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14 de novembro de 2012

Um laivo de lucidez


Diz o dicionário que "lucidez" é a "qualidade do que é lúcido". Mas poderemos ficar na mesma com esta resumida e ofusca definição. Diz ainda que é a "clareza de raciocínio" e as coisas começam a compor-se nas nossas cabeças. Não quero fazer apologia da "lucidez em demasia", porque "demasiada lucidez é culpada num mundo de cegos, que com a cegueira se contemplam sem desastre de maior" (Agustina Bessa-Luís). Trato de procurar ver com clareza e realismo, com razão e com fé, com pensamento e com sentimento.
Vivemos num tempo que não escolhemos viver, é bem certo. Mas uma coisa é certa: não temos outro tempo que não este que é agora. Embora reconheça, sentida e lucidamente, que reduzir a existência ao agora é tão errado quanto querer retirar o agora do tempo que temos.
Não é de agora que o equilíbrio é virtude. Mas, dá-me tantas vezes a impressão que equilíbrio ou virtude são coisas que não nos interessam muito...
Porque temos crise e ouvimos "ah, no meu tempo é que era". Porque temos crise diz-se à boca cheia "ah, isto há de compor-se". Esquecemos facilmente que é agora que se "joga" o "jogo" da vida, é agora que temos para viver. É verdade que nós esperamos ter "amanhã" (esperança), sabemos que tivemos "ontem" (memória) mas é "hoje" (realidade) o meu tempo, é agora a minha hora. Se há alguma coisa a fazer, pois não temos outra hora que não a de agora.
É verdade que o passado é mestre e que a memória não pode ser curta. Um e outra ensinam a distinguir/discernir e a optar melhor. Mas é agora que temos que para fazer opções.
Continuar a fazer as mesmas coisas de sempre e esperar que os resultados sejam diferentes não é mais do que loucura e falta de lucidez.
Querer fazer diferente, em si mesmo, não é loucura. Pode ser aventura. Pode até bater-se com a cabeça na parede, é verdade, particularmente se nos faltar a esperança e a memória, mas se não fizermos de hoje o nosso tempo - que é esse que Deus nos dá - que ficará do nosso tempo e da nossa passagem pela terra? De que serviu o passado? Que futuro se constrói?
Eu gostava de ser mais capaz de assumir o que tenho, e de não chorar "as cebolas do Egipto" ou projectar futuros irrealistas.
Gostava de reconhecer e aceitar as oportunidades que o tempo presente proporciona, à sociedade e à Igreja.
Gostava de olhar para trás e aprender, mas de não ficar apenas atrás...
Gostava que o mundo - pelo menos onde eu estou - ficasse um pouco melhor com a minha ajuda.
Gostava de não me demitir da missão e tarefa de ser sujeito, agente e promotor da construção de um mundo melhor.
Gostava também que a Igreja de Jesus Cristo, da qual faço parte, não perdesse a memória do passado, que continuasse a fazer Memória e em memória do seu fundador, mas sabendo que o tempo para o fazer é hoje.
Gostava... Gostava que a lucidez ainda tivesse lugar hoje, ainda que fosse apenas um laivo.

Pe. JAC
Texto publicado na edição de 14 de novembro, do Jornal Correio do Vouga.

26 de outubro de 2009

SARAMAGO E A BÍBLIA



Afirmou José Saramago que a Bíblia é «um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» e reflecte uma imagem de «um deus cruel, invejoso e insuportável». Disse também que, como os católicos não lêem a Bíblia, não se sentirão muito incomodados com este tipo de afirmações.

Não sou especialista em exegese da Bíblia e certamente deveria conhecê-la melhor. Mas o que dela conheço é suficiente para concluir que é Saramago quem não a conhece, ou não a interpretou correctamente, porventura por ter desligado algumas das suas passagens da sua mensagem global.

Não compreendo como é que Saramago não viu na Bíblia a imagem de um Deus que é Amor. Em continuidade com o Antigo Testamento, que constantemente nos revela um Deus «clemente e compassivo», «lento para a ira e rico em misericórdia», o Novo Testamento revela em toda a sua plenitude o amor de Deus. Um Deus que, por amor, se incarna, partilha a condição humana e se identifica com o sofrimento humano até ao extremo do abandono e da morte na cruz, para que fosse restabelecida a Sua comunhão com a humanidade. Um Deus à imagem do bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, ou que deixa todas as outras para salvar aquela que se perdeu. Um Deus à imagem do pai do filho pródigo, que perdoa e acolhe.

Na Bíblia encontramos, como em nenhum outro livro, a exaltação da dignidade da pessoa humana, criada «à imagem e semelhança de Deus». «Quando contemplo o céu, obra dos teus dedos, a Lua e as estrelas que fixastes…O que é o homem, para dele te lembrares…Tu o fizeste pouco menos do que um deus, e o coroaste de glória e esplendor» (Sl. 6).

Quem seja sensível à justiça para com os pobres e oprimidos, em quantas passagens do Antigo e do Novo Testamento não encontrará inspiração e alento?

Onde encontrar mais sólido fundamento de harmonia social do que no amor evangélico, que perdoa «setenta vezes sete vezes» e se estende até aos inimigos, a quem se retribui o «mal com o bem»?

Por tudo isto, também é fácil concluir que não foi a fidelidade à mensagem bíblica que conduziu às guerras e conflitos com pretextos religiosos. A razão dessas guerras e conflitos está antes no orgulho e paixões humanas (também retratadas na figura de Caim), que tendem a instrumentalizar a religião, assim a pervertendo. Na pureza dos seus princípios, livres de instrumentalizações políticas ou ideológicas, as religiões são factor de concórdia e da paz, como o testemunham os encontros de Assis.

E não são só os crentes que reconhecem o tesouro da Bíblia e que ele representa também para o nosso património cultural, fonte de inspiração para filósofos e artistas ao longo de séculos. Por exemplo, o filósofo italiano Massimo Cacciari, não crente, tem defendido um mais aprofundado estudo da Bíblia em todos os graus de ensino laico, incluindo o universitário.

Oxalá desta tão triste e anacrónica polémica se possa colher, ao menos, algo de positivo: um pouco mais de interesse pela Bíblia.

Pedro Vaz Patto

21 de outubro de 2009

Coitado de ti, ó saramago, a falar para os peixes!



Como partilha que tirei daqui

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.


Espanta-me que muitos ainda se alvorocem com um sub-género que nunca reuniu predicados elementares de integridade, que se repete e daí não sai. Espanta-me também que Saramago, em vez de Caim, não escolhesse a figura de Onan, mais conforme a expectativa de quem o lê.


Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar.


Depois, Saramago sofre de monomania religiosa, de doença da santidade invertida. Se literariamente é hoje um zero, também não possuiu qualquer autoridade em "Ciências da Bíblia". É um amador e como todos os amadores possui atevimento proporcional à ignorância. Tenho a absoluta certeza que o homem não sabe uma palavra em latim, nunca leu um tratado de apologética e desconhece coisa tão elementar como a Enciclopédia Católica. Depois, por tudo o que vai dizendo - deixai falar um ignorante, pois nunca devemos impedir um tolo de se enredar nas suas próprias palavras - parece confundir Teologia, Bíblia e História Eclesiástica. Se, em vez de o atacarem, o confrontassem com o seu [des]conhecimento, melhor serviço fariam. Infelizmente, parece haver uma lei de ouro nestas lutas sem interesse e sem consequência.


Saramago vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

Miguel Castelo Branco

Outros textos para ler

Mau costume, Joaquim Franco

29 de julho de 2009

Pressa inimiga da perfeição

Desde muito cedo que me fui habituando a ouvir que a pressa é inimiga da perfeição. Penso que é mais ou menos aceite este aforismo que incentiva à ponderação e à consciencialização. Pretendo hoje explanar dois exemplos em que esta afirmação cai que nem uma luva.
Primeiro: É um assunto triste, mas deve-se falar dele. Tem a ver com as mortes na estrada.
O tempo estival é, por norma e infelizmente, um período profícuo a acidentes de viação. Destes, igualmente de lamentar, resultam sempre muitas mortes, ou feridos graves e ligeiros, assim como, danos materiais.
Claro que se quisermos ir à raiz da questão temos de perceber que com o regresso de tantos e tantos portugueses que estão a trabalhar no estrangeiro o número de viaturas em circulação aumenta desmesuradamente.
Todavia, todos sabemos também que as principais causas dos acidentes ocorridos em Portugal são outras, como o álcool, as manobras arriscadas, o excesso de velocidade... e podíamos continuar a lista se achássemos que não estava dito o essencial – a pressa é inimiga da perfeição.
Mortes na estrada podem evitar-se com mais civismo, mais atenção, mais cuidado e, acima de tudo, (penso eu!) com mais educação e com mais calma que leva à perfeição.
Segundo: Também é um assunto triste e que deve ser falado. As pretensas inaugurações antes sequer das obras estarem terminadas! Bom e neste aspecto teríamos concretamente em Braga vários casos a apresentar, uma vez que estamos em tempo de campanhas eleitorais.
Olho apenas para a “fachada” do Instituto Ibérico de Nanotecnologia. Saber que toda aquela operação faustosa e enganadora serviu para uns quantos “tipos” de Portugal e Espanha se juntarem para apertar as mãos e para sorrirem para a foto (espero que não seja para o cartaz eleitoral!) só me causa indignação e revolta. E falta saber – como escreveu o Daniel Lourenço há uns dias – quanto custou aquilo?
Também aqui a pressa da inauguração do edifício que servirá para a investigação é inimiga da perfeição. É como se começasse mal logo à nascença.
Por isso, meus amigos, vamos com calma para sermos perfeitos!

23 de junho de 2009

À falta de melhor, Paciência!

Este é o meu segundo “deste lado” que dedico ao tema sempre muito discutível do futebol. Não que tenha grandes revelações a fazer ou opiniões importantes a dar. Apenas quero traçar um breve comentário sobre a actual conjectura futebolística nacional.
Primeiro: Destaco a “guerra” no Vitória de Guimarães para relembrar que nenhum reino dividido contra si mesmo poderá subsistir. Não consigo perceber como no Vitória acontecem tantos episódios destes. É difícil um treinador sair a bem de Guimarães...
Segundo: Afinal Cissokho é bom para o Porto, mas não suficientemente bom para o Milan, ainda que o problema seja a dentição. Mas podia ser outro qualquer, até mesmo o não ter qualidade para jogar num “gigante europeu”.
Terceiro: Agrada-me a postura dos responsáveis do Sporting. Dos “três grandes”, aparenta ser o clube mais sereno, mesmo depois de um processo eleitoral que escolheu um novo presidente. Todavia, preocupa-me a contratação do “10”. Já tantos passaram ao lado no Sporting que nem sei que pensar... Espero para ver.
Quarto: Depois da “novela” Quique Flores/Jorge Jesus surge agora outra: as eleições para a presidência do SLB. Pergunto-me se não deveria ser o contrário: escolher o presidente e depois o escolhido pensar, com a restante direcção, no treinador. A não ser que antecipadamente Vieira seja já e de novo o presidente. No Benfica as coisas funcionam ao contrário...
Último – não por ser menos importante, mas por ser mais recente na ordem do dia – O Braga meteu-se (se calhar sem querer, não sei) na novela do Benfica. Agora, depois de Jesus – como tanto queria – ir “pregar” para a Luz, o Braga lá arranjou treinador. Fiquei animado quando ouvi falar de Nelo Vingada e também de Quique, mesmo sabendo que este seria muito difícil. Bom, assim sendo, é caso para dizer: À falta de melhor, Paciência!
Espero que Domingos consiga cumprir o contrato e os objectivos traçados – tarefa difícil porque António Salvador está a apertar os cordões à bolsa. No entanto, se não conseguir, paciência!



______________


Pena que o Guimarães tenha despedido o Cajuda. O Manuel voltou a morrer pela boca...

infelizmente

só felizmente se vier o Quique.

Mas pode vir a ser Nolo Vingada...


guerras entre os clubes do Minho!...

10 de junho de 2009

Bravissimo, Figueira!



Cada vez mais surpreendido!
A Isabel Figueira escreve sobre qualquer coisa!
Até sobre política e abstenção.
Para lá dos erros de português, não lhe faltam acertadas considerações políticas.

Parece discurso das "miss": «Se for» "quero acabar com a fome, a miséria e a injustiça"... blá, blá, blá...

Há que poupar o latim.

Ah, e o Braga Maldita, ainda não deve ter dado conta desta nova maravilha do Correio e da sua colunista, especializada em nada (pela forma como começa todos os textos: não sou especialista, mas escrevo....)

2 de janeiro de 2009

2009 – trazer para a vida O que acredito!


Arrancou com um renovar de votos, esperanças e crenças no progresso e na evolução da Humanidade e acaba com a evidência de que não vivemos no mundo ideal. O ano de 2008 terminou como cenário de um palco internacional cada vez mais incerto, marcado pelos efeitos devastadores da crise.
No entanto, esta actual crise não radica apenas na alteração do quadro de referência das relações internacionais pós muro de Berlim e 11 de Setembro, nem só na falta de liquidez dos mercados.
O sistema capitalista, como estrutura económico-financeira base de uma sociedade organizada por indivíduos autónomos, requer que cada qual possa ser diferente mas tratado como igual. Para tal, a defesa destes valores (da diferença e da igualdade) cultiva-se à medida que os mesmos reclamam protagonismo no espaço público. Contudo, a dificuldade que o indivíduo tem em aplicar os seus valores na praça pública afigura-se como causa para o mesmo se sentir desajustado da sociedade e alienado da cidadania.
É sabido que, uma vez perdidas as convicções e crenças mais profundas de uma cultura, torna-se difícil enfrentar os desafios temporais sem se deslocar para tradicionais “ismos”, enquanto sintomas de uma sociedade intelectualmente confusa e frágil.
Por isso, um dos desafios para este 2009, passa por recolocar os valores e as convicções de cada indivíduo no devido lugar, não reclamando primazias nem favorecimentos públicos, mas expressando aquilo que constitui a sua génese: um conjunto de princípios que salientam a dignidade do Humano, enquanto sujeito passível de direitos e deveres.
Quanto a nós, cristãos católicos, afigura-se imprescindível que saibamos aplicar os valores do Cristianismo no quotidiano, trazendo para a vida O que acreditamos.
Se o conseguirmos, este ano não trará a solução de todos os problemas, mas visitará a nossa fé para percebermos o protagonismo que queremos conferir aos valores em que cremos.
Isto é que é tornar a Revelação actual para cada geração – como diz o teólogo Hans Urs von Balthasar – na certeza de, em tempos de crise, sabermos “dar a César o que é de César e a Deus o que é Deus”.
Assim será possível desejar desde já um bom 2010, pois sobreviremos a este 2009.

21 de novembro de 2008

Estrelas lusas a ver “sambar”



Depois de ler diversas análises, comentários e notícias sobre a «vergonha» e o «escândalo» que se passou em Gama, no jogo que opôs Brasil a Portugal e que resultou na maior goleada sofrida pela equipa lusa nos últimos 50 anos, continuo sem perceber o que se passa com esta selecção, que é como quem diz, a equipa que reúne (ou devia reunir!) os melhores jogadores portugueses – bem, alguns são brasileiros, mas também não são dos melhores!
«Portugal a ver estrelas», «Portugal humilhado» «Descalabro», «Brasil cilindra Portugal», “Pôxa irmão» foram algumas das palavras de ordem (manchetes) da imprensa, na ressaca de um jogo que foi visto, em Portugal, pela noite dentro.
Claro que a exibição portuguesa, segundo o comentador Joaquim Rita, foi «pouco racional, sem estratégia sem arrumação técnica, sem atitude mental» e que se entende os apupos atirados à comitiva na chegada a Lisboa.
Claro que Carlos Queirós (alguém sabe que salário aufere?) é o alvo em foco e lhe fica bem fazer um “mea culpa” dizendo que os adeptos têm razão e é necessário que os jogadores que vestem a camisola da selecção estejam a «mil por cento».
Não concordo – e li também esta opinião – que a selecção joga mal porque os jogadores não entendem a linguagem de Carlos Queirós. Se o problema é esse, então, pague-se a um tradutor. Ou então chamemos um seleccionador brasileiro (bons tempos!).
Concordo que da parte de Gilberto Madail houve inconsciência ao assinar um contrato válido por quatro anos.
Mas, o que é certo é que o Dunga, mesmo no meio da «paulada» e da «polémica» passou no teste. E o Queirós?
Sabemos todos que «esta derrota é uma mensagem muito forte para os jogadores. Não se pode começar um jogo bem e depois deslumbrar-se e desagregar» disse o técnico luso. Sabemos, ainda, que o «resultado tem de servir de lição».
Esperemos que esta lição – estrelas lusas a ver “sambar” – seja bem aprendida, que é como quem diz que a selecção consiga marcar presença no Mundial de 2010, mesmo que tenha de ser com aflições e calculadora na mão.


in Diário do Minho, 21 de Novembro

9 de outubro de 2008

O caçador que se tornou presa

Para a luz do dia despertou em Tarso. O pai conferia-lhe o estatuto de “cidadão romano”. Bebeu da sabedoria de Gamaliel. Aprendeu a fabricar tendas. Religiosamente, tornou-se um judeu fervoroso. Era irrepreensível na observância da lei. Tinha um carácter decidido. Ostentava a garra de um verdadeiro líder. No horizonte desenhava-se para ele um futuro risonho.
Depressa se tornou bem conhecido, esse Saulo, empreendedor, de formação esmerada, zeloso.
Assistiu à delapidação do diácono Estêvão. E queria mais. Afinal, essa nova seita que ia proliferando, estava a desestabilizar, a provocar o judaísmo, a gerar rupturas no tecido social e religioso do povo da ancestral aliança. Imagine-se que até já existiam cristãos na cidade de Damasco, na Síria, a 200 km de distância da Palestina.
E Saulo põe-se a caminho, para obviar a tremenda calamidade.
É então que Deus o intercepta. E lhe pede que não mais O persiga.
Saulo torna-se Paulo. O atacante torna-se presa. O caçador torna-se caça (como bem sublinha Carlos Mesters, na sua obra Paulo Apóstolo). O perseguidor atravessa três dias de cegueira, para ressuscitar homem novo.
Considera então como “lixo” as honras do passado. Mais do que confiar no que faz por Deus, confia agora no que Deus faz para ele. Mais do que “justificar-se” pelas obras, mergulha agora na gratuidade do amor de Deus.
Conduzido, não pela tradição ou pela lei, mas pelo Espírito («Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim»), torna-se missionário itinerante, o Evangelho a rasgar sulcos e a frutificar na Ásia Menor e na Europa, a Igreja a crescer, o coração da Igreja a dilatar-se numa universalidade que derruba barreiras entre judeus e gregos, homens e mulheres, escravos e homens livres…
E o Espírito de Deus acompanha-o nas perseguições, nas torturas, nas ameaças de morte, nas acusações, nos tribunais, nas prisões.
Para a posteridade ficaram 14 cartas, espólio precioso que o Novo Testamento conserva, tantas vezes presentes nas nossas celebrações.
Paulo foi um verdadeiro apóstolo, uma testemunha eloquente, um herói. E um mártir. Aos 62 anos de idade, abriram-se para ele as portas do céu. A espada que o dizimou eclipsou-se. Só se vê agora a coroa da glória que Deus lhe ofereceu, juntamente com a felicidade eterna.
Estando nós a viver o Ano Paulino, proclamado recentemente pelo Papa Bento XVI; sendo o lema pastoral da nossa Arquidiocese, para o presente ano, “Encontrados pela Palavra”, não será de reflectirmos sobre a vida e escritos de São Paulo?!
Votos de um bom ano pastoral para todos, sob a protecção de Maria, a Mãe de Deus e nossa Mãe, também ela encontrada pela Palavra.

(texto)Cónego José Paulo Abreu
Vigário-Geral da Arquidiocese de Braga

in DM, 09/10/08

8 de outubro de 2008

O lugar da Bíblia na vida da Igreja




A mais de 40 anos de distância do Concílio Vaticano II (1962-1965), em que a Palavra de Deus passou a ter um incremento relevante, e a mesma passou a estar no centro da vida da Igreja, nomeadamente na Liturgia, muitas acções de formação (cursos bíblicos de curta e longa duração) foram desenvolvidas por muitos órgãos e movimentos eclesiais, com vista a ter uma Igreja não mais virada para si mesma, mas procurando dar força à Palavra de Deus, e envidando esforços por renovar a fé numa época em que a relação humana com Deus dá sinais de enfraquecimento.
Após tanto caminho percorrido, a Igreja constata que este tem sido muito lento, e ela mesma torna hoje presente o projecto do Concílio, considerando-o um projecto inacabado. E eis que vem momentaneamente à memória uma consideração básica proferida pelo então Pontífice João XXIII : « O que mais importa ao Concílio é que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz ».
Estas palavras continuam a ser nos nossos dias tão relevantes como então, ao ponto de o nosso Pontífice Bento XVI ter escolhido para o próximo Sínodo dos Bispos a realizar em Outubro de 2008 o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Para este Sínodo encontra-se já em apreciação um documento de trabalho introdutório designado “Lineamenta”, que tem por finalidade apresentar o estado da questão sobre o importante tema da Palavra de Deus.
No nº 4 da Introdução deste pode-se ler: « São graves os fenómenos de ignorância e incerteza acerca da própria doutrina da Revelação e da Palavra de Deus; ainda é grande a distância que muitos cristãos têm em relação à Bíblia, e é constante o risco de um uso
não correcto da mesma; sem a verdade da Palavra torna-se insidioso o relativismo do pensamento e da vida. Tornou-se urgente a necessidade de conhecer integralmente a fé da Igreja sobre a Palavra de Deus, de alargar com métodos adequados o encontro com a Sagrada Escritura por parte de todos os cristãos e, ao mesmo tempo, acolher os novos caminhos que o Espírito hoje sugere, para que a Palavra de Deus, nas suas várias manifestações, seja conhecida, ouvida, amada, aprofundada e vivida na Igreja, e assim se torne Palavra de verdade e de amor para todos os homens». Mais adiante estabelece-se como objectivos do Sínodo: «renovar a escuta de Deus na Liturgia e na catequese, bem como acender a estima e o amor pela Sagrada Escritura, fazendo com que os fiéis tenham amplo acesso a ela» .
Nesta passagem encontram-se realçados dados muito importantes, a saber: ignorância, conhecimento, acolhimento.
É-nos mostrado um grande afastamento em relação à Bíblia, esse depósito sagrado da doutrina cristã, do qual resulta a ignorância.
Sabemos que toda a liturgia da Palavra, da qual constam a proclamação/escuta de várias passagens bíblicas do Antigo e do Novo Testamento, o salmo responsorial e o Evangelho de Jesus Cristo, se encontra estruturada naquele conjunto de livros. O elenco das leituras é organizado de tal forma que, passando pelos textos do Antigo Testamento, a assembleia possa ouvir as páginas mais importantes das Sagradas Escrituras num determinado espaço de tempo, possa pela escuta conhecer mais profundamente a fé que professa e a história da salvação, e venha a aderir a Cristo. Esta adesão a Cristo é feita por nós, fiéis, na veneração e contemplação de Cristo pelo Seu mistério e sacrifício eucarístico, que culmina na Sagrada Comunhão.
Cabe agora fazer este juízo: quando aderimos a algo, temos de conhecer o objecto de adesão. Então, se aderimos a Jesus, recebendo-O Sacramentado, temos de O conhecer em toda a Sua História, em todo o reinado de Deus. A Bíblia é por excelência o instrumento contemplativo de todo esse reinado. Ela é o maior tesouro que o cristão tem. Jesus mesmo nos ensina a compreender as características da Palavra ao dizer que ela é espírito e vida. É espírito, porque foi inspirada pelo Espírito de Deus. É vida, porque há caminho de vidas percorrido e novidade de vida sempre possível. Muitas vidas, muitas épocas, muita Vida. Nelas encontra-se o que encontramos nas nossas vidas - choro, sorriso, alegria, festa, dança, oração, luta, dor, derrota, vitória, recomeço. Muitas histórias, preces, cânticos, mitos, narrativas de libertação, profecias e experiências de vida diferentes. E o que se tornou intrínseco a todos esses tempos? Foi o mesmo Deus a indicar o caminho, a caminhar com o Povo, e a fazer-Se presente na história com Jesus. Foi Ele o alicerce da fé que os antepassados professavam, e quando na última Ceia Jesus diz: «Estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos», é o mesmo Jesus o Deus que caminha hoje connosco e nos sussurra: chega-te a mim, que eu me chegarei a ti.
Se o povo bíblico do Antigo Testamento se alimentou da fé, seguindo um Deus “abstracto”, nós, hoje, com a leitura e aprofundamento dos vários livros bíblicos, podemos não só buscar lenitivo para os nossos problemas, obtendo a força de que necessitamos através da leitura das experiências de fé narradas nas vidas de tantos homens e mulheres, como as regras de vida pelas quais nos devemos pautar. Por conseguinte a Bíblia é vida para todos nós. Não está congelada no passado. Logo, devemos acolhê-la.

Não podemos esquecer a interpretação da Palavra de Deus que está presente na mesa da Palavra todas as vezes que a Igreja se reúne em assembleia para celebrar os divinos mistérios. A este respeito sabemos que aos fiéis cabe ouvir a Palavra e meditá-la. Sabemos também que cabe ao leitor, no seu nobre ministério, dar-lhe vida. Em outras palavras, a Palavra proclamada, pelo que acima ficou escrito, não veicula apenas uma informação passada, mas deve fazer acontecer algo novo na nossa vida no momento em que é ouvida, impondo a necessidade de transformação.
E emerge a pergunta: Que deve o leitor fazer? E com que se deve preocupar?
Seria bom que antes de se fazer ouvir, se preocupasse primeiro consigo próprio, tornando-se ele o primeiro estudioso dos livros bíblicos para que da proclamação da palavra transborde força libertadora. Seria bom que participasse em cursos bíblicos para aprofundar o seu conhecimento, se deixar iluminar pela força do Espírito e se fortalecer na fé.
A meditação das Escrituras ensina o leitor a manter-se em comunhão com Cristo. Caso não o faça, ele não irá além de um biblô que escuta a sua própria voz, e cujo espírito emudeceu; e em vez de ser uma brasa ardente pelo contacto com a fogueira da Palavra, passa a substância residual que se lança fora, tornando-se a sua voz inaudível aos sentidos de quem o escuta.

M. Estela Rodrigues, membro da Comissão Arquidiocesana de Pastoral Litúrgica

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...