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11 de dezembro de 2017

Descobrir o essencial!



Diante do Senhor que vem, reconhecemos que os nossos caminhos não são os seus (cf. Is 55, 9) e somos impelidos a converter-nos, a mudar de rota, a mudar de orientação da vida para voltar para o Senhor.
Trata-se, além disso, de descobrir o essencial. João é símbolo da essencialidade e simplificação: os textos falam da sua sobriedade de alimento e da sua pobreza no vestir. A essencialidade da sua mensagem espiritual está ligada à essencialidade do seu viver, do seu corpo, voz, espera.

Luciano Manicardi, Comentário à Liturgia Dominical e Fesiva. Ano B.

22 de outubro de 2012

Diário da Missão Jubilar. Uma abertura em festa!













Foi um domingo bonito o de ontem. Começou e terminou com arco íris. As belas cores da missão pintaram uma diocese reunida em volta do seu Bispo na sua Catedral. Foi bonito ver tantos rostos, tantas caras, novas e velhas, com rugas e sem rugas, a celebrar a alegria da fé e o compromisso na missão. Somos, agora mais que nunca, uma Igreja em estado de missão. Vive esta hora!

Deixo e partilho alguns excertos da homilia de D. António Francisco na abertura da Missão Jubilar na Sé de Aveiro


1.Jesus escolheu a sua terra (...) para iniciar o Ano de graça do Senhor.
Aquele momento, (...) foi para Jesus o dia sonhado pelo Pai, a hora pensada pelo Espirito que O ungiu e o tempo por Ele desejado para ser tempo novo e único, tempo de vida e de salvação da humanidade.
Esta é, a partir da igreja-mãe da Diocese, casa e escola da fé e da comunhão do Povo de Deus em Aveiro, verdadeira hora jubilar.
Daqui vão partir como mensageiros da profecia de Isaías, testemunhas das bem-aventuranças, discípulos de Jesus e missionários em Seu nome.

2. Do tempo vivido como Diocese, desde 1938, guardamos a memória abençoada, hoje feita profecia e missão (...).
A intuição sentida e a decisão firmada de convocar uma Missão Jubilar, por ocasião dos setenta e cinco anos da restauração da nossa Diocese, inspiram-se na certeza de que é o Espirito de Deus que convoca, acompanha e guia a Igreja, (...), e nos oferece horas com oportunidades únicas (...).
Guardei esta hora, desde o início do meu ministério em Aveiro, no silêncio do meu coração, para que ela chegasse, sem pressa nem precipitação, no momento e da forma por Deus escolhidos(...).
Coloquei, desde logo, a Missão no coração de Deus para que seja Ele a moldar o coração humano (...). Levei esta hora aos pés de Maria, a Mãe de Jesus e nossa Mãe, e do brilho do seu olhar, senti que nunca faltará à Missão Jubilar a ternura do seu coração e o dom do seu amor pela Igreja de Aveiro.
A Missão Jubilar é dom de Deus traduzido para todos nós em tesouro de fé a dar sentido e luz à vida de tantas pessoas. É farol de esperança (...) e âncora de caridade a dar firmeza aos pés vacilantes (...).

3."Vive esta hora", com sabor a tempo novo e a novo ardor, na terra que Deus nos deu (...) e no campo aberto e livre do coração humano e das novas realidades do mundo.
Hora de levantar as amarras deste Barco que é a Igreja, que queremos renovada na caridade, educadora da fé, Igreja orante, família de famílias, rosto de esperança para o mundo, para que saibamos colocar Deus nos (...) espaços humanos desertos, sem vida, sem fé, sem esperança e sem amor.
Hora para erguer e alargar a tenda de Deus, (...) nesta nova geografia da missão e neste tempo único da evangelização, uma tenda onde Deus envolva a nossa humanidade.
Hora de mensagem levada às crianças e aos jovens, que lhes fale (...) da alegria de acreditar e do testemunho feliz da vocação que se reflectem na beleza do nosso ministério, na diversidade dos carismas da vida consagrada e no amor das famílias.
Hora de oração, de celebração e de formação da fé, de vivência em comunidade cristã (...).

4.Vamos levar a cada família e deixar em cada casa, mês a mês, o eco da Palavra de Deus e da voz da Igreja, que abre a porta da fé e do coração e nos ensina o caminho da confiança, da proximidade, da relação fraterna e da ajuda solidária.
Vamos aprender de Jesus a revestirmo-nos desta identidade feliz que nos vem do baptismo e a vestirmos a alma desta pureza de vida que investe e faz a diferença, sempre que proclama e vive as bem-aventuranças.
Vamos fazer tudo para que, pela fé e pelas obras dos cristãos, brilhe, na nossa terra, «a alegria e o encanto do nosso encontro com Cristo» (Bento XVI).

5.Estamos em Missão. Trabalhemos, como se tudo dependesse do nosso ânimo, do nosso entusiasmo e da nossa entrega. Rezemos, porque a Deus devemos a inspiração, d’Ele esperamos a força e n’Ele reside a eficácia da Missão Jubilar, para que aqui nasça um imenso património de esperança e daqui se anteveja e antecipe este viver renovado da Igreja do futuro.

brevemente ecos aqui e aqui
Pe. JAC

21 de janeiro de 2012

A hora da Missão. Mãos à obra! Homilia III Domingo Comum



O Evangelho do III domingo do tempo comum coloca-nos mesmo no princípio do Evangelho de Marcos, omitindo toda a vida de Jesus até por volta dos 30 anos! Aqui, Jesus começa a pregar a Boa Nova de Deus na Galileia. Antes apenas a pregação de João e o Baptismo de Jesus. Mas, o Cordeiro de Deus não ficou no deserto. Agora, apresenta-se no meio da realidade humana, atravessa os trilhos e os caminhos da existência quotidiana do seu tempo, onde pessoas concretas vivem, trabalham e sofrem. Aí, e só aí, começa a proclamar a Sua mensagem: «O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai na Boa Nova».

A primeira coisa que Jesus faz é procurar colaboradores para esta tarefa da evangelização. Ele não quer empreendê-la sozinho. Por isso mesmo, ao passar junto do lago da Galileia, repara no trabalho de alguns pescadores. Chama-os. Convida-os a seguirem-n'O e propõe-lhes que mudem de trabalho: «Farei de vos pescadores de homens». Inesperadamente eles deixam tudo (trabalho, bens, família) e seguem-n'O.

Com isto o evangelista Marcos quer mostrar-nos muito mais que um episódio bonito da vida de Jesus. Pretende, isso sim, que todos os que lêem e escutam este evangelho, se sintam interpelados a dar a resposta livre e pronta de Pedro e dos outros discípulos. O que é verdadeiramente importante é que Jesus chama! Chama porque ama. E quem é chamado e amado responde seguindo e amando. Por isso, aqueles pescadores da Galileia são modelo para todos os discípulos de Jesus. E nós não ficamos à margem deste paradigma.

Há algumas perguntas que se impõem diante deste texto. Em primeiro lugar, qual é o Evangelho, a Boa Nova que Jesus começa a proclamar?

A resposta é simples e até ligeira: Jesus está presente e vivo, no meio dos homens para cumprir todas as promessas de vida, salvação, felicidade e libertação, vindas já do Antigo Testamento! É a boa notícia de que Deus não ficou lá longe, mas está presente em Jesus vivo, pessoa, em carne e osso e no meio de nós! Deus está mesmo à nossa mão. E chama cada um de nós a dar-Lhe as nossas mãos. Chama para nos deixarmos olhar e tocar, seduzir e “apanhar” por este Jesus. Este é o primeiro e fundamental passo para convertermos e transformarmos a nossa vida.

Basta aderir, dizer sim, acolher, acreditar, abrir o coração e seguir. Jesus não dita regras nem impõe, para já, qualquer código de conduta. A sua mensagem é Ele próprio. Não nos chama para seguirmos uma ideia, um programa, uma doutrina. Chama-nos a segui-lo a Ele, como o Caminho, a Verdade e a Vida!

Evangelizar devia ser isto. Num tempo em que em Igreja vamos falando tanto de nova evangelização deveríamos ter presente que evangelizar é levar a todos a boa notícia, de que Jesus está aí, como luz que dá sentido. Está e passa por aí, discreto, por entre a vida das pessoas, por cima e por debaixo das suas telhas, pelas ruas e praças, para dar vida e salvação.

Evangelizar é dizer a todos e, em especial, aos que sofrem, que Jesus está aí! Está na sua dor, como está no amor, com que são tratados, como grita no clamor dos esquecidos e abandonados.

Evangelizar é também dizer aos que já fazem o bem, mas que até desconhecem Deus, que esse Deus desconhecido está aí, escondido mesmo por entre os dedos das suas mãos. O Evangelho de Deus, a Boa Nova é isto mesmo: Jesus está vivo e presente. Jesus é a Vida da nossa vida!

A segunda pergunta a fazer perante este Evangelho poderia ser “Como evangelizar?”
Nós somos evangelizados para nos tornarmos evangelizadores. Como a Jonas, também o Senhor nos diz “Vai à grande cidade e apregoa a mensagem”.

Há várias formas de o fazer. Sublinho apenas estratégias para ajudar:
a) Evangelizar pela proclamação ou pregação: a Palavra de Deus não deve ficar-se pela Missa, mas deve passar para o diálogo fraterno, cordial e amigo, nos nossos ambientes.
b) Evangelizar por convocação: ter a coragem de convidar outros a vir, a participar. Trabalhando em pesca à linha e não à rede…
c) Evangelizar por atracção, irradiação ou contágio: o modo como vivemos pode, e acontece mesmo, atrair outros.
d) Evangelizar por levedura ou fermentação: é a forma menos aparente, mais lenta e oculta, mais demorada e paciente. No segredo do nosso trabalho humilde, numa Escola, numa instituição, numa empresa, numa associação, podemos ir mudando mentalidades, inovando caminhos, renovando estruturas de injustiça e abrindo-as a uma conduta e ética cada vez mais evangélica.
 
Este é o nosso tempo de sermos evangelizadores. Mas, o tempo é breve e passageiro, como recorda o Apóstolo. Por isso, mãos à obra que se faz tarde!

Pe. JAC

15 de janeiro de 2012

Que procurais? Homilia do II Domingo Comum

"Que procurais?" Eis a primeira palavra dia por Jesus no IV Evangelho. Começa com uma pergunta. Jesus é questionador. Mestre nessa e noutras artes.
Podíamos chamar a este II Domingo do Tempo Comum, o Domingo da Vocação, tema que trespassa as leituras que ouvimos proclamar, particularmente a I Leitura e o Evangelho.

Na primeira leitura,  ouvimos o belo chamamento de Samuel.
A Samuel podemos quase vê-lo como o acólito distraído que, por engano, responde a um chamamento. Está pronto para todo o serviço, mas está a dormir e não preparado quando é chamado! 

Samuel é rápido numa resposta, mas lento na escuta. E não esqueçamos que Samuel passava horas a fio no Templo e conhecia bem os cantos da casa. 
Ouve uma voz mas confunde-se, ainda não distingue a voz dos homens da voz de Deus.
Responde, mas engana-se quanto Àquele que o chama. Sabia a liturgia de cor, os rituais de cor, mas «ainda não conhecia o Senhor». 
E, só por meio do sumo sacerdote Eli, Samuel chega então a compreender que não deve olhar para o lado, mas ouvir para cima, escutar do Alto. É Deus que lhe fala. Que chama. Que ama. Que insiste e que persiste. 
A sua prontidão em servir deve tornar-se em primeiro lugar esforço por escutar, silêncio para ouvir, relação para conhecer. Antes de se pôr a pé, para servir ao altar, é preciso primeiro ajoelhar-se e dizer: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta».

Também o Evangelho de João nos traz uma belíssima página vocacional.

Tudo começa como tinha que ser: O precursor, João Baptista, aponta o Cordeiro de Deus. João Baptista põe-nos em movimento, inquieta-nos. 
Atraídos pelo olhar Daquele desconhecido, os discípulos decidiram segui-lO à distância, quase tímidos e embaraçados. 
Até que o próprio Jesus, se volta e questiona: «Que procurais?».
Deste modo, suscita aquele diálogo que daria início à aventura de João, de André e de Simão, de Amaro que hoje celebramos e de tantos outros, também a nossa própria aventura.

Os discípulos, diante de uma pergunta tão directa, respondem com outra pergunta: «Mestre, onde Moras»? Ele perguntou-lhes o que procuravam e eles responderam a quem buscavam... Não respondem à pergunta de Jesus, mas querem entrar na intimidade do desconhecido. Não procuram uma coisa, nem sequer uma ideologia, uma doutrina ou uma verdade. Procuram uma pessoa. «Onde moras»? Procuram Alguém com quem viver, alguém cuja vida possam partilhar, Alguém para conviver, para viverem juntos.

Pediram-lhe a sua amizade. A sua companhia. A sua intimidade. E Jesus abriu-lhes o coração de par em par. E a resposta de Jesus é também um convite: "Vinde e vede". Aí mesmo os seus corações inquietos sentiam-se como se tivessem chegado a casa. De facto, com Jesus sentimo-nos sempre em casa.

O apelo/convite que nos faz o Evangelho, pode concretizar-se, em duas direcções:
* Buscar Jesus. Fazer dEle, a orientação, a direcção, o único desejo da vontade, a morada primeira e a pátria última do nosso coração. 

* Encontrar o Mestre, onde Ele está: No segredo da oração, na Luz da sua Palavra, na intimidade da Eucaristia, na comunhão da sua Igreja. 

Como aqueles primeiros discípulos, naquela tarde inesquecível, em que lhes ardia o coração ao escutar e ao pressentir Jesus, que cada um possa dizer baixinho: Ficai connosco, Senhor!... 
Eles foram ver onde Jesus morava e ficaram com Ele nesse dia... E, provavelmente, naquela noite não conseguiram dormir com tamanha alegria!
Nós encontramos Jesus aqui nesta Eucaristia. O que é que vai ser diferente?

Pe. JAC

8 de janeiro de 2012

A Luz que desponta leva-nos por caminhos novos. Homilia na Epifania do Senhor



Ainda em Natal, já mesmo a terminar o tempo, mas não a alegria e a certeza da presença do Deus Emanuel, a liturgia da Palavra leva-nos, agora com os Magos, até ao presépio. Sempre até ao presépio, o lugar onde Deus acampa, e, por isso, ir ao presépio é, acima de tudo, ir ao nosso coração, o verdadeiro presépio/morada do Menino Deus.
Continuamos, por isso, a aprender nesta bela escola do presépio. E aprendemos hoje com os Magos do Oriente.
Fabulosa catequese nos é dada nestas leituras. Enfoque especial ao Evangelho, sem deixarmos de acenar ao luminoso e esperançado texto de Isaías, na primeira leitura.

São, para mim, absolutamente secundárias as questões relativas à origem da estrela que os Magos seguiram. Também a questão dos seus nomes é secundária, extra-evangélica. Não importa se eram Baltasar, Belchior e Gaspar. Não importa se um era europeu, um africano e outro indiano. Não importa se eram reis ou não. Não é até fundamental saber se ofereceram mesmo ouro, incenso e mirra, mesmo que venha assim expresso na página do Evangelho.
Esta festa da epifania de Deus que celebramos está longe de ser uma pequena história infantil, alimentada no nosso imaginário, desenhada com as cores da superficialidade das novelas e das fábulas.

Afinal de contas, o que é que é essencial, nesta solenidade da Epifania?
Em primeiro lugar, epifania significa, do grego, manifestação. Trata-se, para nós cristãos, da manifestação do mistério de Deus, invisível e escondido desde sempre e, agora, tornado conhecido e visível, em Jesus que nasce no presépio. Jesus é o sacramento do Pai, a revelação do Pai. Em boa verdade, como expressa José Augusto Mourão, “a epifania é o cumprimento da missão do Filho [revelar e mostrar o Pai] e ponto de partida para a missão individual de cada cristão”. A epifania de Deus leva-nos à missão diária, quotidiana, fazendo-nos Suas testemunhas e sinais.

Importa perceber que a estrela que os Magos seguem, segundo relato de Mateus, é essa luz nova que desponta, no cumprimento pleno das palavras do profeta Balaão («Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta de Jacob,/ um ceptro se levanta de Israel» (Números 24,17) e do profeta Isaías, tomado como primeira leitura de hoje, («chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor » (Isaías 60,1).
Esta estrela que arde e brilha nos olhos e no coração dos Magos orienta os seus passos e, neles, os nossos passos, para a verdadeira Estrela que desponta e que é Jesus. E os Magos e, com eles, a humanidade que somos, orientamos para aquele Menino toda a nossa vida. É o que significa o verbo «adorar». Esta «adoração» é o verdadeiro presente a oferecermos ao Deus Menino, muito mais do que ouro, incenso e mirra.
Fazer deste Menino, que traz em Si a plenitude de Deus – verdadeiro Deus e verdadeiro Homem – centro e luz da nossa vida, é imperativo desta solenidade. É este Deus que os Magos adoram Naquele Menino com Maria, Sua Mãe.

Essencial, ainda na epifania, é perceber também, como a Deus lhe repugnam as portas. O presépio não tem portas. Deus quer as portas só para estarem abertas, nunca fechadas, para todo aquele que O quiser ver. Não é preciso marcar entrevista, nem audiência, nem tocar à campainha. Ele é verdadeiramente Emanuel, Connosco e em Nós. É num Deus assim que acredito.

Importante lição dos Magos, mesmo a terminar: depois de encontrar a Luz, que é o Menino Jesus, podemos e devemos seguir por outro caminho. Surpreendente! Até para regressarmos a casa precisamos de aprender um caminho novo! No nosso caso, poderá não ser caminho novo no percurso e no trajecto, mas deverá ser sempre renovado na motivação, no entusiasmo, na alegria e na certeza da presença da Luz de Deus em nós.
Um Santo Domingo.

1 de janeiro de 2012

É preciso viver em estado de permanente paixão! Homilia Ano Novo 2012.



1.Eis-nos no primeiro dia do ano a celebrar Eucaristia. Festa dos crentes, centro da vida cristã, sacramento da nossa salvação!
Eis-nos no primeiro dia do ano a celebrar Santa Maria Mãe de Deus e também nossa Mãe, a partir da Cruz, Medianeira de todas as graças e dons de Deus para nós!
Eis-nos no primeiro dia do ano a celebrar o Dia Mundial da Paz, que é Jesus, o Príncipe da Paz, nascido no Presépio de Belém.
Motivos solenes para esta solenidade litúrgica. Corações abertos e ao alto para acolher a bênção que Deus ensinou a Moisés, no Sinai, e que se estende, hoje e sempre, sobre nós. «O Senhor te abençoe e te proteja. / O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. / O senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz».
Bênção que é para nós e para todos os homens e mulheres de boa vontade vigor, força, êxito e felicidade.
Bênção que vem de Deus como dom, graça, gratuidade, prenda e presente, mas que não dispensa o nosso acolhimento e o nosso compromisso, em gestos concretos com os que caminham ao nosso lado.

2.Hoje, uma vez mais, e como temos feito desde o início do Advento, queremos aprender na escola do presépio. Hoje, especialmente, seguimos o caminho e os passos dos pastores, e aprendemos de Maria, a contemplar esse rosto de Jesus Menino, que nos manifesta a totalidade de Deus, irrompendo a carne do mundo, apenas porque quis e quer e porque ama!
São os pastores, que, acordando, nos guiam ao presépio e nos ensinam a ver o que tantos quiseram ver e não viram e ouvir e não ouviram: o Menino do Presépio, envolvido em panos, é mesmo Deus. «A humanidade de Deus é o traço decisivo do cristianismo e da cultura ocidental», assim escreveu o dominicano José Augusto Mourão, falecido este ano.

3.Fabulosa e inédita Mensagem que Bento XVI escreve para este Dia Mundial da Paz. Dirige-a especialmente aos jovens. “Educar os jovens para a justiça e para a paz”. A merecer a nossa leitura, a nossa meditação e a nossa acção.
Aqui eleva-se a fasquia. Reconhece-se na juventude o vigor e o entusiasmo que o nosso mundo precisa, em tempos difíceis, marcados por tantas crises, com especial enfoque na crise económica e financeira. Evoca-se a acção, que vimos inúmeras vezes, nos últimos tempos, de jovens sedentos, inquietos, insatisfeitos. Não é por acaso que a Revista “Time” elegeu como personalidade do ano 2011, a figura do “Manifestante”.
Bento XVI deixa na sua Mensagem uma palavra de incentivo, de proximidade de compreensão, de carinho, de estima e de admiração a todos os jovens. É a esses que o Papa pede ousadia e coragem sabendo que a Igreja olha-os com esperança.
E escreve-lhes: “Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação.” É grande e belo o desafio que lhes faz!
Mas a palavra do Papa volta-se às famílias, olhando-as como “células originais da sociedade” e como primeiras educadoras das jovens gerações. Papel fundamental dado aos pais, no seu dever e missão de educar os seus filhos. “Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem”, escreve Bento XVI.
Palavra papal virada, ainda, aos responsáveis das instituições com tarefas educativas. “Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar activamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna”, diz na mesma Mensagem.
Palavra do Papa a alertar os responsáveis políticos, “pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito-dever de educar” e ainda palavra desafiadora aos meios de comunicação social que têm a função não só de informar, mas também de contribuir e “concorrer notavelmente para a educação dos jovens”.
Mensagem desafiadora! A não ignorar. A pegar, a ler, e a fazer por todos, sem excepção.

4.Neste início de ano gostava de desafiar cada um e cada uma ainda com as palavras do dominicano José Augusto Mourão: “O que é preciso é viver em estado permanente de paixão e fazer da vida a beleza, a procurar”.
Claro que procurando a vida, procuramos Deus, origem e fundamento da nossa existência humana. E procurando Deus, e encontrando-O encontramo-nos e achamos o sentido e a felicidade que ansiamos e pela qual suspiramos cada dia!

Pe. JAC

5 de novembro de 2011

Iluminados pela Palavra, aprendemos a prudência


1. Caminhamos, em passo acelerado, para o terminus do ano litúrgico. Ficamos, agora, com dois domingos para celebrar, sabendo que a solenidade de Cristo Rei encerra o nosso ano litúrgico, abrindo-se logo à nossa frente as portas de mais um advento, como propedêutica do Natal do Senhor. Porque vamos caminhando para esse fim do ano, a liturgia da Igreja começa desde já a preparar a nossa mente e o nosso coração para a necessidade da vigilância, tendo em conta a segunda vinda do Senhor Jesus que está no horizonte final da história humana.

2. Essa é, aliás, a mensagem essencial do Evangelho de Mateus, que ouvimos proclamar e que, ao contrário de Marcos - que apresenta os sinais que precedem a destruição do Templo de Jerusalém -, nos elucida acerca do modo como devemos esperar, em constante vigilância, e como nos devemos preparar para essa segunda vinda de Jesus Cristo.

3.O cenário proposto pelo evangelista, ao escrever a parábola de Jesus, é o de um casamento judaico tradicional, imagem tão querida em toda a Escritura, para se referir à vinda do Messias. É a partir desta sugestiva imagem do banquete (que ainda há poucos domingos a liturgia nos propunha à reflexão) que Jesus nos quer ensinar, sempre com a habitual paciência, que podemos escolher como lema da nossa vida: Sempre Alerta!

4. Para melhor entendermos esta Palavra, importa dizer que a tradição judaica do casamento impunha que, no último dia da festa, o noivo, juntamente com os seus amigos, formasse um cortejo que, depois do sol posto, e à luz de candeias, fosse a casa da noiva, que acompanhada das suas amigas, aguardava, jubilosa, a chegada desse luminoso e ruidoso cortejo. Aí chegados, a noiva abandonava a sua casa, com as suas companheiras, e todos formavam um só cortejo rumo, de novo, à casa do noivo. Fechada a porta iniciava o banquete nupcial.

5. Esta história proposta por Jesus tem uma intenção escatológica (falar das realidades últimas da história humana), alertando-nos para a necessidade de estarmos prontos e preparados para participar nesse banquete festivo, no momento em que Ele vier ao nosso encontro para fazer festa do Encontro, face-a-face, daqueles que sempre se buscaram e se amaram.

6. Reparemos que, nesta parábola, as "virgens insensatas" acabam excluídas do festim porque facilmente percebemos que elas não primaram na preparação e não vigiaram suficientemente. Reparamos até que no adormecer e no dormitar, enquanto esperam o esposo atrasado, "prudentes" e "insensatas" são semelhantes; mas, na preparação prévia para a recepção e o acolhimento do esposo, elas são bem diferentes. E aí está a questão. Não teremos parte na Festa que Deus nos prepara se não estivermos vigilantes e preparados.

7. É inultrapassável que, ao lermos este texto, a nossa mente não vá até outro episódio do Evangelho de Mateus. No capítulo 7, lê-se: “Nem todo aquele que me diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsamos demónios, e em teu nome que fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci". (7, 21-23). Logo a seguir a este episódio conta-se a história do homem prudente que edifica a casa sobre a rocha e do insensato que constrói em cima da areia.

8. Afinal, os prudentes são os que, iluminados pela Palavra de Deus, que é a rocha e o apoio firme, estão vigilantes, atentos e alerta, pondo em prática a Palavra; os insensatos são os que até recebem a Palavra de Deus, mas adormecem “à sombra da bananeira”, não vigiam e descuidam a necessária prática da Palavra escutada. Faz a vontade de Deus aquele que pratica a Palavra ensinada pelo Filho que é, Ele mesmo, a Palavra, o Verbo, o Logos, o Dabar divino. Estes terão lugar nesse banquete festivo que Deus põe continuamente à nossa disposição.

9. Hoje, a partir da primeira leitura, podemos e devemos pedir o dom da Sabedoria. Dá-nos, Senhor, a Tua sabedoria, para discernirmos o que é bom e agradável. Assim estaremos despertos e aprenderemos a prudência. Assim entraremos no banquete da Tua vida abundante, na festa do encontro dos que Te amam e buscam.

2 de novembro de 2011

Memória dos mortos. Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos


Ontem, na celebração da festa da comunhão dos santos, contemplámos a Jerusalém celeste, esposa do Cordeiro, bela, sem mancha nem ruga porque santificada pelo Senhor (cf. Ef 5, 27; Ap, 21, 2); hoje somos convidados pela Igreja a fazer memória dos mortos. Festa de todos os santos e memória dos mortos são uma única grande festa em que se vive o mistério da glória e o mistério da cruz, o mistério da vida eterna em Deus e o mistério da morte na fé: Cristo ressuscitado conduz os mortos para o rio da vida da comunhão dos santos.
O cristão, por vocação, morre com Cristo (cf. Rom 6, 8) e com Cristo é sepultado (cf. Rom 6, 4) na Sua morte e, quando morre, leva à plenitude a obediência de criatura e em Cristo é transfigurado e ressuscitado pelas energias de vida eterna do Espírito Santo. É nesta consciência, nesta visão que nasce da fé, que a morte acaba por ser irmã – como era definida por S. Francisco de Assis – para se transfigurar num acto em que se restitui a Deus, por amor e na liberdade, aquilo que Ele nos deu: a vida e a comunhão. Por isso, a Igreja da terra, recordando os fiéis defuntos, une-se à Igreja do céu e, numa grande intercessão, invoca a misericórdia pelos que morreram e está diante de Deus para lhe prestar contas de todas as suas obras (cf. Ap 20, 12).
O texto do Evangelho de S. João recorda-nos palavras de Jesus que ressoam como uma promessa que pode ser repetida ao nosso coração para vencer a tristeza e o temor. Jesus disse: «Quem vier a Mim, eu não o rejeitarei». O cristão é aquele que vai ao encontro de Cristo, em cada dia, mesmo se a sua vida está marcada pelo pecado e pela queda; é aquele que se afasta e regressa, que cai e se levanta, que retoma com confiança o caminho do seguimento de Cristo. E Jesus não o rejeita; pelo contrário, abraçando-o no seu amor oferece-lhe o perdão dos pecados e condu-lo definitivamente à vida eterna: Esta é a vontade de meu Pai: que quem acredita no Filho tenha a vida eterna (cf. Jo 3, 16.36). Por isso é que S. Paulo escreveu: «o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 6, 23).
A memória dos mortos é, portanto, para os cristãos uma grande celebração da fé na ressurreição e na vida eterna: aquilo que é confessado e cantado na celebração das exéquias, é reproposto num único dia, para todos os mortos. A morte não é mais a última realidade para os homens; os que morreram, indo ao encontro de Cristo, não são por Ele rejeitados, mas ressuscitados para a vida eterna, a vida para sempre com Ele, o Ressuscitado-Vivente. A morte é verdadeiramente uma passagem, uma Páscoa, um êxodo deste mundo para o Pai: para os crentes não se trata de um enigma, mas de um mistério, porque está inscrito, de uma vez para sempre, na morte de Jesus, o Filho de Deus que soube fazer da sua morte um autêntico e total acto de entrega e oferta ao Pai. E assim também nós hoje somos chamados a interrogarmo-nos sobre a fé na nossa ressurreição, da qual Cristo é penhor e fundamento, recordando as palavras paradoxais do apóstolo Paulo: se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou (1 Cor 15, 16). Às vezes parece mais difícil acreditar na nossa ressurreição do que na ressurreição de Cristo.
Escreveu S. João na sua 1ª Carta: «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos» (1 Jo 3, 14), palavras que constituem um comentário, fruto de grande inteligência espiritual, a uma outra afirmação de Jesus: «quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não é sujeito a julgamento, mas passou da morte para a vida» (Jo 5, 24). É exactamente assim: se os cristãos não amam os irmãos, ficam prisioneiros da morte; pelo contrário, amando mostram que estão mortos para si próprios e vivos em Cristo, vivos da vida de Deus semeada neles. Sim, quem vive cada dia neste amor, faz a experiência de ser vencedor da morte, de passar já da morte para a vida, porque o «amor é mais forte do que a morte» (Ct 8,6).

29 de outubro de 2011

Dizer e fazer: Eis a questão!


1. A Palavra de Deus, neste 31.º domingo comum, alerta-nos para a importância do ser, da harmonia entre o dizer e o fazer, da coerência entre o ensino e a vida. Hoje, Jesus, na continuação da luta estabelecida com as "cabeças pensantes" do seu tempo, denuncia os «mestres da suspeita», os que dizem mas não fazem. Os que se sentam na cadeira, como Mestres e Doutores, mas não gozam da autoridade como testemunhas fiáveis e credíveis. Podem ser escutados, mas não devem ser seguidos. São bons instrutores. Mas péssimos educadores. São bem-falantes, mas maus praticantes. É uma denúncia veemente, uma crítica dura que visa sobretudo a classe religiosa e sacerdotal, se quisermos, a classe dirigente, mas que nos atinge a todos. Em última instância, esta palavra leva a ver com que linhas nos cosemos.

2. Jesus fala com a habitual indignação profética. Para todos os tempos, e em especial para o que nos é dado viver. Desafio muito directo aos que, na comunidade cristã, temos a missão da animação, da educação e do ensino. Sim! Desafio, em primeiro, aos bispos, aos padres e diáconos, mas aberto a todos os crentes, em geral, desafiados à humildade e ao serviço como opção e como estilo de vida.

3. No evangelho que ouvimos proclamar, Jesus "puxa as orelhas":
a) aos que não fazem o que dizem. O nosso maior pecado é a incoerência. Não vivemos o que dizemos. A nossa conduta desacredita-nos. Às vezes, tantas se calhar, guiamo-nos pelo dito "se não os podes vencer junta-te a eles".  Os cristãos, esquecemos facilmente que o nosso exemplo de vida mais evangélico será motor de transformação do nosso mundo e do nosso tempo.
b) aos que atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos outros, mas eles nem com o dedo os querem mover. É bem certo. Com frequência, somos exigentes e severos com os outros, mas sempre muito compreensivos e indulgentes connosco. O que exigimos aos outros não o imaginamos sequer para nós...
c) aos que fazem as coisas para serem vistos pelos homens. Não podemos negar que é muito fácil viver pendentes e dependentes da nossa imagem, procurando quase sempre “ficar bem” perante os outros. Nunca como nos nossos dias se cultivou tanto a cultura da aparência. Nunca se usaram tantas máscaras. Estamos sempre mais atentos ao nosso prestígio pessoal e bem estar...
d) aos que gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas. Dá-nos vergonha confessá-lo, mas gostamos tanto destas honrarias. Procuramos ser tratados de forma especial. Queremos que nos tratem com critérios diferentes dos usados para a "plebe"...
e) aos que se  deixam tratar por ‘Mestres’… e doutores. O mandato evangélico não pode ser mais claro: renunciemos aos títulos para não fazermos sombra a Cristo; orientemos apenas e só a atenção apenas para Ele.

4. Esta palavra desafiadora de Jesus pode ligar-se perfeitamente à educação das gerações mais jovens, dos filhos, com todas as problemáticas que lhe estão inerentes, e que vamos assistindo. Mas, o que não pode sociedade nenhuma esquecer é que «a autoridade do mestre, em educação, passa mais pelo que ele vive e faz e não só pelo que diz. O testemunho da vida é a forma simples e espontânea de irradiar valores e a credencial das palavras que se comunicam» (CEP, Educação, 14).

5. Não podemos ficar com a ilusão de que darmos uma boa educação, simplesmente pelo facto de ocuparmos os filhos em muitas aprendizagens, da natação ao desporto, da catequese à informática, do balet ao que quer que seja. Não durmamos descansados, só porque entregamos os filhos a instituições de suposta ou reconhecida qualidade. Não nos tranquilizemos, simplesmente porque ainda mandamos bem e temos mão nos filhos. Tudo isso é pouco ou quase nada. Se pai e a mãe não oferecerem, como verdadeira família, um ambiente animado pelo amor e firmado pelo testemunho. Sem essa atmosfera, sem esse clima não há educação. E o trabalho do professor, do padre e do catequista, de qualquer educador, estará seriamente comprometido.

6. Este aviso, quase "puxão de orelhas, que nos brota da palavra proclamada é para ser levado a sério, por todos. Com a paciência do costume, Jesus vai-nos educando a mente e o coração, para sermos melhores discípulos. Aprendamos Dele e com Ele. A coerência, a simplicidade, a verdade, a honestidade, o testemunho, por palavras e obras, é, talvez, o maior e mais urgente desafio aos que nos dizemos e somos, afectiva e efectivamente, cristãos neste tempo.

7. Aos que nos alimentamos da Palavra e do Pão da Eucaristia não esqueçamos uma regra de ouro: “crê o que lês, ensina o que crês, vive o que ensinas». Só assim seremos discípulos verdadeiros de Jesus Cristo.


Pe. JAC

24 de outubro de 2011

Um coração que não cabe no peito!

Um coração que não cabe no peito!
30.º domingo comum. Ano A

1.Celebramos o 30.º domingo do Tempo Comum e, cumulativamente, o Dia Mundial das Missões. Na Mensagem escrita para este dia, Bento XVI diz que a missão e a evangelização são dimensões essenciais da Igreja e tarefas urgentes, num tempo e num mundo cada vez mais secularizado que faz com que muitas pessoas vivam como se Deus não existisse. «O Evangelho não é uma propriedade exclusiva de quem o recebeu, mas um dom a ser partilhado e comunicado", escreve o Papa, reiterando a ideia de que todo o baptizado é missionário no seu meio e ambiente.

2.Ao ritmo da nossa liturgia semanal, neste esforço semanal de irmos aprendendo com Jesus, a sermos missionários e os discípulos que Ele quer que sejamos, somos confrontados com uma das questões mais fundamentais e centrais para a vivência prática da nossa fé. Qual é, afinal de contas, o mandamento maior pelo qual devemos reger a nossa conduta e a nossa acção?

3. Mergulhemos neste Evangelho, onde se reflecte a continuada “perseguição” dos grupos religiosos do velho Israel a Jesus. Reparemos que, da política ao catecismo, os fariseus continuam a experimentar Jesus em todas as matérias. Eles querem mesmo “fazer-lhe a folha!”. Passamos da questão fiscal (do imposto e do tributo a César, que ouvimos na semana passada), ao problema moral (da lei que deve reger a vida do crente). Agora a dúvida é sobre os mandamentos da Lei de Deus! E é pressuposto que o “Mestre Jesus” tenha uma resposta clara.

4.«Qual é o maior mandamento da Lei de Deus»? - perguntou um doutor da lei a Jesus. Convenhamos, e até entendemos, que numa floresta quase impenetrável de obrigações e proibições da Torá (composta por 613 preceitos), a que o judeu piedoso se obrigava todos os dias, era difícil saber por que mandamento começar, qual deles tinha a primazia e precedência. A pergunta sobre o maior mandamento era no fundo a pergunta sobre «qual mandamento, que, uma vez cumprido, garantia prática de todos os outros»?!

5. Se repararmos com atenção, na resposta de Jesus, não há lá palavras novas. Jesus serve-se de dois textos já muito conhecidos dos velhos livros da Lei do Antigo Testamento. O primeiro, do livro de Deuteronómio, falava-nos do «amar a Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente» (Dt.6,4-5), pondo de parte um amor apenas sentimental ou religioso, para fazer deste amor a Deus uma entrega pessoal e total. O segundo texto, do livro do Levítico, referia-se a «amar o próximo como a si mesmo» (Lev.19,18), fazendo deste amor o critério de verdade do amor a Deus. Onde está então a novidade do ensinamento de Jesus? O que acrescentou Jesus, de novo, àquilo que já sabia o fariseus? A novidade da resposta, poderia resumir-se em dois sentidos:

6. Primeiro, Jesus tira-nos a ilusão religiosa ou sentimental de alguma vez podermos amar a Deus… não amando o próximo. «Os seus discípulos nunca poderão separar estes dois amores. Tal como, numa árvore, não se podem separar as raízes da sua copa: quanto mais amarem a Deus, mais intensificam o amor aos irmãos e às irmãs; quanto mais amarem os irmãos e as irmãs, mais aprofundam o amor a Deus», nas palavras de Chiara Lubich.

7.Por vezes, enganamo-nos, imaginando que é tão grande o nosso sentimento de amor a Deus, ainda que, no fundo do coração, as nossas relações com determinada(s) pessoa(s), possam não ser tão boas e perfeitas como isso. Jesus não nos permite esta veleidade ou “esquizofrenia espiritual”: de pensarmos que podemos amar a Deus, não amando realmente o irmão. São João denunciou esta mentira «piedosa» anos mais tarde, dizendo: «como podes tu dizer que amas a Deus, que não vês, se não amas o teu irmão que vês» (I Jo.4,20)?

8.Em segundo lugar, a novidade da resposta de Jesus, faz-nos ver que, de facto, não temos, dois corações, nem dois tempos, nem dois amores, para amar, tal como pensavam os fariseus. O amor a Deus e o amor do próximo têm uma mesma e única fonte: o amor de Deus. Nós podemos amá-Lo, «porque foi Ele que nos amou primeiro» (I Jo.4,10): o amor que nos é pedido é uma resposta ao Amor, que nos é dado como prenda ou presente. É pela graça deste único amor de Deus, que amamos a Deus e ao próximo. E este amor é único e simultâneo: não há um tempo agora para amar a Deus (uma hora na missa, dez minutos de silêncio ou oração, uma leitura orante da Bíblia…) e outro para amar o próximo (visitar um doente, conversar com um amigo, dar um punhado de horas em voluntariado ou num serviço à comunidade). O amor de Deus é indiviso e simultaneamente nos coloca em relação com Ele e com os irmãos.

9. A pergunta decisiva e inultrapassável que temos a fazer é: se sinto o meu coração dividido, porque estou muito pronto e generoso para amar a Deus, e tão lento e reservado para amar determinada pessoa, o que devo fazer? Só há uma forma de curar esta doença de ilusão de óptica espiritual ou esquizofrenia: a conversão. É a conversão permanente que me leva a reconhecer nesta incapacidade de amar o outro o sintoma da minha resistência a ser amado por Deus. E chagado aí, resta-nos suplicar, de joelhos, diante de Deus: «Senhor, converte-me ao teu amor» e, depois, colocar-me de pé diante dos Homens, em posição de serviço e de atenção. É de Deus que recebemos este mandamento: «quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (I Jo.4,21).

10.Oxalá, caros irmãos, possamos ser missionários e testemunhas deste Único Amor de Deus que abraça a todos e nos impele, simplesmente, a amar.

Pe. JAC

26 de setembro de 2011

É preciso mais do que palavras! (última homilia na Igreja de Águeda-UPA)



1. Irmãos e irmãs: palavra recta e directa de Jesus: “Os publicanos e as mulheres de má vida irão adiante de vós para o Reino de Deus”! Desafio para nós ouvi-la hoje. Em Jerusalém, o Mestre enfrenta a resistência organizada da classe religiosa do velho Israel. É uma espécie de raça eleita, gente fina e segura, acomodada e envelhecida nas cadeiras do poder. São os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo, perfeitos profissionais da religião. São os que dizem e rezam «àmens», cheios de devoção. São estes que agora recusam acolher Jesus. Perseguem-nO, com medo da sua Palavra, espada afiada que os fere de morte. Seguros do seu passado, não querem mudar as regras de jogo. Tornam-se insensíveis a qualquer apelo de mudança, fechados à novidade, indispostos à conversão... O seu passado de glória vê-se agora transformado em risco de perdição.
2. Na parábola, Jesus adverte para o risco de passarmos a vida a dizer «sim, senhor», mas quando chega a hora de dar a cara e «arregaçar» as mangas, encontrarmos sempre razões para dizer «não». Os líderes religiosos do Povo de Israel, representados no segundo filho, sempre disseram «àmen» a tudo e a todos, mas recusam dar o «sim» àquele que o Pai enviou. Para estes, a palavra dada reduz-se a um discurso de circunstância, a invocar, três vezes ao dia, o santo nome de Deus em vão! Estes ficam para trás... no caminho do Reino.
3. Adiante destes, do outro lado da margem, estão os pecadores. Os desgraçados, os filhos perdidos, as vítimas do poder e do pecado de todos: entre eles, os publicanos e as mulheres de má vida. Esses tais que nem rezavam «àmens» e carregavam o peso de um passado ferido de miséria. Esses não tinham nada a perder. Acolheram o grito de mudança, proclamado por João Baptista, e entregaram-se à causa de Jesus. Arrependidos, encontram a força da sua liberdade e vão à frente… no caminho do Reino.
4. Vão adiante porque a sua miséria não é sinónimo de podridão e a sua rebeldia não se confunde com a desobediência. Vão adiante porque a sua fidelidade não se cumpre por desafecto e porque deixam para trás um passado que se abate... e não presumem garantido o seu futuro. Vão adiante porque há neles uma dignidade que se esconde por trás do pecado... enquanto noutros há o pecado que se esconde sob a capa de uma dignidade (eclesiástica, política, social...). Sim, meus amigos, “os publicanos e as mulheres de má vida irão adiante de [NÓS] para o Reino de Deus”! Jesus sabe e conhece a amargura das suas vidas, a concentração do vício alheio a minar-lhes o coração. Ele não teme nem as palavras nem os gestos de acolhimento... Vão adiante porque a sua grandeza de alma, dorida e limpa, é maior do que a pacatez de espírito daqueles praticantes profissionais da religião tradicional. Vão adiante, as mulheres de má vida, não pelo pecado cometido, mas pelo desejo de mudança. Vão adiante porque, ao apelo de conversão, acreditaram e mudaram de vida e porque arrepiaram caminho ao escutar a parábola, revendo-se no primeiro filho, acabando por assentir não à palavra dada, mas à Palavra, que é o Verbo, Jesus Cristo, recebida com alegria.
5. No fundo, esta parábola e o pensamento expresso pelo profeta da esperança, na primeira leitura, conduzem-nos à certeza de que, para Deus, não há o fatalismo do passado nem para ninguém a garantia do futuro. Para Deus, nenhum de nós é um caso perdido... há sempre uma oportunidade de salvação... E resta sempre o aviso sério de que ninguém se julgue grande e seguro... porque estamos sempre sob o risco da perdição...
6. Meus caríssimos irmãos. Depois das mãos e dos braços, para o trabalho da vinha, o Senhor pede-nos agora o abraço do coração. Pede-nos um «sim» de corpo e alma, um «sim» de alma e coração. É preciso dizer e fazer. Ou melhor ainda, fazer, sem dizer. Mais: é preciso sentir o que se diz, sentir ainda mais o que se faz. Trabalhar com a força dos braços, mas ao ritmo certo do coração manso e humilde de Cristo.
7. É urgente, veemente e permanente o apelo à conversão. É preciso vencer rivalidades, com um elevado espírito de serviço. O próprio Cristo que era de condição divina fez-se servo! É preciso sobrepor a humildade à vanglória. O próprio Cristo que era de condição divina não se valeu da sua igualdade com Deus! É preciso submeter o interesse próprio a uma fiel obediência ao bem de todos. O próprio Cristo humilhou-se ainda mais, até à morte e morte de Cruz!
8. Neste jogo arriscado da nossa vida resta-nos andar de “bola baixa”, “rasteiros”. Sem este «abaixamento», onde cada um depõe as armas do orgulho e do interesse próprio, não há condições de unidade e de paz... no seio da Igreja, na vida das nossas comunidades e no nosso mundo. Humildes no pecado, para acolher a misericórdia e encontrar a vida e humildes na virtude, para não presumir de nada e vir a sucumbir na morte... «É sempre tempo para mudar» e tudo será mais fácil se tivermos entre nós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus! Ousemos aceitar a proposta!
 Pe. JAC

18 de setembro de 2010

Deus ou Dinheiro? Opção Fundamental


Celebramos o 25.º Domingo do Tempo Comum. Caminhamos a passos largos para o fim do ano litúrgico. A Palavra de hoje põe-nos a reflectir sobre o dinheiro e os bens materiais. Notemos, antes de mais que, no Evangelho, Jesus fala do dinheiro com uma frequência surpreendente. É porque precisamos de estar atentos quanto a isso. Sem terras nem trabalho fixo, a sua vida itinerante de Profeta dedicado à causa de Deus permite-lhe falar com total liberdade. Por outro lado, o Seu imenso amor aos pobres e a Sua extrema paixão pela justiça de Deus levam-no a defender sempre os mais excluídos.

Este Evangelho de Lucas apresenta-nos mais um passo de Jesus a “caminho de Jerusalém”. É uma palavra aparentemente difícil de compreender. Jesus instrui os discípulos, daquele tempo e de todos os tempos, acerca da forma como se hão-de situar face aos bens deste mundo. Para Jesus, o que está em causa é a busca do Reino de Deus. Jesus apela aos “filhos da luz”, em oposição aos “filhos das trevas”, para que sejam empreendedores na busca do Reino. Para tal, pede a habilidade e a sagacidade que o “administrador” do Evangelho usou. Jesus não louva a “má administração” ou até a “desonostidade” do administrador. Não! Jesus coloca-o como exemplo daqueles que querem segui-lo totalmente e de verdade e que são capazes de relativizar tudo o resto.

A mensagem essencial gira à volta da sábia utilização dos bens deste mundo: eles devem servir para garantir o bem mais duradouro que é o Reino de Deus, fazendo-nos recordar que todos somos administradores dos dons que Deus nos concede.

A primeira parte do texto (vers. 1-9) apresenta a parábola de um administrador sagaz e astuto. A parábola conta-nos a história de um homem que é acusado de administrar de forma incompetente (e talvez desonesta) os bens do patrão. Chamado a contas e despedido, este homem preocupa-se em assegurar o futuro. Chama os devedores do patrão e reduz-lhes consideravelmente as quantias em dívida. Dessa forma – supõe ele – os devedores beneficiados não esquecerão a sua generosidade e irão acolhê-lo em sua casa, em caso de necessidade.

Na cultura judaica, o administrador, actuando em nome do seu senhor não recebia remuneração, mas tinha uma comissão própria na execução das dívidas. Na prática, com esta atitude de perdoar parte da dívida, este administrador “mete uma cunha” junto dos devedores, a fim de garantir o seu futuro, após o despedimento.

Este administrador é, por isso, um exemplo pela sua habilidade e sagacidade: ele sabe que o dinheiro tem um valor relativo e troca-o por outros valores mais significativos – a amizade, a gratidão.

Jesus conclui a história convidando os discípulos a serem tão hábeis como este administrador (vers. 9): os discípulos devem usar os bens deste mundo, não como um fim em si mesmo, mas para conseguir algo mais importante e mais duradouro (o que, na lógica de Jesus, tem a ver com os valores do “Reino” de Deus).

Na segunda parte do texto (vers. 10-13), Lucas apresenta-nos uma série de “sentenças” de Jesus sobre o uso do dinheiro avisando os discípulos de todos os tempos para o bom uso dos bens materiais: se sabemos utilizá-los tendo em conta as exigências do “Reino”, seremos dignos de receber o verdadeiro bem, quando nos encontrarmos definitivamente com o Senhor ressuscitado.

O nosso texto termina com um aviso de Jesus acerca da deificação ou divinização do dinheiro (vers. 13): Deus e o dinheiro representam mundos contraditórios e procurar conjugá-los é difícil… Os discípulos são, portanto, convidados a fazer a sua opção entre um mundo de egoísmo, de interesses mesquinhos, de exploração, de injustiça e um mundo de amor, de doação, de partilha, de fraternidade.

Em tempo de grave crise económica, ninguém duvida que o mundo em que vivemos decidiu que o dinheiro é o deus fundamental e que tudo deixa de ter importância, desde que se possam acrescentar mais uns números à conta bancária.

Por dinheiro, há quem trabalhe doze ou quinze horas por dia, num ritmo de escravo;
Por dinheiro, há quem sacrifique a sua dignidade e exponha a sua intimidade, diante de uma câmara de televisão;
Por dinheiro, há quem venda a sua consciência;
Por dinheiro, há quem não tenha escrúpulos em sacrificar a vida dos outros;
Por dinheiro, há quem seja injusto, explore os seus operários, se recuse a pagar o salário do mês porque o trabalhador é ilegal e não se pode queixar às autoridades…

Diante disto, que exame de consciência fazemos? Ser escravo dos bens e do dinheiro é algo que só acontece aos outros? Talvez não cheguemos, nunca, a estes casos extremos; mas até onde seríamos capazes de ir por causa do dinheiro?

Tudo isto não significa que o dinheiro seja uma coisa desprezível e imoral, do qual devamos fugir a todo o custo. O dinheiro (é preciso ter os pés bem assentes na terra) é algo imprescindível para vivermos neste mundo e para termos uma vida com qualidade e dignidade… Mas, Jesus recomenda que o dinheiro não se torne uma obsessão, uma escravidão.

Não esqueçamos a valente denúncia do profeta Amós, na primeira leitura. Ele fala uma constante na história da humanidade. Há gente que engana os outros em proveito próprio. Cobram além da conta. Não conhecem a gratuidade: tudo é objecto de venda. Há gente sem escrúpulos que com a obsessão de acumular dinheiro passa por cima de tudo e de todos.

Que razão tinha e continua a ter o profeta Amós que se atreveu a denunciar a sociedade israelita do seu tempo (século VIII a.c).

O Profeta lembra-nos que Deus não esquece e não pactua com quem explora as necessidades dos outros, a miséria, o sofrimento, a ignorância. O nosso Deus não suporta a injustiça e a opressão. Ele não está do lado dos opressores, mas dos oprimidos; e qualquer crime contra o irmão é um crime contra Deus.

Se há entre os cristãos quem explora estes esquemas desumanos, quem oprime e explora os pobres (embora ao domingo até vá à missa, e faça parte dos movimentos de apostolado da paróquia e até dê quantias significativas para obras), convém que tenha isto em conta. “Deus não esquece nenhuma das suas obras”, mas, como também lembra Paulo, na segunda leitura, “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”.

Esta palavra de hoje lembra-me uma história antiga:
Um dia alguém perguntou a um sábio:
- O que é que mais te surpreende na Humanidade?
O sábio respondeu:
- Os homens e as mulheres...
- Porque? – perguntou.
E o sábio disse:
Porque perdem a saúde para juntar dinheiro,
depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem tanto no futuro,
esquecem-se do presente
de tal forma que, acabam por não viver nem o presente, nem o futuro.
E vivem como se nunca fossem morrer...
e morrem, como se nunca tivessem vivido.

Pe. JAC

27 de fevereiro de 2010

Ideias Partilhadas na Homilia do II Domingo da Quaresma:


Evangelho: Transfiguração de Jesus
1. Texto não é uma crónica jornalística
2. É uma catequese sobre Jesus que revela e apresenta Este como o Filho amado de Deus que vai concretizar o plano salvador em favor dos homens através do dom da própria vida, da entrega total por amor.
3. Olhemos mais o texto: A transfiguração acontece antes da subida para Jerusalém, o lugar da entrega. Como que a dizer que a glória da transfiguração precisa de passar pelo sofrimento e pela Cruz para chegar à ressurreição.

4. Olhemos as muitas referências ao A.T.:
a. “Monte” – é o lugar da revelação de Deus. É o intermédio entre a terra e o céu. É o lugar do diálogo com Deus.

b. “Mudança de rosto e das vestes” – recordam e evocam o resplendor de Moisés ao descer do Sinai onde recebeu os Mandamentos da lei.

c. “Nuvem” – é sempre indicativa da presença de Deus, que caminha com o povo, pelo deserto, e o guia.

d. “Moisés e Elias” – representam a Lei e os Profetas. Segundo a teologia judaica, estes deveriam aparecer no “dia do Senhor”. Falam da morte de Jesus como “êxodo” (partida, passagem) que se concretiza em Jerusalém. A morte de Jesus é uma morte libertadora, redentora.

e. “Sono” – é simbólico. Pretende dizer que os discípulos – Pedro, Tiago e João representam os demais – não querem entender que a glória do Messias tenha de passar pelo sofrimento e pela cruz.

f. “Tendas” – é uma alusão à Festa das Tendas comemorativa do êxodo do Povo hebreu, que na caminhada do deserto habitava em tendas e onde havia a tenda de Deus, a tenda do encontro. Significa que os discípulos querem perpetuar este momento de glória sem que Cristo tenha de passar pela cruz.
5. Mensagem central: Jesus é o Filho amado do Pai que oferece gratuitamente a salvação a todos os homens por meio da sua entrega no alto da cruz, por amor e de uma vez para sempre.

6. A transfiguração é assim a prefiguração da ressurreição de Jesus, e também da nossa, como vitória sobre a morte.

Primeira leitura: Gn 15.

Abraão – modelo dos que acreditam. Pais dos crentes.
Confiou plenamente nas promessas de Deus.
Apesar de velho, sem filhos, sem terra… mesmo assim confia na promessa de Javé.

Até que ponto eu confio em Deus?
Mesmo no meio das tempestades, dos terramotos e dos sismos no Haiti ou no Chile, dos aluviões e das derrocadas na Ilha da Madeira, dos tornados e dos mini-tornados um pouco por todo o mundo ou até do vendaval que nos invade por estes dias… apesar de tudo consigo pôr a minha confiança e a minha esperança no Senhor?
Ele é mesmo a minha luz e a minha salvação?
Segunda leitura: Fil 3

Paulo quer dizer aos Filipenses e hoje a cada um de nós que a nossa caminhada rumo a Cristo não está terminada. É um processo construído dia a dia e é feito de intimidade, de oração e de uma maior conformação com Cristo.
Paulo acentua que para isso é necessário mudar, transformar, transfigurar e converter o coração. O exterior importa muito menos que o interior. Deus vê o interior, olha o coração.
Estou disposto a aceitar transformar o meu coração, rumo à vida nova de Deus, que Cristo nos alcança pela sua transfiguração plena que é a ressurreição?

Continuemos irmãos o nosso caminho nesta Quaresma que é a estrada de Luz e de Jesus, ao encontro do Pai, onde nos encontraremos todos transfigurados e ressuscitados.

Diác. José António
27.02.2010

18 de fevereiro de 2010

Homilia que partilhei na Quarta-feira de Cinzas

1. Começamos hoje o tempo litúrgico da Quaresma que coloca o acento e nos coloca a nós naquilo que é essencial: colocar o nosso coração em Deus.
A Quaresma surge como uma oportunidade dada por Deus, como graça, para fazermos caminho, a fim de não nos acomodarmos às nossas coisas, aos nossos umbigos, às nossas vidas.
É, por isso mesmo, tempo de deixar de lado o egoísmo e tempo para passarmos a ser mais teocêntricos e cristocêntricos.

2. Além disso, irmãos e irmãs, a Quaresma é possibilidade de nos recentrarmos. Pela voz do profeta Joel, na 1.ª leitura, com recurso a uma linguagem directa e incisiva – usando nada mais nade menos 12 verbos no imperativo – Deus diz agora – que é hoje – a todos nós: “Convertei-vos a Mim de todo o coração” e ainda “Rasgai os vossos corações”.
No mesmo sentido, Paulo, na 2.ª leitura, pede-nos em nome de Cristo: “Reconciliai-vos com Deus”.
Por seu turno, Jesus, no Evangelho, lança-nos e elenca-nos como que um programa para este caminho quaresmal: esmola, oração e jejum são exercícios ou três formas concretas de deixarmos que Deus seja o centro deste tempo e da nossa vida neste e em todos os tempos.

3. A Quaresma reveste-se, ainda, de um carácter profundamente simbólico, desde logo pela sua duração. Os 40 dias da Quaresma evocam essa grande travessia do povo hebreu até à terra prometida. A mesma experiência de libertação somos nós desafiados a fazer nestes 40 dias até à Páscoa.
Não é de menor importância começarmos a Quaresma com esta celebração das Cinzas. Elas devem levar-nos a reconhecer aquilo que verdadeiramente somos. Reconhecer que somos pó é, ao mesmo tempo, um convite a vivermos a humildade, com virtude forte deste tempo. Esta deve levar-nos a reconhecer que somos criados, criaturas. Não somos senhores nem criadores de nós próprios.

4. A imagem do deserto é igualmente uma imagem forte da Quaresma. O deserto, mais que um espaço físico, é um tempo psicológico. Colocarmo-nos em deserto significa colocarmo-nos à prova, reconhecendo a nossa não auto-suficiência e consequente dependência de Deus. Neste deserto quaresmal procuramos chegar a esse oásis querido e pretendido que é Deus.


5. Penitência e conversão são também palavras fortes deste tempo. Por elas, somos exortados a reconhecer a nossa fragilidade, a nossa finitude, que somos efémeros, não eternos. Aí chegados poderemos gritar como o salmista: “Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós”. Neste mesmo âmbito, surge com especial relevo, o sacramento da Reconciliação, como possibilidade que a Igreja, por meio de Cristo, oferece ao homem pecador que quer fazer e celebrar a festa do encontro amoroso com Deus. Humanamente pode ser difícil entender, mas teologicamente, a Reconciliação – também chamada Penitência ou Confissão – é uma forma magnífica de mostrarmos que o caminho da vida tem pedras que nos fazem cair. Mas, caros irmãos, cair não e mau; mau é ficar no chão e não se levantar nem erguer a cabeça para ir ao encontro do Deus que é Amor.

6. Interioridade é também atitude a exercitar nestes 40 dias. É tempo para dar mais tempo à oração, assim como à escuta da Palavra de Deus, que nos sussurra ao coração e nos desafia à conversão. “Entra no teu quarto”; “Entra no segredo do teu coração”; “Diz não às aparências porque Deus está no secreto, no coração e vê no escondido”. Por isso, é tempo de interioridade.

7. Irmãos e irmãs: Rasguemos o nosso coração e não os nossos vestidos. Demos a Deus o lugar que, por direito, lhe convém, que é o primeiro lugar.
Tudo na Quaresma nos vai apontando o olhar e o coração para o essencial: Cristo, o enviado como Salvador e Redentor. Deixemos que Ele seja o essencial para que volvidos estes dias possamos chegar à sua que é também a nossa Páscoa, já que em Cristo fomos e somos salvos.


JAC

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...