da lei



No centro do anúncio da Igreja está o exemplo do Filho de Deus, que «sendo de condição divina se tornou semelhante a nós». Este movimento de descida da divindade é expressão do amor infinito de Deus que, sem deixar de ser Deus, tornou-se homem para que o homem «recuperasse a semelhança perdida pelo pecado».
A estratégia divina parece ser claramente da diluição da barreira entre o sagrado e o profano, entre o mundo e o reino de Deus (pelo menos é-nos difícil estabelecer essa fronteira), uma estratégia válida, já que o mundo, o barro de que nos fala S. Paulo, é de um valor incomparavelmente inferior ao tesouro que ele transporta, mas ainda assim indispensável para que o precioso conteúdo seja transportado.
O tesouro de Deus é, portanto, formatado por esta matéria caduca, variável consoante a circunstância histórica, mas não se torna refém dela. Dito de outro modo, no mistério da encarnação a Palavra incriada tornou-se também uma forma, uma figura, um rosto, uma expressão humana limitada no tempo - o tempo está em si mesmo em inexorável decomposição, é necessário como o ritmo na música, como estrutura organizadora de uma melodia -, mas não se tornou escravo dessa figura nem desse rosto.
É corajosa a releitura que Jesus faz da lei que obrigava a respeitar escrupulosamente o descanso sabático (cf. Marcos 2, 23 - 3, 6). Lei, variação da matéria animada por um espírito, datada de um tempo e um lugar que, fora de contexto, uma vez absolutizada, torna-se arma de arremesso, e não estrutura potenciadora do crescimento de um sujeito, individual ou coletivo.
É comum a tendência para divinizar a lei ou a linguagem própria de um tempo. Como todos os grupos, também na comunidade crente, por vezes, por detrás de um sorriso sereno, mantém-se o debate aceso sobre certos temas, persiste a discussão sobre questões morais, expressões litúrgicas, orientações disciplinares, entre outras, que, convenhamos, foram desenhadas num contexto e continuam a condicionar as novas formas de dizer a Boa Nova. A verdade é que esta linguagem tornou-se um enigma para os homens de hoje. «Não se entende», dizem. «Estes princípios não fazem sentido», confidenciam-me. «É impraticável esta disciplina», repetem. Não, não podemos dizer que é a lei de Deus que está em causa, mas uma expressão do espírito da lei que persiste muito para além do seu prazo de validade. «A lei de Deus é a mesma», protestava zangada uma boa senhora, só porque a missa tinha deixado de ser em latim. A lei de Deus?
O risco da absolutização da lei é evidente: a catalogação entre os bons cristãos, os aparentemente cumpridores, e os fracos, os de segunda categoria, os que deslizam naturalmente para o patamar de «não praticantes», os que vivem na periferia.
O Senhor chamou-nos amigos e não servos, isto é, escravos da lei. Procuremos ser fiéis aos seus ensinamentos. Amigo significa ter a coragem e a liberdade para repensar e repor novas formas reconfiguração do espírito da lei, obedecendo à pedagogia divina, que continuamente nos inspira a propor a mensagem do Mestre. Afastarmo-nos dos ensinamentos é um passo para o confronto com a dramática bifurcação entre o legalismo frio e estéril e o agnosticismo prático. Não, não nos afastemos do espírito dos ensinamentos de Jesus.


Nélio Pita, CM visto aqui

11 de maio de 2018

Fake news e jornalismo de paz (Papa Francisco)


MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA O LII DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

[13 de maio de 2018]



Queridos irmãos e irmãs!
No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão. Imagem e semelhança do Criador, o ser humano é capaz de expressar e compartilhar o verdadeiro, o bom e o belo. É capaz de narrar a sua própria experiência e o mundo, construindo assim a memória e a compreensão dos acontecimentos. Mas, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar, como o atestam, já nos primórdios, os episódios bíblicos dos irmãos Caim e Abel e da Torre de Babel (cf. Gn 4, 1-16; 11, 1-9). Sintoma típico de tal distorção é a alteração da verdade, tanto no plano individual como no coletivo. Se, pelo contrário, se mantiver fiel ao projeto de Deus, a comunicação torna-se lugar para exprimir a própria responsabilidade na busca da verdade e na construção do bem. Hoje, no contexto duma comunicação cada vez mais rápida e dentro dum sistema digital, assistimos ao fenómeno das «notícias falsas», as chamadas fake news: isto convida-nos a refletir, sugerindo-me dedicar esta Mensagem ao tema da verdade, como aliás já mais vezes o fizeram os meus predecessores a começar por Paulo VI (cf. Mensagem de 1972: «Os instrumentos de comunicação social ao serviço da Verdade»). Gostaria, assim, de contribuir para o esforço comum de prevenir a difusão das notícias falsas e para redescobrir o valor da profissão jornalística e a responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade.

1. Que há de falso nas «notícias falsas»?
A expressão fake news é objeto de discussão e debate. Geralmente diz respeito à desinformação transmitida on-line ou nos mass-media tradicionais. Assim, a referida expressão alude a informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e até manipular o destinatário. A sua divulgação pode visar objetivos prefixados, influenciar opções políticas e favorecer lucros económicos.
A eficácia das fake news fica-se a dever, em primeiro lugar, à sua natureza mimética, ou seja, à capacidade de se apresentar como plausíveis. Falsas mas verosímeis, tais notícias são capciosas, no sentido que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários, apoiando-se sobre estereótipos e preconceitos generalizados no seio dum certo tecido social, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração. A sua difusão pode contar com um uso manipulador das redes sociais e das lógicas que subjazem ao seu funcionamento: assim os conteúdos, embora desprovidos de fundamento, ganham tal visibilidade que os próprios desmentidos categorizados dificilmente conseguem circunscrever os seus danos.
A dificuldade em desvendar e erradicar as fake news é devida também ao facto de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogéneos e impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes. Esta lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação (que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo), corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas. O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Deste modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade.

2. Como podemos reconhecê-las?
Nenhum de nós se pode eximir da responsabilidade de contrastar estas falsidades. Não é tarefa fácil, porque a desinformação se baseia muitas vezes sobre discursos variegados, deliberadamente evasivos e subtilmente enganadores, valendo-se por vezes de mecanismos refinados. Por isso, são louváveis as iniciativas educativas que permitem apreender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento. Igualmente louváveis são as iniciativas institucionais e jurídicas empenhadas na definição de normativas que visam circunscrever o fenómeno, e ainda iniciativas, como as empreendidas pelas tech e media company, idóneas para definir novos critérios capazes de verificar as identidades pessoais que se escondem por detrás de milhões de perfis digitais.
Mas a prevenção e identificação dos mecanismos da desinformação requerem também um discernimento profundo e cuidadoso. Com efeito, é preciso desmascarar uma lógica, que se poderia definir como a «lógica da serpente», capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar. Trata-se da estratégia utilizada pela serpente – «o mais astuto de todos os animais», como diz o livro do Génesis (cf. 3, 1-15) – a qual se tornou, nos primórdios da humanidade, artífice da primeira fake news, que levou às trágicas consequências do pecado, concretizadas depois no primeiro fratricídio (cf. Gn 4) e em inúmeras outras formas de mal contra Deus, o próximo, a sociedade e a criação. A estratégia deste habilidoso «pai da mentira» (Jo 8, 44) é precisamente a mimese, uma rastejante e perigosa sedução que abre caminho no coração do homem com argumentações falsas e aliciantes. De facto, na narração do pecado original, o tentador aproxima-se da mulher, fingindo ser seu amigo e interessar-se pelo seu bem. Começa o diálogo com uma afirmação verdadeira, mas só em parte: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» (Gn 3, 1). Na realidade, o que Deus dissera a Adão não foi que não comesse de nenhuma árvore, mas apenas de uma árvore: «Não comas o [fruto] da árvore do conhecimento do bem e do mal» (Gn 2, 17). Retorquindo, a mulher explica isso mesmo à serpente, mas deixa-se atrair pela sua provocação: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Nunca o deveis comer nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis”» (Gn3, 2-3). Esta resposta tem sabor a legalismo e pessimismo: dando crédito ao falsário e deixando-se atrair pela sua apresentação dos factos, a mulher extravia-se. Em primeiro lugar, dá ouvidos à sua réplica tranquilizadora: «Não, não morrereis»(3, 4). Depois a argumentação do tentador assume uma aparência credível: «Deus sabe que, no dia em que comerdes [desse fruto], abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal»(3, 5). Enfim, ela chega a desconfiar da recomendação paterna de Deus, que tinha em vista o seu bem, para seguir o aliciamento sedutor do inimigo: «Vendo a mulher que o fruto devia ser bom para comer, pois era de atraente aspeto (…) agarrou do fruto, comeu»(3, 6). Este episódio bíblico revela assim um facto essencial para o nosso tema: nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos.
De facto, está em jogo a nossa avidez. As fake news tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que carateriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações económicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder, ter e gozar, que, em última instância, nos torna vítimas de um embuste muito mais trágico do que cada uma das suas manifestações: o embuste do mal, que se move de falsidade em falsidade para nos roubar a liberdade do coração. Por isso mesmo, educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem «mordendo a isca» em cada tentação.

3. «A verdade vos tornará livres» (Jo 8, 32)
De facto, a contaminação contínua por uma linguagem enganadora acaba por ofuscar o íntimo da pessoa. Dostoevskij deixou escrito algo de notável neste sentido: «Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» (Os irmãos Karamazov, II, 2).
E então como defender-nos? O antídoto mais radical ao vírus da falsidade é deixar-se purificar pela verdade. Na visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceptual, que diz respeito ao juízo sobre as coisas, definindo-as verdadeiras ou falsas. A verdade não é apenas trazer à luz coisas obscuras, «desvendar a realidade», como faz pensar o termo que a designa em grego:aletheia, de a-lethès, «não escondido». A verdade tem a ver com a vida inteira. Na Bíblia, reúne os significados de apoio, solidez, confiança, como sugere a raiz ‘aman (daqui provém o próprio Amen litúrgico). A verdade é aquilo sobre o qual nos podemos apoiar para não cair. Neste sentido relacional, o único verdadeiramente fiável e digno de confiança sobre o qual se pode contar, ou seja, o único «verdadeiro» é o Deus vivo. Eis a afirmação de Jesus: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). Sendo assim, o homem descobre sempre mais a verdade, quando a experimenta em si mesmo como fidelidade e fiabilidade de quem o ama. Só isto liberta o homem: «A verdade vos tornará livres»(Jo 8, 32).
Libertação da falsidade e busca do relacionamento: eis aqui os dois ingredientes que não podem faltar, para que as nossas palavras e os nossos gestos sejam verdadeiros, autênticos e fiáveis. Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor. Por isso, a verdade não se alcança autenticamente quando é imposta como algo de extrínseco e impessoal; mas brota de relações livres entre as pessoas, na escuta recíproca. Além disso, não se acaba jamais de procurar a verdade, porque algo de falso sempre se pode insinuar, mesmo ao dizer coisas verdadeiras. De facto, uma argumentação impecável pode basear-se em factos inegáveis, mas, se for usada para ferir o outro e desacreditá-lo à vista alheia, por mais justa que apareça, não é habitada pela verdade. A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos vários enunciados: se suscitam polémica, fomentam divisões, infundem resignação ou se, em vez disso, levam a uma reflexão consciente e madura, ao diálogo construtivo, a uma profícua atividade.

4. A paz é a verdadeira notícia
O melhor antídoto contra as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas: pessoas que, livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através da fadiga dum diálogo sincero, deixam emergir a verdade; pessoas que, atraídas pelo bem, se mostram responsáveis no uso da linguagem. Se a via de saída da difusão da desinformação é a responsabilidade, particularmente envolvido está quem, por profissão, é obrigado a ser responsável ao informar, ou seja, o jornalista, guardião das notícias. No mundo atual, ele não desempenha apenas uma profissão, mas uma verdadeira e própria missão. No meio do frenesim das notícias e na voragem dos scoop, tem o dever de lembrar que, no centro da notícia, não estão a velocidade em comunicá-la nem o impacto sobre a audience, mas as pessoas. Informar é formar, é lidar com a vida das pessoas. Por isso, a precisão das fontes e a custódia da comunicação são verdadeiros e próprios processos de desenvolvimento do bem, que geram confiança e abrem vias de comunhão e de paz.
Por isso desejo convidar a que se promova um jornalismo de paz, sem entender, com esta expressão, um jornalismo «bonzinho», que negue a existência de problemas graves e assuma tons melífluos. Pelo contrário, penso num jornalismo sem fingimentos, hostil às falsidades, a slogans sensacionais e a declarações bombásticas; um jornalismo feito por pessoas para as pessoas e considerado como serviço a todas as pessoas, especialmente àquelas – e no mundo, são a maioria – que não têm voz; um jornalismo que não se limite a queimar notícias, mas se comprometa na busca das causas reais dos conflitos, para favorecer a sua compreensão das raízes e a sua superação através do aviamento de processos virtuosos; um jornalismo empenhado a indicar soluções alternativas às escalation do clamor e da violência verbal.
Por isso, inspirando-nos numa conhecida oração franciscana, poderemos dirigir-nos, à Verdade em pessoa, nestes termos:
Senhor, fazei de nós instrumentos da vossa paz.

Fazei-nos reconhecer o mal que se insinua em uma comunicação que não
cria comunhão.
Tornai-nos capazes de tirar o veneno dos nossos juízos.
Ajudai-nos a falar dos outros como de irmãos e irmãs.
Vós sois fiel e digno de confiança;
fazei que as nossas palavras sejam sementes de bem para o mundo:
onde houver rumor, fazei que pratiquemos a escuta;
onde houver confusão, fazei que inspiremos harmonia;
onde houver ambiguidade, fazei que levemos clareza;
onde houver exclusão, fazei que levemos partilha;
onde houver sensacionalismo, fazei que usemos sobriedade;
onde houver superficialidade, fazei que ponhamos interrogativos
verdadeiros;
onde houver preconceitos, fazei que despertemos confiança;
onde houver agressividade, fazei que levemos respeito;
onde houver falsidade, fazei que levemos verdade.
Amen.

Vaticano, 24 de janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano de 2018.

2 de maio de 2018

O sapato e a formiga [solidão necessária]


«Uma formiga debaixo do sapato de um homem não tem a mais pálida ideia de como é um rosto humano. E nós, diante do rosto de um homem, ignoramos da mesma forma como está o seu coração.
Por puro acaso ou por um subtil sabor perverso, por vezes o nosso sapato esmaga a formiga que atravessa a estrada. Entre ela e a enormidade de nossa figura, melhor, entre a sua pequena cabeça e o nosso rosto há uma distância quase abismal, uma impossibilidade de comunicação.»
Parte desta imagem Milena Jesenská (1896-1944), a mulher de Praga que ficou célebre pelo seu amor com Franz Kafka, a que permanecerá ligada entre 1920 e 1922, pontuando o escritor esse período com as conhecidas "Cartas a Milena".
A imagem é tomada como comparação para indicar o imenso segredo do coração humano: de uma pessoa vê-se o rosto, dele consegue-se intuir algo quando enrubesce, quando te olha, sorri ou chora, mas o íntimo mais profundo permanece oculto.
Somente com a comunicação livre e sincera de si é que esse abismo é preenchido, o que raramente acontece, às vezes nem sequer no casamento.
É verdade que há uma intimidade que pode permanecer sempre e apenas "pessoal", e o outro deve respeitá-la. O poeta libanês K. Gibran sugeria aos noivos: «Cantai, dançai juntos e sede alegres, mas deixai que cada um esteja só: mesmo as cordas de um alaúde estão sós embora frimam a mesma música. Deem os vossos corações mas não para os possuir, porque só a mão de Deus pode contê-los».
Há, portanto, uma solidão necessária que deve ser protegida, mas também é importante que se percorra o caminho de comunhão, no qual se possa ser «um só coração e uma só alma» (Atos 4, 32).


Card. Gianfranco Ravasi 
In Avvenire | Trad.: SNPC 

16 de abril de 2018

Oração pelas Vocações



Jesus Cristo, 
amor do Pai, 
que nos chamas, hoje, 
a escutar a voz do Espírito Santo, 
na experiência quotidiana; 
ensina-nos a discernir a própria vocação, 
fruto da graça do baptismo, 
para vivermos o dom da fé, 
imensamente amados por Deus, 
e responder com confiança ao chamamento, 
para servir a alegria do evangelho, 
como a jovem Maria, 
Tua e nossa mãe. 
Amén.

19 de março de 2018

PORQUE HOJE É O DIA DO PAI

Pai
Terra lavrada com o suor da vida
Onde as videiras crescem
E dão uvas de vinho novo
Nos sonhos de um filho!

Pai
Seara de trigo amadurecida
No sol e no vento do Estio
E o trigo faz-se farinha e pão
Na mesa de um lar!

Pai
Braços que iluminam a noite
Segurando os medos infantis
De uma criança que dorme
Tranquila!

Pai
Estrela Polar de mareantes
E romeiros peregrinos à procura
De caminhos e metas
Nos sonhos de um filho!

HÁ UM REINO SEMEADO... (5º domingo)




Há um Reino semeado nos campos do mundo
um Reino que germina e cresce no silêncio e em gestos pequenos
em sorrisos e olhares de esperança
em mãos estendidas para acolher e ofertar ternura e vida
nos beijos de uma mãe agradecida
no espanto do olhar de uma criança
na enfermeira que acaricia a dor
no médico que ausculta almas e corações
no professor que reparte lições
de sabedoria e futuro...
em arquitetos e engenheiros
padres e carpinteiros
na Irmã que reza e ama
naquele que grita e clama
contra a injustiça e a guerra
naquele que semeia florestas
e pinta a natureza de amores-perfeitos e giestas...

Há um Reino semeado nos campos do mundo
em sementes de justiça e paz
de ternura e solidariedade
um Reino com metas de liberdade
em caminhos de deserto e aliança
com oásis de fé e esperança
e que já está aí, semeado nos campos do mundo!

D. Manuel dos Santos

Entrevista ao "De Colores"

Quando chega um qualquer dissabor fixo-me naquele primeiro amor que me fez firmar a vida toda em Cristo, transformando as dificuldades e...