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18 de abril de 2012

"História" de um belo Encontro



Santo Inácio de Loyola faz-nos a contemplar um encontro entre a Mãe e o Filho Ressuscitado. O Fundador dos Jesuítas deixa claro que é de se esperar e de acreditar que a primeira aparição de Jesus após Sua ressurreição – ainda que não relatada na Escritura – tenha sido à sua Mãe. É uma ideia razoável. Não só por Jesus ter sido um bom filho e desejar terminar com a dor da Mãe, mas também pelo mérito próprio de Maria: é justo que aquela que primeiro aceitou fazer a vontade de Deus e que com o seu “Sim” mudou o rumo da história humana fosse a primeira portadora da grande novidade – a vida venceu a morte! Jesus está vivo!
Ninguém sabe como foi esse encontro. Ninguém sabe o seu conteúdo. Podemos apenas acreditar nele e vê-lo com os olhos da fé. É uma contemplação riquíssima: Mãe e Filho livres da dor e do sofrimento, perdidos no tempo a conversar sobre todos os acontecimentos, cheios de alegria e de consolação.
A certeza da ressurreição de Cristo não ficou apenas no encontro entre Mãe e Filho. Nós somos herdeiros desta boa nova. Fazer este caminho com Jesus, acompanhados pela Mãe, exige a cada um de nós viver a doação, como Cristo, uma vez que ser cristão é viver o nosso ser enraizado e enxertado em Jesus Cristo, pelo Baptismo.



(exerto do sermão do encontro que fiz este ano na celebração do Senhor dos Passos, em Aveiro)

24 de março de 2010

Sermão do Encontro. Senhor dos Passos. Águeda


É longo (um sermão), mas partilho a pedido de alguns. A minha reflexão na celebração do Senhor dos Passos, no passado domingo, dia 21 de Março, em Águeda. Disponível para enviar por email. 


Celebrar a Paixão de Cristo não pode ser, em qualquer tempo ou lugar, motivo de saudosismos ou sentimentalismos ocos e vazios de sentido. Mais ainda: celebrar Cristo que livre e radicalmente caminha para a Cruz não pode ser motivo de pieguice, niquice ou lamechice. Irmãs e Irmãos: só quem entende verdadeiramente a ressurreição, só quem crê num Cristo vivo, actuante e presente na nossa história, pode fazer com Ele este caminho até à Cruz, até ao Calvário, mas já com os olhos e o coração postos na manhã do terceiro dia, na manhã da ressurreição. Nós, os cristãos, não vamos da Paixão e da Cruz à ressurreição, mas sim desta para aquelas, da ressurreição à Cruz. A nossa fé e a nossa esperança não ficam em Sexta-Feira Santa mas estendem-se ao Domingo de Páscoa.

Nós acreditamos num Deus vivo, seguimos um Deus de vivos, não de mortos. Para chegar à vida de Deus, que não tem tempo, nem espaço, nem amarras, Cristo precisou de se dar e doar, por inteiro, totalmente, no alto da Cruz e de uma vez para sempre.
Mas, esta devoção dos Passos de Cristo é, antes de mais e acima de tudo, uma profissão de fé na ressurreição. Porque “se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1 Cor 15, 14). Porque acredito que Jesus ressuscitou, celebro e vivo a sua Paixão não de forma trágica e dramática, mas como abertura a essa vida que só Deus pode dar, porque seu Autor e Criador.
O Domingo de Páscoa é a nossa origem cristã. É à luz da Páscoa que lemos toda a história da salvação. Em Cristo, o curso não vai do nascimento à morte, mas da ressurreição ao nascimento. É da condição de ressuscitado que olhamos Cristo nascido, perseguido, que teve uma vida pública, que pregou pelas terras da Palestina, que foi preso e crucificado.
Irmãs e Irmãos: Cristo veio para nos salvar na sua ressurreição. É aí que está a nossa identidade. Somos gente salva por Cristo pela sua ressurreição. Por isso, esta celebração que nos congrega não é fatalismo, mas uma confissão de fé pessoal e comunitária, em Cristo Senhor e Redentor, Ressuscitado e Vivo entre nós.
Para chegar à ressurreição, Jesus sabe bem o caminho que tem de percorrer. É neste caminho, humanamente doloroso e divinamente glorioso, que hoje entramos acompanhando Cristo que caminha livremente para a Cruz. No Evangelho de João, Jesus diz: “Eu dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu espontaneamente a dou. Eu tenho autoridade para dá-la, e autoridade para tornar a tomá-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10, 17-18). Jesus abraça fervorosamente a vontade do Pai, ainda que isso lhe cause suores de sangue e lhe venha a tirar a própria vida no alto da Cruz, no Calvário.

Depois de uma vida passada fazendo o bem, curando e ensinando, arrastando multidões para o ouvir, eis que chega a “hora”, a hora da glória, ou a gloriosa hora.
Jesus veio cumprir o plano salvador de Deus desenhado desde o princípio, desde a criação. Veio incomodar os poderes instalados. “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). Jesus traz uma guerra, não de armas, mas silenciosa, que deve ter lugar no coração humano e quer a mudança e a conversão: “Se não vos arrependeres perecereis do mesmo modo” (Lc 13, 3.5).
Aos poderes instalados e acomodados Jesus desafiou, mas estes não aceitam o desafio. E mais que isso: vêem Nele uma ameaça ao seu poder déspota e absolutista, tratando logo de eliminá-lo. Não percebem que a única ameaça que Jesus faz tem a marca da verticalidade de uma vida recta, coerente e, acima de tudo, dada na horizontalidade dos irmãos que caminham ao seu lado, num serviço generoso, gracioso e gratuito.
Jesus não quer poder, glória ou espectáculo. “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20, 28). Ele quer apenas oferecer gratuitamente a salvação, a felicidade. Ele quer dar sentido, Ele quer ser o sentido, a orientação, o Caminho que leva ao encontro do Pai e que traz felicidade à vida humana.
Ele veio pregar o amor. O amor deve se a nossa lei maior. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 14). Este é o testamento de Cristo.
Se os oponentes e opositores de Jesus Lhe querem dar a morte, apesar de toda a pedagogia, de todos os ensinamentos, de todos os milagres, de todas as boas acções, a Hora de Cristo, ou as últimas horas são marcadas por um abandono mais ou menos generalizado: fogem e dispersam-se aqueles que com Jesus calcorrearam tantas estradas poeirentas da Palestina. Os discípulos continuam sem perceber este projecto de Deus. Para eles, o Messias não poderia morrer numa Cruz. Também eles fogem da Paixão de Amor que é caminho decidido para a glória final.
Uns fogem, outros escondem-se, poucos permanecem fiéis e seguem o caminho de Cristo, acampanhando-O mais de perto ou nem tanto. Mas, outros estão lá seguindo Cristo em todas as horas, mesmo na hora última e definitiva da glória, da Cruz.

Por isso, esta celebração dos Passos de Cristo não turva o nosso olhar para, com os olhos da fé, vermos a presença da Mãe, na Hora de Cristo e em todas as horas. Ela está aqui presente como esteve sempre. Assume plenamente a sua missão de Mãe, como aquela que ama e acompanha os Passos do Filho, ou o Filho nos passos na sua vida humana.
Desde o início, Maria é apaixonada por Cristo. Essa paixão irrompe logo naquele “Fiat”, inédito e inaudito, esse “Sim” dito, assumido e comprometido. “Faça-se em mim segundo a vossa vontade” (Lc 1, 38) é o harpejo confiante que ecoa de Maria. Funciona como programa de toda a sua vida; o cumprimento da vontade de Deus é a sua missão primordial. Ela é escolhida desde toda a eternidade, vocacionada por Deus que fez dela o primeiro sacrário da terra a albergar a divindade.
O anúncio do Anjo à menina de Nazaré marca o início de um novo tempo para o povo de Deus, pois é o cumprimento do Antigo Testamento com a abertura do caminho para o Reino de Deus. De facto, a Anunciação do anjo a Maria marca o início da Redenção humana. Com o seu “sim”, Maria divide a história da humanidade em antes e depois, em antigo e novo. Ao aceitar o projecto de Deus, Maria insere-se na aliança de Deus com seu povo: através dela o Filho de Deus se fará homem e se fará presente e actuante em seu tempo e por toda a eternidade.
Na Anunciação, Maria prova a sua fé e faz-se instrumento nas mãos de Deus para que a salvação aconteça. O “Sim” de Maria é um dom inteiro de si mesma. Ela dá-se toda naquele “Sim” dado ao Anjo. A partir dele, a sua vida fica transformada. Aceita ser a “serva do Senhor” porque Mãe do “Servo Sofredor”.
Nascido o Filho de Deus, do seio de Maria, no presépio de Belém – um grandioso hino à humildade, à simplicidade e à pobreza – depressa a Mãe sente que Aquele Menino está já a ser perseguido.
Ainda há pouco nascido e Jesus já é um exilado. Maria e José vêm-se obrigados a fugir para o Egipto dada a maldade dos poderosos que querem já aniquilar Aquele Menino.
Começam já as dores da Mãe que não terminaram com as dores de parto. Muito sofre uma Mãe por causa dos filhos, e Maria não é excepção.
De dores falando, olhemos a dor desesperante de Maria na cena da perda e do encontro de Jesus no templo de Jerusalém, aos doze anos. E se a dor da perda é grande nada menor se parece revelar a dor do encontro entre os Doutores. “Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai?” (Lc 2, 49). Palavra talvez incompreensível aos ouvidos de Maria e de José, mas que a Mãe sabe guardar no seu coração, cheia de fé, como que já conhecedora da grandiosa missão do Filho. Estas dores, primeiro a da perda, depois a do encontro, são acalentadas pela certeza de que Jesus tem uma missão grande a cumprir como Enviado do Pai.

Mas, a Senhora das Dores não termina aqui a sua via-sacra. A festa do casamento em Caná, traz como que outra flecha ao coração maternal de Maria. O Evangelho de João relata o diálogo entre Mãe e Filho: “Não têm vinho”, “Mulher que temos nós a ver com isso. Ainda não chegou a minha hora” (Jo 2, 3.4). Palavra fria, crua, directa, mas carregada de simbolismo bíblico. O que aparentemente parece uma palavra insensível aos nossos ouvidos, para Maria é grande elogio. É que Maria é a nova Mulher, a nova Eva, uma vez que se por Eva veio o pecado e a perdição, por Maria veio a graça e a redenção. Por isso, não podemos sequer imaginar Nossa Senhora entristecida pela palavra de Jesus. Antes pelo contrário. Maria guarda, de novo, tudo no seu coração e confia, continuando a fazer-se instrumento nas mãos de Deus para acontecer a salvação. “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 5), disse Maria aos serventes convencida e sabedora, por um lado, da necessidade da festa e, por outro, do poder e da missão do Filho. Esta palavra de Maria, resposta àquela de Jesus, é, por assim dizer, uma profissão de fé da Mãe, como que a dizer e a sugerir: “Não vos preocupeis porque o meu Filho providenciará!”.

Durante a vida pública de Jesus, Maria ao ouvir os ensinamentos do Filho alegra-se, mas, ao mesmo tempo, sofre ao perceber a repulsa à mais bela proposta de felicidade alguma vez ouvida. Por mais que a linguagem do Filho tenha sido extraordinariamente bela e transcendente e, ao mesmo tempo, humanamente acessível, havia sempre quem se opusesse. As autoridades, os fariseus, os chefes, os escribas, os doutores, procuravam constantemente alguma coisa para contradizê-lO e acusá-lO. Possivelmente, já sabiam que Ele era o Messias e não se contentavam apenas em persegui-lO, propondo-Lhe armadilhas, quando Ele pregava. Começaram a conspirar para matá-lO.
Maria vivia na ansiosa expectativa de quando e como isso ocorreria. Chegada a hora, a Mãe deverá ter acompanhado o Filho, preso, levado ao Sinédrio, condenado por esse júri forjado, flagelado e coroado de espinhos. Mãe que é Mãe sofre!
Foi grande com certeza o sofrimento de Maria, ao ver o sangue de Jesus verter sobre a terra. Maria assistirá, na manhã seguinte, à triste cena da condenação oficial de Jesus por Pilatos, começando logo depois a triste e dolente marcha para o Monte Calvário, a trajectória da Via Crucis. Nas curvas e subidas desse caminho, a Mãe deve ter encontrado o Filho. Este terá sido o encontro de dois corações que sempre se amaram e buscaram um ao outro e mais ainda no momento em que se aproxima a separação física destes dois seres.
É, com toda a certeza, intensa a relação maternal-filial entre Cristo e Maria. Apesar de tudo, o cordão umbilical que biologicamente os ligou ainda não foi totalmente cortado.
Por breves trocas de olhares, neste caminho de dor, Ela O conforta, assegurando-lhe que está com Ele. Embora sem levar a cruz ao ombro, como o Cireneu, Ela carrega com Ele todo o seu sofrimento. Mas, também o Filho a conforta assegurando que vai “renovar todas as coisas” (Ap).

Durante a crucifixão, cada pancada é um golpe no coração da própria Mãe. Aquela agonia foi morosa. Jesus, levantado na cruz, pendente entre o céu e a terra, com os braços abertos como um arco-íris de paz sobre o mundo, exclama: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23,34). Nessa cena, O Evangelho de S. João descreve Maria de pé, junto à Cruz. Jesus, já quase morto, faz o último testamento: "Mulher, eis o teu filho” “Filho, eis a tua mãe” (Jo 19). Palavra solene, carregada de dor mas de total confiança.
A dor da perda do Filho feriu brutalmente o coração de Maria. Porém, a fé que nela habitava, fazia-a crer que a morte de Jesus não seria o fim e acreditava que Deus teria uma resposta para tudo aquilo. Cristo Ressuscitado é a resposta esperada, a confirmação da certeza há muito sabida no coração daquela que nunca deixou de acreditar e que é bem-aventurada por todas as gerações.
O Fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, faz-nos a contemplar um encontro entre a Mãe e o Filho Ressuscitado. Santo Inácio chama a atenção para a relação íntima e intensa dos dois. E deixa claro que é de se esperar e de crer que entre aqueles que tinham tal intimidade e que viviam envolvidos em tal amor, que a primeira aparição de Jesus após Sua ressurreição – ainda que não relatada na Escritura – teria sido à sua Mãe. É uma ideia razoável. Não só por Jesus ter sido um bom filho e desejar terminar com a dor da sua mãe, mas pelo mérito próprio de Maria: é justo que aquela que primeiro aceitou fazer a vontade de Deus e que com o seu “Sim” mudou a história humana fosse a primeira portadora da grande novidade – a vida venceu a morte! Jesus está vivo. Ressuscitou!
Ninguém sabe como foi aquele encontro. Ninguém sabe o seu conteúdo. Podemos apenas crer nele e vê-lo com os olhos da fé e de uma saudável e pertinente imaginação. É uma contemplação riquíssima: Mãe e Filho livres da dor e do sofrimento, perdidos no tempo a conversar sobre todos os acontecimentos, cheios de alegria, consolo e glória.

A certeza da ressurreição de Cristo não ficou apenas no encontro entre Mãe e Filho. Maria experimenta primeiro a glória de Deus e logo sai em missão: tendo visto o Filho vivo é também portadora da maior notícia já ouvida pelos homens.
Naqueles primeiros momentos após a ressurreição de Jesus, Maria une-se aos Apóstolos. Mãe do Mestre e Mãe daqueles homens confusos pela transformação ocorrida nas suas vidas.
Maria compreendeu o mistério que cercou a ressurreição de Jesus e ensina-nos a compreendê-Lo, mostrando a actualidade daquele acontecimento perdido num túmulo de Jerusalém e que continua hoje a acontecer, silenciosa e gloriosamente, em cada vida que renasce, não da morte física, mas da morte do pecado.
Por tudo, a Mãe de Deus e nossa Mãe, Mãe das Dores e Senhora da Piedade, é Mãe da Confiança no Ressuscitado. No seu coração, Maria confia: Ela sabe que depressa virá o terceiro dia e como tal permanece fiel até ao fim, até ao extremo. "Feliz aquela que acreditou em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor!" (Lc 1,45).

JAC

Agradeço desde já as fotos que me enviaram. Pela gentileza do acto, obrigado!

 

23 de março de 2010

Nossa Senhora da Soledade: Passos de Cristo em Águeda

Nestas celebrações destes três dias que pretendem reafirmar e reforçar a nossa fé em Jesus Cristo, morto, ressuscitado e vivo entre nós, olhamos hoje, em particular, a Mãe, a Senhora das Dores, a mulher atenta e solícita às dores e sofrimentos de quantos se abrem e confiam na misericórdia, na protecção, na compaixão e providência de Deus.
O relato das Bodas de Caná, que ouvimos proclamar, é o nosso contexto para olharmos esta figura singular da história da salvação, como Mulher e Mãe, intercessora e medianeira de todas as graças. Este episódio mostra-nos claramente como a Mãe de Jesus actua junto daqueles que dela necessitam. Ele é verdadeiramente Mãe de clemência e de misericórdia.
S. João começa por dar conhecimento da presença da Mãe de Jesus, do próprio Jesus e dos seus discípulos na festa do casamento.
Maria, a dado passo, percebe que o vinho está para acabar e por isso, cheia de zelo e de prestimosa caridade, observa a Jesus: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). Para evitar que os anfitriões passem vergonha diante dos convidados, pede a seu Filho o milagre. Com discrição, mas certa de que Ele o é capaz.
Este pedido de Maria a Jesus traduz a sua relação maternal com a humanidade. Amor materno que antevê a aflição dos filhos, que procura diminuir-lhes o sofrimento, que quer desde sempre dar-lhes o que de melhor puder dar.
Diz a este respeito o Beato José Maria Escrivã: “É próprio de uma mulher [mãe] e de uma solícita dona de casa notar um descuido, prestar atenção a esses pequenos detalhes que tornam agradável a existência humana: e foi assim que Maria se comportou”. É assim que Maria intercede junto de Deus pela humanidade, como se dissesse constantemente: “eles não têm mais vinho”, sugerindo ao Senhor que dê, de novo, aos homens e mulheres daquele tempo e de todos os tempos, a alegria perdida no meio dos seus sofrimentos e tribulações.
A resposta de Jesus à sua Mãe, à primeira vista, poderia parecer dura, mas só àqueles que não possuem uma verdadeira e completa compreensão da Escritura. Disse Ele: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora”. (Jo 2, 4).
Ora, analisando melhor a resposta de Jesus, podemos ver como ela é, de facto, elogiosa para Maria. Em primeiro lugar, convém lembrar que Ele a chamou de “mulher”, também no Calvário, dizendo do alto da Cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26).
Além disso, chamando-a de “mulher”, Ele fala como Deus fala às suas criaturas. Mas, ainda mais importante do que isso, Jesus chama sua Mãe de “mulher”, para que todos reconheçam nela aquela “mulher” que profetizou no Génesis, quando amaldiçoou a serpente ou a “mulher” relatada no Apocalipse.
Voltando àquela festa de Caná, Maria adverte os serventes: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). E é ensinando àqueles homens que fiquem atentos ao movimento do seu Filho que Maria se torna também intercessora de Deus junto da humanidade. O milagre, o sinal de Caná, não aconteceria se os serventes não ouvissem e obedecessem ao que Jesus lhes indicaria. Por isso, era necessário que um canal de comunicação se abrisse entre a divindade e a humanidade. E, em Caná, Maria foi essa via comunicadora de vida nova que age movida por uma “caridade preventiva”.
Maria pediu o milagre por caridade e de imediato dá aos servos um conselho que serve para todos nós: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Por este motivo a Igreja a chama de Mãe do Bom Conselho, Mãe que continuamente nos comunica bons conselhos e aspirações.
Vendo as nossas aflições e respondendo com o pedido de que façamos o que Jesus disser, Maria torna-se intercessora de Deus, medianeira. Tal como em Caná, o milagre nas nossas vidas não poderá acontecer se não tivermos olhos e ouvidos abertos para fazer o que o Senhor nos diz. Com Deus, participamos do milagre de fazer vida nova no mundo e é Maria quem nos conduz nesse mistério de amor e construção.
As Bodas de Caná revelam-nos esta Mãe solícita e atenta, presente e actuante na vida dos homens. Com as palavras do poeta Dante, na “Divina Comedia”, rezo a Maria, intercessora e medianeira que continue a ser o que sempre foi: Mulher e Mãe!

Mulher, és tão grande e tanto vales
que, quem graça e a ti não recorre,
seu desejo é o de voar sem ter asas.
A tua benignidade não só socorre
a quem pede, mas muitas vezes,
generosamente, ao pedir, precede.
Em ti, misericórdia, em ti, piedade,
em ti, magnificência, em ti se reúne
tudo quanto na criatura há de bondade!
(Dante Allighieri, Divina Comedia, Paradiso, XXXIII,13-21)

20 de outubro de 2009

Eucaristia Bendita Seja!

Com os cristãos da paróquia de Geraz do Minho, na Póvoa de Lanhoso, reflecti este domingo sobre o Santíssimo Sacramento. Deixo aqui a minha partilha. É longa e por isso peço desculpa.

1. FORÇA DOS FRACOS E ALEGRIA DOS TRISTES

A festa que celebramos em honra do Santíssimo Sacramento é oportunidade para, por um lado, reflectirmos sobre a importância da Eucaristia na vida dos cristãos e, por outro, para nos comprometermos mais na sua vivência em todas as suas dimensões.
Desde logo, convém recordarmos que a Eucaristia é o centro da vida da Igreja e como tal centro da vida dos cristãos.
Permitam-me reflectir convosco a Eucaristia a partir da sua relação com as virtudes teologais que, como bem sabem, são três: fé, esperança e caridade.
É imprescindível afirmar que sem as três não há verdadeira Eucaristia: não há missa sem fé, como não há missa sem esperança e sem caridade.
A Eucaristia, caríssimos cristãos, é a mais surpreendente das invenções divinas que estão no seu conjunto destinadas a penetrar de forma mais profunda a existência humana.
Sabemos que a Eucaristia constitui o cume da obra da salvação. Por isso, dentro da economia sacramental possui uma excelência e uma grandeza únicas porque confere não somente a graça mas também o próprio autor da graça que é Cristo.
Na Eucaristia tudo deriva de um amor até ao extremo de uma doação ilimitada de Cristo. A Eucaristia desempenha também um papel fundamental no crescimento da comunidade cristã porque continua a nutrir, na e pela sagrada comunhão, aqueles que são chamados a levar o testemunho de Cristo e a sua Boa Nova ao mundo. Ela concede força aos fracos, alegria aos tristes e alento espiritual aos tentados, aos desnorteados e aos desiludidos.
Depois destas poucas considerações passemos a analisar a relação da Eucaristia com as virtudes teologais, a começar pela fé.

2. MISTERIUM FIDEI

A exclamação “Mistério da Fé” que fazemos em cada missa é um apelo à fé. Só a fé e por meio dela se pode acolher a oferta sacrificial que se realiza pelas palavras “Isto é o meu corpo” “Isto é o meu sangue” e a presença que delas deriva.
A fé na Eucaristia não é de ordem secundária nem é um anexo. Jesus que montou a sua tenda no meio dos homens é o “pão vivo descido do céu” (Jo 6, 53) e quer dar-se como alimento, mas primeiro exige uma adesão de fé.
O Mestre pretende afirmar que não é possível seguir os seus passos sem acreditar na Eucaristia. Precisamos, por isso, de ter uma fé eucarística.
Acreditar que o pão e o vinho que vemos se tornam Corpo e Sangue de Cristo requer um impulso de fé, um salto invisível sempre renovado.
Passar dos sentidos, do que é sensível, ao mistério é aquilo que nos é pedido em cada celebração.
Então, aquela expressão do cânone da missa – “Mistério da Fé” – irrompe como grito de alegria. É a alegria do mistério de Cristo presente no meio do mundo por meio do Santíssimo Sacramento da sua presença.

3. SACRAMENTUM CARITATIS

A Eucaristia está também em profunda relação com a caridade. Não foi por acaso, estimados cristãos, que o Papa Bento XVI escreveu a exortação apostólica pós-sinodal “O Sacramento da Caridade”.
Além de “mistério da fé” (misterium fidei), a Eucaristia é também “sacramento da caridade” (sacramentum caritatis).
A fé, como sabemos, é animada pela caridade. Ora, caros cristãos, sempre que Jesus pedia uma adesão de fé, pedia também um movimento de amor pelo qual as pessoas se unissem a Ele e ao Pai.
Jesus recordou várias vezes o preceito “amarás o Senhor com todo o teu coração, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5; Mt 12, 30).
Este mandamento exige a pessoa toda inteira e encontra aplicação na Eucaristia: Cristo eucarístico dado a todos quer ser acolhido por todos na comunhão por meio desse mesmo amor.
Os que recebem e se alimentam da mesa eucarística são exortados a adorá-lo e a amá-lo nas mesmas circunstâncias que exige o preceito.
Mas, Jesus não se fica pelo amor ao Senhor e depressa junta o amor ao próximo. “Amarás o próximo como a ti mesmo” (Lc 19, 18; Mc 12, 13) é o segundo inciso do mesmo mandamento.
Na última Ceia, Jesus revela todo o alcance da caridade que pretende instaurar. Logo depois de instituir a Eucaristia enuncia um novo mandamento: “Assim como eu vos amei, também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34; 15, 12).
Jesus ordena que o imitemos no amor de quem se faz último, pequeno e oferecido. Amar como Jesus amou é um objectivo elevadíssimo mas alcançável àquele que recebe a forço do alto superando tendências egoístas e chegando à generosidade e à gratuidade do amor.
O alimento eucarístico – pão e vinho consagrados – deixa em nós uma potência de amor capaz de enfrentar dificuldades e superar obstáculos.
Santa Teresinha do Menino Jesus escreveu a respeito da força da caridade que brota da Eucaristia, uma belíssima poesia:

“Jesus minha sacra e santa vida
Tu sabes bem, meu Rei divino
Que sou um cacho dourado
Que deve desaparecer por ti.
Na prensa do sofrimento
Te provarei o meu amor eterno
Nada mais quero aqui na terra
Do que imolar-me em cada dia”.
[Poesia, 25]

A Eucaristia permite desenvolver múltiplas virtualidades do amor. Isto porque é o coração de Cristo que possui a plenitude do amor, essencialmente aquele que se doa até ao fim, sem limites nem reservas.
O inciso “como eu vos amei” desafia a seguir o amor de Cristo estabelecido no alto da cruz. Uma vertente desse amor tem a ver com a atitude do serviço expressa altamente no gesto desconcertante do “lava-pés”. Neste momento, Jesus faz-se servo de todos, dando um testemunho de impressionante humildade que brota da obediência e do amor.
Consciente da sua soberania, não recorre ao seu poder para esmagar ou dominar, mas para servir. Por isso, ninguém é tão humilde quanto Jesus.
Cada Eucaristia que celebramos reproduz esse gesto de humildade, porque Ele continua a fazer-se alimento e bebida daqueles que O amam. Põe-se ao serviço da humanidade, alimentando-a.
A Eucaristia é, assim, manifestação discreta de um amor humilde e gratuito. Cristo insiste em que o sigamos com humildade e a Eucaristia responde a esse temor de fugir da via dolorosa – da via crucis – fazendo brotar a caridade através do sacrifício e da entrega generosa e sem limites.

4. ESPERANÇA QUE NÃO ENGANA

A última das virtudes teologais – que na enunciação tradicional é a segunda – é a esperança. A Eucaristia revela-se rica de esperança, aquela que aponta o destino individual e o da humanidade.
Aquele que come a Eucaristia tem a vida eterna, pois os dons eucarísticos garantem, no fim dos tempos, a recompensa prometida por Cristo: “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna”.
Do ponto de vista do destino da humanidade as palavras de S. Paulo são bem elucidativas: “todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste sangue anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.
A Eucaristia contribui assim para a vinda última e definitiva que aguardamos em “jubilosa esperança”, quando Cristo for tudo em todos.
Santo Inácio de Antioquia dizia que “a Eucaristia é fármaco de imortalidade, antídoto para não morrer, mas para viver para sempre em Jesus Cristo”.
A Eucaristia, portanto, conduz à esperança e dá-lhe a força para esta se concretizar. Introduzindo Cristo na comunidade cristã, contribui para a sua vinda última.
O Santíssimo Sacramento da Eucaristia confere aos seguidores de Cristo e aos seus evangelizadores a força que necessitam. Esse augusto sacramento orienta para o futuro, para o ponto culminante, para o destino final, o banquete das núpcias do Cordeiro.
Por isso, a Eucaristia é fonte inesgotável de esperança, uma esperança que não engana nem se engana, como diz S. Paulo, porque é esperança em Cristo que nunca desilude.

5. EUCARISTIA, BENDITA SEJA!

Irmãos caríssimos, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia e para nós penhor de salvação e garantia de que Cristo nos continua a amar e a querer permanecer connosco no meio das alegrias e das esperanças, mas também no meio do sofrimento e das tribulações.

Em gratidão, por mim e por vós rezo:

Eucaristia, fonte de vida, imortalidade,
Imensidão de graça e verdade.
Eucaristia, Corpo e Sangue do Senhor,
Sacramento e milagre de amor.

Eucaristia, primavera constante de inovação,
Corpo e Sangue de Cristo, sob a aparência de Pão.
Eucaristia, banquete pascal,
Refeição que nos dá o essencial.

Eucaristia, dom gratuito de Deus Amor!
Doação infinita de Cristo Senhor.
Eucaristia, sol radioso que alumia e fortalece,
Conforto e remédio de quem padece.

Eucaristia, mistério pascal e dimensão de eternidade,
Fogo de amor, grandeza e fecundidade.
Eucaristia, pão dos famintos que se querem renovar,
Sacramento de vida que se consagra, no altar.

Eucaristia, sorriso de Deus, partilha com o irmão,
Loucura de um Deus que quer habitar nosso coração.
Eucaristia, alimento reconfortante que nos conduz a Deus,
Fonte fecunda que revigora os filhos Seus.

Eucaristia, força criadora da Humanidade,
Amor profundo do Deus Trindade.
Eucaristia, gerada na Cruz do Senhor,
a maior invenção de Deus Amor!

Eucaristia, Sacramento de esperança e comunhão,
Presença de Cristo, nosso irmão.
Eucaristia, o grande suporte da vida da Igreja,
Pão dos fracos e dos fortes, Bendita seja.
[Irmã Maria Aurora, FMNS, adaptado]

16 de outubro de 2009

Adoro te devote




Este domingo vou pregar ao Santíssimo Sacramento. Isso faz-me reler e partilhar São Tomás de Aquino. Aliás, a partilha é um elemento da Eucaristia.

Adoro te devote

Ó Jesus, eu te adoro, hóstia cândida
Sob aparência de pão nutres a alma.
Só em ti meu coração se abandonará
Pois tudo é vão quando te contemplo.

Olhar, gosto e tacto não te alcançam
Mas a tua palavra permanece firme em mim:
És Filho de Deus, nossa verdade;
Nada mais há de autêntico, quando tu nos falas.

Na cruz escondeste a divindade,
Embora sobre o altar velas pela humanidade;
Homem-Deus, a fé a mim te revela,
Como ao bom ladrão, dá-me o céu, um dia.

Mesmo que tuas chagas não me mandes tocar
Grito com Tomé: “Tu és o meu Senhor”;
Cresça em mim a fé, quero em ti esperar,
Só em teu amor encontra paz o meu coração.

És memória eterna da morte do Senhor,
Pão vivo, vida, em mim tu te transformas
Faz com que a minha mente de ti a luz extraia,
E do teu maná em si conserve sabor.

Qual pelicano, nutre-nos de ti;
Do pecado, grito: “Lava-me, Senhor”.
Teu sangue é fogo, que queima o nosso erro,
Uma só centelha a todos pode salvar.

Agora fito a Hóstia que te esconde de mim.
Ardo com a sede com que anseio ver-te:
Quando esta carne se dissolver,
O teu rosto, luz, se revelará.

Ámen.

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...