20 de fevereiro de 2013

Os profetas estão em crise!?





O tempo que vivemos não se afigura fácil e luminoso. Austeridade, crise, redução, cortes, miséria, fome, dependência, exclusão, desemprego ... tudo palavras tão banais nos nossos olhos, ouvidos e lábios e que a comunicação social também faz o favor de nos lembrar a cada dia e a cada hora... E parece que tudo nos faz andar mais com o "credo" na boca. Até quando o Papa entende (com possibilidade de o fazer) não ter condições para continuar a apascentar o rebanho do Senhor com a força e a energia que necessita o Ministério de Pedro.

Profetas da desgraça ou da graça?
No meio de tanto desencanto, generalizado e globalizado, tardam profetas para este tempo. Abundam os profetas da desgraça, críticos e fazedores de opinião, mas faltam homens e mulheres, novos e velhos, que semeiem no coração dorido das gentes sementes de esperança que reconstrua a confiança e encoraje a viver o presente como princípio de um novo amanhã. Proliferam profetas da desgraça e faltam profetas da graça. É verdade que cada desgraça traz, em si mesma, uma graça. Mas nós somos sempre tão negativistas, tão fatalistas, e não aproveitamos as oportunidades que o próprio momento de crise nos concede.
Mesmo entre nós, cristãos. Mesmo em Igreja. Somos tão ágeis e tão prontos a buscar causas da crise, não só da económica e financeira, como também da "crise da Igreja". Apontamos, de pronto, o dedo aos outros, achamos que a culpa está sempre de outro lado...

Tempo oportuno
É verdade que não vivemos fora da realidade, que é preciso olhá-la e conhecê-la e denunciá-la, sempre que necessário. Mas até disso já vamos estando "fartos", com tantos analistas, especialistas, comentadores... Precisamos quem nos aqueça o coração, no meio do frio da noite que atravessamos. Sinto que, em cima de tantas crises, também os profetas estão em crise.
Mas... bela oportunidade acontece pela Quaresma que nos vem, como dom e presente, em cada ano, para sermos mais profetas da graça. Já os há, com certeza, aqueles que em cada dia são desafio à coerência, à entrega, ao serviço, ao perdão, ao diálogo, à escuta... São todos esses que aceitam fazer a diferença por amor e por aquilo (direi melhor Aquele) que acreditam. São todos os que fazem mais do que aquilo que dizem.

Jeremias e Ratzinger
De facto, não há idade mínima nem máxima para se ser profeta. Aprendamos do "novo" Jeremias, a ver o belo a despontar mesmo no meio dos escombros. Saibamos ver florir a primavera em cada inverno. Aprendamos também do "velho" Ratzinger, o ainda Papa Bento XVI, no inesperado anúncio da resignação ao Ministério Petrino. A humildade, a entrega, a coerência, a verticalidade, a espiritualidade de um homem chamado por Deus a guiar e a apascentar o rebanho do Senhor. Um profeta que se dedicará, depois, à oração, em clausura, para que haja mais profetas da graça na Igreja de Cristo.
Nesta Quaresma tu também podes ser profeta! E não precisas de fazer nada de extraordinário. Basta que faças do bem e do belo a normalidade da tua vida. E a graça acontecerá! E será novo o amanhã, vivido em cada presente e em cada hora. Vive esta hora!

José António Carneiro. Padre e vigário paroquial da Glória, in Correio do Vouga, edição de 20 de fevereiro, p. 23




Pe. JAC

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