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3 de novembro de 2016

Deus na e da (im)perfeição!

A salvação consiste na possibilidade de amarmos e de nos amarmos até ao limite, em fazermos das nossas feridas e das dos outros ocasião de cuidado e de misericórdia. 
O nosso Deus manifesta-se em contextos naturalmente imperfeitos e, sobretudo, não intervém para resolver os problemas (...)

O Deus da revelação entra nas histórias feridas e fracassadas para levar por diante a "sua" história de salvação. (...)

O nosso Deus não deseja senão ter filhos diante de si, para poder manifestar o que é, quer dizer, Pai, amor, misericórdia. 



In Paolo Scquizzato, O elogio da imperfeição. O caminho da fragilidade. 


4 de dezembro de 2012

Um dia vou falar de Ti... Hoje é o dia!





No mês em que celebramos o mistério da Palavra feita carne a proposta da Missão 11, da Missão Jubilar da diocese de Aveiro, não podia ser outra. Mostrar de forma bela e criativa pequenas mensagens/frases bíblicas.
Para já vai-se fazendo o convite através do Missão 11. Depois, oxalá que a Bíblia se possa ler, (des)continuadamente, em cada canto, rua e recanto da nossa diocese.

Desconhecer a Bíblia é desconhecer Cristo, dizia S. Jerónimo. A pergunta que deves pôr a partir daqui é: conheces verdadeiramente Cristo?

O Natal é o mistério do Deus feito Palavra. Mas só O descobrirás se o Advento, agora iniciado, for caminho ao encontro do monte do Deus de Jacob. Por isso, caminha à luz do Senhor!

21 de janeiro de 2012

A hora da Missão. Mãos à obra! Homilia III Domingo Comum



O Evangelho do III domingo do tempo comum coloca-nos mesmo no princípio do Evangelho de Marcos, omitindo toda a vida de Jesus até por volta dos 30 anos! Aqui, Jesus começa a pregar a Boa Nova de Deus na Galileia. Antes apenas a pregação de João e o Baptismo de Jesus. Mas, o Cordeiro de Deus não ficou no deserto. Agora, apresenta-se no meio da realidade humana, atravessa os trilhos e os caminhos da existência quotidiana do seu tempo, onde pessoas concretas vivem, trabalham e sofrem. Aí, e só aí, começa a proclamar a Sua mensagem: «O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai na Boa Nova».

A primeira coisa que Jesus faz é procurar colaboradores para esta tarefa da evangelização. Ele não quer empreendê-la sozinho. Por isso mesmo, ao passar junto do lago da Galileia, repara no trabalho de alguns pescadores. Chama-os. Convida-os a seguirem-n'O e propõe-lhes que mudem de trabalho: «Farei de vos pescadores de homens». Inesperadamente eles deixam tudo (trabalho, bens, família) e seguem-n'O.

Com isto o evangelista Marcos quer mostrar-nos muito mais que um episódio bonito da vida de Jesus. Pretende, isso sim, que todos os que lêem e escutam este evangelho, se sintam interpelados a dar a resposta livre e pronta de Pedro e dos outros discípulos. O que é verdadeiramente importante é que Jesus chama! Chama porque ama. E quem é chamado e amado responde seguindo e amando. Por isso, aqueles pescadores da Galileia são modelo para todos os discípulos de Jesus. E nós não ficamos à margem deste paradigma.

Há algumas perguntas que se impõem diante deste texto. Em primeiro lugar, qual é o Evangelho, a Boa Nova que Jesus começa a proclamar?

A resposta é simples e até ligeira: Jesus está presente e vivo, no meio dos homens para cumprir todas as promessas de vida, salvação, felicidade e libertação, vindas já do Antigo Testamento! É a boa notícia de que Deus não ficou lá longe, mas está presente em Jesus vivo, pessoa, em carne e osso e no meio de nós! Deus está mesmo à nossa mão. E chama cada um de nós a dar-Lhe as nossas mãos. Chama para nos deixarmos olhar e tocar, seduzir e “apanhar” por este Jesus. Este é o primeiro e fundamental passo para convertermos e transformarmos a nossa vida.

Basta aderir, dizer sim, acolher, acreditar, abrir o coração e seguir. Jesus não dita regras nem impõe, para já, qualquer código de conduta. A sua mensagem é Ele próprio. Não nos chama para seguirmos uma ideia, um programa, uma doutrina. Chama-nos a segui-lo a Ele, como o Caminho, a Verdade e a Vida!

Evangelizar devia ser isto. Num tempo em que em Igreja vamos falando tanto de nova evangelização deveríamos ter presente que evangelizar é levar a todos a boa notícia, de que Jesus está aí, como luz que dá sentido. Está e passa por aí, discreto, por entre a vida das pessoas, por cima e por debaixo das suas telhas, pelas ruas e praças, para dar vida e salvação.

Evangelizar é dizer a todos e, em especial, aos que sofrem, que Jesus está aí! Está na sua dor, como está no amor, com que são tratados, como grita no clamor dos esquecidos e abandonados.

Evangelizar é também dizer aos que já fazem o bem, mas que até desconhecem Deus, que esse Deus desconhecido está aí, escondido mesmo por entre os dedos das suas mãos. O Evangelho de Deus, a Boa Nova é isto mesmo: Jesus está vivo e presente. Jesus é a Vida da nossa vida!

A segunda pergunta a fazer perante este Evangelho poderia ser “Como evangelizar?”
Nós somos evangelizados para nos tornarmos evangelizadores. Como a Jonas, também o Senhor nos diz “Vai à grande cidade e apregoa a mensagem”.

Há várias formas de o fazer. Sublinho apenas estratégias para ajudar:
a) Evangelizar pela proclamação ou pregação: a Palavra de Deus não deve ficar-se pela Missa, mas deve passar para o diálogo fraterno, cordial e amigo, nos nossos ambientes.
b) Evangelizar por convocação: ter a coragem de convidar outros a vir, a participar. Trabalhando em pesca à linha e não à rede…
c) Evangelizar por atracção, irradiação ou contágio: o modo como vivemos pode, e acontece mesmo, atrair outros.
d) Evangelizar por levedura ou fermentação: é a forma menos aparente, mais lenta e oculta, mais demorada e paciente. No segredo do nosso trabalho humilde, numa Escola, numa instituição, numa empresa, numa associação, podemos ir mudando mentalidades, inovando caminhos, renovando estruturas de injustiça e abrindo-as a uma conduta e ética cada vez mais evangélica.
 
Este é o nosso tempo de sermos evangelizadores. Mas, o tempo é breve e passageiro, como recorda o Apóstolo. Por isso, mãos à obra que se faz tarde!

Pe. JAC

15 de janeiro de 2012

Que procurais? Homilia do II Domingo Comum

"Que procurais?" Eis a primeira palavra dia por Jesus no IV Evangelho. Começa com uma pergunta. Jesus é questionador. Mestre nessa e noutras artes.
Podíamos chamar a este II Domingo do Tempo Comum, o Domingo da Vocação, tema que trespassa as leituras que ouvimos proclamar, particularmente a I Leitura e o Evangelho.

Na primeira leitura,  ouvimos o belo chamamento de Samuel.
A Samuel podemos quase vê-lo como o acólito distraído que, por engano, responde a um chamamento. Está pronto para todo o serviço, mas está a dormir e não preparado quando é chamado! 

Samuel é rápido numa resposta, mas lento na escuta. E não esqueçamos que Samuel passava horas a fio no Templo e conhecia bem os cantos da casa. 
Ouve uma voz mas confunde-se, ainda não distingue a voz dos homens da voz de Deus.
Responde, mas engana-se quanto Àquele que o chama. Sabia a liturgia de cor, os rituais de cor, mas «ainda não conhecia o Senhor». 
E, só por meio do sumo sacerdote Eli, Samuel chega então a compreender que não deve olhar para o lado, mas ouvir para cima, escutar do Alto. É Deus que lhe fala. Que chama. Que ama. Que insiste e que persiste. 
A sua prontidão em servir deve tornar-se em primeiro lugar esforço por escutar, silêncio para ouvir, relação para conhecer. Antes de se pôr a pé, para servir ao altar, é preciso primeiro ajoelhar-se e dizer: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta».

Também o Evangelho de João nos traz uma belíssima página vocacional.

Tudo começa como tinha que ser: O precursor, João Baptista, aponta o Cordeiro de Deus. João Baptista põe-nos em movimento, inquieta-nos. 
Atraídos pelo olhar Daquele desconhecido, os discípulos decidiram segui-lO à distância, quase tímidos e embaraçados. 
Até que o próprio Jesus, se volta e questiona: «Que procurais?».
Deste modo, suscita aquele diálogo que daria início à aventura de João, de André e de Simão, de Amaro que hoje celebramos e de tantos outros, também a nossa própria aventura.

Os discípulos, diante de uma pergunta tão directa, respondem com outra pergunta: «Mestre, onde Moras»? Ele perguntou-lhes o que procuravam e eles responderam a quem buscavam... Não respondem à pergunta de Jesus, mas querem entrar na intimidade do desconhecido. Não procuram uma coisa, nem sequer uma ideologia, uma doutrina ou uma verdade. Procuram uma pessoa. «Onde moras»? Procuram Alguém com quem viver, alguém cuja vida possam partilhar, Alguém para conviver, para viverem juntos.

Pediram-lhe a sua amizade. A sua companhia. A sua intimidade. E Jesus abriu-lhes o coração de par em par. E a resposta de Jesus é também um convite: "Vinde e vede". Aí mesmo os seus corações inquietos sentiam-se como se tivessem chegado a casa. De facto, com Jesus sentimo-nos sempre em casa.

O apelo/convite que nos faz o Evangelho, pode concretizar-se, em duas direcções:
* Buscar Jesus. Fazer dEle, a orientação, a direcção, o único desejo da vontade, a morada primeira e a pátria última do nosso coração. 

* Encontrar o Mestre, onde Ele está: No segredo da oração, na Luz da sua Palavra, na intimidade da Eucaristia, na comunhão da sua Igreja. 

Como aqueles primeiros discípulos, naquela tarde inesquecível, em que lhes ardia o coração ao escutar e ao pressentir Jesus, que cada um possa dizer baixinho: Ficai connosco, Senhor!... 
Eles foram ver onde Jesus morava e ficaram com Ele nesse dia... E, provavelmente, naquela noite não conseguiram dormir com tamanha alegria!
Nós encontramos Jesus aqui nesta Eucaristia. O que é que vai ser diferente?

Pe. JAC

14 de outubro de 2011

“Caroço de Azeitona” de Erri de Luca

“Caroço de Azeitona” não parece muito o título de um livro donde brota a “fé” de um não crente, alguém que não tem a graça e o dom de acreditar. Mas é! Da autoria de Erri de Luca, escritor e poeta italiano, é um livro pequeno mas profundo, em muitas partes difícil de ler e de compreender. É composto por um certo percurso bíblico com passagens quer do Antigo quer do Novo Testamento, e donde brota, para mim, em especial, a frescura do fundo de um sepulcro, onde está Cristo vivo.
Leitor assíduo das Sagradas Escrituras, Erri de Luca procura a originalidade da Palavra na profundidade das palavras bíblicas donde, segundo ele, “descende toda a nossa civilização religiosa”. Tem contribuído para desmascarar o que considera ser, em muitos casos, “péssimas traduções da Escritura”. E este texto é bom exemplo disso mesmo.
Alguém que começa as suas manhãs a ler a Bíblia, no texto original, donde retira o que diz ser um punhado de versículos para que o seu dia tenha um fio condutor. É esse punhado, um “penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca”. E este homem é não crente! Diz ele, pelo menos.

Pe. JAC
In Correio do Vouga

26 de outubro de 2009

SARAMAGO E A BÍBLIA



Afirmou José Saramago que a Bíblia é «um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» e reflecte uma imagem de «um deus cruel, invejoso e insuportável». Disse também que, como os católicos não lêem a Bíblia, não se sentirão muito incomodados com este tipo de afirmações.

Não sou especialista em exegese da Bíblia e certamente deveria conhecê-la melhor. Mas o que dela conheço é suficiente para concluir que é Saramago quem não a conhece, ou não a interpretou correctamente, porventura por ter desligado algumas das suas passagens da sua mensagem global.

Não compreendo como é que Saramago não viu na Bíblia a imagem de um Deus que é Amor. Em continuidade com o Antigo Testamento, que constantemente nos revela um Deus «clemente e compassivo», «lento para a ira e rico em misericórdia», o Novo Testamento revela em toda a sua plenitude o amor de Deus. Um Deus que, por amor, se incarna, partilha a condição humana e se identifica com o sofrimento humano até ao extremo do abandono e da morte na cruz, para que fosse restabelecida a Sua comunhão com a humanidade. Um Deus à imagem do bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, ou que deixa todas as outras para salvar aquela que se perdeu. Um Deus à imagem do pai do filho pródigo, que perdoa e acolhe.

Na Bíblia encontramos, como em nenhum outro livro, a exaltação da dignidade da pessoa humana, criada «à imagem e semelhança de Deus». «Quando contemplo o céu, obra dos teus dedos, a Lua e as estrelas que fixastes…O que é o homem, para dele te lembrares…Tu o fizeste pouco menos do que um deus, e o coroaste de glória e esplendor» (Sl. 6).

Quem seja sensível à justiça para com os pobres e oprimidos, em quantas passagens do Antigo e do Novo Testamento não encontrará inspiração e alento?

Onde encontrar mais sólido fundamento de harmonia social do que no amor evangélico, que perdoa «setenta vezes sete vezes» e se estende até aos inimigos, a quem se retribui o «mal com o bem»?

Por tudo isto, também é fácil concluir que não foi a fidelidade à mensagem bíblica que conduziu às guerras e conflitos com pretextos religiosos. A razão dessas guerras e conflitos está antes no orgulho e paixões humanas (também retratadas na figura de Caim), que tendem a instrumentalizar a religião, assim a pervertendo. Na pureza dos seus princípios, livres de instrumentalizações políticas ou ideológicas, as religiões são factor de concórdia e da paz, como o testemunham os encontros de Assis.

E não são só os crentes que reconhecem o tesouro da Bíblia e que ele representa também para o nosso património cultural, fonte de inspiração para filósofos e artistas ao longo de séculos. Por exemplo, o filósofo italiano Massimo Cacciari, não crente, tem defendido um mais aprofundado estudo da Bíblia em todos os graus de ensino laico, incluindo o universitário.

Oxalá desta tão triste e anacrónica polémica se possa colher, ao menos, algo de positivo: um pouco mais de interesse pela Bíblia.

Pedro Vaz Patto

21 de outubro de 2009

Coitado de ti, ó saramago, a falar para os peixes!



Como partilha que tirei daqui

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.


Espanta-me que muitos ainda se alvorocem com um sub-género que nunca reuniu predicados elementares de integridade, que se repete e daí não sai. Espanta-me também que Saramago, em vez de Caim, não escolhesse a figura de Onan, mais conforme a expectativa de quem o lê.


Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar.


Depois, Saramago sofre de monomania religiosa, de doença da santidade invertida. Se literariamente é hoje um zero, também não possuiu qualquer autoridade em "Ciências da Bíblia". É um amador e como todos os amadores possui atevimento proporcional à ignorância. Tenho a absoluta certeza que o homem não sabe uma palavra em latim, nunca leu um tratado de apologética e desconhece coisa tão elementar como a Enciclopédia Católica. Depois, por tudo o que vai dizendo - deixai falar um ignorante, pois nunca devemos impedir um tolo de se enredar nas suas próprias palavras - parece confundir Teologia, Bíblia e História Eclesiástica. Se, em vez de o atacarem, o confrontassem com o seu [des]conhecimento, melhor serviço fariam. Infelizmente, parece haver uma lei de ouro nestas lutas sem interesse e sem consequência.


Saramago vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

Miguel Castelo Branco

Outros textos para ler

Mau costume, Joaquim Franco

12 de maio de 2009

Frei Herculano Alves critica absentismo pastoral

Igreja ainda não despertou
para a importância da Bíblia


O frei Herculano Alves, à margem do encontro que decorreu no Sameiro, disse ao Diário do Minho que a Igreja ainda não despertou nem acordou para a importância e para a centralidade da Bíblia. Referindo que iniciativas como a promulgação de um Ano Paulino ou de um Sínodo dos Bispos sobre a importância da Palavra de Deus são positivas, mas, muitas vez, não são devidamente destacadas e assumidas pela generalidade das paróquias e dos párocos.
O frade capuchinho entende que, ao nível de Igreja portuguesa, «há pouca atenção à dinamização bíblica». Aliás, esta desatenção é perceptível no facto de o Secretariado Nacional de Dinamização Bíblica não figurar sequer na lista dos movimentos, departamentos e organismos oficiais da Igreja Portuguesa.
«Infelizmente este movimento não é assumido a nível nacional pela Conferência Episcopal Portuguesa e, por isso, não tem o apoio da Igreja oficial, nem dos bispos nem dos párocos», lamentou frei Herculano Alves.
O Secretariado Nacional de Dinamização Bíblica «é uma iniciativa dos Capuchinhos que os bispos dizem apoiar, mas sem apoio directo, e nem sequer consta na lista dos movimentos da Igreja portuguesa», apontou o biblista.
Sendo o único movimento de dinamização bíblica existente a nível nacional, o secretariado da responsabilidade dos Capuchinhos não fecha as portas à possibilidade poder vir a acolher algum convite que possa surgir da Conferência Episcopal para assumir a dinamização da pastoral bíblica a nível oficial e em todo o território nacional. «Claro que esse convite não foi feito, mas se fosse, teríamos de ver quais seriam os objectivos estipulados para cumprir», finalizou.

Grupos bíblicos do Norte peregrinaram ao Sameiro



Jornada de formação e convívio centrada em S. Paulo

Mais de duas centenas de pessoas ligadas a diversos grupos bíblicos da região Norte estiveram ontem no Sameiro, em Braga, num encontro de formação e convívio promovido pelo Secretariado Nacional de Dinamização Bíblica. Com o tema “S. Paulo, Apóstolo da Palavra”, o dia teve uma pequena peregrinação na escadaria da basílica, uma Eucaristia, variadas encenações bíblicas e ainda oração do terço, na cripta, contando ainda com a presença dos frades capuchinhos António Martins, Luís Gonçalves, Manuel Arantes e Herculano Alves.
O encontro, que ocorreu pelo segundo ano consecutivo no Sameiro, teve como finalidade promover a interacção das pessoas dos grupos bíblicos do Norte, assim como «homenagear e olhar mais profundamente a figura de S. Paulo, o Apóstolo da Palavra», disse frei Luís Gonçalves. Assim, o santuário bracarense recebeu cristãos provenientes de grupos bíblicos da Arquidiocese de Braga e, ainda, das dioceses de Viana do Castelo, Porto, Aveiro e Coimbra.
Este encontro é uma proposta que os Capuchinhos fazem nas diversas semanas e cursos bíblicos que orientam em território nacional. Começou com uma peregrinação desde a estátua do Papa João Paulo II até à cripta do santuário. Neste percurso, segundo o frade da comunidade de Barcelos, foram lidos textos de S. Paulo acompanhados de reflexões. A caminhada contou ainda com uma largada de balões, que continham pequenas frases retiradas das 13 cartas paulinas incluídas no cânone bíblico.
A Eucaristia, ao final da manhã, foi presidida pelo padre Provincial e, nela, foi realçada e valorizada a liturgia da Palavra, com a realização de uma apresentação de dons, antes das leituras, para destacar que a Palavra de Deus é «pão», «livro», «semente», «espírito e vida da Igreja» e «água que sacia as sedes humanas».
Na homilia, o padre António Martins afirmou que «a salvação não está na política ou nas ciências, mas na fé em Cristo ressuscitado». Segundo o Provincial capuchinho «ser seguidor de Cristo implica desinstalar-se para dar respostas aos mundo moderno».
Relevante na celebração foi ainda o facto de o responsável pelo Secretariado Nacional de Dinamização Bíblica ter apelado à generosidade e à partilha dos presentes para que ajudassem um grupo de jovens de Barcelos, que desenvolve acções missionárias em Timor. «Este peditório, apesar da crise que vivemos, ajudará a ultrapassar uma crise maior que vive a população timorense», disse o padre Manuel Arantes.
Dentro da dinâmica paulina da jornada, no ofertório, foram levados ao altar os símbolos que compõem o logótipo do Ano Paulino, concretamente as datas, a cruz, a chama, a Bíblia, a espada e as algemas,
Já da parte de tarde, o grupo bíblico “Nova Luz”, de Arcozelo (Barcelos) apresentou uma dramatização sobre a prisão de Paulo e Silas. Bento Vale, responsável pelo grupo, disse ao Diário do Minho que, em primeiro lugar o grupo existe para ler e meditar a Palavra de Deus e anexo a isso, surgem pontualmente, alguns trabalhos e representações externas, como foi o caso de ontem.

30 de março de 2009

Levar Cristo ao mundo




D. António Couto encerrou visita pastoral a Lomar

A mensagem do Bispo Auxiliar de Braga deixada ontem, na conclusão da visita pastoral à comunidade de S. Pedro de Lomar, foi incisiva para todos os cristãos daquela paróquia do arciprestado de Braga, particularmente para os 58 que receberam o Sacramento da Confirmação. «Não vos contenteis em guardar Cristo para vós», disse D. António Couto, para logo de seguida desafiar: «Levai Cristo ao mundo».
Ao grupo de pessoas, jovens e adultos, que recebeu o Crisma, o Bispo Auxiliar pediu compromisso e empenho no anúncio da Boa Nova ao mundo deste tempo, acompanhado de um «enamoramento» cada vez maior por Jesus Cristo. Durante a homilia, o prelado foi exortando que cada vez mais se vá conhecendo Jesus, no íntimo, no interior e não apenas no exterior.
Numa celebração de cerca de duas horas, houve tempo para D. António Couto reforçar a importância da Bíblia. Na Sagrada Escritura pode conhecer-se Jesus, mas também pela Sagrada Escritura se pode e deve anunciar Jesus. Por isso, é necessário primeiro conhecer a Bíblia e depois, a partir dela, falar de Cristo ao mundo.
Com D. António Couto estiveram, no presbitério, o padre Adérito Ribeiro e o padre António Mariz e, ainda o diácono permanente Lino Santos. A celebração foi animada pelo grupo coral paroquial e contou com a numerosa presença das crianças e adolescentes da catequese.
A celebração foi marcante e significativa para os presentes que encheram a igreja paroquial de Lomar. O grupo de 58 pessoas que recebeu o Sacramento da Confirmação teve oportunidade de, no momento de acção de graças, manifestar o seu contentamento e o seu agradecimento. «Obrigado por estarmos aqui e por confirmarmos a nossa fé» foram as palavras da mensagem encenada depois da comunhão.
De registar ainda, a entrega da Bíblia a uma família da comunidade, concretamente à família de Julieta Monteiro. A dinâmica da Bíblia na família já não é novidade, dentro do que tem sido as visitas pastorais às comunidades do arciprestado de Braga. Por isso, D. António Couto entregou em mão a Bíblia àquela família que agora, semana a semana, vai percorrer as casas dos cristãos de Lomar. A família de Brígida Correia é a próxima a receber, na Eucaristia dominical, a Bíblia.

Visita pastoral traz
novo alento à comunidade
No final da Eucaristia, o padre Adérito Ribeiro fez um balanço positivo da visita pastoral à paróquia de Lomar. Em concreto, «ficam desta visita as palavras cheias de sabedoria que D. António Couto proferiu», afirmou o pároco, que ressaltou o envolvimento de toda a comunidade nos dias da visita.
«O Bispo Auxiliar trouxe – afirmou o sacerdote – alegria, sinceridade e verdade na mensagem que comunicou e, por isso, estamos todos agradecidos».
Sobre a paróquia, o sacerdote fez saber que há o interesse de se construir um edifício destinado aos movimentos. Para isso, já existe terreno e projecto e, como tal, essa obra pode arrancar logo que existam as condições mínimas.
A paróquia de Lomar tem cerca de oito mil habitantes e uma geografia difícil: «tem quatro quilómetros de cumprimento e menos de um de largura», afirmou o pároco. Além disso, tem duas partes distintas: uma mais urbana e encostada à cidade e outra, mais rural e com outros tipo de problemas.
A visita a Lomar começou na sexta-feira com algumas visitas sectoriais. De tarde, o Bispo esteve com doentes e idosos, numa Eucaristia com a administração do Sacramento da Santa Unção. À noite, realizou-se a Assembleia Paroquial na qual marcaram presença os movimentos de apostolado e várias famílias.

15 de fevereiro de 2009

Conselho Arquidiocesano de Pastoral



D. Jorge Ortiga reafirma
necessidade de pastoral bíblica

D. Jorge Ortiga reafirmou ontem de manhã ao Conselho Arquidiocesano de Pastoral reunido em Braga, a necessidade e urgência de uma pastoral mais bíblica, colocando a Palavra de Deus como nascente que deve chegar a todos os recantos do tecido eclesial. Com a presença de D. António Couto, a reunião contou com uma apresentação da carta pastoral “Tomar conta da Palavra”, publicada pelo Arcebispo Primaz a 3 de Janeiro, dia em que completou 21 anos de ordenação episcopal.
No início dos trabalhos, aludindo a essa nota pastoral, D. Jorge Ortiga pediu que o Conselho Pastoral coloque as linhas mestras, os objectivos, as estratégias e os meios que ajudem e predisponham a Arquidiocese a acolher a Palavra de Deus, uma vez que é essa que «convoca, congrega, compromete, provoca comunhão, e dá um novo rosto à vida dos cristãos e das comunidades», expressando no mundo «um estilo de vida que distingue».
Por isso, para o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) a pastoral tem de ser mais bíblica, fazendo com que os cristãos se encontrem com a Palavra, abandonando outras coisas.
Em relação ao caminho já percorrido na Arquidiocese, na linha do trajecto estabelecido no triénio pastoral em curso, o Arcebispo de Braga não crê que seja o suficiente e por isso, destacou a necessidade de estabelecer um «programa pastoral interpelativo e motivador» capaz de, com a Palavra, «encher a liturgia, motivar o compromisso eclesial e dar profundidade à comunhão».
Sobre as dimensões da pastoral da Igreja, o prelado disse que «não há um antes ou primeiro, nem um depois ou secundário», mas «trata-se de uma única missão da Igreja que acontece no anúncio, na celebração, no compromisso e na vivência comunitária».
Apontando falhas a um modelo ritualista e sacramentalista da pastoral do passado, D. Jorge Ortiga defendeu, na abertura do Conselho Arquidiocesano de Pastoral, que nos tempos actuais «a pastoral vale quando coloca todas as dimensões como igualmente prioritárias».
Segundo o padre António Sérgio Torres, pároco de S. Victor e secretário da Acção Pastoral, o encontro de ontem situou-se como continuação e alargamento do anterior conselho. Ambas as reuniões têm como finalidade preparar uma base de reflexão para que o Conselho Permanente possa elaborar um plano pastoral para 2009-2010.
Reunindo diversos representantes dos movimentos de apostolado e departamentos, o Conselho Pastoral realizado ontem, no Centro Cultural e Pastoral, serviu ainda para que o padre António Sérgio Torres fizesse a apresentação de um tema de carácter mais formativo.
Este tema, segundo o secretário da Acção Pastoral a nível da Arquidiocese, pretendeu reflectir sobre o que falta fazer em relação do documento emanado do Concílio Vaticano II, sobre a Revelação Divina, intitulado “Dei Verbum”.

3 de fevereiro de 2009

Bispo levou Bíblia à prisão

Estabelecimento Prisional de Braga
D. Jorge Ortiga entregou
Novo Testamento aos reclusos

O Arcebispo Primaz deslocou-se ao Estabelecimento Prisional de Braga para presidir a uma Eucaristia e cumprir uma promessa que havia feito na altura da visita pastoral à comunidade paroquial de São Vicente: ir à cadeia para entregar aos reclusos a Bíblia. Ontem ao final da tarde, D. Jorge Ortiga cumpriu a promessa e deixou o Novo Testamento para todos os reclusos e para as suas famílias.
O Arcebispo de Braga disse a uma plateia composta por cerca de três dezenas de reclusos, alguns guardas prisionais e onde estava também o director, José Alves de Sousa, que a visita ao Estabelecimento Prisional é já uma iniciativa habitual e para continuar.
Sobre a Liturgia da Palavra, D. Jorge Ortiga salientou que Jesus trouxe, com autoridade, uma «doutrina nova» e que os católicos devem acreditar nessa doutrina e não noutras.
Uma vez mais, o prelado aproveitou a ocasião para relevar a Palavra de Deus – o lugar onde está contida a doutrina de Jesus – e desafiou os reclusos a pegar no Novo Testamento e a lê-lo. «Particularmente nos momentos mais difíceis e de solidão, tende coragem para pegar neste livro», afirmou.
Considerando que a leitura da Bíblia ajuda a combater a ignorância religiosa generalizada nos dias de hoje, D. Jorge Ortiga salientou, contudo, que a Palavra de Deus é mais para viver e pôr em prática do que para saber.
O Arcebispo disse aos reclusos que a «Bíblia é luz para os caminhos dos homens» e, por isso, pode e deve ser uma excelente leitura. «A Sagrada Escritura pode ser uma boa companhia nos momentos de solidão» afirmou, e «se lhe deres espaço poderá transformar a vossa vida».
No início da celebração eucarística, em nome de todos, um recluso deu as boas vindas a D. Jorge Ortiga. Depois da comunhão, um outro leu um poema onde se pedia «fome e sede da Palavra de Deus».
Na sequência desta leitura, o Arcebispo Primaz entregou em mão, a cada um dos reclusos presentes, uma tradução do Novo Testamento.
Interessante foi ver a pressa e a curiosidade dos reclusos em manusear o “presente” recebido. Ainda o presidente da celebração, concedia a bênção de Deus e já alguns estavam “de olhos espetados” no Novo Testamento.
D. Jorge Ortiga não se despediu sem dizer que está na disposição de ir ao Estabelecimento Prisional para participar num debate/conversa sobre a leitura do Novo Testamento, para a qual desafiou cada um dos presentes.

29 de janeiro de 2009

“Uma Palavra é melhor do que um Presente”

D. António Couto lançou livro
escrito com carinho e poesia


“Uma Palavra é melhor do que um Presente” é o título do mais recente livro do Bispo Auxiliar de Braga. D. António Couto salientou que esta obra é mais um contributo para a exegese bíblica moderna e para o enriquecimento dos cristãos. Trata-se de um conjunto de nove capítulos ou ensaios que, apesar de terem autonomia própria, foram trabalhados para formarem um conjunto harmónico.
Aos participantes da Semana de Estudos Teológicos, o prelado revelou que «o livro foi escrito com carinho» e, como tal, também o entregou ao público com carinho. «Esta pequena colectânea pode vir a resultar, no futuro, em mais publicações», uma vez que vai «continuar a tecer fios» que brotam do estudo aturado da Escritura.
Na sessão de apresentação do livro, o director-adjunto da Faculdade de Teologia começou por destacar o «peso da autoridade» que D. António Couto já conquistou «com trabalho e provas dadas».
Antes de estabelecer um sintético percurso para abrir o apetite do público presente no Auditório Vita, João Duque afirmou que os capítulos do livro «não são um amontoado de considerações mais ou menos piedosas e superficiais, sobre os textos da Escritura, como acontece em tantas publicações contemporâneas».
Para o teólogo, a obra do Bispo Auxiliar de Braga expressa um «trabalho cuidadoso sobre o texto original e com originalidade de abordagem».
Dos nove capítulos, o director-adjunto da Faculdade de Teologia destacou três: um sobre a Graça, um sobre a luta contra a idolatria e um sobre a cura.
O livro de D. António Couto, além destes já apontados, contém uma abordagem aos Salmos e um aprofundamento da noção de Lectio Divina. A Sabedoria é o tema do quarto capítulo. A apresentação de Cenários Bíblicos e o estudo do Anúncio Pascal ocupam os quintos e sextos capítulos, respectivamente.
A obra encerra com um grande capítulo sobre São Paulo, «em perfeita consonância com o contexto celebrativo do ano em que é editado».
João Duque concluiu a apresentação da obra, afirmando que «o caminho de graça e da Graça é o foco de toda a Escritura e é o tema central das abordagens de D. António Couto». E finalizou: «Este livro é um belo e mesmo poético contributo para a compreensão do caminho da salvação».

28 de outubro de 2008

Mensagem final do Sínodo dos Bispos

Bíblia entra na cultura
pelas novas tecnologias

Os delegados dos episcopados católicos de todo o mundo defendem a presença da Bíblia no mundo da cultura, por meio das novas tecnologias. «A Palavra de Deus deve percorrer as estadas do mundo», incluindo «a comunicação informática, televisiva e virtual», escreveram os Bispos na Mensagem final da XII assembleia-geral ordinária, tornada pública ontem, do Sínodo que termina amanhã.
Os Bispos de todo o mundo, reunidos no Vaticano, consideram que «esta nova comunicação adoptou, em relação à tradicional, uma gramática expressiva específica, pelo que é necessário estar bem munidos, não só tecnicamente, mas também culturalmente para esta tarefa», referem no texto que foi divulgado pela página oficial do Sínodo, e que se divide em quatro capítulos (A voz da Palavra: a Revelação; o rosto da Palavra: Jesus Cristo; a casa da Palavra: a Igreja; as estradas da Palavra: a missão) e 15 pontos.
Os Bispos asseguram que «a Bíblia deve entrar nas famílias, para que os pais e os filhos a leiam, rezem com ela e esta seja para elas uma luz para os passos no caminho da existência». Além disso, destacam que «as Sagradas Escrituras devem entrar também nas escolas e nos âmbitos culturais, porque foram durante séculos a referência capital da arte, da literatura, da música, do pensamento e da própria ética comum».
«A sua riqueza simbólica, poética e narrativa torna-a uma bandeira da beleza, seja para a fé seja para a própria cultura», aponta.
Esta mensagem é dirigida a todos os católicos, em particular aos «pastores», aos «muitos e generosos catequistas» e a quantos orientam a Igreja «na escuta e na leitura amorosa da Bíblia».
Os padres sinodais consideram que o texto bíblico «apresenta também o sopro de dor que sai da terra, vai ao encontro dos oprimidos e do lamento dos infelizes», por ter no seu cume «a cruz onde Cristo, só e abandonado, vive a tragédia do sofrimento mais atroz e da morte».
Os fiéis são convidados a «guardar a Bíblia» nas suas casas, para que «leiam, aprofundem e compreendam plenamente as suas páginas», transformando-as em «oração e testemunho de vida» e deixando espaços de «silêncio» neste processo.
Para evitar o «fundamentalismo», refere o texto, «cada leitor das Sagradas Escrituras, mesmo o mais simples, deve ter um conhecimento proporcional do texto sagrado, recordando que a Palavra de Deus revestiu-se de palavras concretas», para «ser audível e compreensível para a humanidade».

Olhar ecuménico
A mensagem recorda os «irmãos e irmãs das outras Igrejas e comunidades cristãs» que caminham nas mesmas «estradas do mundo» e que apesar das separações visíveis «vivem uma unidade real, ainda que não plena, através da veneração e do amor pela Palavra de Deus».
Neste contexto, os «homens e mulheres de outras religiões que escutam e praticam fielmente os ditames dos seus livros sagrados e que, connosco, podem edificar um mundo de paz e de luz, porque Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade», lembra o documento.
O presidente da Comissão para a Mensagem, D. Gianfranco Ravasi, considera que o texto é de «largo fôlego, com um certo “pathos”, para fazer com que não seja só um documento teológico».

Estrutura
A mensagem recorre a quatro «pontos cardeais», que correspondem aos seus capítulos. Em primeiro lugar, «a voz divina» que «ressoa desde as origens da criação», e entra depois «na história ferida pelo pecado e sacudida pela dor da morte».
Em segundo lugar surge «o rosto», ou seja, Jesus Cristo, que «torna perfeito o nosso encontro com a Palavra de Deus» e revela o «sentido pleno e unitário das Sagradas Escrituras». Seguidamente, «a casa da Palavra Divina», a Igreja, que se ergue sobre quatro colunas: o ensino, a fracção do pão, a oração e a comunhão fraterna.
O último ponto refere-se à «estrada pela qual caminha a Palavra de Deus», em especial o campo das novas tecnologias.
A celebração conclusiva da XII assembleia-geral ordinária do Sínodo dos Bispos, dedicada ao tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” é presidida por Bento XVI, amanhã, na Basílica de São Pedro, pelas 09h30 (hora local, menos uma em Lisboa).
Redacção/Ecclesia

in Diário do Minho

21 de outubro de 2008

Encontros com S. Paulo na Diocese de Braga

Iniciativa arrancou em Braga com 700 pessoas


(texto)José António Carneiro

Os “Encontros” com São Paulo arrancaram em Braga, na passada quinta-feira à noite, com a presença de perto de 700 pessoas. No arranque desta iniciativa, que decorreu no Auditório Vita do Centro Cultural e Pastoral da Arquidiocese e que se realizará também em Balasar (Póvoa de Varzim) e em Guimarães, a adesão das pessoas foi positiva.
Segundo o pároco de Nossa Senhora da Conceição, o número de participantes nos encontros em Guimarães poderá aproximar-se do registado em Braga. A menos de quinze dias do arranque da iniciativa na cidade vimaranense (o primeiro encontro é no dia 30 de Outubro), já estão inscritas mais de 120 pessoas. No entanto, a maior parte dos párocos vai aproveitar este fim-de-semana para motivar e desafiar os paroquianos a participarem nos encontros orientados, sempre, pelo Bispo Auxiliar de Braga, D. António Couto.
Tomando como paradigma um curso bíblico orientado pelo ainda padre António Couto – antes da nomeação episcopal –, no qual participaram mais de 600 pessoas, o padre João Germano Queirós espera que também aqui a adesão dos cristãos seja em grande número.
Em Balasar, onde decorrerá o encontro inaugural na próxima quinta-feira, dia 23, o padre José Barbosa Granja espera receber mais de 500 pessoas. «Até ao momento estão inscritas 460 pessoas, mas penso que o número vai subir», disse o sacerdote ao Diário do Minho.
Recorde-se que os “Encontros” com São Paulo destinam-se aos catequistas, membros dos Conselhos Económicos, animadores de grupos, membros das Confrarias e Irmandades, Ministros Extraordinários da Comunhão, membros das Equipas de Liturgia, orientadores de Grupos Corais, membros das Comissões de Festas, membros das Direcções dos Centros Sociais e Paroquiais, membros dos vários Movimentos de Apostolado, Associações e Obras, e a todos quantos desejem e procuram aprofundar a sua fé.
Em Junho passado, a Vigararia Geral da Arquidiocese havia dito que «participando [nestes encontros], cresceremos no conhecimento de São Paulo e da Palavra de Deus; entraremos na imprescindível dinâmica da formação contínua; sentiremos o coração a pulsar ao ritmo da Igreja arquidiocesana e universal; e colheremos do Apóstolo entusiasmo para a missão que hoje nos desafia».
Os encontros são mensais e decorrem até ao próximo mês de Junho, data em que termina o Ano Paulino proclamado por Bento XVI.

in DM 18/10/08

11 de outubro de 2008

Frei Luís Gonçalves, capuchinho de Barcelos














Dinamização bíblica deve combater
a ignorância religiosa e o paganismo

(texto e foto)José António Carneiro


Estando a realizar-se em Roma, no Vaticano, o Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, o Diário do Minho (DM) entrevistou Frei Luís Gonçalves (FLG), capuchinho da comunidade de Barcelos, que se dedica, de corpo e alma, à difusão da Sagrada Escritura um pouco por todo o País.
Este sacerdote, natural de Serafão, Fafe, ordenado em 1971, destaca a importância do Sínodo em si mesmo, mas considera que ele, assim como toda e qualquer dinamização bíblica, terão de ajudar a combater uma certa «ignorância religiosa do Povo de Deus» e também um certo «paganismo» que vai imperando na actualidade. Redescobrir e desenterrar as riquezas da Dei Verbum, apostar na dinamização bíblica da catequese e das paróquias são, para este capuchinho, formas de colocar de novo a Bíblia num lugar central da vida e da missão da Igreja.

DM – Que importância tem o Sínodo sobre a Palavra de Deus?
FLG – O Sínodo é uma instância importante da vida da Igreja. Este, sobre a Palavra de Deus, há muito que o Cardeal Martini – Arcebispo Emérito de Milão – se debate por ele.
Não há dúvida que isto é como um voltar às raízes, porque a Palavra de Deus é o alicerce da Igreja.
O Papa Bento XVI, na abertura dos trabalhos sinodais, começou por citar a famosa frase de São Jerónimo – “Desconhecer as Escrituras é desconhecer Jesus Cristo”. Efectivamente, ninguém ama aquilo que não conhece e se um cristão, ou qualquer outra pessoa, desconhece a Bíblia, então não conhece Cristo e igualmente ainda O não ama.
Daí a importância deste Sínodo sobre a Palavra de Deus, porque no meio do Povo de Deus há muita ignorância religiosa.
Para vencer esta ignorância religiosa é fundamental o estudo, a reflexão, a meditação e a oração da Palavra de Deus. Sem isto, nós não iremos longe.
Vou notando que anda por aí muito paganismo e muita ignorância entre os cristãos, e até entre alguns formados a um nível superior.
Ainda recentemente, estive com uma pessoa que pensava que São Paulo era um homem pagão. Quando lhe disse que era uma judeu fervoroso ficou boquiaberta. Pois, a este caso juntam-se tantos outros, formando uma lista interminável.

DM – Face à ignorância religiosa que pode ser feito?
FLG – Perante este cenário pouco animador em relação ao conhecimento da Bíblia parece-me que a tendência se pode inverter, se se apostar na dinamização bíblica trabalhando por levar a Escritura a toda a gente, na linha do que dizia o Papa Pio XII, há mais de 50 anos, colocando uma bíblia em cada casa.
Vão aparecendo, entretanto, alguns sinais animadores. Em várias comunidades tem-se criado o hábito de passar a Bíblia de casa em casa, em vez de, por exemplo, a imagem ou oratório da Sagrada Família. A ideia é pôr a pessoas a rezar diante da Bíblia, recorrendo ao texto bíblico.
De facto, a Bíblia devia ser o sacrário de cada casa, não para estar a ganhar pó na estante, mas para estar na mesa de cabeceira levando as pessoas a pegar nela, a abri-la, folheá-la e saboreá-la.
O lugar mais nobre de cada lar cristão deveria ser deixado para a Escritura. E se é importante a nossa devoção aos Santos, mesmo com oferta de velas e flores, com mais razão deveríamos saber venerar – como do próprio Cristo se tratasse – a Bíblia.
Este poderá, com certeza, ser um caminho para renovar as famílias e fazer frente a tantos problemas e dificuldades que elas sentem.

DM – Como se desenvolvem as actividades bíblicas dos Capuchinhos?
FLG – Nas nossas acções de dinamização bíblica, procuramos dizer às pessoas que é importante ler e estudar a Sagrada Escritura, como é igualmente necessário e importante rezar a Bíblia. É pela oração com a Bíblia que se cria familiaridade com Jesus Cristo.
Esta oração bíblica – para a qual procuramos educar aqueles que participam nas nossas iniciativas – deve ser ao jeito da Lectio Divina.
Nas actividades, os aspectos introdutórios são essenciais e, aliás, são um dos problema na Igreja ao nível da Bíblia. As pessoas são sabem pegar na Bíblia, não a sabem manejar, não sabem procurar os livros e, muito menos, os capítulos e versículos da divisão interna dos textos.
Às vezes, nas formações que oriento, preparo e levo ideias interessantes e muito bonitas para comunicar, mas quando chego ao local e me apercebo do auditório que tenho pela frente, tenho que alterar a minha comunicação para falar destas noções introdutórias que são muito rudimentares na generalidade dos cristãos.

DM – Na abertura do Sínodo falou-se de uma encíclica sobre a Bíblia. Considera que faltam instrumentos para a leitura e interpretação da Bíblia?
FLG – Não creio que faltem instrumentos, mas considero que falta quem se dedique inteiramente a este serviço da dinamização bíblica. Penso que faltam pessoas que se comprometam com o anúncio da Palavra de Deus.
Com certeza, uma encíclica sobre a Bíblia será bem aceite, mas parece-me que as riquezas contidas no Concílio Vaticano II, especialmente na Dei Verbum, ainda estão enterradas.
Penso que mais de 95 por cento dos cristãos não sabe sequer da existência da Dei Verbum, que contém material fantástico para a orientação da leitura e interpretação da Bíblia.
A Dei Verbum é uma luz que está colocada debaixo do alqueire e a precisar de ser colocada no candelabro.

DM – Catequese e paróquia têm um papel essencial na transmissão da Palavra de Deus?
FLG – Totalmente. A catequese é um veículo privilegiado para a transmissão da Palavra de Deus e os catequistas são agentes indispensáveis dessa transmissão.
Infelizmente, muitos nem sequer sabem pegar na Bíblia. Como podem desempenhar a sua missão? Dificilmente poderão ajudar as crianças e os adolescentes a estabelecer uma relação de confiança e de amor com Jesus Cristo.
Claro que essas falhas na missão catequética contribuem para um fenómeno a que assistimos todos os dias: muitos cristãos mudam de religião como quem muda de camisa, porque não sabem em quem acreditam.
Em relação às paróquias, considero que é importante que os párocos sejam os primeiros a apoiar e a trabalhar pela dinamização bíblica. É essencial que assim seja e falo por experiência: nas paróquias onde o pároco tem uma particular sensibilidade bíblica, nota-se que consegue “incendiar” as pessoas para o amor e para a familiaridade com a Bíblia.
E, aqui, não valem tanto os avisos do altar… Antes, é necessário uma pesca à linha, que vá directamente junto das pessoas concretas para as desafiar.

Iniciativas bíblicas em Braga e Viana do Castelo

Eis algumas das iniciativas agendadas pelos Padres Capuchinhos de Barcelos para os próximos meses, nas dioceses de Braga e Viana do Castelo:
– Outubro
14 a 18, em Serafão (Fafe)
22 a 26, em São Martinho de Vila Frescaínha (Barcelos)
27 a 31, em Junqueira (Vila do Conde)

– Novembro
4 a 8, no arciprestado de Monção
11 a 15, em Areias de Vilar (Barcelos)
18 a 22, no arciprestado de Terras de Bouro
25 a 29, na Zona Pastoral das Taipas, do arciprestado de Guimarães/Vizela

– Dezembro
2 a 6, em Cabanelas (Vila Verde)
9 a 13, em Vila Cova (Barcelos)
16 a 20, em Nine (Vila Nova de Famalicão)

– Janeiro
Última semana, em Arcozelo (Barcelos).

8 de outubro de 2008

Sínodo dos Bispos preocupado com difusão da Bíblia

O segundo dia de trabalhos no Sínodo dos Bispos trouxe várias intervenções centradas na necessidade de encontrar novos instrumentos para a difusão e valorização da Bíblia, a começar pelo clero.
O Arcebispo de Camberra, D. Mark Coleridge, propôs um “Directório Geral” para as homilias, que inspire as pregações na experiência universal da Igreja.
Já o Cardeal Peter Erdö, presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, chamou a atenção para os perigos criados pelas publicações mais sensacionalistas do que científicas, lembrando a este respeito o caso recente do “Evangelho de Judas”, que levam a confundir «fontes credíveis e não credíveis sobre a história de Jesus Cristo».
O secretário especial do Sínodo, D. Laurent Mosengwo Pasinya, falou dos riscos das seitas, que por norma apresentam doutrinas baseadas em «interpretações fundamentalistas da Bíblia».
O presidente da Conferência Episcopal do Congo alertou para a necessidade de evitar interpretações «fundamentalistas e subjectivas» da Escritura, procurando critérios «estáveis» de interpretação.
Na manhã de ontem decorreu, por outro lado, a primeira votação para eleger os oito membros da comissão para a mensagem final do Sínodo. Para guiar esta comissão, o Papa escolheu o Arcebispo Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, a quem se juntará ainda um vice-presidente.

Cardeal
propõe
encíclica
O relator geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Mark Ouellet, apresentou ao Papa um pedido logo no início dos trabalhos da assembleia, solicitando uma encíclica sobre a interpretação da Escritura, dado que em muitas ocasiões as faculdades teológicas e biblistas divergem da visão que o Magistério do Papa e dos bispos oferecem sobre a Bíblia.
«A relação interna da exegese com a fé já não é unânime e as tensões aumentam entre os exegetas, pastores e teólogos», alertou. Este responsável deixou mesmo uma pergunta: «Depois de muitas décadas de concentração nas mediações humanas da Escritura, não seria necessário reencontrar a profundidade divina do texto inspirado, sem perder as valiosas aquisições das novas metodologias?»
A proposta do Cardeal foi a de não ver a interpretação da Bíblia como algo meramente académico, pois a Palavra de Deus penetra em todas as dimensões da pessoa.
Ao mesmo tempo, segundo explicou aos jornalistas na sala de imprensa da Santa Sé, é necessário criar uma relação entre exegetas e teólogos com os bispos que supere as tensões, para chegar à comunhão, respeitando as atribuições de cada um.
«Seria oportuno que o Sínodo se interrogasse sobre a conveniência de uma eventual encíclica sobre a interpretação das Escrituras na Igreja», afirmou.

Rabino levanta
polémica no Sínodo
O momento histórico vivido no Sínodo dos Bispos, com a presença do rabino-chefe de Haifa, Shear-Yashuv Cohen, ficou ensombrado com as declarações deste responsável sobre o pontificado de Pio XII, falecido há 50 anos.
Depois de ter dito que a presença na assembleia sinodal era «uma mensagem de amor, de coexistência e de paz para as nossas gerações e para aquelas futuras», o primeiro não-cristão a falar numa reunião magna dos episcopados mundiais preferiu centrar as suas declarações na figura do Papa que guiou a Igreja Católica na II Guerra Mundial.
Recentemente, Bento XVI saiu em defesa de Pio XII, considerando que o mesmo «não poupou esforços» para ajudar «directamente» os judeus e pedindo que sejam superados os «preconceitos» em relação a esta figura.
O rabino disse que os judeus «não podem perdoar e esquecer» a omissão de alguns líderes religiosos a respeito do Holocausto. Shear-Yashuv Cohen reprovou a beatificação do Papa Pio XII, alegando que o antigo Papa não se insurgiu contra o regime Nazi.

in DM,08 Outubro 2008

O lugar da Bíblia na vida da Igreja




A mais de 40 anos de distância do Concílio Vaticano II (1962-1965), em que a Palavra de Deus passou a ter um incremento relevante, e a mesma passou a estar no centro da vida da Igreja, nomeadamente na Liturgia, muitas acções de formação (cursos bíblicos de curta e longa duração) foram desenvolvidas por muitos órgãos e movimentos eclesiais, com vista a ter uma Igreja não mais virada para si mesma, mas procurando dar força à Palavra de Deus, e envidando esforços por renovar a fé numa época em que a relação humana com Deus dá sinais de enfraquecimento.
Após tanto caminho percorrido, a Igreja constata que este tem sido muito lento, e ela mesma torna hoje presente o projecto do Concílio, considerando-o um projecto inacabado. E eis que vem momentaneamente à memória uma consideração básica proferida pelo então Pontífice João XXIII : « O que mais importa ao Concílio é que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz ».
Estas palavras continuam a ser nos nossos dias tão relevantes como então, ao ponto de o nosso Pontífice Bento XVI ter escolhido para o próximo Sínodo dos Bispos a realizar em Outubro de 2008 o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Para este Sínodo encontra-se já em apreciação um documento de trabalho introdutório designado “Lineamenta”, que tem por finalidade apresentar o estado da questão sobre o importante tema da Palavra de Deus.
No nº 4 da Introdução deste pode-se ler: « São graves os fenómenos de ignorância e incerteza acerca da própria doutrina da Revelação e da Palavra de Deus; ainda é grande a distância que muitos cristãos têm em relação à Bíblia, e é constante o risco de um uso
não correcto da mesma; sem a verdade da Palavra torna-se insidioso o relativismo do pensamento e da vida. Tornou-se urgente a necessidade de conhecer integralmente a fé da Igreja sobre a Palavra de Deus, de alargar com métodos adequados o encontro com a Sagrada Escritura por parte de todos os cristãos e, ao mesmo tempo, acolher os novos caminhos que o Espírito hoje sugere, para que a Palavra de Deus, nas suas várias manifestações, seja conhecida, ouvida, amada, aprofundada e vivida na Igreja, e assim se torne Palavra de verdade e de amor para todos os homens». Mais adiante estabelece-se como objectivos do Sínodo: «renovar a escuta de Deus na Liturgia e na catequese, bem como acender a estima e o amor pela Sagrada Escritura, fazendo com que os fiéis tenham amplo acesso a ela» .
Nesta passagem encontram-se realçados dados muito importantes, a saber: ignorância, conhecimento, acolhimento.
É-nos mostrado um grande afastamento em relação à Bíblia, esse depósito sagrado da doutrina cristã, do qual resulta a ignorância.
Sabemos que toda a liturgia da Palavra, da qual constam a proclamação/escuta de várias passagens bíblicas do Antigo e do Novo Testamento, o salmo responsorial e o Evangelho de Jesus Cristo, se encontra estruturada naquele conjunto de livros. O elenco das leituras é organizado de tal forma que, passando pelos textos do Antigo Testamento, a assembleia possa ouvir as páginas mais importantes das Sagradas Escrituras num determinado espaço de tempo, possa pela escuta conhecer mais profundamente a fé que professa e a história da salvação, e venha a aderir a Cristo. Esta adesão a Cristo é feita por nós, fiéis, na veneração e contemplação de Cristo pelo Seu mistério e sacrifício eucarístico, que culmina na Sagrada Comunhão.
Cabe agora fazer este juízo: quando aderimos a algo, temos de conhecer o objecto de adesão. Então, se aderimos a Jesus, recebendo-O Sacramentado, temos de O conhecer em toda a Sua História, em todo o reinado de Deus. A Bíblia é por excelência o instrumento contemplativo de todo esse reinado. Ela é o maior tesouro que o cristão tem. Jesus mesmo nos ensina a compreender as características da Palavra ao dizer que ela é espírito e vida. É espírito, porque foi inspirada pelo Espírito de Deus. É vida, porque há caminho de vidas percorrido e novidade de vida sempre possível. Muitas vidas, muitas épocas, muita Vida. Nelas encontra-se o que encontramos nas nossas vidas - choro, sorriso, alegria, festa, dança, oração, luta, dor, derrota, vitória, recomeço. Muitas histórias, preces, cânticos, mitos, narrativas de libertação, profecias e experiências de vida diferentes. E o que se tornou intrínseco a todos esses tempos? Foi o mesmo Deus a indicar o caminho, a caminhar com o Povo, e a fazer-Se presente na história com Jesus. Foi Ele o alicerce da fé que os antepassados professavam, e quando na última Ceia Jesus diz: «Estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos», é o mesmo Jesus o Deus que caminha hoje connosco e nos sussurra: chega-te a mim, que eu me chegarei a ti.
Se o povo bíblico do Antigo Testamento se alimentou da fé, seguindo um Deus “abstracto”, nós, hoje, com a leitura e aprofundamento dos vários livros bíblicos, podemos não só buscar lenitivo para os nossos problemas, obtendo a força de que necessitamos através da leitura das experiências de fé narradas nas vidas de tantos homens e mulheres, como as regras de vida pelas quais nos devemos pautar. Por conseguinte a Bíblia é vida para todos nós. Não está congelada no passado. Logo, devemos acolhê-la.

Não podemos esquecer a interpretação da Palavra de Deus que está presente na mesa da Palavra todas as vezes que a Igreja se reúne em assembleia para celebrar os divinos mistérios. A este respeito sabemos que aos fiéis cabe ouvir a Palavra e meditá-la. Sabemos também que cabe ao leitor, no seu nobre ministério, dar-lhe vida. Em outras palavras, a Palavra proclamada, pelo que acima ficou escrito, não veicula apenas uma informação passada, mas deve fazer acontecer algo novo na nossa vida no momento em que é ouvida, impondo a necessidade de transformação.
E emerge a pergunta: Que deve o leitor fazer? E com que se deve preocupar?
Seria bom que antes de se fazer ouvir, se preocupasse primeiro consigo próprio, tornando-se ele o primeiro estudioso dos livros bíblicos para que da proclamação da palavra transborde força libertadora. Seria bom que participasse em cursos bíblicos para aprofundar o seu conhecimento, se deixar iluminar pela força do Espírito e se fortalecer na fé.
A meditação das Escrituras ensina o leitor a manter-se em comunhão com Cristo. Caso não o faça, ele não irá além de um biblô que escuta a sua própria voz, e cujo espírito emudeceu; e em vez de ser uma brasa ardente pelo contacto com a fogueira da Palavra, passa a substância residual que se lança fora, tornando-se a sua voz inaudível aos sentidos de quem o escuta.

M. Estela Rodrigues, membro da Comissão Arquidiocesana de Pastoral Litúrgica

25 de setembro de 2008

Breve análise da Carta aos Colossenses


Notas soltas introdutórias

Colossos era uma pequena cidade da Ásia Menor, entre Éfeso e Laodiceia. Ao que prece, nunca foi visitada por Paulo. Epafras foi o fundador da comunidade.

O tema central da carta é a questão dos anjos. Aqui se encontra a primeira resposta paulina sobre este tema. Paulo atribui as qualidades, poderes e funções (dadas pelo pensamento judeo-gnóstico aos anjos) ao Cristo-cósmico, que tem a primazia na criação e é Filho de Deus.

A carta foi escrita na última parte do ministério Paulino, possivelmente não pela mão do Apóstolo. É uma carta original (temas e vocabulário) dada a originalidade própria da comunidade receptora saída do paganismo.

Perante as crenças esotéricas da comunidade Paulo afirma o carácter único e universal de Cristo mediador entre Deus e os homens

Capítulo 1
Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos irmãos em Cristo, santos e fiéis, que vivem em Colossos: a vós graça e a paz da parte de Deus, nosso Pai. (1, 1-2)
Constituem estes versículos (até 20) uma liturgia epistolar como é hábito nas Cartas de Paulo. A Carta começa com a indicação do remetente (Paulo, que está com Timóteo) e dos destinatários e segue com uma saudação inicial com sabor a uma bênção litúrgica

Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo que é a Igreja. Foi dela que me tornei servidor, segundo a missão que Deus me confiou para vosso benefício: levar à plena realização a Palavra de Deus.
(1, 24-25)
Paulo sofre (está preso), mas, em vez de se deixar entristecer ou abater pelos seus sofrimentos, põe a sua alegria em Cristo, que vive nele, e dedica-se totalmente à Igreja de Cristo. A união pessoal de Paulo com Cristo é personificada em cada um dos cristãos. Carne significa a totalidade do ser do Apóstolo. A missão que Deus me confiou significa literalmente “a economia de Deus”.
Paulo é Apóstolo (servidor = diakonós) para levar o Evangelho aos pagãos até aos confins do mundo e conduzir cada pessoa à perfeição diante de Deus, pela exortação e pelo ensino.

Capítulo 3
Aspirai às coisas do alto e não às da terra. Quando Cristo, a vossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele na glória.
(3, 2.4)
S. Paulo dirige-se a todos os baptizados chamando e exortando a uma vida de comunhão com Cristo Ressuscitado.
Mas agora rejeitai também vós tudo isso: ira, raiva, maldade, injúria, palavras grosseiras saídas da vossa boca. Não mintais uns aos outros, já que vos despistes do homem velho, com as suas acções.
(3, 8-9)
Paulo incita os cristãos a despojarem-se destes vícios (homem velho) e a revestirem-se das cinco virtudes enumeradas no v. 12.
Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência.
(3, 12)
São conselhos positivos deixados por Paulo, em contraste com os vícios anteriores.
E, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos.
(3, 14-15)
O amor assume o topo. É a maior exigência deixada pelo Apóstolo. Exige, inclusive, a gratidão.
E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai.
(3, 17)
Aqui está a concretização do modo de se ser agradecidos: “tudo… dando graças”.

Capítulo 4
Senhores, dai aos escravos o que for justo e equitativo, sabendo que também vós tendes um Senhor no céu. Perseverai na oração e mantende-vos por ela, em vigilante acção de graças. Ao mesmo tempo, orai também por nós, para que Deus abra uma porta à nossa pregação, a fim de que eu anuncie o mistério de Cristo – é por ele que estou preso – para que o dê a conhecer, falando como devo. Procedei com sabedoria para com os que estão fora, aproveitando as ocasiões. Que a vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal, para que saibais responder a cada um como deveis. De tudo o que me diz respeito informar-vos-á Tíquico, o irmão querido, servidor fiel e meu companheiro no serviço do Senhor. Foi para isso mesmo que eu vo-lo enviei: para que saibais o que se passa connosco e consolar os vossos corações. Vai juntamente com Onésimo, o irmão fiel e querido, que é um dos vossos. Eles informar-vos-ão de tudo o que se passa aqui. Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, bem como Marcos, primo de Barnabé. Recebestes instruções a respeito dele; se for ter convosco, recebei-o bem. (4, 1-10)
Abra uma porta à pregação = ocasião propícia; alusão ao aceso à fé por parte dos pagãos; ou expressão semita que designa as oportunidades do ministério

Temperada de sal = como o sal dá sabor assim devem ser os cristãos no meio da comunidade; fidelidade à identidade de mensageiros do Evangelho;

Tíquico, Onésimo e Aristarco, Marcos e Barnabé = são acompanhantes de Paulo e seus seguidores, uns na pregação, outros nas viagens apostólicas. Alguns aparecem nomeados noutras cartas (Ef, Tm, Tt). Onésimo era escravo de Filémon do qual fugiu para se refugiar junto de Paulo. Aristarco estava preso com Paulo.

(texto apresentado aos Caminheiros do Agrupamento n.º 1 da Sé)

O fundamento da fé: Deus é amor!



Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.Vocês podem reconhecer o Espírito* de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus; mas todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus. Este é o espírito do anticristo,* acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo. Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. Eles vêm do mundo. Por isso o que falam procede do mundo, e o mundo os ouve. Nós viemos de Deus, e todo aquele que conhece a Deus nos ouve; mas quem não vem de Deus não nos ouve. Desta forma reconhecemos o Espírito* da verdade e o espírito do erro. Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação por nossos pecados.* Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós. Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito. E vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo. Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Desta forma, o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; pelo contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar a seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.* Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também a seu irmão.

Eis o fundamento da nossa fé, eis a certeza que nos dá esperança: Deus é Amor!

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...