20 de janeiro de 2009

Missão em Benguela




O que leva um jovem arquitecto e uma jovem médica, ambos bracarenses, casados em Setembro de 2007, a partirem para o continente africano como voluntários da Organização Não Governamental (ONG) Leigos para o Desenvolvimento, dias depois do enlace matrimonial? Pedro Soares (PS), de 31 anos, e Márcia Cordeiro (MC), de 30, responderam a esta e a outras perguntas em entrevista ao Diário do Minho (DM) e recordaram, ainda, como foi um ano, não de experiência, mas de vida concreta entre as pessoas de Benguela, em Angola. Depois de um ano de preparação, da celebração do casamento e de uma caminhada a Santiago de Compostela, o casal partiu para Benguela de onde chegou em finais de Novembro passado. A sensação, agora, é que tudo passou muito rápido e, por isso, nada melhor do que repetir esta vida em missão. Para já, vão apostar na vida de casal, na formação e no trabalho profissional. Mas, o desejo de voltar a terras está enraizado no coração de quem quer ajudar os que menos têm a encontrar melhores condições e um pouco mais de felicidade, embora, paradoxalmente, sejam já muito felizes.
DM: Qual foi, em concreto, as missões que desempenharam ao longo de mais de um ano de vida em Angola?
PS: Norma geral, os leigos enviam voluntários missionários que tenham uma licenciatura ou alguma formação profissional. Eu como arquitecto não trabalhei dentro da minha área específica. Inicialmente eu tinha a missão de dar aulas de físico-química no Seminário local. Além disso, já sabia que teria de coordenar e dinamizar os dois Centros de Apoio Escolar e Bibliotecas (CAEB) de Benguela. Estes centros são motivados pelo facto de uma larga camada daquela população ser muito jovem e pretendem incentivar o interesse pelo livro e o gosto pela leitura.
No entanto, quando cheguei ao terreno encontrei ainda outro projecto, além destes: construir de raiz uma obra de cariz social, com cinco salas, pertencente à paróquia.
Esta construção foi feita sem recursos quase nenhuns, mas a obra ficou acabada e entregamos a chave. Fizemos uma campanha de angariação de fundos, via internet, principalmente para familiares e amigos. Algumas empresas locais também auxiliaram com diversos materiais.
Na prática, durante este tempo, fui construtor civil, professor e coordenador dos centros.

MC: Eu fui para desempenhar a missão na área da medicina, que é a minha formação superior. Ao nível do projecto da saúde, os Leigos têm três subprojectos fundamentais: o primeiro é dar apoio aos postos de saúde que, em Benguela, são uma espécie de pequeno hospital, com internamento, pediatria, consultas, salas de parto e pós-parto. É o género dos centros de saúde de cá, mas com internamento.
A vertente da formação foi outras das missões que me foi incumbida. Principalmente aos enfermeiros já que eles fazem o papel dos médicos e eu era a única médica naquele posto.
Esta formação aos enfermeiros, que é um projecto continuado dos Leigos para o Desenvolvimento, é essencial e decorreu em cerca de cinco meses com encontros duas vezes por semana a 25 enfermeiros de outros postos de Benguela.
Ainda fiz formações básicas para jovens na área da educação para a saúde. HIV, educação sexual, amamentação, gravidez na adolescência, mas também vacinação, diarreia e tuberculose foram alguns dos temas abordados nestas formações para pessoas entre os 15 e os 20 anos.

DM: Quando foram e onde ficaram instalados?
MC: Chegamos a Benguela a 23 de Novembro. Ficamos instalados mesmo no centro da cidade, numa casa que a diocese cedeu aos Leigos para o Desenvolvimento e que se destina a acolher os voluntários que vão para lá como missionários.
A cidade de Benguela é linda. Está muito degradada não tanto pela guerra, mas pela não preservação e não conservação.
A adaptação inicial foi difícil uma vez que o calor intenso dava muita vontade de dormir. Lá o inverno, em termos de temperatura, parece a nossa primavera daqui.
Vivemos em comunidade. Connosco estavam mais três Leigos, do Porto, de Lisboa e do Algarve. Cada um tem os seus projectos, mas acabamos por falar em conjunto das nossas missões e das nossas dificuldades.
Apesar de vivermos na cidade, a nossa missão era desempenhada nos bairros da periferia da cidade, que estão carregados de problemas sociais, principalmente a pobreza e o analfabetismo.

PS: O nosso dia começava cedo. Às 6h00 era altura para levantar e cada um seguia para os seus projectos e trabalhos. Às 13h00, o almoço era em casa com a comunidade toda reunida e, no final, cada qual dirigia-se de novo para os projectos.
À tardinha, fazíamos oração comunitária preparada alternadamente e no final jantávamos. Depois de um tempo livre era hora de descansar porque o dia seguinte começava cedo.
Além desta rotina, de 15 em 15 dias havia um passeio comunitário.
O domingo era um dia mais pessoal. Íamos à Eucaristia, à igreja do Pópulo porque era muito portuguesa e até os sinos eram de Braga.
Na missão, estamos muito ligados à vida da diocese. Participamos nos encontros propostos pelo Bispo diocesano e lá existe uma grande união da família missionária

MC: Apesar da aparente rotina dos dias, a vida lá é menos cansativa, pelo menos visualmente. Não há televisão, telemóvel e outras tecnologias nem publicidade. O que há lá são pessoas. Cá, mesmo que não queiramos, estão sempre imagens a entrar pelos olhos e isso cansa-nos terrivelmente. Por isso, esta missão com pessoas é anti-stressante e muito mais livre.

DM: Qual a motivação para este desafio? O que é que vos moveu a partir para esta missão?
MC: No meu caso, a vontade de ajudar os outros está enraizada desde muito pequena. É um sonho que é mexido quer pela vontade de ajudar, quer também pela realização pessoal. É difícil dizer porque vamos já que, no meu caso, não foi a cem por cento por isto ou por aquilo em concreto. É uma mistura entre o desejo de ajudar, percebendo que lá somos úteis e que fazemos falta, e a felicidade e realização que isso nos traz.

DM: Quais são os grandes problemas de Benguela?
PS: Os grandes problemas e carências das pessoas assentam na saúde e na educação. Mas existe também desemprego, falta de condições, concretamente, falta de saneamento e falta de água.
Para fazer face às lacunas ao nível da educação, os Leigos para o Desenvolvimento apostam, desde a sua ida para Benguela, no projecto da alfabetização dos jovens.
Mas não podemos esquecer que alcoolismo está a aumentar quer nos homens, nas mulheres e até nas crianças. Há também violência doméstica, uma vez que a cultura é muito machista, e por causa da poligamia a mulher é muitas vezes desprezada e maltratada.
Claro que não resolvemos os problemas estruturais que eles sofrem, mas, ao nível da formação, podemos ajudar com coisas básicas e alguns truques que contribuam para superar as dificuldades causadas pela falta de recursos materiais.

DM: Conseguem eleger o melhor momento neste tempo de missão?
MC: Tudo o que tenha envolvido aquelas pessoas foi bom. As mamãs, os bebés, os sorrisos, a paciência, a alegria espontânea apesar de todos os problemas. Apesar de tudo são felizes e trago isso no coração. Aprendemos tanto naquela missão e ensinamos tão poucas coisas. Há uma gratidão sem limites naquela gente que é fantástica, amorosa, dedicada e sincera.

PS: O que mais me alegrou foi, sem dúvida, a conclusão do centro para jovens no Bairro da Graça, em Benguela. Foram dias e dias durante meses seguidos e, felizmente, deixamos a obra acabada e disponível para ser usada.

DM: E momentos menos bons também existiram?
MC: Se o melhor são as pessoas, para mim e na minha área de trabalho, o pior é não conseguir ajudar essas pessoas.
Em termos médicos, quando percebemos que não temos as condições necessárias e suficientes para tratar e diagnosticar alguma doença é muito triste. Muitas crianças que poderiam ter ido para Luanda a fim de terem mais condições de tratamento e, no fim de tanto trabalho, os pais não quiseram ou deixaram de aparecer no posto. Investimos em alguns e muitos pais fugiram com os filhos. Claro que muitos deles com certeza morreram.
Lidar com o não poder fazer mais foi das coisas que mais me custou. E lidar com a morte foi mesmo muito difícil.
Lá lida-se com a morte e com a vida todos os dias. Com a vida, porque cada mamã tem, em média, sete filhos. Com a morte, porque se perguntamos a uma mãe quantos filhos tem com frequência ouvimos “ tenho dez, sete mortos e três vivos”. Quando ouvi essa resposta fiquei petrificada.

PS: O meu pior momento foi aperceber-me da falta de apoio social às populações em geral. O que o Governo dá não chega aos mais carenciadas. Assiste-se, em geral, a um grande desfasamento entre ricos e pobres.
Quando pedimos apoio para a construção do centro juvenil do Bairro da Misericórdia percebi como é difícil para o Governo olhar os mais carenciados.

DM: Para esta missão tiveram alguma preparação específica?
MC: Nos Leigos para o Desenvolvimento tivemos um ano inteiro de formação e preparação para a missão. Nesse ano, desenvolvemos a relação connosco próprios e com os outros, além de tentarmos perceber o que significa ser voluntário, e alguns aspectos da vida em comunidade. Só no final dessa preparação decidimos se queremos avançar e aí a organização vê se temos o perfil necessário e coloca-nos onde o nosso trabalho for mais necessário.

PS: Aprofundamos também o lado espiritual para que com o nosso testemunho de vida cristã possamos ser referência e exemplo para aquelas pessoas.
Na missão, há lugar fundamental para a vivência religiosa. Temos que escolher um trabalho pastoral a desenvolver na comunidade paroquial onde estivermos e participamos todas as semanas na Eucaristia.
Eu, por exemplo, dei apoio a um agrupamento de escuteiros e a Márcia fez formação humana a jovens raparigas de um lar.

DM: Tudo o que experimentaram, de bom e menos bom, permite-vos dizer, desde já, que esta vida em missão é para repetir?
MC: Eu já estou cheia de saudades. Vim para terminar a minha especialidade na área da pediatria e isso demora-me três anos, mas gostaria de ter ficado mais um ano. Claro que a vontade de repetir existe. A curto prazo? Se três anos for curto prazo, então poderá ser.

PS: Sim, eu também tenho vontade de repetir. A melhor altura para isso depois se verá. Para já, vou dedicar-me à arquitectura num atelier. Claro que temos de procurar casa e pensar na nossa vida de casal, já que não o fizemos antes.

MC: Estar lá foi mesmo muito bom. Estamos a chegar e quase que ainda nem desfizemos as malas. As pessoas interrogam-nos e dizem que deve ter sido uma experiência interessante e enriquecedora, mas aquilo não foi experiência foi vida concreta, com rotina, amigos, com laços criados, com dificuldades, com alegrias .
Quando lá estava pensava que os corajosos estavam do lado de cá. Mas tenho consciência que a missão voluntária cumpre-se em qualquer lado.

DM: A família aceitou bem a vossa decisão?
MC: Não, isso foi um pouco complicado. Os meus pais não ficaram radiantes, mas também não se opuseram. Alguém dizia que nós escolhemos ser missionários, mas os pais não escolhem ser pais de missionários.

PS: Comigo foi igual e, principalmente, a minha mãe não aceitou muito bem. Agora que vim inteiro está tudo bem.

DM: Que conselhos dão àqueles que de alguma forma sentem o “bichinho” da missão?
PS: É uma vida muito intensa, cheia de emoções e ninguém deve, se se sentir chamado, desperdiçar a oportunidade, correndo o risco de estar a estragar dons e talentos.

MC: Acho que há pessoas que sabem de antemão que nunca fariam uma missão deste tipo e acho bem que seja assim. Isto não é para todos, mas os que vão para a missão não são mais corajosos por irem. Não temos todos os mesmos sonhos e os mesmos desejos. O que digo é que aqueles que se sentirem de alguma forma inclinados para o voluntariado missionário têm mesmo que ir. Quem tem o bichinho não tenha medo.

DM: Alguma vez se sentiram inseguros?
MC: Nunca sentimos nada ao nível de guerra, nem de insegurança nem de criminalidade. Mesmo na altura das eleições tudo foi muito calmo.
As pessoas lá olham para nós com muita estima e tratam-nos muito bem. Vêem-nos como voluntários cristãos e não como empresários.
Na missão, nós somos um com eles embora tenhamos melhores condições que eles. Eles sabem disso e não compreenderiam sequer que vivêssemos como eles. O nosso estilo de vida não choca absolutamente em nada. Vivemos de modo simples e sem ostentação.

© Diário do Minho
DR

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