Mostrar mensagens com a etiqueta literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta literatura. Mostrar todas as mensagens

30 de outubro de 2014

Os Portais do Mistério da Segunda Virtude (Charles Péguy)

 
 
«[O volume "Os Portais do Mistério da Segunda Virtude"] é porventura o mais assombroso poema sobre a esperança de toda a literatura contemporânea… O teólogo von Balthasar haveria de coloca-lo entre os génios religiosos que celebram a glória de Deus, ao lado de Santo Agostinho, de Dante, de Pascal ou de Hopkins. Com palavras como estas: “Péguy é indivisível, ele mantém-se dentro e fora da Igreja, ele é a Igreja in partibus infidelium, lá onde a Igreja deve estar... lá onde mundo e Igreja, mundo e Graça se encontram e se interpenetram, até ao ponto em que se torna impossível distingui-los. (...) O realismo bíblico e a integridade de pensamento conferem a Péguy uma clarividência sem costuras, para olhar o mundo exatamente como ele é: grande e miserável”. (...)
Deixou escrito: "Não sou um santo. A santidade reconhece-se imediatamente. Sou um pecador bom. Uma testemunha. Um cristão na paróquia, um pecador que possui tesouros de graça. (...) Ningém é mais competente do que o pecador em matéria de Cristianismo.»
 
por José Tolentino Mendonça, no Prefácio do livro. 
 
 
 
"O que me espanta, diz Deus, é a esperança.
E disso não me canso.
Essa pequena esperança que parece não ser nada.
Essa esperança menina."
(p. 16)

26 de novembro de 2009

Caroço de azeitona: sugestão de leitura


No blogue do meu companheiro de ministério JPCosta encontrei esta sugestão e gostei. Valeu a pena ter espicaçado... Com a devida licensa coloco aqui. É grande mas vale a pena
 Proposta de leitura do livro Caroço de Azeitona de Erri de Luca... É um livro pequeno mas de grande densidade e profundidade... Partilho uma possível abordagem e a entrevista do autor...


Caroço de azeitona

Entre nós, chama-se Antigo Testamento a uma recolha de escrituras sagradas do povo hebreu. Na sua língua de origem aparece sob o título de Mikrà / leitura. Porque é esse o seu valor de uso, o de ser lida em alta voz na assembleia dos ritos, nos sábados, nas festas. E mesmo quando alguém a lê por conta própria, nos tempos livres, separado dos outros, a regra impõe que mova os lábios, que não leia só com os olhos. O corpo deve participar, respiração e lábios pelo menos, acompanham a viagem das palavras antigas, fazendo-se portadores destas.

O acontecer destas escrituras é a revelação: um Deus, único e solitário, fez o mundo por meio da sua voz primeiro, da luz em seguida. Extraiu-o do nada, cuidando, com a mesma atenção, do imenso infinito e da partícula.

Uma boa parte da humanidade não tem consciência de ter saído de Deus. Muito aflige o acto de confiança, antes do acto de fé. Permaneço, como não crente, alguém que passa pelas escrituras sagradas e não um residente. Desloco-me ao longo das linhas paralelas de um outro alfabeto, fechado entre vinte e duas letras dispostas entre o alef e o tau, que se lêem em direcção contrária à nossa, em páginas que se desfolham ao contrário. Passo sobre esta língua com o dedo e com as pestanas e dou-me conta do choque, do impacto que sofreu. Uma vontade de se revelar e agir dentro do mundo precipitou-se sobre uma língua de palavras descarnadas, hostil a todo o conceito abstracto. Precipita sobre vocábulos de três sílabas com o acento colocado sobre a última, e transmite-lhes a tarantela febril da sua incandescência. Os verbos, pela urgência, comandam a frase, abrindo-a antes do sujeito, antecipando-o, mesmo quando se trata de Deus. Todas as vezes que se lê na tradução: «E Deus disse», esteja-se certo que em hebraico é: «E disse Deus». Porque nesta vontade de revelação o dizer é mais importante e urgente do que o próprio facto de ser Deus a falar.

Toda a criação, e o fazer seguinte, e todo o fazer segundo, que é o dos homens, escrevem-se dando precedência à obra do verbo. «Escuta Israel», recita, lendo o livro entre nós chamado de Deuteronómio e pelos hebreus Devarìm / palavras, a principal oração hebraica. Escutar é a primeira urgência, o primeiro pedido.

Ler as escrituras sagradas é obedecer a uma precedência do escutar. Começo as minhas manhãs com um punhado de versículos, para que o meu dia tenha um fio condutor. Posso depois dispersar-me durante o resto das horas correndo atrás do que tenho para fazer. No entanto mantive para mim um penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca.


Errio de Luca


De uma entrevista ao Público (Ípsilon) por António Morujo:

É verdade que começa o dia lendo versículos da Bíblia “para que o dia tenha um fio condutor”?
Acordo todos os dias estudando o hebraico antigo. Não sou crente. Tenho necessidade disso para despertar, como algo que acompanha o café, para forçar a caixa fechada do meu crânio.

Porquê esse fascínio pelo texto bíblico?
Porque aquele é o formato original do qual descende toda a nossa civilização religiosa. Para mim aquele é um texto obrigatório. E aproveito de maneira escandalosa do facto de só eu o conhecer. E de poder desmascarar todas as traduções péssimas, ruins e mal intencionadas. Aproveito o talento que tenho, mas o texto deveria ser conhecido por todos.

É nesse sentido que fala da Bíblia como um caroço de azeitona?
Sim. As palavras que lia de manhã, quando trabalhava como operário, tinha-as como companhia para todo o resto do dia. Remastigava-as no trabalho das obras e fazia como se fosse um caroço de azeitona que me ficava na boca.

Já traduziu vários livros da Bíblia, escreveu “Em Nome da Mãe”, uma das mais belas narrativas ficcionadas do nascimento de Jesus. Há um livro ou uma personagem da Bíblia de que goste mais?
José. Nenhum dos evangelhos diz que era velho, podemos imaginá-lo jovem, belo e enamorado.
O seu nome vem do verbo hebraico yasaf, que quer dizer acrescentar. Yosef, à letra, é aquele que acrescenta. E o que acrescenta ele? Para já, a sua fé. Ele acredita na versão da sua noiva, grávida mas não dele. Acrescenta a sua fé à fé da rapariga que tinha acolhido aquela notícia.
Acrescenta-se ainda como esposo daquela rapariga, impedindo assim a condenação à morte, porque ela, perante a lei, era adúltera. E acrescenta-se enquanto segundo pai daquela estranha criatura aparecida no meio deles, Jesus, Yeshu em hebraico. Ele contribui e muito para esta história. No evangelho não é tido em conta mas nesses nove meses deu um contributo enorme.

Dê um exemplo das más traduções da Bíblia de que falou.
No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação.
Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: “Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total”.
Está dizendo que a facilidade, a agilidade de parto ou a naturalidade com que os animais têm os filhos não acontecerá mais. E Adão diz logo: “Maldita a terra.” Porquê, se a terra não lhe fez nada? Porque há outra verificação: Adão não se contentará com o fruto espontâneo, mas esforçará a terra, irá afadigá-la também com o seu suor, irá desfrutá-la para tirar o maior lucro. A terra será maldita por causa do esgotamento dos recursos.

Não há, então, um castigo?
Vê-se que não há intenção punitiva, porque logo a seguir a divindade faz vestes de peles para cobrir aqueles dois nus. Este é o gesto mais afectuoso.
A palavra hebraica que aqui é traduzida como dor, aparece outras cinco vezes: quatro nos Provérbios e uma nos Salmos. Cinco vezes em seis é traduzida como esforço e fadiga. Ali, metem na boca da divindade uma condenação. E sobre isto baseou-se toda a subordinação feminina, a culpa de Eva.

Publicou há pouco em Itália um livro com o título “Penúltimas Notícias sobre Jesus”. Que notícias são essas?
São todas tomadas das histórias do Novo Testamento, do evangelho. São penúltimas porque as últimas, as respeitantes ao seu regresso, ao cumprimento da promessa, essas estão em suspenso. O cristianismo vive num intervalo entre o anúncio do fim, feito por Jesus, e o cumprimento deste anúncio. São dois mil anos de intervalo, de tempo suplementar.

E quem é esse Jesus?
É um Jesus em carne e osso, um Jesus ainda vivo, que está um tempo na oficina de carpinteiro do seu pai, até começar a sua missão. Vive num território ocupado militarmente por uma nação hostil, a maior potência militar. E pode dizer “dai a César o que é de César”, porque nada naquela moeda tem poder sobre o mundo. Por isso, é uma figura em carne e osso. Um hebreu daquele tempo.

21 de outubro de 2009

Coitado de ti, ó saramago, a falar para os peixes!



Como partilha que tirei daqui

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.


Espanta-me que muitos ainda se alvorocem com um sub-género que nunca reuniu predicados elementares de integridade, que se repete e daí não sai. Espanta-me também que Saramago, em vez de Caim, não escolhesse a figura de Onan, mais conforme a expectativa de quem o lê.


Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar.


Depois, Saramago sofre de monomania religiosa, de doença da santidade invertida. Se literariamente é hoje um zero, também não possuiu qualquer autoridade em "Ciências da Bíblia". É um amador e como todos os amadores possui atevimento proporcional à ignorância. Tenho a absoluta certeza que o homem não sabe uma palavra em latim, nunca leu um tratado de apologética e desconhece coisa tão elementar como a Enciclopédia Católica. Depois, por tudo o que vai dizendo - deixai falar um ignorante, pois nunca devemos impedir um tolo de se enredar nas suas próprias palavras - parece confundir Teologia, Bíblia e História Eclesiástica. Se, em vez de o atacarem, o confrontassem com o seu [des]conhecimento, melhor serviço fariam. Infelizmente, parece haver uma lei de ouro nestas lutas sem interesse e sem consequência.


Saramago vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

Miguel Castelo Branco

Outros textos para ler

Mau costume, Joaquim Franco

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...