18 de fevereiro de 2010

Homilia que partilhei na Quarta-feira de Cinzas

1. Começamos hoje o tempo litúrgico da Quaresma que coloca o acento e nos coloca a nós naquilo que é essencial: colocar o nosso coração em Deus.
A Quaresma surge como uma oportunidade dada por Deus, como graça, para fazermos caminho, a fim de não nos acomodarmos às nossas coisas, aos nossos umbigos, às nossas vidas.
É, por isso mesmo, tempo de deixar de lado o egoísmo e tempo para passarmos a ser mais teocêntricos e cristocêntricos.

2. Além disso, irmãos e irmãs, a Quaresma é possibilidade de nos recentrarmos. Pela voz do profeta Joel, na 1.ª leitura, com recurso a uma linguagem directa e incisiva – usando nada mais nade menos 12 verbos no imperativo – Deus diz agora – que é hoje – a todos nós: “Convertei-vos a Mim de todo o coração” e ainda “Rasgai os vossos corações”.
No mesmo sentido, Paulo, na 2.ª leitura, pede-nos em nome de Cristo: “Reconciliai-vos com Deus”.
Por seu turno, Jesus, no Evangelho, lança-nos e elenca-nos como que um programa para este caminho quaresmal: esmola, oração e jejum são exercícios ou três formas concretas de deixarmos que Deus seja o centro deste tempo e da nossa vida neste e em todos os tempos.

3. A Quaresma reveste-se, ainda, de um carácter profundamente simbólico, desde logo pela sua duração. Os 40 dias da Quaresma evocam essa grande travessia do povo hebreu até à terra prometida. A mesma experiência de libertação somos nós desafiados a fazer nestes 40 dias até à Páscoa.
Não é de menor importância começarmos a Quaresma com esta celebração das Cinzas. Elas devem levar-nos a reconhecer aquilo que verdadeiramente somos. Reconhecer que somos pó é, ao mesmo tempo, um convite a vivermos a humildade, com virtude forte deste tempo. Esta deve levar-nos a reconhecer que somos criados, criaturas. Não somos senhores nem criadores de nós próprios.

4. A imagem do deserto é igualmente uma imagem forte da Quaresma. O deserto, mais que um espaço físico, é um tempo psicológico. Colocarmo-nos em deserto significa colocarmo-nos à prova, reconhecendo a nossa não auto-suficiência e consequente dependência de Deus. Neste deserto quaresmal procuramos chegar a esse oásis querido e pretendido que é Deus.


5. Penitência e conversão são também palavras fortes deste tempo. Por elas, somos exortados a reconhecer a nossa fragilidade, a nossa finitude, que somos efémeros, não eternos. Aí chegados poderemos gritar como o salmista: “Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós”. Neste mesmo âmbito, surge com especial relevo, o sacramento da Reconciliação, como possibilidade que a Igreja, por meio de Cristo, oferece ao homem pecador que quer fazer e celebrar a festa do encontro amoroso com Deus. Humanamente pode ser difícil entender, mas teologicamente, a Reconciliação – também chamada Penitência ou Confissão – é uma forma magnífica de mostrarmos que o caminho da vida tem pedras que nos fazem cair. Mas, caros irmãos, cair não e mau; mau é ficar no chão e não se levantar nem erguer a cabeça para ir ao encontro do Deus que é Amor.

6. Interioridade é também atitude a exercitar nestes 40 dias. É tempo para dar mais tempo à oração, assim como à escuta da Palavra de Deus, que nos sussurra ao coração e nos desafia à conversão. “Entra no teu quarto”; “Entra no segredo do teu coração”; “Diz não às aparências porque Deus está no secreto, no coração e vê no escondido”. Por isso, é tempo de interioridade.

7. Irmãos e irmãs: Rasguemos o nosso coração e não os nossos vestidos. Demos a Deus o lugar que, por direito, lhe convém, que é o primeiro lugar.
Tudo na Quaresma nos vai apontando o olhar e o coração para o essencial: Cristo, o enviado como Salvador e Redentor. Deixemos que Ele seja o essencial para que volvidos estes dias possamos chegar à sua que é também a nossa Páscoa, já que em Cristo fomos e somos salvos.


JAC

Descobrir o essencial!

Diante do Senhor que vem, reconhecemos que os nossos caminhos não são os seus (cf. Is 55, 9) e somos impelidos a converter-nos, a mud...