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24 de setembro de 2010

Turista ou peregrino?


Viver a vida como turista
É vê-la por cima, de avião - muitas vezes,
depressa, a correr,
Sem tempo para parar
Porque a todo lado se quer chegar.

Viver a vida como peregrino
É vê-la bem de perto,
Lado a lado,
Com tempo para apreciar,
contemplar,
Parando e vendo,
Sentindo os passos,
Caminhando,
Palpando o pulso,
Beijando o aroma,
Sentindo o cheiro...

Peregrino ou Turista?
Um pouco dos dois
Mas prefiro o primeiro.

Sou eterno caminhante
Ou, porque não dizê-lo,
Eterno caminheiro!

Pe. JAC
Casa de S. Paulo. Cortegaça.
Retiro para Ordenação Sacerdotal

10 de setembro de 2010

Um mar de perdão


Na ternura de um beijo
Que o mar dá na areia
Sinto toda a paciência
de um Deus que é Amor.

Tanta ida, tanta volta,
Tanto esforço dispendido
O mesmo que faz Jesus
Ao pecador arrependido.

Todo o pecado merece
Superar-se pelo amor
pois na cruz se estabelece
O singular Salvador.

Quisesse eu perceber
Quais as medidas de Deus
Teria de conseguir ver
A imensidão do mar…
E isso não bastaria!

Perante toda a grandeza
Desse inédito amor
Vejo-me com confiança
Porque nele já estou salvo.

Graças, Senhor, pelo amor,
Com que em amas
pela certeza da salvação
Que me sussurras ao ouvido,
Brando e mansinho,
Como canto da ave, forte e grave,
Como o bramido do mar.

Pe. JAC
Casa de S. Paulo. Cortegaça.
Retiro para Ordenação Sacerdotal

2 de junho de 2010

Sinto-me forte, Senhor


Sinto-me forte, Senhor
Não que o seja por mim
Mas porque Tu me dás a força.
Aliás, Tu és a força, o sustento
E o alimento,
A graça, o apoio
E o refúgio.

Sinto-me confirmado no caminho,
Sinto que tenho destino,
Que és meu destino.
Não retiras a minha liberdade,
Dás-lhe plenitude.
Não te sobrepões a mim,
Mas sugeres e propões.

É uma felicidade sentir-me assim:
Querido, amado, confirmado
Plenificado, transfigurado e ressuscitado.

Faz que me deixe abrir sempre
À tua presença sempre nova.

E quando as circunstâncias forem adversas
Lembra-me sempre
Que não há glória sem cruz
Nem vida sem morte.

E tudo terei!
Tudo serei em Ti
Porque és meu tudo
E sem ti não sou nada.



Na minha debilidade, fazes-me forte Senhor

6 de abril de 2010

Sábado Santo: suspanse


Suspanse e silêncio
Um medo interior.

A Tua ausência faz-me pensar.

Só a esperança da promessa
Cria um revês no cenário
Inicialmente de derrota:
Espero a acção do Pai
Porque Deus é Deus
E tudo pode.

Espero que este silêncio
Se converta em alegre anúncio
E ressoe em grito jubiloso.

Não ficarei desiludido
Porque sei que vencestes o mundo, Jesus!

Sei que a luz da Páscoa vai irradiar
Como sol nascente
E sem ocaso.

JAC

23 de fevereiro de 2010

O que me falta?


Senhor,
que me falta ainda
para Te seguir de verdade?



Ensinas-me a absolutizar o teu Reino
E a relativizar as coisas supérfluas.


Tanta coisa me impede de Te seguir:
Diz-me sempre o que tenho de deixar.


Quero seguir-te de verdade e com verdade.


A recompensa por isso?

Não importa!
Bastas-me Tu,
O teu amor.


Cf. Mt 19, 16-30
JAC

4 de fevereiro de 2010

Passos da vida


No silêncio de uma oração de joelhos
Peregrino pelos passos da minha vida
Contemplo belos passos já dados
E antevejo muitos outros para dar.

Mas, ressalta não poucas vezes
Passos inseguros e mal dados
Que não me levam para o caminho da luz
Senão para os atalhos das trevas e da escuridão.

Se pelos primeiros dou graças
E peço força para os continuar
Pelos outros peço perdão,
Arrependo-me e levanto a cabeça
E peço ainda mais força para os não tornar a dar.


1.02.2010

27 de janeiro de 2010

Fortificado na fragilidade




Para que me deixe guiar
Pela força que vem de Deus
Tenho que de lado deixar
Os interesses egoístas meus.


Guiado por Ele tudo supero
Confiando no Espírito de Santidade
E parto, buscando, o que espero
Nos caminhos da humanidade.


Por Deus caminho acompanhado
Com Ele vou sem dificuldade
Porque me sinto fortificado
Mesmo na fragilidade.


Porque me sei acompanhado
Não desespero na caminhada
Pelo Espírito Santo habitado
Alcanço a Nova Alvorada.


14.01.2010

22 de janeiro de 2010

Padre-Pastor



Disponibilidade para ouvir
Os corações que choram sós
Que buscam conforto e alento.


Acolhimento para receber
Qual pai pródigo o seu filho
Que vem depois do desespero.


Alegria para irradiar
A tantos tristes que vagueiam
Pelas ruas da humanidade.


Confiança para dar
Aos abatidos e desprezados
Feridos pelo inesperado.


Padre-Pastor sem excepção
Porto seguro, novo alento
Que entrega o alimento
E dá orientação.


Padre-Pastor sem excepção
Sinal de Deus na humanidade
Que abre para a eternidade
Caminhos certos ao humano coração.


13.01.2010

21 de janeiro de 2010

Vertigem

NOTA BENE:
Durante o Congresso Sacerdotal que participei em Braga escrevi quatro textos/poemas que partilho convosco. Estão dentro da temática partilhada em cada um dos dias dessa iniciativa. Vão por ordem.




Há palavras que falam caladas
E gestos que dizem sem falar.
Há olhos que vêm sem ver
E ouvidos que ouvem sem ouvir.


Há homens que são sem o ser
Há mundo que, tantas vezes, o não é.


Há um desalento desesperante
Capaz de levar à loucura
O mais confiante.


Porquê?
Estaremos voltados ao desespero?
Estaremos às portas do caos?


Estamos, isso sim, num tempo de vertigem,
De veloz transformação
De aparente superação do passado ido.


É o tempo da metamorfose.
Mudança.
De mudança em mudança
Parece o signo da humanidade.


Virá, com certeza, o tempo – ou sem-tempo –
Do cosmos reunido, harmónico e orientado,
mas nunca parado e estacionado.
Virá com poder da pequenez,
Da força da fragilidade,
De um Deus deixado morrer
Trucidado e moído
Na cruz dos nossos pecados
para nos pôr em movimento
rumo à libertação.


12.01.2010

6 de janeiro de 2010

Descida que é subida


Na totalidade do amor
Reside a doação
De um Deus que se revela
Pela Sua Encarnação.


No movimento da descida
Está a essência de Deus
E o humano adquire
A melhor via para os Céus!

JAC 2007

17 de novembro de 2009

Cristo Rei



Cristo Jesus
rei poderoso
és bom pastor
misericordioso.


Todo o universo
quer aclamar
o pastor e rei
que só sabe amar.


Jesus coroado rei
és do mundo Salvador
só em Ti eu tenho vida
só em Ti encontro amor.


Pela tua doação
tornas-me filho de Deus
e no fim da caminhada
faz-se conhecer os Céus.


O último juízo
é por amor
de toda a criação
és Tu o redentor.

JAC 2005

14 de novembro de 2009

Faz-me esperar, Senhor





Faz-me, Senhor, esperar
O teu sonho para este mundo.
Faz-me confiar nos teus projectos e planos
E não andar encantado e encandeado
Com as luzes que o mundo quer fazer brilhar
Mais que a Tua própria luz.


Tu queres uma humanidade feliz.


Por vezes a humanidade
Parece não querer ser feliz.


Mas, no meio dos dramas que vemos
No meio de tantas dores lancinantes
Que cortam a alma
Dá-nos a coragem e a esperança
Que nos faz entender (ou pelo menos tentar)
A transformação que operas no mundo.


Do mundo velho que habitamos
Queres construir um mundo novo.


Esse é o teu sonho.
E queres-nos comprometidos nessa construção.


Queres-nos envolvidos nesses projectos
Por meio de uma vida sensata, humilde,
Entregue e dada,
Capaz de olhar aqueles que mais sofrem
Que são vítimas de calamidades
Maiores ou menores que sejam.


Queres-nos atentos e vigilantes
Aos sinais que o mundo vai dando
Para que vejamos neles
O renascer e o ressurgir
De algo novo, maravilhoso.


A tua chegada.

JAC
14.11.09

13 de novembro de 2009

Os tempos da vida



A vida, queiramos ou não,
É um decurso de dias e horas
Etapas, anos, tempo…


Na vida há diversos tempos
E variadas fases
Tendo em conta a circunstância
E o trajecto de cada um.


Há o tempo da utopia
Onde abunda uma certa inconsciência.
É o tempo dos sonhos, dos projectos,
Das ilusões e do “tudo posso”.


Claro que o conhecimento
E a experiência da realidade
Levam à não concretização de muitos sonhos…


Chega então outra fase.


Vem o tempo do desencanto
Marcado particularmente
Pela experiência do fracasso.


É a experiência de passagem
Da ilusão à desilusão
Que traz consigo a dor da derrota.


A desilusão vem logo a seguir
Abarcando em si
A incapacidade de mais sonhar
E a aparente morte da alma
Que carrega, ainda assim, um corpo vivo.


Entra-se deste modo em exílio interior
Por meio da rendição à realidade.


Mas, o silêncio
É também tempo de amadurecimento.
É como que um deserto de solidão,
Um lugar de encontro com Deus.


Assim mesmo renasce a esperança
Que continua bem viva
Debaixo das cinzas dos sonhos primeiros


Vem o tempo da esperança da fé
Carregada, agora, de maturidade
Obtida por uma viragem radical.


É a erupção de Deus na vida,
Sempre por sua iniciativa,
E pedindo uma constante prova de fé.


JAC
10.11.2009

7 de novembro de 2009

Não basta que Te demos muito…




Não basta, Senhor, que Te demos muito.
Não Te basta receberes muito
Porque tu queres tudo!
Tu deste tudo o que tinhas!
E o que eras.


Quem dá o que tem – seja muito ou pouco –
Cai em graça,
Fica agraciado
Porque só Te podemos servir a Ti.


Não podemos servir a dois senhores.
Tu queres que Te sirvamos
Unicamente a Ti.


Nada devemos antepor a Cristo.


Tu queres tudo
– Ainda que seja pouco.
Queres-nos todos inteiros
– Ainda que sejamos frágeis
Não nos queres fragmentados, nem às partes
Mas totalmente dados.


Também Tu te deste todo.


Queres todo o nosso coração,
O nosso entendimento,
A nossa vida,
A nossa pessoa.


A viúva “valia” pouco aos olhos do seu mundo
Mas deu mais que todos os ricos
Porque se deu toda inteira.


Totus tuus.
É o grito que ressalta e ressoa hoje no meu coração.
Porque se quero ser teu
Tenho que me dar sem reservas e por inteiro.
Não posso ser discípulo
Sem seguir e aprender
A atitude da rica pobre viúva:
Renunciar a tudo
Para me entregar e dar só a Ti.


JAC
03.11.09
XXXII Domingo Tempo Comum. Ano B

Este fim-de-semana vou celebrar na Borralha e em Barrô (sábado) e no Préstimo, Macieira e Castanheira (domingo)

30 de outubro de 2009

Acertada contradição





Palavra contraditória!
Quem a pode escutar, ó Cristo?
Como podes querer que te sigamos
Se estamos tão longe da tua lógica.

Pois, é verdade, e quase me esquecia.
A tua lógica não tem lógica.

Então, são felizes os pobres em espírito
Quando meio mundo anda atrás do euromilhões
E outra metade atrás de riquezas e “jackpots”?

São felizes os mansos
Quando na sociedade os fortes é que vingam?

São felizes os que choram, ó Cristo?
Como é possível se todos buscam o bem-estar, o riso, a comédia, a ironia
E ninguém quer ouvir falar de dor, de sofrimento e de privação?

Dizes que são felizes os que anseiam cumprir a vontade de Deus
e o mundo toma como lei maior a não dependência de preconceitos ultrapassados
ou de qualquer autoridade?

Como podes apontar a felicidade dos misericordiosos
quando já ninguém se comove com a miséria e o sofrimento dos outros?

Ó Cristo, que palavra lancinante é esta que nos envias como espada!

Ainda dizes que são felizes os puros e os sinceros de coração
e a sociedade e os tribunais estão entupidos de casos de corrupção,
de mesquinhez, de mentira e de esquemas e favorecimentos.

Para ti, os que constroem a paz são felizes,
mas o mundo está cheio de guerra, de lutas, de oposições.
Parece que só pela força e pela violência se vence e se singra.

E como entender que quem é perseguido pode ser feliz
quando o mundo apregoa a liberdade total, a ausência de autoridade
e a entrada nos jogos poderosos
já que só com esses se pode subir na vida?

É mesmo uma palavra inaudível!
O nosso mundo parece provar que é utópica, sem lugar concretizável.

O que me pedes e a todos é um coração pobre.
Só um coração pobre está disponível para seguir o trilho das bem-aventuranças.

Quero encetá-lo também
Mesmo sabendo que vou contra-corrente.

Vou atrás daquele – Cristo – que ousou ir por outro lado, ousou ser diferente.

Vou com Ele e sou feliz
A caminho da santidade.

JAC
30.10.09
Solenidade Todos os Santos.

28 de outubro de 2009

Diante da luz me arrependo



Diante de Ti, Senhor,
Que és a luz
Coloco as minhas trevas
Para que possa iluminá-las.

Só diante de Ti que és a luz
Vejo a minha fraqueza e pequenez.

Só diante de Ti
Reconheço as minhas divisões
E as desuniões que produzo.

Mas, Tu não estás dividido!

Por isso, me arrependo
Escutando o Teu desafio.
Por isso, me abro à novidade
Do Reino que inauguras
E que és Tu mesmo,
Como Palavra doada pelo Pai.

JAC 2007

20 de outubro de 2009

Estrelas




Para o mundo ser mais belo
quero fazer brilhar estrelas na noite,
acender faróis no negrume,
levar luz onde há trevas.


Acender a estrela do olhar
e mais um pouco de luz dar
ao pequeno coração
que ninguém dá atenção.


Acender a estrela de escutar
e a todos poder levar
um pouco mais de calor,
de ânimo, ternura e amor.


Acender a estrela do falar
palavras para inebriar
que espalhem alegria
aos que vivem na agonia.


Acender a estrela de servir
para todos fazer sorrir
com mãos que trabalhem
e vontades que auxiliem.


Acender a estrela de viver
que nos leve percorrer
nos impele a anunciar
e nos empurre a proclamar.


Quero estrelas acender
que ajudem a guiar
a humanidade toda junta
ao Deus que só sabe amar.


inédito JAC
2007

15 de outubro de 2009

Gostar e amar




Irei ao teu encontro,
Na manhã de um dia sonolento…
Por entre ervas e arbustos,
Por entre pedras e árvores.

Naquele bosque encantado,
Onde tudo começou,
Onde o amor brotou,
E se abriu como uma flor.

Nasceu entre nós essa bonita flor,
Que a gente chama amor,
Sem saber o que isso é…

Amor é sentimento de luta
- Palavra rota e banal -
De pessoas que acreditam,
Que fazem e espalham
Esse acto triunfal.

Amor é luta
É vida, é conduta.
É como desfiladeiro,
Com as pessoas a um passo
De lhe dar um só abraço
Apertado e por inteiro.

Ama e faz o que quiseres.
Ama e vive
Porque viver é amar.

inédito JAC
2002

13 de outubro de 2009

Sem medo




Caí!
Envergonhei-me primeiro
E não tenho coragem de olhar-te!

Lutei!
Pensando que estava sozinho.
Mas não!
Tu lá estavas
Sempre próximo e disponível
Amoroso como Pai e Mãe.


Venci!
Tu estavas – e estás – por mim.
Que mais posso desejar?
Agora não me envergonho de cair
Sei que me ajudarás a levantar-me!

Obrigado pela providência!

JAC
10.10.09

12 de outubro de 2009

Não ter medo de parar



Busca sempre mais fundo
O modo de encontrares alguém
Capaz de te dar algo profundo
E não se dê a mais ninguém.

Busca sem qualquer tipo de pressa
O equilíbrio que se pretende
Mas nunca faças as coisas depressa
A espera é algo que não se entende.

Dá espaço, tempo e lugar
Para que possas aprender devagar
E não hesites perante a pressão

Não tenhas medo de parar
Só assim podes transformar
E fazer crescer o teu coração.

JAC
10.10.09

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...