11 de outubro de 2008

Frei Luís Gonçalves, capuchinho de Barcelos














Dinamização bíblica deve combater
a ignorância religiosa e o paganismo

(texto e foto)José António Carneiro


Estando a realizar-se em Roma, no Vaticano, o Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, o Diário do Minho (DM) entrevistou Frei Luís Gonçalves (FLG), capuchinho da comunidade de Barcelos, que se dedica, de corpo e alma, à difusão da Sagrada Escritura um pouco por todo o País.
Este sacerdote, natural de Serafão, Fafe, ordenado em 1971, destaca a importância do Sínodo em si mesmo, mas considera que ele, assim como toda e qualquer dinamização bíblica, terão de ajudar a combater uma certa «ignorância religiosa do Povo de Deus» e também um certo «paganismo» que vai imperando na actualidade. Redescobrir e desenterrar as riquezas da Dei Verbum, apostar na dinamização bíblica da catequese e das paróquias são, para este capuchinho, formas de colocar de novo a Bíblia num lugar central da vida e da missão da Igreja.

DM – Que importância tem o Sínodo sobre a Palavra de Deus?
FLG – O Sínodo é uma instância importante da vida da Igreja. Este, sobre a Palavra de Deus, há muito que o Cardeal Martini – Arcebispo Emérito de Milão – se debate por ele.
Não há dúvida que isto é como um voltar às raízes, porque a Palavra de Deus é o alicerce da Igreja.
O Papa Bento XVI, na abertura dos trabalhos sinodais, começou por citar a famosa frase de São Jerónimo – “Desconhecer as Escrituras é desconhecer Jesus Cristo”. Efectivamente, ninguém ama aquilo que não conhece e se um cristão, ou qualquer outra pessoa, desconhece a Bíblia, então não conhece Cristo e igualmente ainda O não ama.
Daí a importância deste Sínodo sobre a Palavra de Deus, porque no meio do Povo de Deus há muita ignorância religiosa.
Para vencer esta ignorância religiosa é fundamental o estudo, a reflexão, a meditação e a oração da Palavra de Deus. Sem isto, nós não iremos longe.
Vou notando que anda por aí muito paganismo e muita ignorância entre os cristãos, e até entre alguns formados a um nível superior.
Ainda recentemente, estive com uma pessoa que pensava que São Paulo era um homem pagão. Quando lhe disse que era uma judeu fervoroso ficou boquiaberta. Pois, a este caso juntam-se tantos outros, formando uma lista interminável.

DM – Face à ignorância religiosa que pode ser feito?
FLG – Perante este cenário pouco animador em relação ao conhecimento da Bíblia parece-me que a tendência se pode inverter, se se apostar na dinamização bíblica trabalhando por levar a Escritura a toda a gente, na linha do que dizia o Papa Pio XII, há mais de 50 anos, colocando uma bíblia em cada casa.
Vão aparecendo, entretanto, alguns sinais animadores. Em várias comunidades tem-se criado o hábito de passar a Bíblia de casa em casa, em vez de, por exemplo, a imagem ou oratório da Sagrada Família. A ideia é pôr a pessoas a rezar diante da Bíblia, recorrendo ao texto bíblico.
De facto, a Bíblia devia ser o sacrário de cada casa, não para estar a ganhar pó na estante, mas para estar na mesa de cabeceira levando as pessoas a pegar nela, a abri-la, folheá-la e saboreá-la.
O lugar mais nobre de cada lar cristão deveria ser deixado para a Escritura. E se é importante a nossa devoção aos Santos, mesmo com oferta de velas e flores, com mais razão deveríamos saber venerar – como do próprio Cristo se tratasse – a Bíblia.
Este poderá, com certeza, ser um caminho para renovar as famílias e fazer frente a tantos problemas e dificuldades que elas sentem.

DM – Como se desenvolvem as actividades bíblicas dos Capuchinhos?
FLG – Nas nossas acções de dinamização bíblica, procuramos dizer às pessoas que é importante ler e estudar a Sagrada Escritura, como é igualmente necessário e importante rezar a Bíblia. É pela oração com a Bíblia que se cria familiaridade com Jesus Cristo.
Esta oração bíblica – para a qual procuramos educar aqueles que participam nas nossas iniciativas – deve ser ao jeito da Lectio Divina.
Nas actividades, os aspectos introdutórios são essenciais e, aliás, são um dos problema na Igreja ao nível da Bíblia. As pessoas são sabem pegar na Bíblia, não a sabem manejar, não sabem procurar os livros e, muito menos, os capítulos e versículos da divisão interna dos textos.
Às vezes, nas formações que oriento, preparo e levo ideias interessantes e muito bonitas para comunicar, mas quando chego ao local e me apercebo do auditório que tenho pela frente, tenho que alterar a minha comunicação para falar destas noções introdutórias que são muito rudimentares na generalidade dos cristãos.

DM – Na abertura do Sínodo falou-se de uma encíclica sobre a Bíblia. Considera que faltam instrumentos para a leitura e interpretação da Bíblia?
FLG – Não creio que faltem instrumentos, mas considero que falta quem se dedique inteiramente a este serviço da dinamização bíblica. Penso que faltam pessoas que se comprometam com o anúncio da Palavra de Deus.
Com certeza, uma encíclica sobre a Bíblia será bem aceite, mas parece-me que as riquezas contidas no Concílio Vaticano II, especialmente na Dei Verbum, ainda estão enterradas.
Penso que mais de 95 por cento dos cristãos não sabe sequer da existência da Dei Verbum, que contém material fantástico para a orientação da leitura e interpretação da Bíblia.
A Dei Verbum é uma luz que está colocada debaixo do alqueire e a precisar de ser colocada no candelabro.

DM – Catequese e paróquia têm um papel essencial na transmissão da Palavra de Deus?
FLG – Totalmente. A catequese é um veículo privilegiado para a transmissão da Palavra de Deus e os catequistas são agentes indispensáveis dessa transmissão.
Infelizmente, muitos nem sequer sabem pegar na Bíblia. Como podem desempenhar a sua missão? Dificilmente poderão ajudar as crianças e os adolescentes a estabelecer uma relação de confiança e de amor com Jesus Cristo.
Claro que essas falhas na missão catequética contribuem para um fenómeno a que assistimos todos os dias: muitos cristãos mudam de religião como quem muda de camisa, porque não sabem em quem acreditam.
Em relação às paróquias, considero que é importante que os párocos sejam os primeiros a apoiar e a trabalhar pela dinamização bíblica. É essencial que assim seja e falo por experiência: nas paróquias onde o pároco tem uma particular sensibilidade bíblica, nota-se que consegue “incendiar” as pessoas para o amor e para a familiaridade com a Bíblia.
E, aqui, não valem tanto os avisos do altar… Antes, é necessário uma pesca à linha, que vá directamente junto das pessoas concretas para as desafiar.

Iniciativas bíblicas em Braga e Viana do Castelo

Eis algumas das iniciativas agendadas pelos Padres Capuchinhos de Barcelos para os próximos meses, nas dioceses de Braga e Viana do Castelo:
– Outubro
14 a 18, em Serafão (Fafe)
22 a 26, em São Martinho de Vila Frescaínha (Barcelos)
27 a 31, em Junqueira (Vila do Conde)

– Novembro
4 a 8, no arciprestado de Monção
11 a 15, em Areias de Vilar (Barcelos)
18 a 22, no arciprestado de Terras de Bouro
25 a 29, na Zona Pastoral das Taipas, do arciprestado de Guimarães/Vizela

– Dezembro
2 a 6, em Cabanelas (Vila Verde)
9 a 13, em Vila Cova (Barcelos)
16 a 20, em Nine (Vila Nova de Famalicão)

– Janeiro
Última semana, em Arcozelo (Barcelos).

Descobrir o essencial!

Diante do Senhor que vem, reconhecemos que os nossos caminhos não são os seus (cf. Is 55, 9) e somos impelidos a converter-nos, a mud...