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18 de dezembro de 2015

Podia ser Natal...






1. Natal, tempo de voltar a casa!
Tornou-se viral, nos últimos dias, o anúncio publicitário, de origem alemã, no qual se alerta para uma situação cada vez mais frequente da nossa sociedade: o abandono dos mais velhos. Isto ocorre particularmente numa sociedade competitiva em que nos situamos, quando os mais novos se dedicam, sofrega e vertiginosamente, às suas vidas, às suas coisas, aos seus trabalhos, a si e só a si...
Sim, vivemos no tempo da amnésia e do alzheimer! Do esquecimento e da ingratidão! Vivemos no tempo dos filhos que se esquecem dos pais e dos pais que se esquecem dos filhos. Dos irmãos que não se falam, dos vizinhos desconhecidos.
Colectivamente, perdemos a memória. Da casa, do lar, da família, da reunião.
Que bom se redesenhássemos as relações e reatássemos as comunhões! Que bom se o Natal fosse, outra vez, o tempo de voltar a casa!



2. Misericórdia, outro nome do Natal!
Chega o Natal em tempo de misericórdia. O Papa Francisco convocou toda a Igreja para a celebração de um Jubileu Extraordinário da Misericórdia, neste ano pastoral, celebrando-se os 50 anos do encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II.
O Verbo de Deus é o rosto da misericórdia do Pai, que é clemente, paciente e compassivo para com todos os seus filhos. O Deus feito Menino, em Jesus de Nazaré, é o amor em movimento, a misericórdia feita acção, porque Deus toma a iniciativa, dá o primeiro passo para vir ao nosso encontro, viver e ficar connosco, até ao fim.
A misericórdia é, pois, outro nome do Natal. Atingidos por esse rio inesgotável da misericórdia do Pai, sejamos pois capazes de ser misericordiosos como o Pai.


3. Natal de porta aberta!
Sim, chega o Natal. E com ele chegam luzes e sons que soam a falsidade.
A denúncia é desse homem, que veio "do fim do mundo", para abanar e abalar os nossos comodismos eclesiais, eclesiásticos e sociais. Diz Francisco que as festas de Natal tornam-se vazias e soam a falso perante um mundo que escolheu “a guerra e o ódio", que deixam um rasto de ruína por toda a parte.
Não sei se o Papa Francisco é ou não ouvinte dos UHF. Mas, em todo o caso, no "longínquo" ano de 1995, lançaram uma dessas canções intemporais que são autênticas profecias ou orações:

Podia haver uma luz em cada mesa
E uma família em cada casa
Jesus em Dezembro, aqui na Terra
Podia ser Natal e não ser farsa.

A história certa é
Natal de porta aberta
A ceia servida é a vida
Do Criador

Podia ser notícia o fim da amargura
Que divide os homens por trás dos canhões
A fome e a miséria servem a loucura
Que forja profetas e divide as nações.

A história certa é
Natal de porta aberta
A ceia servida é a vida
Do Criador

Podia ser verdade o tom e o discurso
Desse velho actor falando aos fiéis
Mas nada se passa na noite do mundo
Máscaras de dor, pequenos papéis

A história certa é
Natal de porta aberta
A ceia servida é a vida
Do Criador

A história certa é
Natal de porta aberta
Podia ser Natal...


Texto publicado na edição do Correio do Vouga, de 16 de Dezembro de 2015


19 de dezembro de 2012

O que aconteceu ao milagre do Natal?






Por mais cíclica que a História possa ser, ela deveria obedecer a uma regra de progressividade em espiral infinitamente crescente.
No que respeita ao milagre do Natal, o milagre da Encarnação do Filho de Deus, as coisas não se afiguram desse modo. Nisto do Natal, as coisas são tão rectamente progressivas que ficou muito longe, muito afastado o horizonte do princípio e da origem, a fonte e a nascente. E quando assim é, vamos sem saber como e sem saber para onde porque esquecemos o donde...
Perdemos a memória do milagre de Natal. Perdemos o encanto e a beleza e a luz e as estrelas de Belém... Perdemos os olhos brilhantes e luzidios do Menino, perdemos o calor do afago e do abraço de Maria e perdemos a firmeza e a protecção de José. Perdemos o encanto das palavras e da Palavra, do Verbo que se faz Pessoa, que se faz Presente para nós.
Deste modo, perdemos o verdadeiro Natal. E continuaremos a perdê-lo, em cada ano, em cada dia, sempre que não soubermos contar e cantar a toada daquela melodia divina que se faz ouvir daquele rincão de Belém, desde há muitos anos. Porque, como diria Ignacio Buttita: um povo torna-se pobre quando lhe roubam as canções que aprendeu dos seus pais. E em relação à música do Natal, estamos cada vez mais pobres.
Perdemos o sentido do caminho que nos faz sentir o Natal. Percorremos corredores de montras, fazemos corridas e maratonas entre lojas, calculamos preços caros o bastante e baratos o suficiente, desviamo-nos das pessoas nesta correria desenfreada de um consumismo feroz. Esvaiu-se o tempo para parar e sentir, para preparar uma casa e o coração para acolher Aquele que nasce para cada um de nós. E a crise em tempo de Natal parece que não é mais que o próprio Natal em crise!
As luzes, tantas luzes, piscam num inconstante e frágil brilhar, numa artificialidade que a natureza das estrelas desconhece. Esquece-se o Presente numa lista imensa de prendas, perde-se a partilha num egocêntrico sentir, num olhar desfocado que sorri com o rasgar eufórico de papéis de embrulho, em vez de sorrir com o surgir radiante de uma Vida... dada inteira para nós.
Contrasta o consumismo, com o que deveria ser altruísmo: um Deus Prenda e Presente para nós. Contrastam os motivos exteriores dos festejos, com a interior razão da alegria do Natal: o milagre do Dom de Deus por e para mim. Contrasta esta espécie de "Natal" de contrastes...
A essência do verdadeiro Natal jamais mudará ou passará... é como o Amor. Porque o milagre do Natal é mesmo o milagre do Amor.
~
 
Se queres que seja Natal,
volta a olhar e a apreciar,
aquela pequena e brilhante luz
que rasgou a escura e fria noite,
e aqueceu de mansinho o coração humano.
Sê contador do maior milagre do Amor!
Feliz Natal!



Texto publicado na edição de 19 de Dezembro do Correio do Vouga
Pe. JAC

22 de novembro de 2012

Fé e memórias do leigo que falou no Concílio





Não é descabido, nem pela riqueza de pensamento nem pelo testemunho de fé, ler e ouvir o filósofo Jean Guitton. Acresce a isto o facto de este ser, até ao momento, em toda a história da Igreja, o único leigo a quem foi dada a palavra num Concílio. Em pleno Ano da Fé, que assinala os 50 anos da abertura do Vaticano II, no qual usou da palavra, eis mais uma razão para ler. Sugiro uma entrevista concedida à jornalista italiana Francesca Pini, que dá origem ao livro com o título “No coração do infinito”.
Do alto dos seus 96, na altura em que concedeu esta entrevista (Jean Guitton faleceu em março de 1999, com 97 anos) o filósofo francês não se envergonha de falar da sua fé, e de dizer que acreditar é diferente de saber e de compreender; ao invés, acreditar é aderir na noite. Sempre procurando aproximar fé e razão, mas sem deixar de lado o seu catolicismo, chega a dizer: “O fundamento da minha vida de filósofo foi ajudar as pessoas a optarem por um Deus criador em vez do panteísmo”.
Amigo pessoal de Paulo VI, confessa, a certa altura deste livro, que depois de ter ficado viúvo, a mando de um dos confessores, foi a Roma dizer ao seu amigo: “Agora que a minha mulher morreu, gostaria de me fazer padre”. Ao pedido do amigo, Montini respondeu: “Segunda-feira diácono; terça-feira, padre; quarta-feira, bispo; quinta-feira, cardeal; sexta-feira, papa.” E, termina Guitton, comentando o momento à jornalista: “Troçou de mim”!
Com liberdade de espírito, abertura, franqueza, lucidez, sabedoria, mística e fé, eis Guitton à nossa mercê, para ser lido e apreendido, enquanto homem, filósofo, místico e, acima de tudo, cristão até ao fim!

In Correio do Vouga, 22/11/2012


Pe. JAC

11 de maio de 2012

Pastoral da cidade de Aveiro. “I have a dream!”

Martin Luther King tinha um sonho para a América das últimas décadas do século passado. “I have a dream” foi um grito de alerta, motor e propulsor de transformação social.

Vivemos todos de sonhos, de projectos, de ideais. Também ao nível da fé acontece o mesmo. O que é, senão ideal, o mandato de Cristo "Ide por todo o mundo".

Pedem-me a minha opinião pessoal acerca da pastoral da e na cidade de Aveiro. Também acerca disto eu tenho um sonho, que possivelmente se desdobrará em muitos sonhos a perseguir com a ousadia da fé acompanhada do discernimento dos sinais dos tempos.

Ninguém duvida que as mudanças culturais, sociológicas e demográficas que vamos assistindo trazem consigo desafios prementes e urgentes à missão da Igreja, em todos os lugares e com especial enfoque nas cidades. Não podemos entrar no rio (ou na ria!) dos queixumes pessimistas acerca da secularização e da laicização da sociedade em que vivemos. Não podemos cruzar os braços à espera que do céu venha a salvação, substituindo aquilo que temos nós de fazer. Nós não podemos continuar a fazer as mesmas coisas de sempre e esperar que os resultados sejam diferentes. Isso não é mais do que loucura.
A presença da Igreja na cidade precisa de ser reinventada, na fidelidade ao Evangelho e na ousadia de uma evangelização nova e renovada.
Daquilo que me é dado ver, uma vez que por missão tenho que exercer na cidade o meu ministério presbiteral, vou-me apercebendo de alguns obstáculos a uma acção conjunta da Igreja. E não significa isto que a culpa seja de um, mas porque não pode morrer solteira, não nos dispense de um acurado exame de consciência a todos. Sinto, muitas vezes, que os "canais" que já existem ainda não são suficientes para o "diálogo" desejado.

Não bastará, para isso, que a nossa programação pastoral seja executada em comunhão e em unidade. Mas não nos podemos dispensar a esse trabalho. Os cristãos das nossas comunidades também precisam de se abrir por dentro. Precisamos de "corações ao alto", mas também de corações abertos, capazes de ultrapassar bairrismos, tantas vezes doentios, sem anular, contudo, a especificidade e a idiossincrasia de pequenas comunidades de pertença. E esta abertura não poderá passar apenas pelo coração dos pastores... Mas também isso é absolutamente necessário.
A acção da Igreja na cidade não se pode dispensar de realizar pontos de encontro significativos e marcantes para as pessoas. A presença da Igreja na cidade pode não se maciça, como noutros tempos, mas deverá ser interpelante, como luz que brilha e faz sentido. A presença da Igreja nas cidades, e em especial na de Aveiro, pode e deve ser discreta mas sentida, activa e protagonista sem ser a única.
O diálogo com as organizações e as instituições de todos os níveis, a criação de parcerias que busquem estratégias de resposta aos reais problemas das pessoas, a conjugação de esforços e o trabalho em rede, ao nível social, tem que ser um imperativo.
Eu tenho um sonho. Sonho uma Igreja simples e bela. Sonho uma Igreja minha casa e casa dos que quiserem. Sonho até com as palavras de D. Manuel Martins:

A Igreja é a minha casa.
Esta igreja onde eu nasci e onde quero morrer.
Nela me sinto bem.
Nela gosto de estar.
Aqui, eu penso, projecto, sonho, alimento-me.
Aqui, rezo, recordo, choro, zango-me, encontro-me.
Aqui sofro, aqui canto.
A Igreja é a minha casa!
Gostaria, tantas vezes, de a ver mais acolhedora, mais aberta, com mais espaços para pessoas outras (não é ela comunhão e sacramento?), mais gratuita, mais convidativa.
A Igreja é a minha casa!
E tenho pena que feche as portas, condene sem coração, corte com quem procura...
Eu amo muito a Igreja
Porque a Igreja é a minha casa.
Com defeitos?
Com a ruga dos anos?
Às vezes azeda?
Mas é a minha casa!

Então, porque lhe quero muito, vou pintá-la de fresco, vou rasgar-lhe mais portas, vou torná- la mais simpática, mais disponível, mais atenta.
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida, perca o medo e salte para o mundo, grite os valores das pessoas e dos povos.
A Igreja é a minha casa!
Se eu quiser,
se tu quiseres,
se nós todos quisermos,
todos virão a ela e todos nela se sentirão bem.
Porque ela é o rosto de Deus.
Porque Deus habita nela.

Há ideais que vale a pena perseguir! Jesus Cristo é o grande ideal. A Igreja em Aveiro será fiel se O souber apresentar assim.


Pe. José António Carneiro
in Igreja Aveirense

26 de abril de 2012

Quantos católicos somos?






















Está realizado o “retrato religioso” da sociedade portuguesa. A Conferência Episcopal Portuguesa encomendou um estudo à Universidade Católica e os resultados apresentados não deixam de ser inquietantes. Portugal é ainda um país de “marca católica”, mas em pouco mais de dez anos, o número de católicos passou de 86,9% para 79,5%.

Resultado vistoso: Manchetes em muitos jornais nacionais. Notícias nos mais diversificados meios de comunicação social anunciando “Número de católicos em Portugal em queda” e “Igreja Católica perde para todos”.
Das conclusões apresentadas no estudo conclui-se que o Catolicismo em Portugal tem “rosto feminino” e “pronúncia do Norte”, revelando que mais de 56% dos católicos são mulheres e que mais de 43% vivem no Norte de Portugal. Outro dado apresentado, e que de resto acompanha a tendência da sociedade portuguesa, tem a ver com a média de idade dos que se dizem católicos. Mais de 55% dos católicos têm mais de 55 anos.
Muitas coisas se podem argumentar diante destes números que, para a Igreja Católica, deverão ser um sinal dos tempos e como tal, segundo imperativo conciliar, deverão ser lidos e analisados objectivamente.
Não podemos ficar impávidos e serenos diante dos números. Não podemos sacudir a “água do capote” como se não fosse nada connosco. Os números não nos devem assustar, mas podem e devem alertar-nos a todos. Sim, a todos os que nos dizemos e procuramos ser cristãos católicos todos os dias, a toda a hora, e não apenas “das 9h às 5h da tarde”.
Preocupa-me evidentemente que os católicos sejam menos. Mas preocupa-me bem mais que não sejam aquilo que deveriam ser.
Se olharmos para os itens do inquérito mais preocupado fico quando se percebe que muitos dos que se afastam de uma prática religiosa o fazem por causa de mau exemplo de pessoas religiosas que conhecem.
De facto, o alerta que estes números causam não poderá ficar apenas para a hierarquia católica - ainda que convém que faça a sua parte (não me demito da minha!) -, mas é à Igreja Povo de Deus, Povo Sacerdotal, que estes números devem inquietar. Há, evidentemente, muitas coisas que é preciso rever continuamente, novas linguagens a assumir, testemunhos de vidas felizes a apresentar… e, acima de tudo, que a tão badalada “nova evangelização” seja aquilo que enuncia: que seja nova e renove!
Para mim é absolutamente mais urgente que os católicos sejam verdadeiramente cristãos. Ou seja, que Jesus Cristo seja o centro e o sentido, a meta e a finalidade, o horizonte e a felicidade, porque a Salvação. Isso é o mais fundamental! Acredito que se formos bons cristãos seremos bom exemplo e pelo exemplo irradiaremos a beleza de Cristo, à imagem das primeiras comunidades cristãs das quais já esquecemos o “vede como eles se amam”.
Permito-me citar uma amiga que escreveu no seu blogue, fazendo a leitura deste estudo e deixando uma inquietação a partir do relato bíblico do Jovem Rico: “Poderia sumariar a passagem assim: O projeto é "este", amigo! Vens e segues-me? Será bom, se vieres. Ficarei feliz. Construiremos juntos. Mas a liberdade de escolha é tua... e seguiu caminho com quem O quis acompanhar. Todos eram bem-vindos. E todos os dias eram novos. E havia dúvidas, mas as respostas eram intensas. E todos acreditavam, e escutavam, e convertiam-se. Celebravam. E não era rotina. Era festa!”.
(Crónica escrita para o Jornal Expresso do Ave)

18 de janeiro de 2012

Janeiro, mês da Paz e da Unidade - Feliz coincidência ou reforçado apelo?

  

Cada início de ano é uma oportunidade para mergulharmos na essencialidade das coisas, da vida e da fé. No mês que começa com o Dia Mundial da Paz, decore também a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Feliz coincidência ou necessário e reforçado apelo a cada um de nós?
A vivência da fé cristã impele-nos a fazer cada dia a viagem àquilo que vale, que conta, que tem valor. Logo no primeiro mês do ano civil somos desafiados a regressar à pátria da unidade e da paz, através destas duas celebrações. Na prática, trata-se de realizar, de refazer o mergulho na nossa fundação enquanto Igreja.
Não nos podemos dispensar, enquanto Igreja, sonhada por Deus, fundada por Cristo, de reconhecer que a falta de unidade entre os cristãos é um pecado grave, no meu entender, o mais grave que poderemos cometer.
Não me refiro apenas e só aos infelizes cismas, às terríveis separações que historicamente foram acontecendo com o passar dos anos por aqueles que professam a mesma fé em Jesus Cristo. Felizmente, vamos vendo e lendo sinais, réstias de luz e de esperança, de uma desejada e almejada unidade.
Refiro-me, aqui, muito expressamente à divisão que acontece todos os dias dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, da Igreja que somos, através das nossas palavras e atitudes de exclusão, de marginalização, de indiferença, de falta de acolhimento. Não se trata de reconhecer a divisão nos e dos outros. Trata-se efetivamente de reconhecer a divisão que cada um de nós produz. Quantas vezes geramos desunião e não comunhão, rancor e não amor, antipatia e não simpatia!
A fé cristã, fundada em Cristo, que passou na terra fazendo o bem, faz-nos viver e estar neste mundo como peregrinos. Aquilo que a Carta a Diogneto tão bem expressou, nos finais do século II: Os cristãos “habitam pátrias próprias mas como peregrinos; participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira”. Como cristãos, precisamos de reassumir que a única comunidade em que podemos realizar-nos é a humanidade reunida em Cristo, que é Aquele no qual toda a Criação se reúne.
Como escreve Timothy Radcliffe: “Deus é Aquele no qual ninguém fica à margem, porque o centro de Deus está em toda a parte e a sua circunferência em parte nenhuma. É na vastidão de Deus que estaremos completamente à vontade, porque todos lá estarão. É assim que sou/estou em Igreja?”
“Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo” (Cf. 1 Cor 15, 51-58). Este é o tema proposto para a celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano, entre 18 e 25 de Janeiro.
Acreditamos como verdade fundacional da nossa fé em Cristo que Nele somos transformados. Mas, a partir de Cristo, também podemos e devemos transformar-nos diariamente, convertermo-nos gradualmente. Não nos podemos escusar de dar passos de unidade afetiva e efetiva no seio das nossas comunidades, das nossas paróquias, do nosso presbitério, da nossa diocese.
Assim sendo, ainda resulta mais premente a temática pastoral diocesana. Somos mesmo fraternidade de famílias? Somos muitos membros. Será que somos UM Corpo? Com certeza que nos vamos esforçando, mas ainda não o seremos na devida expressão. Não cruzemos, por isso, os braços, pensando que estamos bem como estamos. Ousemos a diferença! Ousemos a coragem! Ousemos ir de novo à pátria da unidade e da paz, baseada na unidade perfeita da Trindade, que não exclui a diversidade nem a alteridade. Ousemos ser um!
Outro belo sonho de Deus para nós! Ser um connosco e em nós e sermos um com todos os outros!

José António Carneiro
Padre. Vigário paroquial da Glória
Publicado no Jornal Correio do Vouga de 18/12/2012

21 de dezembro de 2011

Advento-Natal 2011. Acender a luz da Páscoa na noite de Natal


O frio de Dezembro propicia a reunião da nossa família, no calor dos afectos e na ternura de encontros significativos.
Dezembro! Mês de fundamental importância, para nós, cristãos, porque celebramos o Nascimento do Menino Deus, que vindo na fragilidade da natureza humana se aproxima de nós para nos elevar até à sua altura e estatura. Admirável “comércio” este de um Deus que se rebaixa até ao extremo para elevar a humanidade, para nos elevar a todos.
Dezembro! Mês de tantos sonhos e dos seus cumprimentos: Em primeiro, do sonho de Deus, que se quer aproximar, baixar, curvar, que quer montar a sua tenda no meio de nós, para habitar connosco. Sonho divino de um mundo novo, de paz e de prosperidade. Sonho de uma fraternidade estendida a todas as franjas da sociedade, a todos os rincões da terra, mesmo aos mais recônditos. Depois, mês do cumprimento dos nossos sonhos humanos que precisam, continuamente, que os recentremos em Deus, fazendo Dele o nosso sonho real e o melhor de todos os sonhos. Fazer que os nossos sonhos estejam em sintonia com os sonhos de Deus é tarefa a empreendermos, desde já. Escreve o padre Tolentino de Mendonça: “Queres saber de que cor são os sonhos de Deus? / Volta a olhar o mundo pela primeira vez”. O sonho de Deus é o nosso mundo vivo, tal como a Sua glória é que vivamos!
Em cada ano litúrgico somos plenamente formados e moldados para apreendermos a coragem da espera, até que o Senhor venha. O ano cristão litúrgico é uma espécie de pedagogia da paciência. Escreve Timothy Radcliffe: “O Advento treina-nos na paciência para não começar a celebrar demasiado cedo, resistindo à tentação de celebrar o nascimento de Cristo, antes de Ele vir”. E acrescenta, assertivo: “apesar de as lojas estarem [já] cheias de sinais a dizer «Feliz Natal»”.
De facto, Jesus Cristo é dom, presente, prenda e, por ser isso, espera-se o momento em que é dado e ofertado. Mas, esta esperança não é passividade. Nem etimologicamente falando. Do latim, attendere (esperar), significa esticar-se para a frente. A espera atira-nos sempre para a frente, abrindo-nos, sem forçar nada, ao que virá, tal como uma mãe que está para dar à luz. A este respeito, Erri de Luca escreve, bem acertado, em “O Caroço de Azeitona: “só as mulheres, as mães, sabem o que é o verbo esperar. O género masculino não tem constância nem corpo para hospedar esperas”.
Todavia, tanto o Advento como o Natal atiram-nos mais para a frente, para nos levar ainda mais longe: atira-nos até à Páscoa. A marcha do tempo da liturgia orienta os nossos passos, com Cristo, para Jerusalém, para o Gólgota da nossa salvação, para a gruta da ressurreição, donde brota a luz que traz sentido e finalidade a todos os sonhos, até ao da Encarnação de Deus.
Preparando e celebrando o Natal de Jesus, é imperioso olhar desde já a noite da nossa salvação. Noite de Páscoa, noite da Vida. Claro que precedida pela noite do nascimento, humilde e silencioso, pobre mas feliz, tal como são as coisas de Deus.
A luz do presépio de Belém aponta-nos a luz e o brilho refulgentes do sepulcro vazio, da vitória da vida sobre a morte, pelo Vivente. A luz da Páscoa é, assim mesmo, acesa na noite de Natal!
Este ano não deverá ser diferente!


Meu Menino Jesus!

Tuas mãos tudo partilham
Mesmo a vida que nos trouxeste
e teus olhos, felizes, brilham
pelo “sim” que ao Pai disseste.

Pequenino e despojado
para usar a nossa veste
Tu és o Deus enviado
e nosso irmão Te fizeste.

Jesus Menino em Belém,
em Nazaré, Tu cresceste
homem, em Jerusalém
morte injusta sofreste.

Esperança de um mundo novo
na Tua vinda nos deste
Salvador de todo o povo
sê bem-vindo, porque vieste! 

Pe. JAC 

[Publicado na edição de 21 de Dezembro, no Correio do Vouga]

27 de maio de 2011

Rasgar páginas de manuais desactualizados

São frequentes, em demasia até, as acusações e críticas vindas de tantos lados a uma Igreja Católica que permanece fechada, não cativante, não acolhedora, sem lugar para as pessoas, incapaz de mostrar um rosto alegra, um rosto mais de Domingo de Páscoa do que de Sexta-Feira Santa. (Ainda que ambos se precisem mutuamente).
Há lamentos – uns com sentido, outros nem tanto – muitos até de cristãos que celebram missa dominical (lamentos que dariam volumes de livros da Lamentações), queixando-se que agora os jovens não vão à Igreja, não estão dispostos a ajudar em nada. Acusam-nos de estarem inactivos, desactivados, acomodados, perdidos navegando na internet, encontrando-se e “amigando-se” nas redes sosicias, com os fones do MP3 ou MP4 metidos nos ouvidos, indiferentes ao que acontece à volta.

Eu gosto de me convencer (e estou!) de que as coisas não são tão “quadradas” quanto isso. Claro que também estou convencido de que já não estamos na Cristandade, que o Crsitianismo é Proposta, nunca imposição! Gosto desta ideia, que não é leviana nem desresponsabilizadora.

Creio, com Timothy Radcliffe, que a Igreja Católica nada terá a dizer aos jovens se não estiver empenhada e comprometida em caminhar com eles, e não só fisicamente.
Creio, claro está, que não basta esperar que eles apareçam à sacristia! Mas, creio que se aparecerem merecem ser acolhidos, bem tratados, queridos.

Creio que há um movimento de dentro para fora que precisamos todos de fazer. Em relação a toda a sociedade e especialmente em relação aos jovens.
As propostas de hoje são tentadoras.
A proposta “Jesus Cristo” também tem que ser.
É preciso rasgar horizontes e até rasgar páginas de “manuais” desactualizados.
É preciso sair e ir ao encontro!

26 de outubro de 2009

SARAMAGO E A BÍBLIA



Afirmou José Saramago que a Bíblia é «um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» e reflecte uma imagem de «um deus cruel, invejoso e insuportável». Disse também que, como os católicos não lêem a Bíblia, não se sentirão muito incomodados com este tipo de afirmações.

Não sou especialista em exegese da Bíblia e certamente deveria conhecê-la melhor. Mas o que dela conheço é suficiente para concluir que é Saramago quem não a conhece, ou não a interpretou correctamente, porventura por ter desligado algumas das suas passagens da sua mensagem global.

Não compreendo como é que Saramago não viu na Bíblia a imagem de um Deus que é Amor. Em continuidade com o Antigo Testamento, que constantemente nos revela um Deus «clemente e compassivo», «lento para a ira e rico em misericórdia», o Novo Testamento revela em toda a sua plenitude o amor de Deus. Um Deus que, por amor, se incarna, partilha a condição humana e se identifica com o sofrimento humano até ao extremo do abandono e da morte na cruz, para que fosse restabelecida a Sua comunhão com a humanidade. Um Deus à imagem do bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, ou que deixa todas as outras para salvar aquela que se perdeu. Um Deus à imagem do pai do filho pródigo, que perdoa e acolhe.

Na Bíblia encontramos, como em nenhum outro livro, a exaltação da dignidade da pessoa humana, criada «à imagem e semelhança de Deus». «Quando contemplo o céu, obra dos teus dedos, a Lua e as estrelas que fixastes…O que é o homem, para dele te lembrares…Tu o fizeste pouco menos do que um deus, e o coroaste de glória e esplendor» (Sl. 6).

Quem seja sensível à justiça para com os pobres e oprimidos, em quantas passagens do Antigo e do Novo Testamento não encontrará inspiração e alento?

Onde encontrar mais sólido fundamento de harmonia social do que no amor evangélico, que perdoa «setenta vezes sete vezes» e se estende até aos inimigos, a quem se retribui o «mal com o bem»?

Por tudo isto, também é fácil concluir que não foi a fidelidade à mensagem bíblica que conduziu às guerras e conflitos com pretextos religiosos. A razão dessas guerras e conflitos está antes no orgulho e paixões humanas (também retratadas na figura de Caim), que tendem a instrumentalizar a religião, assim a pervertendo. Na pureza dos seus princípios, livres de instrumentalizações políticas ou ideológicas, as religiões são factor de concórdia e da paz, como o testemunham os encontros de Assis.

E não são só os crentes que reconhecem o tesouro da Bíblia e que ele representa também para o nosso património cultural, fonte de inspiração para filósofos e artistas ao longo de séculos. Por exemplo, o filósofo italiano Massimo Cacciari, não crente, tem defendido um mais aprofundado estudo da Bíblia em todos os graus de ensino laico, incluindo o universitário.

Oxalá desta tão triste e anacrónica polémica se possa colher, ao menos, algo de positivo: um pouco mais de interesse pela Bíblia.

Pedro Vaz Patto

21 de outubro de 2009

Coitado de ti, ó saramago, a falar para os peixes!



Como partilha que tirei daqui

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.


Espanta-me que muitos ainda se alvorocem com um sub-género que nunca reuniu predicados elementares de integridade, que se repete e daí não sai. Espanta-me também que Saramago, em vez de Caim, não escolhesse a figura de Onan, mais conforme a expectativa de quem o lê.


Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar.


Depois, Saramago sofre de monomania religiosa, de doença da santidade invertida. Se literariamente é hoje um zero, também não possuiu qualquer autoridade em "Ciências da Bíblia". É um amador e como todos os amadores possui atevimento proporcional à ignorância. Tenho a absoluta certeza que o homem não sabe uma palavra em latim, nunca leu um tratado de apologética e desconhece coisa tão elementar como a Enciclopédia Católica. Depois, por tudo o que vai dizendo - deixai falar um ignorante, pois nunca devemos impedir um tolo de se enredar nas suas próprias palavras - parece confundir Teologia, Bíblia e História Eclesiástica. Se, em vez de o atacarem, o confrontassem com o seu [des]conhecimento, melhor serviço fariam. Infelizmente, parece haver uma lei de ouro nestas lutas sem interesse e sem consequência.


Saramago vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

Miguel Castelo Branco

Outros textos para ler

Mau costume, Joaquim Franco

26 de setembro de 2009

Habemus Papam!



A alegria resultante do anúncio oficial da visita de Bento XVI a Portugal foi “ensombrada” por um lapso aparente e por falta de comunicação institucional. Bento XVI visita Portugal em Maio de 2010 e, ao contrário do que é habitual, o anúncio foi feito primeiro pela Presidência da República e só depois “confirmado” pela Conferência Episcopal.
Claro que este pequeno imbróglio, sem causar uma qualquer revolução ou guerra civil interna, não caiu bem, particularmente ao Episcopado português. Bom, e a Presidência da República logo se mexeu e “limpou o capote”, dizendo que tinha acertado com a Santa Sé o conteúdo e o momento para o anúncio da visita papal, que os Bispos preferiam apenas depois das eleições de amanhã.
A juntar a isto há ainda o facto de, aparentemente, passar a ideia de que o convite foi feito pelo Chefe de Estado português, relegando para segundo plano o convite repetido que os Bispos fizeram a Bento XVI.
Todavia para o Papa aceitar visitar um qualquer país precisa de dois convites oficiais: um do Estado (Presidente da República) e outro da Igreja (Episcopado). Claro que quer os Bispos quer Cavaco Silva convidaram Bento XVI.
Mas a “deselegância” como lhe chamou Aura Miguel, de Cavaco chega ao ponto de dizer Bento XVI vem a Portugal “em resposta ao convite que lhe foi endereçado pelo Presidente da República”. Não diz verdade toda, revelando falta de elegância com a Igreja de Portugal.
A moral da história é que uma notícia jubilosa e feliz para um país marcadamente católico, que manifesta uma fervorosa admiração pelo Santo Padre, esquece-se por “ninharias” de anúncios e de gabinetes de comunicação ou falta dele.
Claro que eu, como cristão, ficaria mais feliz se o anúncio fosse conjunto ou então até, em primeiro, pela Igreja. Mas não foi. Agora há que “acertar agulhas”. Começará a fase da preparação da visita que se espera refrescante e revitalizante para a Igreja Portuguesa e para uma sociedade cada vez mais secularizada.
Fico extremamente feliz com a vinda de Bento XVI que, com a excelência do seu pensamento, a eficácia das suas palavras, o afecto dos gestos e a ternura do olhar – não duvido – cativará ainda mais Portugal e os portugueses.

14 de agosto de 2009

É de louvar, mas...

Nestes últimos dias contactei com duas iniciativas protagonizadas por jovens que, em meu entender, são de louvar. E porque esta rubrica é de opinião, aproveito.
Falo, em primeiro lugar, do CABing 2009 que juntou mais de três dezenas de jovens, durante dez dias num “paraíso perdido”, junto às margens do Rio Homem, em Amares.
Promovido pelo Centro Académico de Braga este acampamento destina-se a universitários que aceitem o desafio de viver dez dias em desprendimento, contactando com a natureza, procurando crescer no auto-conhecimento, incentivando a inter-relação e, de alguma forma, buscar Deus.
Esta é uma iniciativa de louvar, mas no local contactei também com uma realidade que, a ser verdade, é grave e merece mão pesada das autoridades. Ao que parece as águas do Homem surgem em alguns dias «mais carregadas» e «com mais espuma», suspeitando-se, por isso, de descargas ilegais. É preciso estar atento para evitar a destruição de um pequeno “paraíso perdido” aqui tão perto.
Sublinho também uma iniciativa que decorreu na Casa de Saúde do Bom Jesus (hoje é notícia no DM), na qual um grupo de jovens passou uma semana a conviver com a doença mental.
Foi uma agradável surpresa ver rapazes e raparigas tirarem uma semana das férias e a trocá-la por uma iniciativa de carácter solidário. O contacto com os doentes mentais serviu-lhes, como disseram, «para perceber que são pessoas carinhosas», «não violentas» que apenas querem atenção e alguém para falar.
É de louvar esta iniciativa, mas é pena que seja feita por poucas pessoas. O contacto com a realidade da doença mental serve para acabar com os preconceitos «disparatados» como os definiram os jovens, em relação a estas patologias.
Não posso terminar sem louvar a iniciativa do novo treinador do Braga que quer colocar a fasquia alta (nem que para isso seja necessário recorrer a uma troca de palavras com Jorge Jesus, acusando-o de ter feito pouco com a equipa que tinha na cidade dos Arcebispos).
Todavia, quando se critica alguém há pelo menos um perigo: o de não conseguir fazer nem aquilo que os antecessores fizeram... E aí não se sabe até onde chega a Paciência!

29 de julho de 2009

Pressa inimiga da perfeição

Desde muito cedo que me fui habituando a ouvir que a pressa é inimiga da perfeição. Penso que é mais ou menos aceite este aforismo que incentiva à ponderação e à consciencialização. Pretendo hoje explanar dois exemplos em que esta afirmação cai que nem uma luva.
Primeiro: É um assunto triste, mas deve-se falar dele. Tem a ver com as mortes na estrada.
O tempo estival é, por norma e infelizmente, um período profícuo a acidentes de viação. Destes, igualmente de lamentar, resultam sempre muitas mortes, ou feridos graves e ligeiros, assim como, danos materiais.
Claro que se quisermos ir à raiz da questão temos de perceber que com o regresso de tantos e tantos portugueses que estão a trabalhar no estrangeiro o número de viaturas em circulação aumenta desmesuradamente.
Todavia, todos sabemos também que as principais causas dos acidentes ocorridos em Portugal são outras, como o álcool, as manobras arriscadas, o excesso de velocidade... e podíamos continuar a lista se achássemos que não estava dito o essencial – a pressa é inimiga da perfeição.
Mortes na estrada podem evitar-se com mais civismo, mais atenção, mais cuidado e, acima de tudo, (penso eu!) com mais educação e com mais calma que leva à perfeição.
Segundo: Também é um assunto triste e que deve ser falado. As pretensas inaugurações antes sequer das obras estarem terminadas! Bom e neste aspecto teríamos concretamente em Braga vários casos a apresentar, uma vez que estamos em tempo de campanhas eleitorais.
Olho apenas para a “fachada” do Instituto Ibérico de Nanotecnologia. Saber que toda aquela operação faustosa e enganadora serviu para uns quantos “tipos” de Portugal e Espanha se juntarem para apertar as mãos e para sorrirem para a foto (espero que não seja para o cartaz eleitoral!) só me causa indignação e revolta. E falta saber – como escreveu o Daniel Lourenço há uns dias – quanto custou aquilo?
Também aqui a pressa da inauguração do edifício que servirá para a investigação é inimiga da perfeição. É como se começasse mal logo à nascença.
Por isso, meus amigos, vamos com calma para sermos perfeitos!

2 de julho de 2009

Crónica de um mau atendimento!

No passado sábado estive na Eucaristia das 18h00, na igreja de S. Vicente, em Braga, por ser o sétimo dia de falecimento de um amigo. Apesar do calor, que levou algumas pessoas a abandonarem o espaço celebrativo (pense-se em alguma solução para isto!), a missa decorreu sem problemas.
O pior estava para vir. No momento em que venho a chegar ao adro, deparo-me com um senhor de meia idade que estava a ter – o que me pareceu ser – um acidente cardiovascular.
Bom, não consigo descrever aqui os minutos seguintes dada a intensidade, a emotividade e a agitação que tomou conta daquele lugar. É, de alguma forma, perceptível a atitude de preocupação dos familiares, mas nestas situações não ajuda em nada a pessoa que está a ser vítima do ataque.
É nesta altura que começa um “corridinho” de pessoas a ligar para as emergências. O ridículo é que do outro lado da linha estaria alguém, se calhar até muito simpático(a), a atender e a fazer um inquérito pormenorizado sobre a situação. Mais pergunta, mais resposta e já o senhor estava deitado no chão há mais de três ou quatro minutos.
Cerca de 15 minutos depois do incidente lá chegou uma ambulância com dois bombeiros. Mas, equipa médica do INEM nem vê-la.
Por acaso quando chegaram já o senhor estava mais ou menos estabilizado porque no local e, de alguma forma, superior aos gritos, ao rebuliço e à confusão estava uma estudante de enfermagem. A jovem bracarense – familiar do meu amigo falecido – tentou e lá conseguiu amainar a situação e estabilizar a vítima.
Mas, pergunto-me: E se não tivesse conseguido? E se o senhor não recuperasse? O que iriam fazer os dois bombeiros naquela situação? Onde andava o veículo de emergência médica e reabilitação?
Também não percebo como dos Bombeiros de Braga até à igreja de S. Vicente se demora tanto tempo. Das quatro uma: ou não havia ambulância disponível; ou havia ambulância e não havia pessoal para a guiar; ou as ruas de Braga são tão confusas e “entupidas” que as ambulâncias vêem-se “à nora” para passar; ou – infelizmente às vezes parece que é assim – andamos a brincar com coisas sérias.

23 de junho de 2009

À falta de melhor, Paciência!

Este é o meu segundo “deste lado” que dedico ao tema sempre muito discutível do futebol. Não que tenha grandes revelações a fazer ou opiniões importantes a dar. Apenas quero traçar um breve comentário sobre a actual conjectura futebolística nacional.
Primeiro: Destaco a “guerra” no Vitória de Guimarães para relembrar que nenhum reino dividido contra si mesmo poderá subsistir. Não consigo perceber como no Vitória acontecem tantos episódios destes. É difícil um treinador sair a bem de Guimarães...
Segundo: Afinal Cissokho é bom para o Porto, mas não suficientemente bom para o Milan, ainda que o problema seja a dentição. Mas podia ser outro qualquer, até mesmo o não ter qualidade para jogar num “gigante europeu”.
Terceiro: Agrada-me a postura dos responsáveis do Sporting. Dos “três grandes”, aparenta ser o clube mais sereno, mesmo depois de um processo eleitoral que escolheu um novo presidente. Todavia, preocupa-me a contratação do “10”. Já tantos passaram ao lado no Sporting que nem sei que pensar... Espero para ver.
Quarto: Depois da “novela” Quique Flores/Jorge Jesus surge agora outra: as eleições para a presidência do SLB. Pergunto-me se não deveria ser o contrário: escolher o presidente e depois o escolhido pensar, com a restante direcção, no treinador. A não ser que antecipadamente Vieira seja já e de novo o presidente. No Benfica as coisas funcionam ao contrário...
Último – não por ser menos importante, mas por ser mais recente na ordem do dia – O Braga meteu-se (se calhar sem querer, não sei) na novela do Benfica. Agora, depois de Jesus – como tanto queria – ir “pregar” para a Luz, o Braga lá arranjou treinador. Fiquei animado quando ouvi falar de Nelo Vingada e também de Quique, mesmo sabendo que este seria muito difícil. Bom, assim sendo, é caso para dizer: À falta de melhor, Paciência!
Espero que Domingos consiga cumprir o contrato e os objectivos traçados – tarefa difícil porque António Salvador está a apertar os cordões à bolsa. No entanto, se não conseguir, paciência!



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Pena que o Guimarães tenha despedido o Cajuda. O Manuel voltou a morrer pela boca...

infelizmente

só felizmente se vier o Quique.

Mas pode vir a ser Nolo Vingada...


guerras entre os clubes do Minho!...

10 de junho de 2009

Bravissimo, Figueira!



Cada vez mais surpreendido!
A Isabel Figueira escreve sobre qualquer coisa!
Até sobre política e abstenção.
Para lá dos erros de português, não lhe faltam acertadas considerações políticas.

Parece discurso das "miss": «Se for» "quero acabar com a fome, a miséria e a injustiça"... blá, blá, blá...

Há que poupar o latim.

Ah, e o Braga Maldita, ainda não deve ter dado conta desta nova maravilha do Correio e da sua colunista, especializada em nada (pela forma como começa todos os textos: não sou especialista, mas escrevo....)

28 de maio de 2009

Somos um bando de anjinhos!

Já não é a primeira vez, nem será a última com certeza, que chego à conclusão que somos um bando de anjinhos! Por norma, esta nossa “virtude” revela-se mais vivaça em contactos com estrangeiros. Explico: o que é que fomos (claro que não fomos nós em sentido literal) quando o Tribunal da Relação de Guimarães decide a “entrega imediata” da menina Alexandra à mãe biológica russa? Pois, desta forma, não me ocorre outra expressão melhor que “anjinhos”!
Que me desculpe a senhora Natália Zarubina, que tenho ouvido falar nestes últimos dias e muito, mas as acusações que faz à família Pinheiro, casal que teve ao seu cuidado a menina Alexandra, entre os 17 meses e os seis anos, são graves e nada aconselhadas a uma “mãe”!
É que essa senhora, mãe biológica, nem a virtude da gratidão consegue manifestar a quem lhe criou e educou a filha. Eles, a família Pinheiro foram pais da Alexandra, foram e são ainda porque amaram e amam a menina. O mesmo não sei se se poderá dizer da senhora Zarubina. Aliás, nestes anos em que a Alexandra esteve com a família Pinheiro onde andou Natália?
Só espero que essas acusações graves, repito, que lançou sobre o casal português não façam parte de um qualquer plano maquiavélico!
Esta nova e triste “novela” (depois de outras como Madeline e Esmeralda) vem demonstrar uma vez mais o quão anjinhos somos todos nós! Parecemos mesmo um país de “anjolas”!
É inadmissível que se tenha dado a guarda da criança à mãe biológica e se esteja agora a verificar, poucos dias depois disso, a ausência de condições desta para ter a menina. Não houve aqui um tempo de transição porquê?
E mais: a verificar-se a ausência de condições é muito improvável que a Alexandra não possa de novo estar com a família afectiva portuguesa porque a lei russa inviabiliza a entrega de crianças a estrangeiros, excepto quando não existem candidatos russos à sua adopção.
Moralidade: a justiça portuguesa não soube acautelar um eventual desenvolvimento negativo da relação entre a criança e a mãe porque qualquer contacto entre a menina e o casal português só acontecerá por boa vontade das autoridades russas ou de quem tiver a sua tutela, seja quem for.
Uma vergonha!

6 de maio de 2009

Voluntários precisam-se!



Apraz-me registar com muita alegria e satisfação a realização da V Semana de Fé e Cultura, uma iniciativa que se realiza em benefício da população do Estabelecimento Prisional de Braga. Durante esta semana são várias as actividades programadas que pretendem ajudar a “rasgar horizontes”.
Ressalvo esta iniciativa porque, em tempos de estudante universitário, também estive ligado à sua organização, inserido na Pastoral Prisional de Braga, como seminarista. Também eu tive oportunidade de labutar com outros companheiros para conseguirmos trazer à prisão de Braga, ou fora dela, pessoas que, pelo seu mérito de vida, fossem exemplo e testemunho para os presos.
Lembro as canseiras e as dificuldades sentidas do dia-a-dia, das visitas à cadeia, dos cursos, formações, palestras, encontros e toda uma panóplia de actividades que preparávamos, apenas a pensar no bem que podiam fazer aos reclusos.
No meio disto, havia um excelente grupo – numeroso e bom – de voluntários e voluntárias que se empenhava nesta missão.
A Pastoral Prisional de Braga tinha, nesse tempo, (como hoje, com certeza!) excelentes relações com a direcção, os guardas, com o grupo de professores da Escola EB2, 3 André Soares, com a capelania, o Seminário Conciliar e a Arquidiocese...
Claro que todos estes intervenientes percebiam que a Pastoral Prisional realizava uma trabalho pertinente e até mesmo necessário. Não eram apenas visitas, quer a reclusos, quer a muitas das suas famílias, nem eram só orações e missas: era formação, partilha de conhecimentos e de competências, era educação, era, acima de tudo, preparação para uma reinserção social, a todos os níveis.
Por isso, alegro-me conhecer hoje pessoas (e conheço casos) que encontrei na prisão e que seguiram com as vidas em frente e hoje estão inseridas na sociedade.
Faço votos para que esta semana cumpra todos os seus objectivos.
Mas reforço a ideia: era bom ver de novo um grande grupo de voluntários na prisão de Braga, para bem dos reclusos. Voluntários precisam-se!

17 de abril de 2009

Há tradições e Tradição!

Há tradições, sejam religiosas ou não, que por muito que tentemos não lhe encontramos sentido. Outras há em que se vê e se sente uma finalidade, um objectivo e que, por isso, são Tradição.
Neste tempo, propenso à celebração da Tradição, com devoções de Quaresma, Semana Santa e Páscoa, é habitual assistirmos a uma infinidade de tradições para se celebrar a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo.
Queria hoje, neste espaço de opinião pessoal, ressalvar as seculares festas pascais da Cónega (Rua da Boavista), em Braga. E faço-o como conhecedor interno, como participante, pelo segundo ano consecutivo, no seu compasso pascal.
Para além do carácter festivo, o sentido último das comemorações na Cónega está bem definido, quer pela comissão organizadora, quer pela família que assume o papel de mordoma, quer pelas pessoas (cada vez menos, é verdade!) que moram na rua, quer por todas as que se deslocam até lá, na Segunda-feira de Páscoa, provenientes de diversos pontos da cidade e do distrito.
Percebe-se que o anúncio de Cristo ressuscitado é o que move as pessoas. Sente-se isso na alegria com que as pessoas anunciam ou recebem o anúncio. Há ali verdadeira festa pascal. Há fé na ressurreição de Cristo, da qual, pelo Baptismo, somos herdeiros.
Apesar da desertificação cada vez maior na Cónega, os “filhos” da rua conservam, ininterruptamente, esta tradição pascal. Muitos regressam às origens, às casas onde nasceram, para receber Cristo ressuscitado.
Há ali também um salutar bairrismo. É salutar porque não é cego, é respeitador e não é superior. O bairrismo está em função do anúncio de Cristo e não o contrário, como tantas vezes acontece.
Assim, na minha opinião, há tradições que, para além de pouco terem de Tradição, se lhe deve pôr um ponto final. Há outras, como esta, que merecem ser valorizadas, mantidas, conservadas e enriquecidas.
Parabéns aos moradores da Cónega pelo belíssimo testemunho de fé e pelo saudável bairrismo que caracteriza as gentes daquela centenária rua de Braga.

[A propósito da solenidade de Cristo Rei]

  “Talvez eu não me tenha explicado bem. Ou não entendestes.” Não penseis no futuro. No último dia já estará tudo decidido. Tudo se joga nes...