Chorar, amargamente, quem nos morre, é um ato profundamente cristão. Só não o será o desespero completo, perante essa morte. Porque seremos salvos pela esperança. A perdição seria o desespero, simplesmente.
Mostrar mensagens com a etiqueta fé. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fé. Mostrar todas as mensagens
30 de outubro de 2017
25 de outubro de 2017
Paraíso: Abraço com Deus, Amor infinito
Papa Francisco, na Audiência Geral desta quarta-feira:
“O paraíso é um abraço com Deus, Amor infinito, e entramos nele graça a Jesus, que morreu na cruz por nós. Onde há Jesus, há misericórdia e felicidade, sem Ele há frio e treva”.
“O paraíso é um abraço com Deus, Amor infinito, e entramos nele graça a Jesus, que morreu na cruz por nós. Onde há Jesus, há misericórdia e felicidade, sem Ele há frio e treva”.
Na hora da morte, mesmo que não haja ninguém que se recorde de nós, Jesus estará ali ao nosso lado e quer levar-nos para o lugar mais belo que existe. E à casa do Pai levará o que fizemos de bom e o que precisa ainda de redenção: as faltas, os erros de toda a nossa vida.
E esta é a meta da nossa vida: que tudo se realize, e seja transformado em amor.
“Se acreditarmos nisto, a morte deixa de nos meter medo, e podemos esperar mesmo partir deste mundo de forma serena, com muita confiança. Quem conheceu Jesus, já não teme nada”.
17 de outubro de 2017
"Devemos ouvir os jovens!". Será mesmo?
XV ASSEMBLEIA ORDINÁRIA GERAL DO SÍNODO DOS BISPOS
Jovens, fé e discernimento vocacional
Com esta jornada, a Igreja quer ouvir a voz, a sensibilidade, a fé e também as dúvidas e críticas dos jovens. Devemos ouvir os jovens! (Papa Francisco, ao convocar uma reunião pré sinodal, agendada para Março de 2018)
Precisamos abordar os jovens não só para nos ajudar a entender "como" anunciar a mensagem cristã hoje, mas também para entender melhor "o que" o Senhor Jesus pede a sua Igreja hoje ", o que ele espera desse momento histórico" o que "cortar" e o que "em vez de encontrar dentro de sua missão. (Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário Geral)
“Os jovens são importantes, têm papel decisivo no futuro e é preciso dar-lhes espaço, inseri-los e também receber os seus contributos”. (D. Joaquim Mendes)
Diante disto, estou convencido que não basta dizer e desejar que os jovens sejam ouvidos na Igreja/pela Igreja. Pergunto-me se eles querem mesmo falar à Igreja? Será que estão dispostos a isso? Ou reina entre nós a indiferença generalizada que advém da secularização?
Mais ainda: Será que nós os queremos mesmo escutar? Muitas vezes não estou certo disso...
Além disso: Será que criamos as condições/espaços/lugares para que os que querem falem e nós os escutemos?
Não conheço a totalidade das iniciativas diocesanas sobre esta matéria. Conheço algumas. Mas vou vendo o tempo a passar, as fases diocesanas a concluir-se, e vou constatando pouco entusiasmo. O que é pena! E também sinal.
3 de novembro de 2016
Deus na e da (im)perfeição!
A salvação consiste na possibilidade de amarmos e de nos amarmos até ao limite, em fazermos das nossas feridas e das dos outros ocasião de cuidado e de misericórdia.
O nosso Deus manifesta-se em contextos naturalmente imperfeitos e, sobretudo, não intervém para resolver os problemas (...)
O Deus da revelação entra nas histórias feridas e fracassadas para levar por diante a "sua" história de salvação. (...)
O nosso Deus não deseja senão ter filhos diante de si, para poder manifestar o que é, quer dizer, Pai, amor, misericórdia.
In Paolo Scquizzato, O elogio da imperfeição. O caminho da fragilidade.
23 de janeiro de 2015
Um novo dia amanheceu [Tu és mais forte]
Talvez muitos não compreendam a razão pela qual um jovem, desde tenra idade, entra para o seminário. Talvez não compreendam também a razão pela qual gastar energias a servir, a escutar e a cuidar de um povo quando tantos outros projectos de vida são igualmente fascinantes. A razão é apenas uma. Opta-se pelo melhor. E o melhor, para um coração sacerdotal, é Cristo. É essa liberdade de coração, esse prazer genuíno de estar com o Mestre, que irradia para os demais e mostra a alegria de viver a fé ardentemente sem ambiguidade.
Mas, caríssimos irmãos, Deus chama a toda a hora. Sei que esta hora nos parece demasiado cedo para o último chamamento. Mas permitam-me que termine de citar a homilia de Epifânio de Salamina. «Levanta-te, tu que dormes [...]. Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos». Com esperança cristã, acreditamos que o Pe. Miguel se encontrou com a Vida e, por isso, intercede agora por nós, como tantas vezes o fez nas eucaristias desta comunidade.
Que este momento de comunhão fraterna em Cristo fortaleça a nossa unidade, uma vez que estamos a celebrar a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Fazemo-lo com a frase bíblica «Dá-me de beber!». Por diversas vezes, os evangelhos falam da sede, da água e do acolhimento das necessidades. Neste encontro particular entre Cristo e a Samaritana, sobressai o movimento de Cristo que vai ao encontro e pede que lhe dêem de beber. Hoje o mundo necessita da nossa unidade. Unidade com Cristo e, por Ele, com toda a comunidade sacerdotal e eclesial. Só unidos seremos água viva que responde à sede de um mundo que pretende viver sem Seus. São tantos os problemas e as expectativas. Ninguém sozinho consegue ser resposta adequada.
A vida do Pe. José Miguel foi breve, é certo, mas tudo foi cumprido. Deu-se até ao fim, amou até ao fim. Tudo está consumado e agora vive ressuscitado. Que isso nos inspire, nos conforte e nos una na mesma fé e nos diga que, por Deus, a alegria do Evangelho deve chegar a todos.
António Correia de Oliveira, um poeta do século XX que se fixou em Esposende, escreveu certa vez: «É certo! Um novo dia amanheceu // Mas, para o amanhecer, quanta negrura! // quanto inferno de sombra e de amargura! // E quanto purgatório, antes do céu!».
Pe. Miguel, cedo para ti o dia amanheceu, quanta negrura antes do céu. Mas agora que vives entre os esplendores da luz perpétua, onde desaparecem as sombras da amargura, toma conta de nós e continua a amar-nos com o teu coração sacerdotal e faz com que em todos os sacerdotes e cristãos da Arquidiocese se intensifique o gesto de estar com Jesus para, depois, alegre e corresponsavelmente, o darmos a quem tem sede d’Ele, ainda que não o diga. Intercede por nós junto de Deus para que a Igreja Arquidiocesana, através de uma fé vivida, por sacerdotes e leigos, seja verdadeira fonte onde todos se saciam e saboreiam o amor de Deus. Aqui e agora queremos ser uma coisa contigo. Devolve-nos a graça de uma Igreja unida na mesma fé e que o amor entre nós vença todas as dificuldades, inclusive a dor que a tua morte, inesperada e incompreensível, gerou.
D. Jorge Ortiga, na homilia exequial
http://www.diocese-braga.pt/media/contents/contents_Rm0qTw/2015.01.23_jose_miguel_funeral.pdf
11 de novembro de 2012
Gestos de amor não têm preço! Poema no XXXII domingo comum

De que interessa o que temos
quando não damos o que somos?
A Jesus não importa o dinheiro,
apenas que se seja verdadeiro e inteiro!
Quando a riqueza da aparência
não coincide com a essência,
a riqueza material
é vazio anódino e banal...
Passa o tempo a contar
o menos que pode dar...
E só dá para se ver
quão grande é seu "poder".
Ricos para Deus são os sábios,
que não são escravos do que têm...
São os que sabem
que o caminho de santidade
se faz com a verdade
de ser o que se é
e viver alicerçado na fé.
Para Deus importante é ser,
agir de coração e crer...
que um gesto de amor
não tem preço, só tem valor.
Pe. JAC

10 de novembro de 2012
Diário da Missão Jubilar: um sinal da alegria e da esperança cristãs


A primeira Missão 11, da Missão Jubilar dos 75 anos da Restauração da Diocese de Aveiro decorre amanhã. O Dia do Anúncio convida cada pessoa a colocar na sua casa o estandarte da Missão Jubilar. Cada estandarte colocado de modo visível para o mundo, é uma manifestação de alegria de ter Cristo em casa. É uma forma diferente de abalar a indiferença - patologia disseminada pela superficialidade dos dias. Queremos com cada estandarte colocado nas nossas varandas, janelas e espaços exteriores iluminar o nosso mundo com a esperança que brota da Cruz de Cristo.
Vive esta hora!
Pe. JAC
2 de novembro de 2012
31 de outubro de 2012
Todos os Santos. A santidade é a normalidade do bem!

"A flor do mundo é a santidade. Essa forma de Deus presente em todos os tempos, em todas as latitudes, em todas as culturas. O que salva o mundo é a santidade: ela dá flexibilidade à dureza, torna uno o dividido, dá liberdade ao aprisionado, põe esperança nos corações abatidos, esconde o pão no regaço dos famintos, abraça-se à dor dos que choram e dança com outros a sua alegria. A santidade é um sulco invisível, mas torna tudo nítido em seu redor. A santidade é anónima e sem alarde. A santidade não é heróica: expressa-se no pequeno, no quotidiano, no usual. O pecado é a banalidade do mal. A santidade é a normalidade do bem. Como fica demonstrado neste poema de Maria de Lourdes Belchior:
«Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores
(porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras,
poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação»."
(José Tolentino Mendonça, In Pai-nosso que estais na terra)

Pe. JAC
27 de outubro de 2012
Crer mais que querer. Poema no XXX domingo do tempo comum

Na subida para Jerusalém,
Jesus continua a caminhar...
e, no caminho, há sempre mais alguém
para curar, libertar e salvar.
Estava um cego sentado
esquecido e rejeitado,
e na passagem de Jesus
pressentiu salvação e luz.
Com clamor, pediu piedade
queria descobrir a visão...,
Não só dos olhos como do coração
pois queria (vi)ver a eternidade.
Ele cria tanto mais que querer
que a sua fé o salvou...
e com amor, Jesus o curou!
Com o coração pronto a acolher
ele partiu e seguiu Jesus,
guiado pela nova luz!
Pe. JAC
12 de outubro de 2012
Diário da Missão Jubilar. As sombras da confiança!

Diário da Missão Jubilar 18
Às vezes, o tempo assusta...
Passa depressa e o sol parece nem ter tempo para brilhar...
A chuva já cai e chão fica escorregadio e alagado.
Sentimo-nos quase descalços, num exercício de perícia e equilíbrio...
Abrimos os braços para abraçar a confiança de que não estamos sós...
E eis que a luz do coração que procura Cristo, transforma a sombra na certeza da presença Daquele está sempre connosco.
Vem viver a festa connosco!
Vive esta hora!

Pe. JAC
2 de outubro de 2012
Diário da Missão Jubilar. Abrir-se ao mundo com ânimo evangelizador

Diário da Missão Jubilar 12
O mundo que Deus ama é o mundo em que vivemos e que somos chamados a evangelizar. O desafio da evangelização é o horizonte sempre presente na missão da Igreja.
A experiência sinodal feita ao longo deste quinquénio pela ampla participação e diálogo aberto de pessoas, serviços e instituições, pela proposta e resposta e pela comunhão sentida na missão, indica-nos a pedagogia mais adequada para o nosso agir pastoral. Os métodos dão-lhe consistência e viabilidade. As iniciativas proporcionam a oportunidade para implementar esta prática pastoral que garante o envolvimento de todos, porque todos somos convocados e necessários para a missão.
As iniciativas da Missão Jubilar estão marcadas por um singular dinamismo e visam envolver plenamente a realidade de que fazemos parte: a pessoa, a família, a paróquia, a instituição diocesana; situam-se em casa, na rua, nos templos, nos espaços públicos; revestem um apreciável estilo de comunicação; transmitem uma confiança alegre, uma certeza sólida, própria de quem sabe firmar os seus passos e quer afirmar e testemunhar a fé.
Inspiram-nos neste caminho jubilar o gesto profético e a consciência evangelizadora do Arcebispo João Batista Montini, futuro Papa Paulo VI, ao propor a Missão para a sua Diocese de Milão, e o desassombro de João Paulo II ao querer transpor o limiar do novo milénio com um Jubileu que significasse para a Igreja uma abençoada oportunidade de renovação e um novo impulso dado à evangelização e ao diálogo com a cultura contemporânea.
A mensagem jubilar pretende impregnar de alegria e de fé tudo quanto se faça e envolver todos os cristãos fazendo-a ecoar na opinião pública, dando ao mundo uma imagem bela e atraente da Igreja. Estas dimensões da nossa ação constituem o horizonte em que nos movemos e dão realismo à missão em que estamos empenhados.
Uma atenção especial é devida aos «mensageiros» pelo trabalho que lhes é pedido. São de algum modo a missão em movimento, o rosto da esperança que nos anima, a proximidade familiar que nos irmana.
Todavia, numa Igreja em estado de missão, não há propriamente agentes e destinatários simetricamente definidos. Todos somos destinatários, protagonistas e agentes da missão.
Da mensagem de D. António Francisco
Pe. JAC
Etiquetas:
Aveiro,
bispo,
D. António Francisco,
Diário da Missão,
diocese aveiro,
esperança,
Evangelho,
evangelização,
fé,
Missão Jubilar,
mj,
mundo
29 de setembro de 2012
Estatura maior. Poema para o XXVI domingo comum.


Jesus continua a ensinar
a irracionalidade de amar:
Todo o discípulo precisa de saber
que é preciso ser paciente e compreensivo,
acolhedor e inclusivo...,
Aceitar cada irmão e não obstaculizar
abrindo mãos e coração de par em par.
Seguir Jesus é uma opção livre
que implica determinação,
entrega e radicalidade...,
Prescindir da banal normalidade
de simplesmente ser por existir
para viver sempre a servir!
O tamanho e a estatura maior
serão sempre os do Amor.
E quando nos deixarmos invadir
seremos transformados por Cristo Senhor!
Pe. JAC
15 de setembro de 2012
A fé que leva ao amor
Jesus pergunta quem é
desafiando, nas respostas, a fé...
para uns é o profeta Elias
para os discípulos, Ele é o Messias.
Ele é o Cristo libertador
que veio ao mundo vencer a morte e a dor...
é o Cristo Salvador
que nos pede uma fé que leve ao amor.
É preciso saber e perceber
qual o caminho a percorrer:
Caminho cuja meta é a Cruz,
sinal de vida, plena de Luz...,
opção radical pelo amor,
certeza de uma Vida maior.
Seguir o Messias, o Senhor
implica renunciar ao conforto da razão...
fazendo com que o bem saído das nossas mãos
não esconda as mãos que fazem todo o bem.
Pe. JAC
21 de janeiro de 2012
A hora da Missão. Mãos à obra! Homilia III Domingo Comum
O Evangelho do III domingo do tempo comum coloca-nos mesmo no princípio do Evangelho de Marcos, omitindo toda a vida de Jesus até por volta dos 30 anos! Aqui, Jesus começa a pregar a Boa Nova de Deus na Galileia. Antes apenas a pregação de João e o Baptismo de Jesus. Mas, o Cordeiro de Deus não ficou no deserto. Agora, apresenta-se no meio da realidade humana, atravessa os trilhos e os caminhos da existência quotidiana do seu tempo, onde pessoas concretas vivem, trabalham e sofrem. Aí, e só aí, começa a proclamar a Sua mensagem: «O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai na Boa Nova».
A primeira coisa que Jesus faz é procurar colaboradores para esta tarefa da evangelização. Ele não quer empreendê-la sozinho. Por isso mesmo, ao passar junto do lago da Galileia, repara no trabalho de alguns pescadores. Chama-os. Convida-os a seguirem-n'O e propõe-lhes que mudem de trabalho: «Farei de vos pescadores de homens». Inesperadamente eles deixam tudo (trabalho, bens, família) e seguem-n'O.
Com isto o evangelista Marcos quer mostrar-nos muito mais que um episódio bonito da vida de Jesus. Pretende, isso sim, que todos os que lêem e escutam este evangelho, se sintam interpelados a dar a resposta livre e pronta de Pedro e dos outros discípulos. O que é verdadeiramente importante é que Jesus chama! Chama porque ama. E quem é chamado e amado responde seguindo e amando. Por isso, aqueles pescadores da Galileia são modelo para todos os discípulos de Jesus. E nós não ficamos à margem deste paradigma.
Há algumas perguntas que se impõem diante deste texto. Em primeiro lugar, qual é o Evangelho, a Boa Nova que Jesus começa a proclamar?
A resposta é simples e até ligeira: Jesus está presente e vivo, no meio dos homens para cumprir todas as promessas de vida, salvação, felicidade e libertação, vindas já do Antigo Testamento! É a boa notícia de que Deus não ficou lá longe, mas está presente em Jesus vivo, pessoa, em carne e osso e no meio de nós! Deus está mesmo à nossa mão. E chama cada um de nós a dar-Lhe as nossas mãos. Chama para nos deixarmos olhar e tocar, seduzir e “apanhar” por este Jesus. Este é o primeiro e fundamental passo para convertermos e transformarmos a nossa vida.
Basta aderir, dizer sim, acolher, acreditar, abrir o coração e seguir. Jesus não dita regras nem impõe, para já, qualquer código de conduta. A sua mensagem é Ele próprio. Não nos chama para seguirmos uma ideia, um programa, uma doutrina. Chama-nos a segui-lo a Ele, como o Caminho, a Verdade e a Vida!
Evangelizar devia ser isto. Num tempo em que em Igreja vamos falando tanto de nova evangelização deveríamos ter presente que evangelizar é levar a todos a boa notícia, de que Jesus está aí, como luz que dá sentido. Está e passa por aí, discreto, por entre a vida das pessoas, por cima e por debaixo das suas telhas, pelas ruas e praças, para dar vida e salvação.
Evangelizar é dizer a todos e, em especial, aos que sofrem, que Jesus está aí! Está na sua dor, como está no amor, com que são tratados, como grita no clamor dos esquecidos e abandonados.
Evangelizar é também dizer aos que já fazem o bem, mas que até desconhecem Deus, que esse Deus desconhecido está aí, escondido mesmo por entre os dedos das suas mãos. O Evangelho de Deus, a Boa Nova é isto mesmo: Jesus está vivo e presente. Jesus é a Vida da nossa vida!
A segunda pergunta a fazer perante este Evangelho poderia ser “Como evangelizar?”
Nós somos evangelizados para nos tornarmos evangelizadores. Como a Jonas, também o Senhor nos diz “Vai à grande cidade e apregoa a mensagem”.
Nós somos evangelizados para nos tornarmos evangelizadores. Como a Jonas, também o Senhor nos diz “Vai à grande cidade e apregoa a mensagem”.
Há várias formas de o fazer. Sublinho apenas estratégias para ajudar:
a) Evangelizar pela proclamação ou pregação: a Palavra de Deus não deve ficar-se pela Missa, mas deve passar para o diálogo fraterno, cordial e amigo, nos nossos ambientes.
b) Evangelizar por convocação: ter a coragem de convidar outros a vir, a participar. Trabalhando em pesca à linha e não à rede…
c) Evangelizar por atracção, irradiação ou contágio: o modo como vivemos pode, e acontece mesmo, atrair outros.
d) Evangelizar por levedura ou fermentação: é a forma menos aparente, mais lenta e oculta, mais demorada e paciente. No segredo do nosso trabalho humilde, numa Escola, numa instituição, numa empresa, numa associação, podemos ir mudando mentalidades, inovando caminhos, renovando estruturas de injustiça e abrindo-as a uma conduta e ética cada vez mais evangélica.
Este é o nosso tempo de sermos evangelizadores. Mas, o tempo é breve e passageiro, como recorda o Apóstolo. Por isso, mãos à obra que se faz tarde!
Pe. JAC
14 de outubro de 2011
“Caroço de Azeitona” de Erri de Luca
“Caroço de Azeitona” não parece muito o título de um livro donde brota a “fé” de um não crente, alguém que não tem a graça e o dom de acreditar. Mas é! Da autoria de Erri de Luca, escritor e poeta italiano, é um livro pequeno mas profundo, em muitas partes difícil de ler e de compreender. É composto por um certo percurso bíblico com passagens quer do Antigo quer do Novo Testamento, e donde brota, para mim, em especial, a frescura do fundo de um sepulcro, onde está Cristo vivo.
Leitor assíduo das Sagradas Escrituras, Erri de Luca procura a originalidade da Palavra na profundidade das palavras bíblicas donde, segundo ele, “descende toda a nossa civilização religiosa”. Tem contribuído para desmascarar o que considera ser, em muitos casos, “péssimas traduções da Escritura”. E este texto é bom exemplo disso mesmo.
Alguém que começa as suas manhãs a ler a Bíblia, no texto original, donde retira o que diz ser um punhado de versículos para que o seu dia tenha um fio condutor. É esse punhado, um “penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca”. E este homem é não crente! Diz ele, pelo menos.
Pe. JAC
In Correio do Vouga
Leitor assíduo das Sagradas Escrituras, Erri de Luca procura a originalidade da Palavra na profundidade das palavras bíblicas donde, segundo ele, “descende toda a nossa civilização religiosa”. Tem contribuído para desmascarar o que considera ser, em muitos casos, “péssimas traduções da Escritura”. E este texto é bom exemplo disso mesmo.
Alguém que começa as suas manhãs a ler a Bíblia, no texto original, donde retira o que diz ser um punhado de versículos para que o seu dia tenha um fio condutor. É esse punhado, um “penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca”. E este homem é não crente! Diz ele, pelo menos.
Pe. JAC
In Correio do Vouga
10 de abril de 2010
II Domingo da Páscoa: Acredito como Tomé, meu irmão gémeo!
1. O Domingo de Páscoa, pelo Evangelho de João (20,1-10), falava-nos da descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto no qual a pedra muito grande (Marcos 16,4), símbolo do poder da morte, tinha sido retirada! Ali, o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), numa impressionante imagem de soberania e vitória sobre a morte! Mas o túmulo não está vazio: está cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (no Evangelho de Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (no Evangelho de Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (no Evangelho de João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens do sepulcro mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir sempre.
2. O Evangelho deste domingo II da Páscoa (João 20,19-29) aparece depois dos percursos de várias figuras bíblicas. Este é o percurso de descoberta desta nova presença de Jesus. Pensemos em Madalena que vai ao túmulo e vê a pedra removida. Pensemos em Pedro e no Outro Discípulo que correm ao túmulo e vêm todos os sinais que lá se encontram. Pensemos, de novo, em Madalena, que encontra Jesus Ressuscitado, O vê e descobre-O como o olhar da fé. “Vi o Senhor”.
3. Sai Madalena de cena e o Evangelho de hoje apresenta-nos os discípulos reunidos num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, que nada pode reter, vem e fica no MEIO deles e saúda-os: «A paz esteja convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o crucificado, e cola-os à sua missão, ao dizer: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio». O presente da nossa missão aparece, portanto, colado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e embrenhados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador, com o Espírito, para a missão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento!
4. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé, chamado Gémeo ou Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Mas os outros dez anunciam-lhe com a mesma linguagem de Madalena, mas no plural: «Vimos o Senhor!» Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver. Mas Tomé quer tudo controlado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir nas suas mãos a marca dos cravos, e meter o meu dedo na marca dos cravos e meter a minha mão no seu lado, não acreditarei».
5. Oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!». Aí está Tomé adivinhado e desarmado nos seus esquemas. Também ele podia ter pensado: e como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo? Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado. Não quer tirar mais provas. Diz de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!». Esta é uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver, acreditaste; felizes os que, não tendo visto na história, acreditaram!» Esta felicitação, este macarismo ou bem-aventurança, é para nós hoje, que não vimos historicamente o ressuscitado, mas acreditamos n’Ele e somos felizes por isso.
6. É notável o percurso dos Discípulos: fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem qualquer obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e anunciá-lo. Notável e exemplar para nós, hoje e sempre, o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas sensíveis e visíveis. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entregou-se completamente!
7. Tomé, chamado Gémeo! Gémeo de quem, podemos perguntar? Meu e teu, assim pretende mostrar o evangelista. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.
8. E rezo:
Senhor Jesus, embora não Te vejamos
Com estes olhos de carne,
A nossa profissão de fé ardente
é hoje a do Apóstolo Tomé, chamado Gémeo;
A princípio incrédulo e depois crente exemplar:
Nós acreditamos em Ti, nosso Senhor e nosso Deus.
Andamos à procura de razões, de provas e seguranças
Para acreditar e aceitar Deus na nossa vida.
Mas tu dizes e continuas a dizer: “Felizes os que crêem sem terem visto”.
Tu és Senhor a razão da nossa fé.
Ideias que partilho com os cristãos no II domingo da Páscoa! Reflexão à luz de D. António Couto
JAC
12 de fevereiro de 2010
Credo da Família
Cremos em Deus pai,
Filho e Espírito Santo,
Comunidade e lar
de cálido amor,
Que imbuiu de ternura
o universo
E encheu de carinho tudo quanto existe.
Cremos no amor
que brota de Deus,
Cristalino e desinteressado.
Cremos no carinho
que une o homem e a mulher
Nos caminhos da vida.
Cremos no amor que se projecta em cada filho que nasce.
Cremos na Família,
lar de convivência,
Onde se partilha diariamente o pão da unidade,
O acolhimento e o perdão.
Damos graças pelo muito
que nos foi dado
E comprometemo-nos
a tratá-lo como uma semente do amor original de Deus.
26 de novembro de 2009
Caroço de azeitona: sugestão de leitura
No blogue do meu companheiro de ministério JPCosta encontrei esta sugestão e gostei. Valeu a pena ter espicaçado... Com a devida licensa coloco aqui. É grande mas vale a pena
Proposta de leitura do livro Caroço de Azeitona de Erri de Luca... É um livro pequeno mas de grande densidade e profundidade... Partilho uma possível abordagem e a entrevista do autor...
Caroço de azeitona
Entre nós, chama-se Antigo Testamento a uma recolha de escrituras sagradas do povo hebreu. Na sua língua de origem aparece sob o título de Mikrà / leitura. Porque é esse o seu valor de uso, o de ser lida em alta voz na assembleia dos ritos, nos sábados, nas festas. E mesmo quando alguém a lê por conta própria, nos tempos livres, separado dos outros, a regra impõe que mova os lábios, que não leia só com os olhos. O corpo deve participar, respiração e lábios pelo menos, acompanham a viagem das palavras antigas, fazendo-se portadores destas.
O acontecer destas escrituras é a revelação: um Deus, único e solitário, fez o mundo por meio da sua voz primeiro, da luz em seguida. Extraiu-o do nada, cuidando, com a mesma atenção, do imenso infinito e da partícula.
Uma boa parte da humanidade não tem consciência de ter saído de Deus. Muito aflige o acto de confiança, antes do acto de fé. Permaneço, como não crente, alguém que passa pelas escrituras sagradas e não um residente. Desloco-me ao longo das linhas paralelas de um outro alfabeto, fechado entre vinte e duas letras dispostas entre o alef e o tau, que se lêem em direcção contrária à nossa, em páginas que se desfolham ao contrário. Passo sobre esta língua com o dedo e com as pestanas e dou-me conta do choque, do impacto que sofreu. Uma vontade de se revelar e agir dentro do mundo precipitou-se sobre uma língua de palavras descarnadas, hostil a todo o conceito abstracto. Precipita sobre vocábulos de três sílabas com o acento colocado sobre a última, e transmite-lhes a tarantela febril da sua incandescência. Os verbos, pela urgência, comandam a frase, abrindo-a antes do sujeito, antecipando-o, mesmo quando se trata de Deus. Todas as vezes que se lê na tradução: «E Deus disse», esteja-se certo que em hebraico é: «E disse Deus». Porque nesta vontade de revelação o dizer é mais importante e urgente do que o próprio facto de ser Deus a falar.
Toda a criação, e o fazer seguinte, e todo o fazer segundo, que é o dos homens, escrevem-se dando precedência à obra do verbo. «Escuta Israel», recita, lendo o livro entre nós chamado de Deuteronómio e pelos hebreus Devarìm / palavras, a principal oração hebraica. Escutar é a primeira urgência, o primeiro pedido.
Ler as escrituras sagradas é obedecer a uma precedência do escutar. Começo as minhas manhãs com um punhado de versículos, para que o meu dia tenha um fio condutor. Posso depois dispersar-me durante o resto das horas correndo atrás do que tenho para fazer. No entanto mantive para mim um penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca.
Errio de Luca
De uma entrevista ao Público (Ípsilon) por António Morujo:
É verdade que começa o dia lendo versículos da Bíblia “para que o dia tenha um fio condutor”?
Acordo todos os dias estudando o hebraico antigo. Não sou crente. Tenho necessidade disso para despertar, como algo que acompanha o café, para forçar a caixa fechada do meu crânio.
Porquê esse fascínio pelo texto bíblico?
Porque aquele é o formato original do qual descende toda a nossa civilização religiosa. Para mim aquele é um texto obrigatório. E aproveito de maneira escandalosa do facto de só eu o conhecer. E de poder desmascarar todas as traduções péssimas, ruins e mal intencionadas. Aproveito o talento que tenho, mas o texto deveria ser conhecido por todos.
É nesse sentido que fala da Bíblia como um caroço de azeitona?
Sim. As palavras que lia de manhã, quando trabalhava como operário, tinha-as como companhia para todo o resto do dia. Remastigava-as no trabalho das obras e fazia como se fosse um caroço de azeitona que me ficava na boca.
Já traduziu vários livros da Bíblia, escreveu “Em Nome da Mãe”, uma das mais belas narrativas ficcionadas do nascimento de Jesus. Há um livro ou uma personagem da Bíblia de que goste mais?
José. Nenhum dos evangelhos diz que era velho, podemos imaginá-lo jovem, belo e enamorado.
O seu nome vem do verbo hebraico yasaf, que quer dizer acrescentar. Yosef, à letra, é aquele que acrescenta. E o que acrescenta ele? Para já, a sua fé. Ele acredita na versão da sua noiva, grávida mas não dele. Acrescenta a sua fé à fé da rapariga que tinha acolhido aquela notícia.
Acrescenta-se ainda como esposo daquela rapariga, impedindo assim a condenação à morte, porque ela, perante a lei, era adúltera. E acrescenta-se enquanto segundo pai daquela estranha criatura aparecida no meio deles, Jesus, Yeshu em hebraico. Ele contribui e muito para esta história. No evangelho não é tido em conta mas nesses nove meses deu um contributo enorme.
Dê um exemplo das más traduções da Bíblia de que falou.
No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação.
Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: “Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total”.
Está dizendo que a facilidade, a agilidade de parto ou a naturalidade com que os animais têm os filhos não acontecerá mais. E Adão diz logo: “Maldita a terra.” Porquê, se a terra não lhe fez nada? Porque há outra verificação: Adão não se contentará com o fruto espontâneo, mas esforçará a terra, irá afadigá-la também com o seu suor, irá desfrutá-la para tirar o maior lucro. A terra será maldita por causa do esgotamento dos recursos.
Não há, então, um castigo?
Vê-se que não há intenção punitiva, porque logo a seguir a divindade faz vestes de peles para cobrir aqueles dois nus. Este é o gesto mais afectuoso.
A palavra hebraica que aqui é traduzida como dor, aparece outras cinco vezes: quatro nos Provérbios e uma nos Salmos. Cinco vezes em seis é traduzida como esforço e fadiga. Ali, metem na boca da divindade uma condenação. E sobre isto baseou-se toda a subordinação feminina, a culpa de Eva.
Publicou há pouco em Itália um livro com o título “Penúltimas Notícias sobre Jesus”. Que notícias são essas?
São todas tomadas das histórias do Novo Testamento, do evangelho. São penúltimas porque as últimas, as respeitantes ao seu regresso, ao cumprimento da promessa, essas estão em suspenso. O cristianismo vive num intervalo entre o anúncio do fim, feito por Jesus, e o cumprimento deste anúncio. São dois mil anos de intervalo, de tempo suplementar.
E quem é esse Jesus?
É um Jesus em carne e osso, um Jesus ainda vivo, que está um tempo na oficina de carpinteiro do seu pai, até começar a sua missão. Vive num território ocupado militarmente por uma nação hostil, a maior potência militar. E pode dizer “dai a César o que é de César”, porque nada naquela moeda tem poder sobre o mundo. Por isso, é uma figura em carne e osso. Um hebreu daquele tempo.
Proposta de leitura do livro Caroço de Azeitona de Erri de Luca... É um livro pequeno mas de grande densidade e profundidade... Partilho uma possível abordagem e a entrevista do autor...
Caroço de azeitona
Entre nós, chama-se Antigo Testamento a uma recolha de escrituras sagradas do povo hebreu. Na sua língua de origem aparece sob o título de Mikrà / leitura. Porque é esse o seu valor de uso, o de ser lida em alta voz na assembleia dos ritos, nos sábados, nas festas. E mesmo quando alguém a lê por conta própria, nos tempos livres, separado dos outros, a regra impõe que mova os lábios, que não leia só com os olhos. O corpo deve participar, respiração e lábios pelo menos, acompanham a viagem das palavras antigas, fazendo-se portadores destas.
O acontecer destas escrituras é a revelação: um Deus, único e solitário, fez o mundo por meio da sua voz primeiro, da luz em seguida. Extraiu-o do nada, cuidando, com a mesma atenção, do imenso infinito e da partícula.
Uma boa parte da humanidade não tem consciência de ter saído de Deus. Muito aflige o acto de confiança, antes do acto de fé. Permaneço, como não crente, alguém que passa pelas escrituras sagradas e não um residente. Desloco-me ao longo das linhas paralelas de um outro alfabeto, fechado entre vinte e duas letras dispostas entre o alef e o tau, que se lêem em direcção contrária à nossa, em páginas que se desfolham ao contrário. Passo sobre esta língua com o dedo e com as pestanas e dou-me conta do choque, do impacto que sofreu. Uma vontade de se revelar e agir dentro do mundo precipitou-se sobre uma língua de palavras descarnadas, hostil a todo o conceito abstracto. Precipita sobre vocábulos de três sílabas com o acento colocado sobre a última, e transmite-lhes a tarantela febril da sua incandescência. Os verbos, pela urgência, comandam a frase, abrindo-a antes do sujeito, antecipando-o, mesmo quando se trata de Deus. Todas as vezes que se lê na tradução: «E Deus disse», esteja-se certo que em hebraico é: «E disse Deus». Porque nesta vontade de revelação o dizer é mais importante e urgente do que o próprio facto de ser Deus a falar.
Toda a criação, e o fazer seguinte, e todo o fazer segundo, que é o dos homens, escrevem-se dando precedência à obra do verbo. «Escuta Israel», recita, lendo o livro entre nós chamado de Deuteronómio e pelos hebreus Devarìm / palavras, a principal oração hebraica. Escutar é a primeira urgência, o primeiro pedido.
Ler as escrituras sagradas é obedecer a uma precedência do escutar. Começo as minhas manhãs com um punhado de versículos, para que o meu dia tenha um fio condutor. Posso depois dispersar-me durante o resto das horas correndo atrás do que tenho para fazer. No entanto mantive para mim um penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca.
Errio de Luca
De uma entrevista ao Público (Ípsilon) por António Morujo:
É verdade que começa o dia lendo versículos da Bíblia “para que o dia tenha um fio condutor”?
Acordo todos os dias estudando o hebraico antigo. Não sou crente. Tenho necessidade disso para despertar, como algo que acompanha o café, para forçar a caixa fechada do meu crânio.
Porquê esse fascínio pelo texto bíblico?
Porque aquele é o formato original do qual descende toda a nossa civilização religiosa. Para mim aquele é um texto obrigatório. E aproveito de maneira escandalosa do facto de só eu o conhecer. E de poder desmascarar todas as traduções péssimas, ruins e mal intencionadas. Aproveito o talento que tenho, mas o texto deveria ser conhecido por todos.
É nesse sentido que fala da Bíblia como um caroço de azeitona?
Sim. As palavras que lia de manhã, quando trabalhava como operário, tinha-as como companhia para todo o resto do dia. Remastigava-as no trabalho das obras e fazia como se fosse um caroço de azeitona que me ficava na boca.
Já traduziu vários livros da Bíblia, escreveu “Em Nome da Mãe”, uma das mais belas narrativas ficcionadas do nascimento de Jesus. Há um livro ou uma personagem da Bíblia de que goste mais?
José. Nenhum dos evangelhos diz que era velho, podemos imaginá-lo jovem, belo e enamorado.
O seu nome vem do verbo hebraico yasaf, que quer dizer acrescentar. Yosef, à letra, é aquele que acrescenta. E o que acrescenta ele? Para já, a sua fé. Ele acredita na versão da sua noiva, grávida mas não dele. Acrescenta a sua fé à fé da rapariga que tinha acolhido aquela notícia.
Acrescenta-se ainda como esposo daquela rapariga, impedindo assim a condenação à morte, porque ela, perante a lei, era adúltera. E acrescenta-se enquanto segundo pai daquela estranha criatura aparecida no meio deles, Jesus, Yeshu em hebraico. Ele contribui e muito para esta história. No evangelho não é tido em conta mas nesses nove meses deu um contributo enorme.
Dê um exemplo das más traduções da Bíblia de que falou.
No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação.
Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: “Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total”.
Está dizendo que a facilidade, a agilidade de parto ou a naturalidade com que os animais têm os filhos não acontecerá mais. E Adão diz logo: “Maldita a terra.” Porquê, se a terra não lhe fez nada? Porque há outra verificação: Adão não se contentará com o fruto espontâneo, mas esforçará a terra, irá afadigá-la também com o seu suor, irá desfrutá-la para tirar o maior lucro. A terra será maldita por causa do esgotamento dos recursos.
Não há, então, um castigo?
Vê-se que não há intenção punitiva, porque logo a seguir a divindade faz vestes de peles para cobrir aqueles dois nus. Este é o gesto mais afectuoso.
A palavra hebraica que aqui é traduzida como dor, aparece outras cinco vezes: quatro nos Provérbios e uma nos Salmos. Cinco vezes em seis é traduzida como esforço e fadiga. Ali, metem na boca da divindade uma condenação. E sobre isto baseou-se toda a subordinação feminina, a culpa de Eva.
Publicou há pouco em Itália um livro com o título “Penúltimas Notícias sobre Jesus”. Que notícias são essas?
São todas tomadas das histórias do Novo Testamento, do evangelho. São penúltimas porque as últimas, as respeitantes ao seu regresso, ao cumprimento da promessa, essas estão em suspenso. O cristianismo vive num intervalo entre o anúncio do fim, feito por Jesus, e o cumprimento deste anúncio. São dois mil anos de intervalo, de tempo suplementar.
E quem é esse Jesus?
É um Jesus em carne e osso, um Jesus ainda vivo, que está um tempo na oficina de carpinteiro do seu pai, até começar a sua missão. Vive num território ocupado militarmente por uma nação hostil, a maior potência militar. E pode dizer “dai a César o que é de César”, porque nada naquela moeda tem poder sobre o mundo. Por isso, é uma figura em carne e osso. Um hebreu daquele tempo.
25 de setembro de 2009
O choro pode durar uma noite; mas a alegria vem pela manhã
Exaltar-te-ei, ó Senhor, porque tu me levantaste, e não permitiste que meus inimigos se alegrassem sobre mim.
Ó Senhor, Deus meu, a ti clamei, e tu me curaste.
Senhor, fizeste subir a minha alma, conservaste-me a vida, dentre os que descem à cova.
Cantai louvores ao Senhor, vós que sois seus santos, e louvai o seu santo nome.
Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite; pela manhã, porém, vem o cântico de júbilo.
Quanto a mim, dizia eu na minha prosperidade: Jamais serei abalado.
Tu, Senhor, pelo teu favor fizeste que a minha montanha permanecesse forte; ocultaste o teu rosto, e fiquei conturbado.
Ouve, Senhor, e tem compaixão de mim!
Ó Senhor, sê o meu suporte!
Tornaste o meu pranto em regozijo, tiraste o meu cilício, e me cingiste de alegria;
para que a minha alma te cante louvores, e não se cale.
Senhor, Deus meu, eu te louvarei para sempre.
cf. Salmo 30
Subscrever:
Mensagens (Atom)
[A propósito da solenidade de Cristo Rei]
“Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...
-
É longo (um sermão), mas partilho a pedido de alguns. A minha reflexão na celebração do Senhor dos Passos, no passado domingo, dia 21 de Ma...
-
“Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...
-
“Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu. É parar de dar volta a...









